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29 março 2018

Slow down, so we drown, stop taking me over


O Suede lançou seu primeiro álbum há exatos 25 anos. O debut homônimo tem importância histórica enorme para a música popular britânica, pois representou o cruzamento - e a revitalização - de duas tradições locais: o glam rock (a fase Ziggy Stardust de David Bowie, Roxy Music) e o indie (em particular The Smiths).
No início da década de 90 o cenário musical inglês estava "colonizado" pelos americanos, devido à enorme popularidade do grunge, iniciada com o sucesso de Nevermind (Nirvana) no fim de 1991 e ampliada por bandas como Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden - e dezenas de epígonos. O sucesso dos Stone Roses, na virada dos anos 80 para os 90, poderia ter servido de freio para essa "invasão ianque", mas sua influência inicial se limitou a uma série de bandas dançantes, hedonistas e blasés, em geral designadas sob os rótulos "Madchester" ou "The Scene That Celebrates Itself"; o legado dos Stone Roses para uma renovação mais profunda do pop rock britânico só viria em 1994.
Brett Anderson (vocais e letras) montou uma banda com sua namorada Justine Frischmann (guitarra) e seu amigo de infância Mat Osman (baixo) em 1989. Em seguida o jovem Bernard Butler (guitarra) também entrou no conjunto. O primeiro baterista do Suede foi ninguém menos que Mike Joyce, ex-Smiths; porém, ele preferiu sair para que a banda não ficasse muito atrelada à estética do quarteto de Manchester. Pouco depois Simon Gilbert se tornou o baterista definitivo. Em 91 um plot twist romântico mudaria não só a história da banda, mas do britpop: Justine e Brett terminam o namoro, e ela começa a sair com Damon Albarn, vocalista do Blur. Iniciava-se ali uma rivalidade que, embora menos conhecida do que Blur x Oasis, foi artisticamente mais importante para os destinos do rock alternativo inglês dos anos 90. Em primeiro lugar, porque várias das letras do disco de estréia do Suede (como "She's Not Dead" e "Pantomime Horse") tratam da "dor de cotovelo" de Anderson em relação à sua ex-namorada; em segundo, porque o sucesso da banda, que ofuscará temporariamente o Blur (algo sobre o que falarei em minha futura de resenha de Modern Life is Rubbish), gerou ressentimento em Albarn, o que o estimulará a fazer de tudo para Parklife (1994) ser um álbum capaz de colocar sua banda no topo das paradas (e da preferência da crítica); já o terceiro motivo eu direi ano que vem, na resenha dos vinte anos de 13 (Blur)...
O primeiro single do Suede foi lançado em Maio de 1992: a deliciosa ode à androginia e à luxúria de "The Drowners" (uma das minhas favoritas do Suede, diga-se de passagem), tendo como B-sides as excelentes "My Insatiable One" (que semanas depois ganharia cover ao vivo de um ídolo da banda: Morrissey) e "To The Birds". Embora só tenha alcançado o 49º lugar nas paradas britânicas, a essa altura Brett Anderson já estava estampando capas de revistas. "Metal Mickey", uma das mais canções mais eletrizantes da banda (o "metal" no título não é por acaso), foi lançada quatro meses depois, e entrou no Top 20. O grande hit dessa primeira fase do Suede, contudo, foi o terceiro single: "Animal Nitrate", lançado um mês antes do álbum de estréia. Brett conseguiu a façanha de emplacar em 7º lugar uma canção cuja letra tratava do consumo de uma droga (nitrito de amila) e ainda tinha conotações sexuais das mais estranhas.
A expectativa em torno do debut, como se pode imaginar, era estratosférica, e o Suede conseguiu superá-la. Se os três singles apresentavam a faceta mais roqueira da banda, o álbum era repleto de canções mais lentas e melancólicas. Mesmo a faixa de abertura (e quarto single) "So Young", com suas alusões à heroína, tinha uma melodia que evocava dor e tristeza - no melhor estilo glam, é claro.
"She's Not Dead", como bem definiu Eduardo Palandi, funciona na economia do álbum como um contraponto a "Animal Nitrate" - não só por ser uma balada em vez de um rock, mas também liricamente em questões de gênero - o "outro" amoroso/sexual é "she" em vez de "he". Brett Anderson, tal como Bowie duas décadas antes, adorava cultivar a imagem de uma sexualidade ambígua, com direito à famosa frase: "Eu sou um bissexual que nunca teve uma experiência homossexual". A própria capa do 1º CD evoca essa androginia.
"Moving" é a faixa mais acelerada do álbum, e é também a mais carregada de efeitos de estúdio; pessoalmente prefiro a versão ao vivo dela do bootleg Europe 1992/93
"Pantomime Horse" é a canção épica do disco, e nela fica evidente como a guitarra de Bernard Butler é central para a sonoridade do Suede. Brett carrega os versos finais de emoção: "Well did you ever, did you ever go round with them? / Well did you ever, did you ever go round the bend? / ...ever tired it that way, have you ever tried it that way?"
"Sleeping Pills" é a primeira de duas canções da banda sobre uma dona de casa solitária; a segunda é "Still Life", faixa de encerramento de Dog Man Star (1994). Chegou a ser cogitada por Anderson como single - o que seria justo, já que ela é um dos destaques do debut.
"Breakdown" e "Animal Lover" são boas canções, mas os próprios integrantes consideram que certos B-sides como "The Big Time" (do single de "Animal Nitrate") ou as já citadas "My Insatiable One" e "To The Birds" poderiam ter substituído elas no álbum e deixá-lo ainda mais perfeito.
A última faixa é "The Next Life", que curiosamente era a primeira nos shows da turnê de 1993. Ao contrário das demais, o instrumental principal é o piano, o que de certa maneira antecipa a estética de certas canções do disco seguinte, Dog Man Star. Sua letra é dedicada à falecida mãe de Butler: "See you in your next life when we'll fly away for good / (...) Far away, we'll go far away and flog ice creams til the company's on its knees".
Lançado em 29 de Março de 93, Suede estreou em 1º lugar nas charts britânicas, e durante um bom tempo foi o CD de estréia mais vendido do Reino Unido. Como já apontei no primeiro parágrafo, ele foi o ponto de partida de uma das vertentes do britpop: a de sonoridade glam e letras suburbanas, da qual Manic Street Preachers e, de certa maneira, Pulp também farão parte.

28 março 2018

Dancing days are here again as the summer evenings grow



28 de Março de 1973. A banda de rock mais popular do mundo resolve lançar um álbum em que só metade das 8 faixas podem ser classificadas como "rock" - e, ainda assim, só duas delas são hard rock na linha dos quatro álbuns anteriores. Todas as demais canções experimentam, seja com o reggae, o funk, a psicodelia, o progressivo ou o folk.
45 anos depois, o gesto arriscado do Led Zeppelin em Houses of the Holy se mostrou acertado e frutífero; mas, é possível imaginar o choque dos fãs e da crítica na época. Se a verve acústica de Led Zeppelin III já havia torcido alguns narizes (e levado a vendas menores que a dos dois primeiros discos), o 5º LP do Led foi além. Como bem definiu Douglas Wolk (Rolling Stone): "eles não tinham mais nada a provar e surgiram com um tipo de disco muito diferente do que haviam feito antes. (...) A confiança suprema na própria autoridade musical permitiu que a banda se safasse com novos tipos de excessos".
Houses of the Holy é um salto artístico notável para um conjunto que até então tinha moldado o cânone do hard rock / heavy metal, desde os personagens (vocalista carismático com voz fina, guitar hero, baixista discreto e baterista ogro) até a estética (forte influência do blues, tonalidade épica/medieval, imaginário tolkieniano, letras repletas de conotação sexual etc.). Com mais ênfase no ritmo do que no peso, este álbum ainda conta com uma produção caprichada do guitarrista Jimmy Page, que conseguiu encontrar um ponto de equilíbrio entre o perfeccionismo e a fluidez necessária para as canções serem tocadas ao vivo. O resultado é um álbum que envelheceu muito bem; aliás, Houses of the Holy é um grande exemplo de como certos álbuns dos anos 70 soam mais joviais que a grande maioria dos discos das décadas seguintes (em particular os da década de 80, com sua produção "over", cheia de ecos e sintetizadores, mas também os dos 90). O fato de que Andy Johns, o engenheiro de som do Led Zeppelin, também trabalhou em Marquee Moon (Television), outro LP setentista que ainda soa atual, reforça essa tese.
Enfim, vamos falar sobre as 8 canções. "The Song Remains The Same" é uma abertura tão espetacular que se tornou título do 1º filme / álbum ao vivo da banda, lançado três anos depois. A sua longa introdução trai a sua origem: era para ser uma faixa instrumental. É um dos dois "hard rocks" de Houses of the Holy, mas com uma produção limpa que o distingue da pegada mais "blueseira" de álbuns anteriores. Mantenho o que disse sobre ela há quase 13 anos, em um review para um blog antigo: "pulsante, com incríveis solos de guitarra e uma letra quase que autobiográfica".
"The Rain Song" é uma belíssima canção, tendo sido inspirada (ou melhor, desafiada) por um comentário de George Harrison de que o Led Zeppelin nunca tinha feito uma balada. Dentro da tipologia do álbum é a canção progressiva, com direito a Mellotron.
"Over The Hills And Far Away" é um folk rock que segue a clássica fórmula do Led de começar acústico e ganhar peso a partir do refrão. É uma das faixas mais queridas da banda; Bill Wyman, por exemplo, a considerou a 6ª melhor do Led.
"The Crunge" é de longe a música mais excêntrica deste LP, consistindo em um funk debochado. Surgiu de forma improvisada, e faz alusões a James Brown ("I'm just trying to find the bridge... Has anybody seen the bridge?"). Provavelmente muitos fãs mais puristas não gostam tanto deste álbum por causa dela.
"Dancing Days" abre o lado B do álbum em grande estilo, e é minha preferida do Led Zeppelin graças a seu ritmo swingado e à letra otimista ("I said it's alright / You know it's alright / I guess it's all in my heart (...) Is that the way it should start? / I know it is now"). Ela faz tanta justiça ao seu título que os próprios integrantes, assim que ouviram o playback, ficaram dançando-a na grama de Stargroves, mansão de Mick Jagger na qual parte do disco foi gravado.
"D'yer Mak'er" é um dos primeiros reggaes gravados por uma banda de rock (5 anos antes, por exemplo, do Police), e sua influência jamaicana se revela até no trocadilho do título. É tão despretensiosa que se torna deliciosa de se ouvir; destaque para os gritos e gemidos de Robert Plant, as linhas de baixo de John Paul Jones e as pancadas na bateria de John Bonham. Acabou sendo o single mais bem-sucedido do álbum, chegando a 20º lugar nas paradas americanas.
"No Quarter" é um dos pontos altos de House of the Holy; dentro da estrutura do álbum ela seria a equivalente a "Stairway to Heaven" em Led Zeppelin IV e "Kashmir" em Physical Graffiti. É clichê chamá-la de psicodélica, mas diante de sua atmosfera onírica (desde os vocais artificialmente lesados de Plant até o ritmo macabro criado pelo piano de Jones), é um rótulo inescapável. Sua sofisticação sonora a torna uma das canções mais duradouras da banda.
Encerrando o disco temos o outro hard rock: "The Ocean". O Led parece enfim fazer uma concessão aos fãs da "pauleira" da tetralogia anterior; temos aqui uma canção suja e eletrizante. O final é espetacular, com um incrível solo de guitarra e uma inesperada aceleração no ritmo da bateria.
O Led Zeppelin estava tão inspirado nas gravações de Houses of the Holy que a própria (e ótima) faixa-título acabou ficando de fora, só entrando em um álbum dois anos depois, o LP duplo Physical Graffiti. Page alegou que ela se parecia um pouco com "Dancing Days", e em um álbum no qual o trunfo era justamente a diversidade, talvez tenha sido melhor mesmo guardá-la para o trabalho seguinte.
Diante de tudo que foi dito, não é surpreendente que Houses of the Holy seja meu álbum favorito do Led Zeppelin, e está no meu top 10 de todos os tempos.

21 março 2018

Buy me a soda and try to molest me in the parking lot


Comecei a ouvir Pixies entre o fim de Fevereiro e o início de Março de 2005. A "porta de entrada" foi Nirvana, banda em que eu estava viciado na época. Baixei no Kazaa a mp3 de "Head On", um cover dos Pixies para uma canção do Jesus and Mary Chain e que eu já conhecia por outra interpretação, a da Legião Urbana. Gostei e resolvi procurar mais canções deles. Um site me ajudou muito nesse processo: Dying Days, um dos melhores do Brasil sobre rock alternativo dos anos 80 e 90. As resenhas sobre Pixies eram das mais empolgadas, particularmente a de Surfer Rosa. Não tive outra escolha a não ser baixar outras 20 faixas deles, rs.
Embora tenha gostado bastante de Trompe Le Monde (1991) e Doolittle (1989), logo de cara Surfer Rosa foi o álbum deles que mais me fascinou. Foi sobre ele que escrevi uma resenha meses depois para o Correio Classe (vide post anterior); é a capa dele que estampa minha já velhinha camiseta dos Pixies, comprada em 2010 na Galeria do Rock, em São Paulo; é dele a matadora seqüência de 5 faixas que abriu o inesquecível show da banda ao qual assisti, no Lollapalooza 2014; e, além de tudo, ele é o meu álbum favorito dos últimos 30 anos.

Os Pixies começaram em 1986, e no ano seguinte já estavam em uma torrente criativa impressionante: em Março gravaram 17 faixas em apenas três dias (as lendárias Purple Tapes), sendo que 8 delas entrariam no EP Come on Pilgrim (lançado em Setembro daquele ano) e 4 seriam regravadas para Surfer Rosa. Este LP, aliás, seria gravado e mixado em apenas duas semanas, em Dezembro de 1987. 
A produção de Steve Albini conseguiu deixar Surfer Rosa com o dom da juventude eterna, pois ele soa cru, sujo, direto; é como se fosse um bootleg, mas com uma atenção aos detalhes: os vocais guturais de Black Francis, a ênfase na bateria, a violência das guitarras, a precisão do baixo, a espontaneidade da banda (capturada, por exemplo, nas conversas que antecedem "Vamos" e "I'm Amazed")...
Já quando foi lançado, em 21 de Março de 1988, o disco atraiu a atenção da crítica, em especial dos britânicos; inclusive foi eleito álbum do ano pela Melody Maker e pela Sounds. Não vendeu tanto como seus sucessores (em particular Doolittle), mas ajudou de forma decisiva a criar um público fiel à banda - inclusive entre outras bandas de rock alternativo, como o Nirvana, que muito se inspirou na estética "verso calmo, refrão barulhento" deste disco para as canções de Nevermind e In Utero (este, aliás, produzido justamente por Albini).

Surfer Rosa começa com uma das melhores aberturas de álbum da história do Rock: "Bone Machine". É minha preferida dos Pixies desde a 1ª vez que a ouvi. Acho que não há descrição mais perfeita dela do que a da resenha do Dying Days: 
"A bateria entra. É como um aviso: se você não quer ser atingido por pancadas violentas vindas diretamente do seu som, é melhor apertar stop agora. Entra o baixo, como se fosse um segundo aviso. Joey Santiago entra com sua repetitiva (e genial) guitarra, e Black Francis grita "This is a song for Carol" como se dissesse: bom, já que você não desligou seu som, ouça uma das cinco melhores músicas de todos os tempos."
"Break My Body" mantém o pique com uma letra das mais masoquistas e um refrão dos mais viciantes: "Break my body, hold my bones, hold my bones". Ela, assim como "Broken Face", "Vamos" e "I'm Amazed", estava nas Purple Tapes, e as versões produzidas por Albini em Surfer Rosa são tão superiores às originais que ressaltam como esse produtor foi fundamental para a qualidade do álbum.
"Something Against You" tem um riff delicioso, mas logo assusta (no bom sentido) o ouvinte com as microfonias de Black Francis.
"Broken Face" é uma das mais empolgantes, e sua letra é outra que impressiona pelo humor negro: "There was this man who snapped his poke /  In little pieces / And then they drilled holes / And then they put 'em back in there".
"Gigantic" é a única composta e cantada pela baixista Kim Deal, e contém uma das melodias mais inesquecíveis do disco. Parece uma canção fofinha, mas preste atenção na letra:  "Lovely legs they are / What a big black mask / What a hunk of love / Walk her every day into a shady place / He's dark, but I'd want him"Infelizmente Kim não teve muito espaço para suas composições nos Pixies, mas "Gigantic" lança as sementes dos Breeders, banda que mesmo no disco mais recente, All Nerve, vem se revelando bem superior aos projetos solo de Frank Black (ou mesmo dos dois álbuns dos Pixies gravados depois da saída de Deal, em 2013).
"River Euphrates" é outra canção de forte apelo melódico; o verso "Ride, ride, ride..." gruda na cabeça do ouvinte. No finalzinho há um dos melhores gritos de Francis.
"Where Is My Mind?" é a mais famosa; muita gente conheceu os Pixies graças a ela, que toca na cena final de Clube da Luta (1999). De fato é a mais acessível do álbum (seja pela melodia conduzida pelo violão ou por seu lendário riff de guitarra), mas nem por isso abre mão da esquisitice tão característica da banda: "I was swimmin' in the Caribbean / Animals were hiding behind the rock / Except the little fish / But they told me, he swears / Tryin' to talk to me to me to me".
"Cactus" destoa do resto de Surfer Rosa pelo tom introspectivo, mas nem por isso deixa de ser genial. Mais uma vez temos uma letra macabra: "Bloody your hands on a cactus tree / Wipe it on your dress and send it to me". David Bowie, fã assumido da banda, regravou esta faixa em Heathen (2002).
"Tony's Theme" é uma das mais divertidas do álbum. Ela fez uma breve apariação no 5º episódio ("Freddie") da 4ª temporada de Skins.
"Oh My Golly!" é a única cuja letra foi impressa no encarte do LP, talvez porque cite o título do álbum: "Besando, chichando con Surfer Rosa / (...) Bien perdida la Surfer Rosa".
"Vamos" tem sua parte intermediária marcada por quase três minutos de caos sonoro, regido pela guitarra ensandecida de Joey Santiago. É até hoje um clímax nos shows da banda.
"I'm Amazed" é uma das mais canções mais eletrizantes do álbum, com destaque para o trecho entre 1:07 e 1:22.
"Brick Is Red" é a pérola escondida, e antecipa o som menos agressivo e mais elaborado que os Pixies adotarão a partir de Doolittle. Ela parece ter sido gravada numa sessão à parte (pois sua bateria soa diferente das demais faixas) e quase não foi tocada ao vivo na primeira encarnação da banda (embora, para minha surpresa e alegria, tenha entrado no set do Lolla '14). 

Por fim, cabe notar a icônica capa de Surfer Rosa, que contribui decisivamente para sua aura mítica. A propósito, a dançarina de flamenco seminua era "amiga de uma amiga" da banda.

07 março 2018

From the past until completion they will turn away no more


Em 7 de Março de 1983 o New Order lançou o single "Blue Monday", uma canção de 7 minutos e meio que revolucionaria a história da música pop, ao cruzar de forma ousada elementos do post-punk, da disco e da eletrônica. Foi a 1ª faixa da banda a alcançar o top 10 britânico (e as paradas mundiais), e se tornaria o single de 12 polegadas mais vendido de todos os tempos.
Uma das melhores definições que li sobre "Blue Monday" foi a de que ela seria uma espécie de "Gothic funk", no sentido de combinar a melancolia que já era característica do New Order (e, claro, do Joy Division) com "os enérgicos imperativos da música para pistas de dança movida por sequenciadores" (Uncut, nº 45, Fev/2001).
Desde a primeira vez que a ouvi, em Agosto de 2005, essa música me causou uma forte impressão. Eis três comentários que já fiz sobre ela ao longo desses anos: 

1) O século 21 começou em 1983, com o lançamento do single "Blue Monday", do New Order. (...) Parece que realmente se estabeleceu uma nova ordem mundial, e a lei era dançar freneticamente. Se hoje a música eletrônica é popular como é, se as trances e raves são sucesso, muito, mas muito disso se deve a essa música. Na época, ela causou estranhamento e até repulsa, mas quem a ouvia era contagiado. Aquilo era algo completamente inovador, uma vanguarda musical. 22 anos depois, ela continua sendo surpreendente. (13/12/2005)

2) Com o suicídio de Ian em maio/1980, os três remanescentes [do Joy Division] chamaram a tecladista Gillian Gilbert e fundaram o New Order. Após um curto período em que buscaram uma direção musical, eles lançaram o single "Blue Monday" (83), que praticamente inaugurou o pop sintético, um dos adventos da música eletrônica. O sucesso da música foi gigantesco, e serviu como influência para muitos contemporâneos a eles, como Depeche Mode, Pet Shop Boys e Eurythmics. (15/5/2006)

3) "Blue Monday" (1983) é uma das músicas mais dançantes de todos os tempos, e foi um sucesso imediato nas paradas. Ao misturar influências de Donna Summer, Giorgio Moroder e Kraftwerk com uma letra repleta de ressentimento e um uso criativo dos sintetizadores, ela inspirou toda a música eletrônica posterior, desde o synthpop até o techno. "Blue Monday" ainda soa atual, tal como um clássico futurista. (17/8/2017)

01 março 2018

Hanging on in quiet desperation is the English way

1º de Março é o dia do 45º aniversário de The Dark Side of the Moon, o melhor álbum do Pink Floyd - com menções honrosas para The Piper at the Gates of Dawn (1967) e Wish You Were Here (1975).
Não tenho muito o que acrescentar ao que escrevi no 40º aniversário deste álbum, no máximo uma citação do livro de John Harris sobre Dark Side:

"Há algo particularmente fascinante no fato de que o álbum que permitiu que o Pink Floyd se libertasse tenha sido parcialmente inspirado no destino de [Syd] Barrett. (...) Também não existem muitos exemplos de álbuns definidos por um conceito central que tenham se tornado tão duradouros. (...) O Pink Floyd, para seu reconhecimento eterno, optou por tratar de temas (...) universais, como morte, insanidade, opulência, pobreza, guerra e paz (...) que, por suas características, iriam manter sua longevidade muito depois que o disco foi finalizado - e o elo da banda desfeito." (HARRIS, 2006, pp. 8-17)



Hoje outro disco clássico fez aniversário. "The Dark Side of the Moon", a obra-prima do Pink Floyd, foi lançado em 1º de Março de 1973.
Durante os sete meses que passaram nos Abbey Road Studios, o quarteto produziu um álbum conceitual cujas comparações com "Alice no País das Maravilhas" ou "O Mágico de Oz" não são injustas: o disco é uma viagem psicodélica que agradou até quem não era fã de rock progressivo. Feito sob um clima menos tumultuado que outros discos da banda, aqui temos o auge criativo da parceria dos geniais Roger Waters e David Gilmour - sem, é claro, desmerecer as contribuições de Wright e Mason.
É difícil falar de destaques num álbum que foi feito para ser ouvido inteiro e de fato é perfeito do início ao fim. Porém, cabe dizer que "Breathe" (cujo tema é a alienação), "Time" (um tratado sobre a "quiet desperation" que é a efemeridade da vida), "Money" (repleta de ironias ao materialismo/consumismo) e "Brain Damage" (bela canção sobre a loucura; parece ser um tributo a Syd Barrett) são as minhas favoritas.