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Kaio

 

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21 agosto 2017

Say something, shout it from the rooftops of your head



21 de Agosto de 1997. Cercado de gigantescas expectativas, o Oasis lança seu terceiro álbum, Be Here Now. Após o imenso sucesso de (What's the Story) Morning Glory?, o disco que fez da banda a mais popular não só da Inglaterra, mas do mundo entre 1995 e 96, todos esperavam que os irmãos Gallagher apresentariam ao mundo um álbum que seria o apogeu do britpop, o marco de uma geração.
A própria banda alimentou essa ansiedade hedonista colocando a data de lançamento na própria capa do novo disco. O clipe do primeiro single, "D'You Know What I Mean", com mais de 7 minutos de duração, é uma super-produção marcada por um tom messiânico.


As vendas nos primeiros dias foram espetaculares, em especial na Inglaterra, onde bateu recordes de vendas. As primeiras resenhas foram das mais empolgadas. Porém, algo estranho aconteceu: em questão de semanas todo o colossal hype em torno de Be Here Now se torna um enorme "backlash", uma repulsa violenta. Milhares de cópias do CD são devolvidas às lojas ou deixadas em sebos. A crítica começa a tratar o disco como decepcionante, auto-indulgente e irresponsável. A imprensa muito comenta o enorme uso de cocaína durante as gravações como culpado das canções excessivamente longas e da produção "over", e decreta o fim do britpop. A própria banda, em particular Noel Gallagher, passa a renegar o álbum, a ponto de não colocar nenhuma faixa dele na coletânea Stop the Clocks (2006).

É certo que tamanha expectativa em torno do disco jamais seria atendida, mas daí para a enorme inversão da opinião pública em relação ao Oasis é algo mais complicado de entender. Afinal, Be Here Now está longe de ser um disco ruim. Muito pelo contrário: 20 anos depois, é possível cravá-lo como a obra-prima da banda.


Angus Batey, que escreveu o melhor texto que já li sobre Be Here Now, propõe uma divisão das canções em três categorias: as românticas ("Stand By Me", "The Girl in the Dirty Shirt" e "Don't Go Away"), as que reagem diante dos detratores e recalcados ("My Big Mouth", "I Hope, I Think, I Know" e a faixa-título) e as que contam a história da banda e analisam seu atual lugar no mundo ("D'You Know What I Mean", "Fade In-Out", "All Around The World" e "It's Gettin' Better (Man!!)"). A oblíqua "Magic Pie" seria a única que escaparia de classificações.

Vou tratar das seis melhores dessas canções.
1. "D'You Know What I Mean" é uma abertura triunfal, com mais de dez overdubs de guitarras e uma letra bastante autobiográfica, na qual Noel fala da sua história de redenção: do garoto cujo pai era violento (e desprezava suas ambições musicais) para o letrista e guitarrista da maior banda do mundo. Há também referências aos Beatles e a Bob Dylan: "The blood on the tracks must be mine / Fool on the hill and I feel fine". Batey tem razão quando afirma que esta canção tem uma atmosfera psicodélica que lembra os Stone Roses, em especial "Breaking into Heaven".
2. "Stand By Me", segundo single do disco, é uma faixa encantadora, com um riff envolvente, um refrão grudento e uma letra intimista porém universal: "Stand by me, nobody knows the way it's gonna be" É como uma continuação turbinada de "Live Forever".
3. "The Girl in the Dirty Shirt" é a jóia escondida de Be Here Now. Tem uma melodia deliciosa e uma "bridge" (estrofe que antecede o refrão) com ótimos vocais de Liam e Noel: "You got a feeling lost inside / It just won't let you go".
4. "Don't Go Away" é a típica balada do Oasis, mas tem um elemento biográfico tocante: é inspirada na mãe dos Gallagher, que estava no hospital. Ninguém menos que o crítico de arte Roger Scruton reparou no protesto contra a impossibilidade do protesto dos versos "Damn my education, I can't find the words to say / About the things caught in my mind".
5. "All Around the World", terceiro e último single, é a apoteose do álbum; diria que é a "Hey Jude" do Oasis. Ela foi escrita nos primórdios da banda, mas segundo o documentário Supersonic (2016) só foi gravada no 3º álbum porque Noel achava que ela precisava ser lançada quando a banda já estivesse em seu auge, portanto pudesse gravar um canção tão ambiciosa. Em seus nove minutos de duração é evocado várias vezes um refrão com pretensões ecumênicas: "All around the world, you've got to spread the world / Tell them what you heard / We're gonna make a better day".
6. "It's Gettin' Better (Man!!!)" é outra faixa menos famosa, mas nem por isso menos genial. Dada a reputação de arrogância da banda, versos como estes são desconcertantes: "Maybe the songs that we sing are wrong / Maybe the dreams that we dream are gone". Há várias alusões aos Beatles, desde o título até um verso que ecoa "The Word". Além disso, ela captura o zeitgeist da Cool Brittania, cujo otimismo foi coroado com a vitória de Tony Blair (um carismático trabalhista com discurso moderado, propondo uma "terceira via" entre o velho trabalhismo estatista e o liberalismo à la Thatcher) nas eleições britânicas de Maio de 97 - e para cuja comemoração Noel foi convidado.

A propósito, esse mesmo otimismo nacional foi abalado nove dias depois do lançamento de Be Here Now, com a morte da Princesa Diana. De repente tudo aquilo que remetia ao britpop parecia deslocado, e o Oasis logo já era visto como algo superado. Começava uma era menos gloriosa para o rock britânico (e mundial), em que discos tão megalomaníacos já não seriam tão tolerados; esse fenômeno foi bem capturado por Carlos Eduardo Lima.

Be Here Now continua com uma reputação de disco renegado; o próprio documentário Supersonic pára em 1996, e portanto só conta a história da banda até antes das gravações deste 3º álbum. Ano passado foi lançada uma edição especial remasterizada de BHN, e a maior parte da crítica continuou a esculachá-lo; ainda se repetem os clichês da produção exagerada, da duração das faixas e do excesso de drogas durante as gravações, e poucos se arriscam a uma análise cuidadosa das letras e melodias; essa má vontade se verifica, p.ex., em Laura Snapes. Mesmo assim, continuo achando que Be Here Now é muito injustiçado, e que uma audição sem preconceitos o revela no mesmo patamar - diria até superior ao - de Definitely Maybe e (What's the Story) Morning Glory?. É justamente sua pretensão épica e sua "hybris" - querer ser um longo disco de rock clássico dos anos 70 em plena década de 90 - que o fazem tão brilhante.

17 agosto 2017

Up, down, turn around, please don't let me hit the ground



Há exatos 30 anos foi lançada uma das coletâneas mais icônicas de todos os tempos: Substance, do New Order.

Após a trágica morte de Ian Curtis em 1980, os três outros integrantes do Joy Division - Bernard Sumner (guitarra), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) - decidiram continuar a banda, mas sob um novo nome, sugerido pelo empresário Rob Gretton: New Order. Gillian Gilbert, namorada e futura esposa de Stephen, assumiu a segunda guitarra (mas, com o tempo, ambos também usarão teclados) e, após um período de testes (inclusive durante o 1º álbum, Movement), Bernard tornou-se o novo vocalista.

A banda foi construindo sua identidade sonora a cada single - e, tal como os Beatles, os Smiths ou o próprio Joy Division, muitos desses singles não foram lançados nos LPs. Como vários deles estão entre as obras-primas do New Order, vários DJs pediam à banda que compilasse essas canções num álbum só, para facilitar as discotecagens. Foram atendidos em 17 de Agosto de 1987.

O primeiro single, "Ceremony" (1981), é uma das últimas (e melhores) letras deixadas por Ian Curtis. Essa belíssima canção ainda tem certas características do Joy Division (como o baixo melódico e a bateria em estilo militar), mas a sonoridade mais limpa já indica os rumos que o New Order tomaria.
"Everything's Gone Green" (81) é literalmente uma faixa de transição, pois foi a última a ser produzida por Martin Hannett (produtor dos tempos de Joy Division), e a primeira a usar intensivamente os sintetizadores; destaque para o ritmo dançante da bateria.
"Temptation" (1982) é talvez a canção mais característica do New Order, com melodia ensolarada e uma letra levemente melancólica, ainda que certamente mais otimista do que as feitas por Ian. Bernard finalmente perde a timidez para cantar. A versão compilada em Substance é uma regravação de 87, bem superior à original.
"Blue Monday" (1983) é uma das músicas mais dançantes de todos os tempos, e foi um sucesso imediato nas paradas. Ao misturar influências de Donna Summer, Giorgio Moroder e Kraftwerk com uma letra repleta de ressentimento e um uso criativo dos sintetizadores, ela inspirou toda a música eletrônica posterior, desde o synthpop até o techno. "Blue Monday" ainda soa atual, tal como um clássico futurista.
"Confusion" (83) é a primeira parceria com o DJ nova-iorquino Arthur Baker. Mais uma que foi regravada especificamente para Substance, e também ficou melhor do que a primeira versão.
"Thieves Like Us" (1984) tem uma longa introdução instrumental, e é uma das canções mais românticas do New Order.
"The Perfect Kiss" (1985) atinge vários momentos sublimes ao longo de seus mais de oito minutos de duração. A irreverente letra beira o nonsense, e a parte com barulhos de sapo é sensacional.
"Sub-culture" (85) é uma versão remixada de uma canção do álbum Low-life. São tantos efeitos que por vezes parece que o CD está pulando. A letra versa sobre solidão e frustração sexual.
"Shellshock" (1986) entrou na trilha sonora de A Garota de Rosa-Shocking (Pretty in Pink), e novamente temos dois minutos de introdução, além de um refrão empolgante.
"State of the Nation" (86) tem uma vibe oriental, e seus versos têm mais conteúdo social do que a média das canções do New Order.
"Bizarre Love Triangle" (86) é a canção que introduziu muita gente (inclusive eu) ao NO, seja pela sua presença constante em festas Anos 80 ou pelo cover acústico do Frente. Tanto sua letra quanto sua melodia são inesquecíveis.
"True Faith" (1987) foi o carro-chefe de Substance (conseguindo as melhores colocações até então do New Order nas paradas inglesas e americanas) e antecipa a sonoridade que o conjunto adotará nos próximos anos. Seu divertido clipe contribuiu para a crescente popularidade da banda.

Se com essas 12 faixas já são preenchidos 2 LPs, a versão em CD tem um segundo disco só com B-sides e remixes. As melhores músicas desse CD 2 são In a Lonely Place (outra letra - bem soturna, diga-se de passagem - deixada por Ian), Procession (com seus teclados onipresentes), The Beach (uma versão alternativa de "Blue Monday") e 1963 (melodia irresistível, letra perturbadora).

Substance, portanto, é um dos raros casos de coletânea que contém tanto material inédito que se torna tão (ou mais) importante que os demais discos. Mais do que isso: é um dos álbuns fundamentais da década de 80, oferecendo ao ouvinte um inovador e instigante cruzamento entre post-punk e pop eletrônico.