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Kaio

 

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27 novembro 2017

See how they fly like Lucy in the sky

Há exatos 50 anos, em 27 de Novembro de 1967, a Capitol, gravadora responsável pelos Beatles nos Estados Unidos, lançou o LP Magical Mystery Tour. As seis primeiras faixas iriam compor o homônimo EP duplo, lançado duas semanas depois no Reino Unido, que por sua vez era trilha sonora do filme, exibido pela primeira vez na TV britânica no Natal daquele ano.
Como o formato EP não era popular nos EUA, a Capitol preferiu adicionar cinco faixas lançadas ao longo daquele ano (quatro singles e um B-side) e criar um álbum. O material era tão coeso - afinal, cobria a fase psicodélica dos Beatles - e consistente que o disco americano foi bastante importado pelos ingleses e, vinte anos depois, quando a discografia da banda foi lançada em CD, Magical Mystery Tour se tornou um álbum canônico.
Duas das canções que entraram no disco foram "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane". Gravadas durante as sessões de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band e lançadas como single de duplo Lado A em Fevereiro, como aperitivo para o futuro álbum, ambas estão entre as obras-primas da banda.
"Penny Lane" é mais prosaica, e descreve várias situações e personagens (algumas no mínimo inusitadas) observadas nas ruas de Liverpool; seu arranjo é belíssimo, um dos casos paradigmáticos do chamado "baroque pop".
"Strawberry Fields Forever" é mais consternada, em uma auto-reflexão marcada por dúvida e melancolia: "Living is easy with eyes closed / Misunderstanding all you see / It's getting hard to be someone but it all works out / It doesn't matter much to me (...) Always, no, sometimes, think it's me / But you know I know when it's a dream / I think, er, no, I mean, er, yes, but it's all wrong". Uma das melhores letras de Lennon, e um dos melhores trabalhos de George Martin como produtor (ao combinar dois takes bem diferentes).
Apresentada na 1ª transmissão mundial ao vivo de televisão por satélite, "All You Need Is Love" foi lançada como compacto um mês após Sgt. Pepper's. É uma das primeiras letras de John com cunho mais político/humanitário, algo que se aprofundaria nos anos seguintes, principalmente em sua carreira solo. Sua letra, de mensagem universal, é rodeada por uma melodia poderosa, com alusões à Marselhesa e "She Loves You". Por essas e outras razões, é uma das canções mais icônicas dos Beatles.
Inicialmente concebida para o filme Yellow Submarine, a debochada "Baby, You're a Rich Man" acabou também se tornando o lado B de "All You Need Is Love". É uma combinação de canções incompletas de John (estrofes) e Paul (refrão), em um caso semelhante ao de "A Day In The Life".
A faixa-título do álbum (e do filme) tem um refrão contagiante e uma letra com conotações lisérgicas, segundo o próprio Paul McCartney.
"The Fool On The Hill" é uma bela canção de Paul sobre um personagem sábio que é incompreendido e tomado por louco: "But nobody wants to know him / They can see that he's just a fool (...) He never listens to them / He knows that they're the fools / They don't like him".
"Flying" é uma faixa instrumental recheada de efeitos psicodélicos, e conta com uma rara assinatura coletiva dos Beatles.
A contribuição de George é "Blue Jay Way". A letra foi escrita durante uma viagem de Harrison para Los Angeles; um dia, enquanto esperava seus amigos, ficou observando a neblina nas colinas de Hollywood e teve uma inspiração. A melodia é desconcertante, como se fosse uma "bad trip" em meio à sonoridade ensolarada da maior parte do álbum.
"Your Mother Should Know" é uma típica balada de Paul, marcada por um tom nostálgico. É a trilha de uma das cenas mais simpáticas do filme.

Três dias antes do lançamento do álbum, foi lançado o single "Hello, Goodbye". Sua simplicidade lírica a tornou presença constante em exercícios do tipo "complete as palavras" em escolinhas de inglês. A dualidade entre otimismo e pessimismo é reforçada pela distribuição dos vocais entre Paul e John. Foi um dos maiores sucessos comerciais dos Beatles; na Inglaterra, por exemplo, ficou sete semanas no topo das paradas.
O lado B deste single (além de 6ª faixa do LP) é "I Am The Walrus". É simplesmente uma das canções mais geniais de John Lennon, com uma letra deliberadamente sem sentido, aleatória e repleta de intertextualidade (a começar pelo título, inspirado no poema "A Morsa e o Carpinteiro", presente em "Alice Através do Espelho", de Lewis Carroll). Os dois primeiros versos parecem ter sido concebidos em uma viagem de ácido: "I am he / As you are he / As you are me /And we are all together". Seguem-se alusões a freiras pornográficas, sufocantes fumantes, Lucy (sim, aquela do céu com diamantes), creme amarelado pingando no olho de um cão morto, pingüins ordinários cantando Hare Krishna... As melhores referências ficaram para o verso final - "Man, you should have seen them kicking Edgar Allan Poe" - e os trechos de Rei Lear emitidos nos últimos segundos. Se a letra é irreverente (com uma pontinha de melancolia - "I'm crying"), a melodia cria uma atmosfera perturbadora, com destaque para a bateria, os teclados e, é claro, a orquestra regida por George Martin. Até o clipe é sensacional, talvez constituindo o clímax do filme. "I Am The Walrus" é uma das canções do quarteto de Liverpool que são mais elogiadas pela crítica especializada - por exemplo, foi considerada a 3ª melhor composição da banda pela revista Uncut e a 2ª melhor pela JamsBio. A propósito, desde a primeira vez que a ouvi, em Abril de 2004, ela é minha faixa favorita dos Beatles.

Contendo pelo menos quatro das melhores músicas do Fab Four, Magical Mystery Tour certamente consta entre os álbuns essenciais da banda.

23 novembro 2017

Diversão e arte para qualquer parte



No dia 23 de Novembro de 1987, os Titãs lançaram seu 4º álbum, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas. Só pelo título e pela capa já é possível perceber o espírito iconoclasta e a reflexão sociopolítica que permeiam este trabalho titânico.

Liminha, um dos produtores de Cabeça Dinossauro, ganha a confiança da banda e contribui significativamente na concepção de Jesus, incentivando os Titãs a usar samplers (máquina de ritmo). Como resultado, a primeira metade do disco tem uma sonoridade que flerta com a eletrônica.
A dobradinha "Todo Mundo Quer Amor" e "Comida" é cantada por Arnaldo Antunes. Ambas têm caráter de manifesto, especialmente a segunda, que combina seus versos contundentes (não por acaso, é presença constante em protestos populares e livros escolares) com vocais de rap e bateria de precisão milimétrica: "A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte (...) A gente não quer só dinheiro / A gente quer inteiro e não pela metade".
"O Inimigo" e "Infelizmente" são músicas conceituais, com sonoridade minimalista e versos crípticos. Funcionam bem na economia do álbum, mas não se destacam por si mesmas.
A lasciva "Corações e Mentes" possui uma estrofe que parafraseia o clássico "Damaged Goods" (Gang of Four) e um ritmo bem dançante, graças à ênfase tipicamente post-punk no baixo e na bateria.
"Diversão" é forte candidata a obra-prima dos Titãs. Seus versos, escritos por Sérgio Britto e cantados por Paulo Miklos, apresentam uma conotação hedonista e por vezes sombria: "A vida até parece uma festa / Em certas horas isso é o que nos resta (...) Às vezes qualquer um faz qualquer coisa / Por sexo, drogas e diversão / Tudo isso às vezes só aumenta / A angústia e a insatisfação". Esta faixa foi regravada com arranjos diferentes no Acústico MTV (com metais e um ritmo mais alegre) e nos discos ao vivo (mais curta - sem a repetição da letra após o 1º refrão - e roqueira), mas a versão original continua sendo a melhor.
Por sua vez, o Lado B do álbum dá continuidade ao punk politizado de Cabeça; as letras, contudo, se tornam menos tópicas e mais elaboradas.
A faixa-título, cujo único verso é repetido de forma cada vez mais raivosa, tem tons apocalípticos; destaque para a linha de baixo de Nando Reis.
"Mentiras", apesar do animado riff de guitarra, tem uma aura claustrofóbica: "Querem me salvar, querem me curar do que eu não sofro (...) Eu não posso viver comigo, eu não posso fugir de mim".
"Desordem" é um tocante retrato dos sombrios anos 80 no Brasil, mas infelizmente continua muito atual: "Não sei se existe mais justiça / Nem quando é pelas próprias mãos (...) São sempre os mesmos governantes / Os mesmos que lucraram antes".
"Lugar Nenhum" evoca um espírito anarquista em sua recusa a adotar qualquer identidade regional ou nacional. Com uma bateria furiosa à la "Rock and Roll" (Led Zeppelin), é uma das mais empolgantes do disco.
"Armas Pra Lutar" mantém a pegada da faixa anterior, e seu riff lembra "Your Phone's Off The Hook But You're Not", da banda punk californiana X.
"Nome Aos Bois" cita o nome de 34 personalidades ligadas a ditaduras, genocídios, guerras, assassinatos ou simplesmente a polêmicas e controvérsias.
"Violência" ficou de fora do LP (talvez porque Charles Gavin estava insatisfeito com a entrada da bateria, que ele pretendia que fosse mais elaborada), mas felizmente foi incluída como faixa final do CD. É uma das letras mais pesadas dos Titãs, especialmente na estrofe final, uma citação de Dissertação do Papa sobre o crime seguido de orgia, do Marquês de Sade (que voltaria a ser tema de uma canção da banda seis anos depois, em Titanomaquia).
No conjunto da obra titânica, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas pode ser visto como transição estilística entre Cabeça Dinossauro e Õ Blésq Blom (que investirá ainda mais nas letras metalingüísticas e nos experimentos com eletrônica). Para o rock nacional, é um dos álbuns mais interessantes lançados em 87, ao lado de A Revolta dos Dândis (Engenheiros do Hawaii), Violeta de Outono (Violeta de Outono) e Vida Bandida (Lobão).