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Kaio

 

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10 maio 2023

He's a pedestrian walker, he's a civil talker, he's an affable man with a plausible plan

Modern Life Is Rubbish, segundo álbum do Blur, foi lançado há exatos 30 anos, em 10 de Maio de 1993. Após dois anos bastante tumultuados (retratados no documentário Starshaped), a banda decidiu dar uma guinada estilística, compondo letras repletas de críticas sociais e melodias inspiradas em bandas de pop rock britânicas dos anos 60 e 70, como The Kinks e The Jam. Essa mudança estética já havia sido antecipada na combinação de ritmo punk e naipe de sopros em "Popscene", single lançado em Março de 1992.

Modern Life foi uma espécie de manifesto artístico, pois contém todos os elementos do que viria a ser chamado de Britpop, movimento de renascimento das tradições musicais do Reino Unido em reação ao rock alternativo americano, em particular o grunge. O Blur convidou Andy Partridge (vocalista e guitarrista do XTC) para produzir o álbum, mas após algumas divergências acabaram trabalhando com Stephen Street (que foi outra figura chave da música britânica, já que era o engenheiro de som e eventualmente produtor dos Smiths). 

O álbum não vendeu bem nos primeiros meses, não só porque o grunge estava no auge da popularidade mundial mas também porque outra banda britânica roubou os holofotes do Blur: o Suede, que já vinha de uma sequência de 3 ótimos singles e alcançou o 1º lugar das paradas com seu debut homônimo. Esse sucesso de certa maneira representava uma vingança de Brett Anderson sobre Damon Albarn, vocalista e letrista do Blur, que estava namorando a sua ex, Justine Frischmann. 

Intrigas amorosas à parte, a crítica elogiou bastante Modern Life, e a turnê de 1993 deu à banda um impulso que seria consolidado com o próximo disco, Parklife.


Escrita durante o Natal de 1992 para ser o primeiro single do álbum (após o dono da gravadora reclamar que o disco não tinha nenhum hit em potencial), "For Tomorrow" é a faixa mais representativa da filosofia de Modern Life. Albarn revela o seu lado "sátiro social", à la Ray Davies (The Kinks), analisando as ansiedades diárias dos londrinos. A seção de cordas adiciona uma dimensão épica a esta música. O refrão “la la la” é extremamente pegajoso (no bom sentido), e a estrofe cantada como um “rap” no final explica o título do disco: “Jim stops and gets out the car (...) Then he puts the TV on / Turns it off and makes some tea / Says 'Modern life, well, it's rubbish'".

"Advert", do ponto de vista sonoro, remete às origens punk da banda; do ponto de vista lírico, é a primeira crítica social abertamente sarcástica do álbum (já que "For Tomorrow" tem um ponto de vista mais melancólico): "Advertisements are here for persuasion / If you stare too long you'll lose your appetite / A nervous disposition doesn't agree with this / You need fast relief from aches and stomach pains".

O tom sardônico persiste em "Colin Zeal", o primeiro dos personagens criados por Damon Albarn para satirizar os tipos sociais britânicos: "Looks at his watch he's on time yet again / He's pleased with himself (...) He's an immaculuate dresser, he's the common aggressor / He's a modern retard with a love of bombast". Ela talvez seja uma das faixas de Modern Life Is Rubbish que melhor evoca o que Mark Beaumont em uma crítica para a NME chamou de "olhar aguçado para o tédio da Grã-Bretanha pós-Thatcher".

"Pressure on Julian" é a primeira das faixas marcadas por um som psicodélico, principalmente na guitarra de Graham Coxon; esse estilo também ocorre na agressiva "Oily Water" e na letárgica "Miss America".

"Star Shaped", homônima do já mencionado documentário de 1993, é uma das joias pop da Modern Life. O solo de oboé é muito bonito.

A próxima canção, "Blue Jeans", é uma das melhores baladas compostas por Albarn. O refrão evoca um sentimento de conforto romântico: "She doesn't mind, whatever I say / I don't really want to change a thing / I want to stay this way forever".


"Chemical World", a última faixa a ser escrita para o disco e também seu segundo single, contém uma melodia irresistível; aqui a crítica social volta a ganhar contornos melancólicos: "She didn't leave enough money for pay the rent / The landlord says that she's out in a week / What a shame she was just getting comfy / Now she's eating chocolate to induce sleep".


"Intermission" é um divertido interlúdio instrumental, que vai ficando cada vez mais rápido (o final beira o hardcore), e é seguido pelo terceiro single, "Sunday Sunday", que tem uma das melhores melodias do álbum e versos bem irreverentes: "Sunday, Sunday here again a walk in the park / You meet an old soldier and talk of the past / He fought for us in two world wars and says / The England he knew is no more".

Após a impecável sequência das primeiras nove faixas, a segunda metade do álbum é um pouco menos empolgante (embora "Villa Rosie" seja uma canção cativante). Isso é mitigado na edição americana de Modern Life, que contém três faixas bônus, duas das quais são excelentes: o single "Popscene" (que não entrou na edição britânica porque a banda estava chateada com seu fracasso nas paradas) e a hilária "When The Cows Come Home", lado B de "For Tomorrow".

Modern Life Is Rubbish criou o modelo não apenas para os próximos dois álbuns do Blur (Parklife e The Great Escape), mas também para a cena musical (Britpop) que dominará o Reino Unido no ano seguinte. Embora seja um pouco irregular, sua primeira metade é repleta de grandes canções que continuaram no setlist do Blur pelas décadas seguintes, dentre elas "For Tomorrow", "Advert", "Chemical World" e "Sunday Sunday".

02 maio 2023

These words lie inside they hurt me so

 O New Order lançou Power, Corruption & Lies, seu segundo álbum de estúdio, em 2 de Maio de 1983. 

Antes de falar desse disco, é importante falar um pouco sobre "Blue Monday", single lançado pela banda dois meses antes (e gravado nas mesmas sessões do álbum), afinal, embora essa canção não tenha sido incluída no PC&L (exceto na edição americana, que teve esse single e o lado B "The Beach" como faixas bônus), é um peça para entender por que este é o álbum no qual o New Order alcançou seu som característico.

"Blue Monday" foi fundamental na popularização da música eletrônica e influenciou vários subgêneros. Na época, causou estranheza e até repugnância a algumas pessoas (particularmente aos fãs mais puristas do Joy Division), mas esta “weird disco” foi reconhecida por muitos ouvintes como algo inovador e, claro, extremamente dançante. Não por acaso, 40 anos depois continua sendo a composição mais popular do New Order.



"5 8 6", a quarta canção de Power, Corruption & Lies, pode ser vista como a versão embrionária de "Blue Monday". Ela consiste em um longo experimento com sequenciadores que, após cerca de dois minutos, apresenta melodia e ritmo definidos.

Embora "Ecstasy" (uma excelente faixa instrumental) e "Ultraviolence" também indiquem um synthpop kraftwerkiano, o resto do disco é bastante melódico - e nesse sentido o antecedente musical não é "Blue Monday" e sim "Temptation", single lançado em 1982 que pode ser considerado o protótipo de todas as canções cativantes que o New Order comporia a partir de então.



O melhor exemplo do aspecto mais "orgânico" e menos "eletrônico" do estilo do New Order em seus álbuns de estúdio (ou seja, o oposto do que faziam nos singles) é "Age of Consent", música marcada pelo baixo de Peter Hook, a bateria acelerada de Stephen Morris (a qual, como ele revelou recentemente, foi reciclada das sessões de "Love Will Tear Us Apart", três anos antes), o belo solo de teclado de Gillian Gilbert e o inesquecível refrão cantado por Bernard Sumner: "And I'm not the kind that likes to tell you / Just what I want to do / I'm not the kind that needs to tell you / Just what you want me to”.

Dois outros destaques de Power, Corruption & Lies são "Your Silent Face" e "Leave Me Alone". Enquanto a primeira é uma música lenta com longas e delicadas passagens instrumentais e um solo de melódica, a segunda contém outra ótima linha de baixo de Hook e versos cheios de questionamentos existenciais: "On a thousand islands in the sea / I see a thousand people just like me (...) We live always underground / It's going to be so quiet in here tonight".

Por fim, vale mencionar que a justaposição de duas faixas no Lado A indica os dois humores distintos que permeiam a maioria das canções do New Order: “We All Stand” revela ansiedade e angústia (“At the end of the road / There's a soldier waiting for me” ) e "The Village" é mais otimista ("When a new life turns towards you / And the night becomes a day / We shall remain forever").

Power, Corruption & Lies é o álbum em que o New Order finalmente saiu da sombra do Joy Division e consolidou seu som diferenciado - uma combinação de canções mais robóticas e dançantes e outras mais melódicas e ensolaradas, mesmo que frequentemente com letras melancólicas (embora muito menos soturnas do que as escritas por Ian Curtis). É possivelmente o melhor disco do quarteto, seguido de perto por Technique (1989).