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30 maio 2018

50 anos de "Revolution" e uma analogia com Merquior

Em 30 de Maio de 1968, os Beatles gravaram a primeira versão de “Revolution” (a mais lenta, que seria a faixa 8 do disco 2 de The Beatles, vulgo “Álbum Branco”, lançado em Novembro daquele ano). Escrita por John Lennon, esta canção não era a primeira de cunho político composta pela banda (a pioneira foi “Taxman”, de 1966), mas certamente é a mais explícita e contundente. Foi uma resposta de Lennon aos “événements” de Maio de 68 na França (mas não só a eles, afinal os protestos estudantis já vinham desde Março na Inglaterra e EUA). Para surpresa dos militantes de esquerda que estavam esperando – ou, em alguns casos, quase exigindo – um endosso do Fab-Four ao movimento, “Revolution” deve ter soado decepcionante. Lançada no fim de Agosto (em sua segunda versão, a mais rápida, que foi B-side do single “Hey Jude”), todas as suas estrofes começam com uma tentativa de diálogo com as pautas dos movimentos sociais (querer uma revolução, mudar a constituição, dizer que o problema são “as instituições”...), mas terminam com uma tripla recusa de adotar métodos violentos e sectários: 
“But when you talk about destruction / Don't you know that you can count me out”
“But if you want money for people with minds that hate / All I can tell is brother you have to wait”
“But if you go carrying pictures of Chairman Mao / You ain't going to make it with anyone anyhow”
Em outras palavras, John estava dizendo às facções leninistas, trotskistas, maoístas etc. que, “apesar de compartilhar do desejo por mudança social, ele acreditava que a única revolução que valeria a pena surgiria da mudança interna, em vez da violência revolucionária.” (Steve Turner)
O suposto tom “reformista” (no sentido pejorativo que essa palavra ganhou entre os marxistas), conformista ou mesmo conservador da posição política de Lennon (e, por tabela, dos Beatles) foi reforçado pelo contraste com uma canção lançada no mesmo mês: a assumidamente rebelde “Street Fighting Man” (Rolling Stones), que chegou a ser proibida em várias rádios americanas. Enquanto a canção dos Stones, que critica a apatia política londrina (“where I live the game to play is compromise solution”), foi louvada, “Revolution” chegou a ser desprezada por uma resenha na New Left Review como “um grito de medo lamentável de um burguês mesquinho”. Lennon tentaria fazer as pazes com a esquerda três anos depois, em “Power To The People” (“Say we want a revolution / We better get on right away”), mas manteve até o fim da vida seu posicionamento pacifista: “Não contem comigo se for para a violência. Não esperem me ver nas barricadas, a não ser que seja com flores”.
A importância de “Revolution”, contudo, vai além de sua letra. Com seu distorcido riff de guitarra (já proeminente na primeira versão, de estilo blues, e ainda mais barulhento na segunda, mais roqueira), ela abre os trabalhos do “Álbum Branco”. Pelos próximos cinco meses os Beatles gravariam outras três dezenas de canções; o excelente single “Hey Jude” / “Revolution” (forte candidato a melhor compacto da banda, ao lado de “Strawberry Fields Forever” / “Penny Lane”) foi um aperitivo, e três meses depois veio o ambicioso LP duplo que, transitando pelos mais diversos estilos, conteria várias das melhores faixas compostas pelo quarteto de Liverpool. Selecionei 7 delas para uma lista no Spotify com minhas 60 músicas favoritas dos Beatles.


Aproveitando que estou terminando minha tese sobre José Guilherme Merquior, não consigo deixar de ver um paralelo entre “Revolution” e seu livro Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin (publicado em 1969, mas escrito no ano anterior). Merquior estava em plena Paris no ano de 68, como diplomata e estudante (estava assistindo a um curso de Lévi-Strauss, e pouco depois começaria seu doutorado em Letras pela Sorbonne). Considerando a efervescência política daquele ano (e o fato de que a maioria dos seus amigos intelectuais eram marxistas), é surpreendente que o livro que ele escreveu naquele ano contenha uma crítica tão dura (e, meio século depois, ainda tão certeira) a um dos gurus da “geração 68”, Herbert Marcuse: 
“Visivelmente enojado pela ‘cumplicidade’ entre democracia e reação, Marcuse passa a vincular o progresso social à violência revolucionária, ilustrando essa tese com quatro exemplos: as guerras civis inglesas, a Revolução Francesa, e as revoluções chinesa e cubana. (...) A exclusão da Revolução [Russa] de Outubro [de 1917] de um contexto onde as revoluções chinesa e cubana são louvadas é um absurdo romântico, uma avaliação histórica inteiramente inobjetiva – embora certamente apta a seduzir os arroubos sinófilos e castrômanos do revolucionarismo de evasão da nossa época, para o qual a China de Mao-Tsé Tung é tanto mais formidável quanto mais ignorada. (...) A obrigação de Marcuse não é mostrar que a violência surtiu bons efeitos no passado pré-democrático, e sim provar que ela é superior, atualmente, à ação democrática. (...) O ‘revolucionarismo’ desses extremismos denota apenas – apesar do caráter ruidoso dos seus clichês – uma reação passiva ante os problemas da cultura contemporânea; nunca, a disposição de enfrentá-los criticamente. Entronizando a violência revolucionária, Marcuse não consegue identificar o seu agente social (...). Teorizando sem glória e sem êxito sobre a violência, e contra a tolerância democrática, Marcuse se situa como prisioneiro dos mitos messiânicos como a ditadura ‘esclarecida’ ‘de transição’ – sem ver que a sua dialética interna a transforma necessariamente em despotismo permanente. O denunciador da repressão cultural derrapa ingenuamente para o panegírico da repressão política.” (MERQUIOR, 2017 [1969], pp. 324-328)

18 maio 2018

O crepúsculo do ídolo niilista

Após 2 dias e meio, terminei de ler Michel Foucault, ou O Niilismo de Cátedra, o último dos três livros do Merquior que peguei na BCE quando ainda estava no 6º semestre da graduação. Concluí a leitura de O Marxismo Ocidental em julho/2013; O Argumento Liberal, em dezembro/2015; e hoje o livro de José Guilherme sobre Foucault.
Naquela época só li alguns capítulos deles: o ensaio homônimo de O Argumento Liberal; a introdução de O Niilismo de Cátedra; o capítulo sobre Marcuse e o paralelo entre Lukács e o personagem Naphta (A Montanha Mágica, de Thomas Mann) em O Marxismo Ocidental.
Decidi que Merquior seria o tema da minha tese em 2015, embora já tivesse escrito 3 artigos sobre ele no ano anterior e as obras O Liberalismo: Antigo e Moderno e Saudades do Carnaval já tivessem sido inspiração teórica para minha monografia sobre A Montanha Mágica (pelo conceito de Bildung no liberalismo alemão) e dissertação sobre Doutor Fausto (pela crítica cultural da modernidade a partir de uma perspectiva humanista), respectivamente.
Não farei uma resenha do livro agora; vou guardar para o capítulo da tese sobre a crítica de Merquior aos pós-modernos. Deixo, contudo, como aperitivo um trecho da conclusão deste ensaio que, ironicamente, acaba sendo nietzschiano em sua demolição de um dos maiores ídolos intelectuais das últimas décadas:
"Tudo começa com a ironia de uma filosofia que, tendo sonoramente proclamado a morte do homem (uma questão epistemológica, decerto - mas com que implicações morais cuidadosamente orquestradas!), dedica-se aos mais excitantes problemas da humanidade (loucura, sexo, poder e punição...) sob a alegação de que a filosofia, como investigação de antigas abstrações como a realidade e a verdade, a subjetividade e a história, caducou. (...) Recusando todo debate crítico, [esses filósofos pós-filosóficos] parecem laborar no equívoco de que a ausência de método e o desdém pelo rigor argumentativo levem automaticamente a uma percepção virtuosa dos 'problemas reais'. Não se pejam de passar por escritores, e não por pensadores profissionais; mas o manto 'literário' mal encobre um imenso dogmatismo. (...) Leo Strauss costumava dizer que, nos tempos modernos, quanto mais cultivamos a razão, mais cultivamos o niilismo. Foucault demonstrou que não é absolutamente necessário fazer a primeira coisa a fim de alcança a segunda. Ele foi o fundador de nosso niilismo de cátedra." (MERQUIOR, 1985, pp. 246-247)

17 maio 2018

Ode ao 17 de Maio

Desde criança eu adoro o dia 17 de Maio (conto mais sobre isso aqui), e esta costuma ser uma data importante na minha vida. Dois maiores exemplos: 17/5/2009 foi o dia do meu 1º beijo; em 17/5/2016 a Alba aceitou ser minha orientadora no doutorado.
Cheguei a planejar que acabaria minha tese de doutorado hoje. Não foi possível; acabei me atrasando no cronograma. Sem problemas; estou num pique inédito em meses e ainda hoje devo terminar de ler o demolidor livro do Merquior sobre o Foucault, que será tema de um dos capítulos.
Aliás, o 17/5 desse ano vem sendo legal por três motivos além da leitura de Foucault, ou O Niilismo da Cátedra
1) Busquei 3 CDs que comprei e estava ansioso para encontrar - Tommy (The Who), The Compact King Crimson (King Crimson) e Before And After Science (Brian Eno);
2) Um meme do Twitter me ajudou a descobrir um certo site russo para baixar artigos acadêmicos. Encontrei vários do Merquior que eu procurava há anos, e outros que cheguei a ler e fichar (quando passei uma tarde inteira no acervo dele no CCBB), mas é sempre bom ter uma cópia, rs;
3) Após quase um mês procurando desesperadamente esse CD pelo apartamento, enfim achei meu ELO's Greatest Hits (Electric Light Orchestra). Como é de praxe nessas situações, ele estava num lugar extremamente óbvio: na estante de CDs, escondido atrás da pilha de álbuns dos 60s/70s.

P.S.: Hoje é também o 25º aniversário de Souvlaki (Slowdive), o melhor álbum da banda e o 2º melhor do shoegaze (só perde para Loveless, do My Bloody Valentine). Contém canções sublimes como "When the Sun Hits" e "Alison", viajadas como Souvlaki Space Station e delicadas como "Here She Comes". Fun fact: Souvlaki foi o CD simples mais caro que já comprei (70 reais, importado, na Travessa de Botafogo, em 2015). Valeu o sacrifício, pois é um álbum celestial. Além disso, minha versão é a americana, com 4 faixas-bônus, dentre elas um belo cover de "Some Velvet Morning".



01 maio 2018

O domingo que nunca acabou


Em 1º de Maio de 1996, comprei meu 1º CD de rock: Domingo (Titãs). Três dias antes eu havia ouvido - e amado à primeira audição - a faixa-título, então pedi para meus pais me levarem no Bazar Paulistinha do Flamboyant para adquiri-lo.
Titãs é até hoje uma das minhas bandas favoritas; é o conjunto nacional de que mais gosto e o 3º que mais ouço segundo o Last.FM (só fica atrás de Beatles e Blur). Não consegui ir a um show deles quando criança, mas a partir dos 18 anos fui em quatro: um em Brasília, em 2008 (na turnê que fizeram junto com os Paralamas do Sucesso), e três no Rio - sendo dois em 2012 (Cabeça Dinossauro Ao Vivo e o show em comemoração dos 30 anos de banda, com participações especiais dos ex-titãs Arnaldo Antunes e Charles Gavin) e um em 2014 (a abertura da turnê Nheengatu).
22 anos depois, fiz uma playlist com 50 grandes canções deles. Além dos clássicos e hits, incluí algumas obscuras que adoro, como "Dona Nenê", "Qualquer Negócio" e a própria "Racio Símio" (que também inspirou o nome do meu blog, fundado em 2005). Não coloquei nenhuma faixa dos dois piores álbuns deles - Como Estão Vocês? (2003) e Sacos Plásticos (2009) -, mas selecionei 21 da trilogia oitentista de obras-primas (Cabeça Dinossauro, Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas e Õ Blésq Blom) e 13 da trilogia noventista de discos ótimos porém subestimados (Tudo Ao Mesmo Tempo Agora, Titanomaquia e Domingo). Por fim, incluí a melhor canção do álbum mais recente, Doze Flores Amarelas.

17 abril 2018

Contagem regressiva

Falta um mês para eu terminar a tese - ou pelo menos isso é o que pretendo. Quero encerrá-la no dia 17 de Maio, primeiro porque era meu dia do ano favorito quando criança, segundo porque foi exatamente nesse dia em 2016 que comecei a ser orientado pela Alba.
Ontem estava me sentido meio desanimado por ter tanto bloqueio para escrever, mas hoje de manhã resolvi que, já que isso é psicológico, preciso criar mecanismos de "reencantar" minha reta final de escrita. Fiz isso nas semanas finais da monografia e da dissertação, não custa nada fazer agora. Já tenho um cronograma (preparado com a ajuda da minha namorada), mas talvez eu também precise encarar esses 30 dias finais como uma mini-Bildung. Hoje foi um bom começo, transcrevi metade de uma das aulas do mini-curso que dei ano passado sobre Merquior - deu 4 páginas de anotação.
Amanhã é dia de ler bastante Adorno (e frankfurtianos em geral) para terminar logo um dos capítulos da tese.

29 março 2018

Slow down, so we drown, stop taking me over


O Suede lançou seu primeiro álbum há exatos 25 anos. O debut homônimo tem importância histórica enorme para a música popular britânica, pois representou o cruzamento - e a revitalização - de duas tradições locais: o glam rock (a fase Ziggy Stardust de David Bowie, Roxy Music) e o indie (em particular The Smiths).
No início da década de 90 o cenário musical inglês estava "colonizado" pelos americanos, devido à enorme popularidade do grunge, iniciada com o sucesso de Nevermind (Nirvana) no fim de 1991 e ampliada por bandas como Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden - e dezenas de epígonos. O sucesso dos Stone Roses, na virada dos anos 80 para os 90, poderia ter servido de freio para essa "invasão ianque", mas sua influência inicial se limitou a uma série de bandas dançantes, hedonistas e blasés, em geral designadas sob os rótulos "Madchester" ou "The Scene That Celebrates Itself"; o legado dos Stone Roses para uma renovação mais profunda do pop rock britânico só viria em 1994.
Brett Anderson (vocais e letras) montou uma banda com sua namorada Justine Frischmann (guitarra) e seu amigo de infância Mat Osman (baixo) em 1989. Em seguida o jovem Bernard Butler (guitarra) também entrou no conjunto. O primeiro baterista do Suede foi ninguém menos que Mike Joyce, ex-Smiths; porém, ele preferiu sair para que a banda não ficasse muito atrelada à estética do quarteto de Manchester. Pouco depois Simon Gilbert se tornou o baterista definitivo. Em 91 um plot twist romântico mudaria não só a história da banda, mas do britpop: Justine e Brett terminam o namoro, e ela começa a sair com Damon Albarn, vocalista do Blur. Iniciava-se ali uma rivalidade que, embora menos conhecida do que Blur x Oasis, foi artisticamente mais importante para os destinos do rock alternativo inglês dos anos 90. Em primeiro lugar, porque várias das letras do disco de estréia do Suede (como "She's Not Dead" e "Pantomime Horse") tratam da "dor de cotovelo" de Anderson em relação à sua ex-namorada; em segundo, porque o sucesso da banda, que ofuscará temporariamente o Blur (algo sobre o que falarei em minha futura de resenha de Modern Life is Rubbish), gerou ressentimento em Albarn, o que o estimulará a fazer de tudo para Parklife (1994) ser um álbum capaz de colocar sua banda no topo das paradas (e da preferência da crítica); já o terceiro motivo eu direi ano que vem, na resenha dos vinte anos de 13 (Blur)...
O primeiro single do Suede foi lançado em Maio de 1992: a deliciosa ode à androginia e à luxúria de "The Drowners" (uma das minhas favoritas do Suede, diga-se de passagem), tendo como B-sides as excelentes "My Insatiable One" (que semanas depois ganharia cover ao vivo de um ídolo da banda: Morrissey) e "To The Birds". Embora só tenha alcançado o 49º lugar nas paradas britânicas, a essa altura Brett Anderson já estava estampando capas de revistas. "Metal Mickey", uma das mais canções mais eletrizantes da banda (o "metal" no título não é por acaso), foi lançada quatro meses depois, e entrou no Top 20. O grande hit dessa primeira fase do Suede, contudo, foi o terceiro single: "Animal Nitrate", lançado um mês antes do álbum de estréia. Brett conseguiu a façanha de emplacar em 7º lugar uma canção cuja letra tratava do consumo de uma droga (nitrito de amila) e ainda tinha conotações sexuais das mais estranhas.
A expectativa em torno do debut, como se pode imaginar, era estratosférica, e o Suede conseguiu superá-la. Se os três singles apresentavam a faceta mais roqueira da banda, o álbum era repleto de canções mais lentas e melancólicas. Mesmo a faixa de abertura (e quarto single) "So Young", com suas alusões à heroína, tinha uma melodia que evocava dor e tristeza - no melhor estilo glam, é claro.
"She's Not Dead", como bem definiu Eduardo Palandi, funciona na economia do álbum como um contraponto a "Animal Nitrate" - não só por ser uma balada em vez de um rock, mas também liricamente em questões de gênero - o "outro" amoroso/sexual é "she" em vez de "he". Brett Anderson, tal como Bowie duas décadas antes, adorava cultivar a imagem de uma sexualidade ambígua, com direito à famosa frase: "Eu sou um bissexual que nunca teve uma experiência homossexual". A própria capa do 1º CD evoca essa androginia.
"Moving" é a faixa mais acelerada do álbum, e é também a mais carregada de efeitos de estúdio; pessoalmente prefiro a versão ao vivo dela do bootleg Europe 1992/93
"Pantomime Horse" é a canção épica do disco, e nela fica evidente como a guitarra de Bernard Butler é central para a sonoridade do Suede. Brett carrega os versos finais de emoção: "Well did you ever, did you ever go round with them? / Well did you ever, did you ever go round the bend? / ...ever tired it that way, have you ever tried it that way?"
"Sleeping Pills" é a primeira de duas canções da banda sobre uma dona de casa solitária; a segunda é "Still Life", faixa de encerramento de Dog Man Star (1994). Chegou a ser cogitada por Anderson como single - o que seria justo, já que ela é um dos destaques do debut.
"Breakdown" e "Animal Lover" são boas canções, mas os próprios integrantes consideram que certos B-sides como "The Big Time" (do single de "Animal Nitrate") ou as já citadas "My Insatiable One" e "To The Birds" poderiam ter substituído elas no álbum e deixá-lo ainda mais perfeito.
A última faixa é "The Next Life", que curiosamente era a primeira nos shows da turnê de 1993. Ao contrário das demais, o instrumental principal é o piano, o que de certa maneira antecipa a estética de certas canções do disco seguinte, Dog Man Star. Sua letra é dedicada à falecida mãe de Butler: "See you in your next life when we'll fly away for good / (...) Far away, we'll go far away and flog ice creams til the company's on its knees".
Lançado em 29 de Março de 93, Suede estreou em 1º lugar nas charts britânicas, e durante um bom tempo foi o CD de estréia mais vendido do Reino Unido. Como já apontei no primeiro parágrafo, ele foi o ponto de partida de uma das vertentes do britpop: a de sonoridade glam e letras suburbanas, da qual Manic Street Preachers e, de certa maneira, Pulp também farão parte.

28 março 2018

Dancing days are here again as the summer evenings grow



28 de Março de 1973. A banda de rock mais popular do mundo resolve lançar um álbum em que só metade das 8 faixas podem ser classificadas como "rock" - e, ainda assim, só duas delas são hard rock na linha dos quatro álbuns anteriores. Todas as demais canções experimentam, seja com o reggae, o funk, a psicodelia, o progressivo ou o folk.
45 anos depois, o gesto arriscado do Led Zeppelin em Houses of the Holy se mostrou acertado e frutífero; mas, é possível imaginar o choque dos fãs e da crítica na época. Se a verve acústica de Led Zeppelin III já havia torcido alguns narizes (e levado a vendas menores que a dos dois primeiros discos), o 5º LP do Led foi além. Como bem definiu Douglas Wolk (Rolling Stone): "eles não tinham mais nada a provar e surgiram com um tipo de disco muito diferente do que haviam feito antes. (...) A confiança suprema na própria autoridade musical permitiu que a banda se safasse com novos tipos de excessos".
Houses of the Holy é um salto artístico notável para um conjunto que até então tinha moldado o cânone do hard rock / heavy metal, desde os personagens (vocalista carismático com voz fina, guitar hero, baixista discreto e baterista ogro) até a estética (forte influência do blues, tonalidade épica/medieval, imaginário tolkieniano, letras repletas de conotação sexual etc.). Com mais ênfase no ritmo do que no peso, este álbum ainda conta com uma produção caprichada do guitarrista Jimmy Page, que conseguiu encontrar um ponto de equilíbrio entre o perfeccionismo e a fluidez necessária para as canções serem tocadas ao vivo. O resultado é um álbum que envelheceu muito bem; aliás, Houses of the Holy é um grande exemplo de como certos álbuns dos anos 70 soam mais joviais que a grande maioria dos discos das décadas seguintes (em particular os da década de 80, com sua produção "over", cheia de ecos e sintetizadores, mas também os dos 90). O fato de que Andy Johns, o engenheiro de som do Led Zeppelin, também trabalhou em Marquee Moon (Television), outro LP setentista que ainda soa atual, reforça essa tese.
Enfim, vamos falar sobre as 8 canções. "The Song Remains The Same" é uma abertura tão espetacular que se tornou título do 1º filme / álbum ao vivo da banda, lançado três anos depois. A sua longa introdução trai a sua origem: era para ser uma faixa instrumental. É um dos dois "hard rocks" de Houses of the Holy, mas com uma produção limpa que o distingue da pegada mais "blueseira" de álbuns anteriores. Mantenho o que disse sobre ela há quase 13 anos, em um review para um blog antigo: "pulsante, com incríveis solos de guitarra e uma letra quase que autobiográfica".
"The Rain Song" é uma belíssima canção, tendo sido inspirada (ou melhor, desafiada) por um comentário de George Harrison de que o Led Zeppelin nunca tinha feito uma balada. Dentro da tipologia do álbum é a canção progressiva, com direito a Mellotron.
"Over The Hills And Far Away" é um folk rock que segue a clássica fórmula do Led de começar acústico e ganhar peso a partir do refrão. É uma das faixas mais queridas da banda; Bill Wyman, por exemplo, a considerou a 6ª melhor do Led.
"The Crunge" é de longe a música mais excêntrica deste LP, consistindo em um funk debochado. Surgiu de forma improvisada, e faz alusões a James Brown ("I'm just trying to find the bridge... Has anybody seen the bridge?"). Provavelmente muitos fãs mais puristas não gostam tanto deste álbum por causa dela.
"Dancing Days" abre o lado B do álbum em grande estilo, e é minha preferida do Led Zeppelin graças a seu ritmo swingado e à letra otimista ("I said it's alright / You know it's alright / I guess it's all in my heart (...) Is that the way it should start? / I know it is now"). Ela faz tanta justiça ao seu título que os próprios integrantes, assim que ouviram o playback, ficaram dançando-a na grama de Stargroves, mansão de Mick Jagger na qual parte do disco foi gravado.
"D'yer Mak'er" é um dos primeiros reggaes gravados por uma banda de rock (5 anos antes, por exemplo, do Police), e sua influência jamaicana se revela até no trocadilho do título. É tão despretensiosa que se torna deliciosa de se ouvir; destaque para os gritos e gemidos de Robert Plant, as linhas de baixo de John Paul Jones e as pancadas na bateria de John Bonham. Acabou sendo o single mais bem-sucedido do álbum, chegando a 20º lugar nas paradas americanas.
"No Quarter" é um dos pontos altos de House of the Holy; dentro da estrutura do álbum ela seria a equivalente a "Stairway to Heaven" em Led Zeppelin IV e "Kashmir" em Physical Graffiti. É clichê chamá-la de psicodélica, mas diante de sua atmosfera onírica (desde os vocais artificialmente lesados de Plant até o ritmo macabro criado pelo piano de Jones), é um rótulo inescapável. Sua sofisticação sonora a torna uma das canções mais duradouras da banda.
Encerrando o disco temos o outro hard rock: "The Ocean". O Led parece enfim fazer uma concessão aos fãs da "pauleira" da tetralogia anterior; temos aqui uma canção suja e eletrizante. O final é espetacular, com um incrível solo de guitarra e uma inesperada aceleração no ritmo da bateria.
O Led Zeppelin estava tão inspirado nas gravações de Houses of the Holy que a própria (e ótima) faixa-título acabou ficando de fora, só entrando em um álbum dois anos depois, o LP duplo Physical Graffiti. Page alegou que ela se parecia um pouco com "Dancing Days", e em um álbum no qual o trunfo era justamente a diversidade, talvez tenha sido melhor mesmo guardá-la para o trabalho seguinte.
Diante de tudo que foi dito, não é surpreendente que Houses of the Holy seja meu álbum favorito do Led Zeppelin, e está no meu top 10 de todos os tempos.

21 março 2018

Buy me a soda and try to molest me in the parking lot


Comecei a ouvir Pixies entre o fim de Fevereiro e o início de Março de 2005. A "porta de entrada" foi Nirvana, banda em que eu estava viciado na época. Baixei no Kazaa a mp3 de "Head On", um cover dos Pixies para uma canção do Jesus and Mary Chain e que eu já conhecia por outra interpretação, a da Legião Urbana. Gostei e resolvi procurar mais canções deles. Um site me ajudou muito nesse processo: Dying Days, um dos melhores do Brasil sobre rock alternativo dos anos 80 e 90. As resenhas sobre Pixies eram das mais empolgadas, particularmente a de Surfer Rosa. Não tive outra escolha a não ser baixar outras 20 faixas deles, rs.
Embora tenha gostado bastante de Trompe Le Monde (1991) e Doolittle (1989), logo de cara Surfer Rosa foi o álbum deles que mais me fascinou. Foi sobre ele que escrevi uma resenha meses depois para o Correio Classe (vide post anterior); é a capa dele que estampa minha já velhinha camiseta dos Pixies, comprada em 2010 na Galeria do Rock, em São Paulo; é dele a matadora seqüência de 5 faixas que abriu o inesquecível show da banda ao qual assisti, no Lollapalooza 2014; e, além de tudo, ele é o meu álbum favorito dos últimos 30 anos.

Os Pixies começaram em 1986, e no ano seguinte já estavam em uma torrente criativa impressionante: em Março gravaram 17 faixas em apenas três dias (as lendárias Purple Tapes), sendo que 8 delas entrariam no EP Come on Pilgrim (lançado em Setembro daquele ano) e 4 seriam regravadas para Surfer Rosa. Este LP, aliás, seria gravado e mixado em apenas duas semanas, em Dezembro de 1987. 
A produção de Steve Albini conseguiu deixar Surfer Rosa com o dom da juventude eterna, pois ele soa cru, sujo, direto; é como se fosse um bootleg, mas com uma atenção aos detalhes: os vocais guturais de Black Francis, a ênfase na bateria, a violência das guitarras, a precisão do baixo, a espontaneidade da banda (capturada, por exemplo, nas conversas que antecedem "Vamos" e "I'm Amazed")...
Já quando foi lançado, em 21 de Março de 1988, o disco atraiu a atenção da crítica, em especial dos britânicos; inclusive foi eleito álbum do ano pela Melody Maker e pela Sounds. Não vendeu tanto como seus sucessores (em particular Doolittle), mas ajudou de forma decisiva a criar um público fiel à banda - inclusive entre outras bandas de rock alternativo, como o Nirvana, que muito se inspirou na estética "verso calmo, refrão barulhento" deste disco para as canções de Nevermind e In Utero (este, aliás, produzido justamente por Albini).

Surfer Rosa começa com uma das melhores aberturas de álbum da história do Rock: "Bone Machine". É minha preferida dos Pixies desde a 1ª vez que a ouvi. Acho que não há descrição mais perfeita dela do que a da resenha do Dying Days: 
"A bateria entra. É como um aviso: se você não quer ser atingido por pancadas violentas vindas diretamente do seu som, é melhor apertar stop agora. Entra o baixo, como se fosse um segundo aviso. Joey Santiago entra com sua repetitiva (e genial) guitarra, e Black Francis grita "This is a song for Carol" como se dissesse: bom, já que você não desligou seu som, ouça uma das cinco melhores músicas de todos os tempos."
"Break My Body" mantém o pique com uma letra das mais masoquistas e um refrão dos mais viciantes: "Break my body, hold my bones, hold my bones". Ela, assim como "Broken Face", "Vamos" e "I'm Amazed", estava nas Purple Tapes, e as versões produzidas por Albini em Surfer Rosa são tão superiores às originais que ressaltam como esse produtor foi fundamental para a qualidade do álbum.
"Something Against You" tem um riff delicioso, mas logo assusta (no bom sentido) o ouvinte com as microfonias de Black Francis.
"Broken Face" é uma das mais empolgantes, e sua letra é outra que impressiona pelo humor negro: "There was this man who snapped his poke /  In little pieces / And then they drilled holes / And then they put 'em back in there".
"Gigantic" é a única composta e cantada pela baixista Kim Deal, e contém uma das melodias mais inesquecíveis do disco. Parece uma canção fofinha, mas preste atenção na letra:  "Lovely legs they are / What a big black mask / What a hunk of love / Walk her every day into a shady place / He's dark, but I'd want him"Infelizmente Kim não teve muito espaço para suas composições nos Pixies, mas "Gigantic" lança as sementes dos Breeders, banda que mesmo no disco mais recente, All Nerve, vem se revelando bem superior aos projetos solo de Frank Black (ou mesmo dos dois álbuns dos Pixies gravados depois da saída de Deal, em 2013).
"River Euphrates" é outra canção de forte apelo melódico; o verso "Ride, ride, ride..." gruda na cabeça do ouvinte. No finalzinho há um dos melhores gritos de Francis.
"Where Is My Mind?" é a mais famosa; muita gente conheceu os Pixies graças a ela, que toca na cena final de Clube da Luta (1999). De fato é a mais acessível do álbum (seja pela melodia conduzida pelo violão ou por seu lendário riff de guitarra), mas nem por isso abre mão da esquisitice tão característica da banda: "I was swimmin' in the Caribbean / Animals were hiding behind the rock / Except the little fish / But they told me, he swears / Tryin' to talk to me to me to me".
"Cactus" destoa do resto de Surfer Rosa pelo tom introspectivo, mas nem por isso deixa de ser genial. Mais uma vez temos uma letra macabra: "Bloody your hands on a cactus tree / Wipe it on your dress and send it to me". David Bowie, fã assumido da banda, regravou esta faixa em Heathen (2002).
"Tony's Theme" é uma das mais divertidas do álbum. Ela fez uma breve apariação no 5º episódio ("Freddie") da 4ª temporada de Skins.
"Oh My Golly!" é a única cuja letra foi impressa no encarte do LP, talvez porque cite o título do álbum: "Besando, chichando con Surfer Rosa / (...) Bien perdida la Surfer Rosa".
"Vamos" tem sua parte intermediária marcada por quase três minutos de caos sonoro, regido pela guitarra ensandecida de Joey Santiago. É até hoje um clímax nos shows da banda.
"I'm Amazed" é uma das mais canções mais eletrizantes do álbum, com destaque para o trecho entre 1:07 e 1:22.
"Brick Is Red" é a pérola escondida, e antecipa o som menos agressivo e mais elaborado que os Pixies adotarão a partir de Doolittle. Ela parece ter sido gravada numa sessão à parte (pois sua bateria soa diferente das demais faixas) e quase não foi tocada ao vivo na primeira encarnação da banda (embora, para minha surpresa e alegria, tenha entrado no set do Lolla '14). 

Por fim, cabe notar a icônica capa de Surfer Rosa, que contribui decisivamente para sua aura mítica. A propósito, a dançarina de flamenco seminua era "amiga de uma amiga" da banda.

07 março 2018

From the past until completion they will turn away no more


Em 7 de Março de 1983 o New Order lançou o single "Blue Monday", uma canção de 7 minutos e meio que revolucionaria a história da música pop, ao cruzar de forma ousada elementos do post-punk, da disco e da eletrônica. Foi a 1ª faixa da banda a alcançar o top 10 britânico (e as paradas mundiais), e se tornaria o single de 12 polegadas mais vendido de todos os tempos.
Uma das melhores definições que li sobre "Blue Monday" foi a de que ela seria uma espécie de "Gothic funk", no sentido de combinar a melancolia que já era característica do New Order (e, claro, do Joy Division) com "os enérgicos imperativos da música para pistas de dança movida por sequenciadores" (Uncut, nº 45, Fev/2001).
Desde a primeira vez que a ouvi, em Agosto de 2005, essa música me causou uma forte impressão. Eis três comentários que já fiz sobre ela ao longo desses anos: 

1) O século 21 começou em 1983, com o lançamento do single "Blue Monday", do New Order. (...) Parece que realmente se estabeleceu uma nova ordem mundial, e a lei era dançar freneticamente. Se hoje a música eletrônica é popular como é, se as trances e raves são sucesso, muito, mas muito disso se deve a essa música. Na época, ela causou estranhamento e até repulsa, mas quem a ouvia era contagiado. Aquilo era algo completamente inovador, uma vanguarda musical. 22 anos depois, ela continua sendo surpreendente. (13/12/2005)

2) Com o suicídio de Ian em maio/1980, os três remanescentes [do Joy Division] chamaram a tecladista Gillian Gilbert e fundaram o New Order. Após um curto período em que buscaram uma direção musical, eles lançaram o single "Blue Monday" (83), que praticamente inaugurou o pop sintético, um dos adventos da música eletrônica. O sucesso da música foi gigantesco, e serviu como influência para muitos contemporâneos a eles, como Depeche Mode, Pet Shop Boys e Eurythmics. (15/5/2006)

3) "Blue Monday" (1983) é uma das músicas mais dançantes de todos os tempos, e foi um sucesso imediato nas paradas. Ao misturar influências de Donna Summer, Giorgio Moroder e Kraftwerk com uma letra repleta de ressentimento e um uso criativo dos sintetizadores, ela inspirou toda a música eletrônica posterior, desde o synthpop até o techno. "Blue Monday" ainda soa atual, tal como um clássico futurista. (17/8/2017)

01 março 2018

Hanging on in quiet desperation is the English way

1º de Março é o dia do 45º aniversário de The Dark Side of the Moon, o melhor álbum do Pink Floyd - com menções honrosas para The Piper at the Gates of Dawn (1967) e Wish You Were Here (1975).
Não tenho muito o que acrescentar ao que escrevi no 40º aniversário deste álbum, no máximo uma citação do livro de John Harris sobre Dark Side:

"Há algo particularmente fascinante no fato de que o álbum que permitiu que o Pink Floyd se libertasse tenha sido parcialmente inspirado no destino de [Syd] Barrett. (...) Também não existem muitos exemplos de álbuns definidos por um conceito central que tenham se tornado tão duradouros. (...) O Pink Floyd, para seu reconhecimento eterno, optou por tratar de temas (...) universais, como morte, insanidade, opulência, pobreza, guerra e paz (...) que, por suas características, iriam manter sua longevidade muito depois que o disco foi finalizado - e o elo da banda desfeito." (HARRIS, 2006, pp. 8-17)



Hoje outro disco clássico fez aniversário. "The Dark Side of the Moon", a obra-prima do Pink Floyd, foi lançado em 1º de Março de 1973.
Durante os sete meses que passaram nos Abbey Road Studios, o quarteto produziu um álbum conceitual cujas comparações com "Alice no País das Maravilhas" ou "O Mágico de Oz" não são injustas: o disco é uma viagem psicodélica que agradou até quem não era fã de rock progressivo. Feito sob um clima menos tumultuado que outros discos da banda, aqui temos o auge criativo da parceria dos geniais Roger Waters e David Gilmour - sem, é claro, desmerecer as contribuições de Wright e Mason.
É difícil falar de destaques num álbum que foi feito para ser ouvido inteiro e de fato é perfeito do início ao fim. Porém, cabe dizer que "Breathe" (cujo tema é a alienação), "Time" (um tratado sobre a "quiet desperation" que é a efemeridade da vida), "Money" (repleta de ironias ao materialismo/consumismo) e "Brain Damage" (bela canção sobre a loucura; parece ser um tributo a Syd Barrett) são as minhas favoritas.

28 fevereiro 2018

How long to sing this song?

Hoje começo uma série de postagens no blog em que republicarei resenhas ou ensaios que escrevi no Facebook sobre discos aniversariantes desde 2013. 
Nada melhor do que começar por um álbum que me marcou há cerca de 20 anos: War, do U2.


Em 1997, meu pai comprou um CD cuja capa era um garoto com testa franzida. Mal sabia eu que continuaria gostando deste álbum 16 anos depois...
Há trinta anos, em 28 de Fevereiro de 1983, o U2 lançava o seu melhor álbum, "War". É o último disco de estúdio da primeira fase da banda, que ainda teria o ótimo ao vivo "Under a Blood Red Sky", também de 83. Porém, dali em diante, a megalomania e a pregação humanitarista iriam transformar Bono Vox num chato de galocha e o U2 num clichê "arena rock".
Voltemos a falar de "War". Temos aqui músicas engajadas que ainda soam sinceras e poderosas, como "Sunday Bloody Sunday" (sobre o conflito na Irlanda em 1971), "Seconds" (alusão à ameaça nuclear) e "New Year's Day" (sobre o sindicato polonês Solidariedade). Há também espaço para falar de amor em "Two Hearts Beat As One" e de religiosidade em "40".

Hoje faz 5 anos que escrevi esse post, e agora War tem 35. Este álbum continua sendo o meu preferido do U2. Visceral, emocionante e político na medida certa, sem ser "preachy" (como por vezes Bono se tornou anos depois). De fato é o ápice da fase post-punk do U2. Por outro lado, mudei de opinião sobre declará-lo como o ápice antes da decadência: a banda ainda faria vários grandes discos depois do War, dentre eles The Joshua Tree (1987), Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993).

20 fevereiro 2018

Bodas de zinco

Há exatos 10 anos, às 20:02 do dia 20/02, recebi a notícia de que havia passado no vestibular para o curso de Ciência Política na Universidade de Brasília. Até fiz um post naquela noite, assim como uma "trilha sonora da vitória".

Começava ali uma etapa muito importante da minha vida: o ensino superior, a vida de universitário. 
Os quatro anos de graduação na UnB foram fantásticos (e inclusive compartilhei alguns dos melhores momentos aqui no blog); eles me prepararam intelectual e emocionalmente para os desafios que vieram a seguir: o mestrado e o doutorado no Rio de Janeiro. Como vou terminar minha tese ainda esse semestre, as minhas bodas de zinco com o mundo acadêmico terão um motivo a mais para serem celebradas. =)

17 fevereiro 2018

Brasília 2-6/2

Dia 1 – Station to Station
Antes da viagem eu e minha mãe fomos buscar minha avó (que está muito adoentada) para almoçar na casa da irmã dela. Foi uma oportunidade para eu rever, após quase uma década, meus tios-avós e a filha deles. Quando eu era criança às vezes ficava na casa deles quando minha mãe ia ao centro espírita.
Minha mãe me deixou no Flamboyant, afinal combinei com o rapaz da carona de ele me buscar no McDonald's que fica do lado do shopping. Almocei no Habib's e dei uma passada na Fnac e na Saraiva, e na última acabei encontrando A Moon Shaped Pool (Radiohead). Enrolei quase dois anos para comprar este disco porque estava esperando o preço baixar, mas como o contrário ocorreu (este álbum está quase esgotado e seu preço no MercadoLivre já estava ficando mais alto que o cobrado nas megastores), então não o deixei escapar. 
Minutos depois a carona para Brasília chegou. A viagem teve um momento inusitado: como o motorista só ficava ouvindo hip hop californiano (ele morou em San Francisco nos últimos anos), peguei meu fone de ouvido na mochila para ouvir Spotify no celular. Foi quando ele ofereceu o som do carro para eu ouvir minha lista via Bluetooth. Fiquei em dúvida, e até disse que talvez ele não fosse gostar das minhas músicas, mas como ele disse ser eclético, acabei aceitando. Quem me conhece sabe que eu sou um "autoritário musical", do tipo que até o humor é afetado se a música é boa ou ruim; então, se alguém me dá a oportunidade de escolher as faixas, eu aproveito (mas também sem abusar; fui selecionando as músicas da minha lista BSB Nights que fossem mais famosas ou palatáveis). Ouvir as canções de minha escolha tornou a viagem ainda mais agradável, rs.
Cheguei em torno de 16h na rodoviária interestadual, mas assim que desci do carro notei que tinha esquecido um dos meus cartões. Por sorte a carona estava por perto; após minha ligação, poucos minutos depois ele trouxe. 
Combinei com a Nathalia (amiga do Rio que se mudou novamente para Brasília, e em cuja casa eu me hospedei nessa estadia) de passar na Fnac do Park Shopping (que é do lado da rodoviária) para tirar fotos dos quadros decorativos e mostrar para ela. Aproveitei para olhar os CDs, afinal na loja de Goiânia, embora não tenha comprado nada, descobri que os discos estavam com 40% de desconto. Acabei levando Greatest Hits (Alice in Chains), Get Behind Me Satan (The White Stripes) e White Album (Weezer), e ainda comprei duas edições deluxe do The Queen is Dead (The Smiths) para presentear a Nathalia e a Janaína, afinal ambas são muito fãs da banda - e, são minhas duas melhores amigas, então fiz dedicatórias para elas.
Do shopping peguei um metrô para a rodoviária do Plano Piloto, e de lá um ônibus para a W3 Norte. Encontrei a Nathalia e fomos direto para o cinema do Iguatemi, pois a sessão de The Post para a qual compramos ingresso começaria dentro de meia hora. O filme é muito bom, e vai melhorando à medida que a trama se complica. As atuações de Meryl Streep e Tom Hanks são boas, mas nada que mereça um Oscar. Gostei acima de tudo da mensagem em prol da liberdade de imprensa, inclusive acima dos interesses de Estado.
Depois do filme demos uma passada na Livraria Cultura, onde também havia promoção de 40%. Comprei mais 4 álbuns: Cracked Actor (David Bowie), Leave Home (Ramones), It'll End In Tears (This Mortal Coil) e outro que eu procurava há tempos - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (The Beatles) na versão em dois CDs, sendo o segundo com takes das músicas que entraram no álbum e também versões remasterizadas do provável melhor single de duplo Lado A de todos os tempos: "Strawberry Fields Forever" / "Penny Lane". Contei em posts anteriores o porquê dessas duas faixas não terem entrado no famoso álbum conceitual do Fab Four.
Eu e a Nathalia tínhamos compromissos distintos pós-cinema, então fomos ao apartamento dela (que mora com a mãe e a avó) para nos arrumar. Peguei outro metrô, desta vez até Águas Claras, para encontrar a Jana no Devassa, onde, em meio a "bons drink", tivemos ótimas conversas sobre diversos assuntos: política americana, cultura pop, Arrested Development etc.

Dia 2 – Discos, Dudes e Drinks 
No sábado de manhã fiquei conversando com a avó da Nathalia antes do almoço, e descobri que ela é amiga do Emmanuel Carneiro Leão (professor da UFRJ, especialista e tradutor de Heidegger), que por sua vez é amigo do falecido professor Eduardo Portella. Vou ficar de olho para ver se ele vai dar algum curso esse semestre.
Às 15h30 fui à Feira de Discos no Victrola com a Karin. Pouco depois chegou um amigo nosso que eu não havia há tempos: Luiz Fernando, o Luti. Nós três entabulamos uma conversa bem animada; relembramos da ABCP em Belo Horizonte (2016), justamente quando conheci a Karin, e das minhas aventuras com o Luti, seja em São Paulo (nos festivais Planeta Terra 2010 e 2011) ou enfrentando o patrulhamento ideológico na Ciência Política da UnB. No fim da tarde a Nathalia chegou, e se deu bem com eles. Como estávamos numa feira de LPs, resolvi comprar um para prestigiar o evento (embora eu prefira CDs), e levei um vinil duplo que estava com um bom preço: Oranges & Lemons (XTC), álbum que não tenho em CD.
O papo prosseguiu noite adentro, em meio à discotecagem oscilante (tocaram boas faixas, inclusive um cover de "You Really Got Me" do Van Halen que eu não conhecia; mas, o DJ insistia em músicas pouco animadas), até que decidimos ir ao Área 51, onde tinha sinuca e tocava rock clássico. A outra opção era o Velvet, no qual ocorreria uma festa com temática pop anos 2000, mas na votação acabamos preferindo a outra opção. Para compensar, eu, Karin e Nathalia ouvimos alguns clássicos da Britney Spears no carro, hehe. 
Nós três jantamos no Sky Burger, passamos num posto de gasolina e depois fomos para o Área 51, onde o Luti e os amigos dele já estavam. Em meio ao ambiente descontraído (e com vários hits tocando no telão, dentre eles "Ask" dos Smiths e "Sultans of Swing" do Dire Straits), decidi testar meus limites alcoólicos: já havia tomado um chope e três Cuba Libre no Victrola, e acabei bebendo também uma caipiroska de morango e uma tequila. Em vão: não senti nenhum efeito, o que por um lado me deixou frustrado (ainda mais porque desperdicei dinheiro, já que refrigerante é bem mais barato), mas por outro me fez constatar que meu metabolismo é bem rápido.
Após mais de dez horas na companhia de Karin e Luti, eu e Nathalia fomos para casa em torno de 1h30 da manhã.


Dia 3 – O infiltrado
Acordei naturalmente, sem alarme. Ouvi um pouco o CD do This Mortal Coil, e depois fiquei conversando com a simpática avó da Nathalia sobre vários assuntos.
Depois do almoço eu e minha amiga (que é fanática rubro-negra) fomos assistir ao jogo do Flamengo contra o Nova Iguaçu no estádio Mané Garrincha. Me senti como um infiltrado, afinal sou palmeirense e estava usando uma camiseta do Flamengo emprestada do tio da Nathalia. A experiência foi divertida (morri de rir da Nath surtando com os erros do time dela), e me senti pé-quente quando houve o gol(aço) do zagueiro Rhodolfo no último minuto de jogo. O Globo Esporte até se inspirou numa certa canção que está fazendo sucesso para fazer uma manchete brincalhona sobre esse gol: "Que tiro foi esse?"
À noite a avó dela preparou cachorro quente, que comemos enquanto assistíamos ao Super Bowl. Torci para os Patriots (fiquei fã deles depois da espetacular virada na final do ano passado), mas um jogador do Eagles tirou a bola da mão do Tom Brady num lance decisivo no último quarto, e com isso iniciou a seqüência em que sua equipe fez o touchdown e virou o jogo. Um dos momentos mais engraçados da partida foi a quantidade de erros nos chutes de field goal, o que me inspirou a fazer uma zoação no Twitter. Teve o show do Justin Timberlake no intervalo, mas infelizmente ele não tocou seus dois maiores clássicos: "Dick in a Box" e "Motherlove", haha.
Eu e a Nathalia conversamos a noite toda, e só fui dormir em torno de 4 da manhã.

Dia 4 – The Solo Adventures
Dia decisivo para a Nath, que tomaria posse como advogada em solenidade da OAB, e ainda por cima seria a oradora da turma; inclusive estiquei minha estadia em Brasília até terça-feira para poder acompanhar a cerimônia, que ocorreria naquela segunda à tarde.
Aproveitei que a mãe dela (com quem, aliás, assisti ao BBB 18 durante um intervalo do Super Bowl) ia levá-la para o salão para pegar uma carona e ficar mais perto do Sebinho, aonde vou sempre que estou em Brasília. Inocentemente achei que não ia encontrar nada de interessante (ainda mais depois de tudo que comprei na Fnac e na Cultura), mas acabei encontrando logo de cara o CD Days Should Make You Smile (Barfly) por apenas 2 reais. Na sessão de livros fiz mais três aquisições: duas para mim (Arte e Sociedade, de Marcio Tavares d'Amaral; e Insurgências e Ressurgências Atuais, uma obra do Gilberto Freyre que um amigo meu havia me indicado, e que descobri ter várias alusões a Merquior!) e uma para a Carolina (Ensaios e Conferências, do Heidegger - a propósito, escrevi mais uma dedicatória, rs).
Do Sebinho desci a colina para chegar na UnB, outro itinerário tradicional em minhas viagens à capital federal. Almocei no Spoleto e dei uma passada na Livraria da UnB, onde encontrei mais três livros com promoções imperdíveis: os dois volumes de O Caminho da Filosofia (Wolfgang Röd), uma história da filosofia em 1500 páginas, e uma edição da revista Diógenes com artigos de Freyre e Lévi-Strauss. Aproveitei que estava perto do Ceubinho para rever o livreiro Chico. Ele sempre fica feliz quando vou visitá-lo, e tivemos uma boa prosa.
Pouco antes das 16h vi que tinha que ir logo para a OAB, então tratei de subir a colina. Por sorte o ônibus W3/L2 Norte chegou no ponto segundos depois de mim, então cheguei adiantado no evento, e consegui reservar lugares para mim e a família da Nathalia. 
A solenidade foi muito bonita, e adorei o discurso da Nath, que enalteceu o lado desafiador que a carreira de advogado traz se comparada com a carreira pública, e fez até referências ao retrato crítico da profissão em filmes como O Advogado do Diabo e O Mentiroso. A propósito, ajudei num trecho do discurso dela, no qual cita a "jaula de ferro" do Weber como metáfora para criticar advogados que se tornam demasiadamente frios, tal como engrenagens do sistema. As sugestões que a avó dela fez também o deixaram ainda melhor.
O discurso do paraninfo da turma também foi bom, mas o da vice-presidente da OAB regional, nem tanto; ela insistiu na polarização entre advogados contra promotores e juízes, e contou umas anedotas um pouco estranhas.
Fomos a uma pizzaria na 309 Norte para brindar o início da carreira jurídica da Nathalia. Fiquei pouco tempo, pois tinha combinado de sair com a Jana. Iríamos comer peixe, mas o atendimento do garçom do Peixe na Rede foi tão ruim que simplesmente fechamos o cardápio e fomos comer em outro lugar - pizza também, mas na Domino's da 109 Norte. Foi mais uma de nossas conversas empolgantes e por vezes reflexivas. Depois que ela foi embora voltei para a pizzaria onde Nath, mãe e avó estavam, e depois fomos para a casa delas.

Dia 5 – Voltando de uma viagem, me preparando para outra
Era o 1º dia de trabalho em escritório da Nathalia, então ela saiu um pouco antes de mim. Minha carona chegou às 9h, e a viagem foi tranqüila; sem música, mas com boas conversas com o motorista e os outros caroneiros. Ao chegar no Flamboyant pedi um Uber para casa.
Enquanto arrumava minhas malas (afinal viajaria para o Rio de Janeiro no dia seguinte), fiquei ouvindo os CDs que comprei em Brasília. Não me arrependi de nenhuma das aquisições: Sgt. Pepper's ficou rejuvenescido com o novo mix stereo, Cracked Actor é um discaço ao vivo, o White Album do Weezer é um dos melhores discos deles pós-Pinkerton...
À noite enfim assisti ao filme do David Bowie que trouxe para assistir em Goiânia: O Homem que Caiu na Terra. É uma obra bem excêntrica, cujo enredo por vezes não-linear me obrigará a vê-lo novamente para entender tudo (e, quem sabe, procurar ler o livro que o inspirou). Do ponto de vista estético o filme é estonteante. E o fato de ele ter sido gravado na fase Thin White Duke do Bowie (magro, ruivo e pálido) faz certas passagens parecerem alegoria do estilo de vida decadente que ele cultivava na época.
Depois do filme fiquei assistindo ao Big Brother Brasil 18 (eliminação da Jaqueline, com direito a Tiago Leifert mostrando o vídeo em que ela prometeu o colar do anjo pro Mahmoud) e ao Tá no Ar (a nova temporada está ótima!) com a minha mãe. Acabei indo dormir tarde, mas não tive problemas para acordar cedo (um pouco antes das 5 da manhã) para tomar banho e ir ao aeroporto. As férias em Goiânia e Brasília foram muito boas, e voltei renovado para o Rio. 
A propósito, em breve vou escrever aqui no blog sobre meu Carnaval.

07 fevereiro 2018

Duas capitais

Voltei ontem da minha tradicional viagem semestral para Brasília, e daqui a pouco viajo de Goiânia para o Rio, onde começarei meu último semestre do doutorado de Sociologia. 
Assim que chegar em casa faço meu também tradicional relato de viagem - e desta vez tenho bastante coisa para contar, pois minha estadia de 4 dias na capital federal foi uma das melhores vezes que estive lá desde que concluí minha graduação na UnB. Vou falar dos(as) amigos(as) que adorei rever, da feira de discos, do jogo no estádio, do evento solene de uma amiga em que fui etc.
Dentro de algumas horas estarei de volta à capital cultural, para terminar minha tese e defendê-la, para quem sabe na próxima vez que eu for para Goiânia (e Brasília) já ser um doutor apto a seguir carreira docente.
Essas férias, que começaram dia 17/12 e terminam hoje, foram bem peculiares; fugiram do padrão das anteriores em alguns aspectos. Talvez eu também deva escrever sobre elas em geral.

31 dezembro 2017

2017-18 season

O ano de 2017 está acabando, mas a sensação é de que na verdade ele continuará, pelo menos por algum tempo, em 2018. Um ciclo começou em Maio e se encerrou em Novembro (Kaio Castorp), e outro deve acabar nos próximos meses (The Sims: Defendendo a Tese).

27 novembro 2017

See how they fly like Lucy in the sky

Há exatos 50 anos, em 27 de Novembro de 1967, a Capitol, gravadora responsável pelos Beatles nos Estados Unidos, lançou o LP Magical Mystery Tour. As seis primeiras faixas iriam compor o homônimo EP duplo, lançado duas semanas depois no Reino Unido, que por sua vez era trilha sonora do filme, exibido pela primeira vez na TV britânica no Natal daquele ano.
Como o formato EP não era popular nos EUA, a Capitol preferiu adicionar cinco faixas lançadas ao longo daquele ano (quatro singles e um B-side) e criar um álbum. O material era tão coeso - afinal, cobria a fase psicodélica dos Beatles - e consistente que o disco americano foi bastante importado pelos ingleses e, vinte anos depois, quando a discografia da banda foi lançada em CD, Magical Mystery Tour se tornou um álbum canônico.
Duas das canções que entraram no disco foram "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane". Gravadas durante as sessões de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band e lançadas como single de duplo Lado A em Fevereiro, como aperitivo para o futuro álbum, ambas estão entre as obras-primas da banda.
"Penny Lane" é mais prosaica, e descreve várias situações e personagens (algumas no mínimo inusitadas) observadas nas ruas de Liverpool; seu arranjo é belíssimo, um dos casos paradigmáticos do chamado "baroque pop".
"Strawberry Fields Forever" é mais consternada, em uma auto-reflexão marcada por dúvida e melancolia: "Living is easy with eyes closed / Misunderstanding all you see / It's getting hard to be someone but it all works out / It doesn't matter much to me (...) Always, no, sometimes, think it's me / But you know I know when it's a dream / I think, er, no, I mean, er, yes, but it's all wrong". Uma das melhores letras de Lennon, e um dos melhores trabalhos de George Martin como produtor (ao combinar dois takes bem diferentes).
Apresentada na 1ª transmissão mundial ao vivo de televisão por satélite, "All You Need Is Love" foi lançada como compacto um mês após Sgt. Pepper's. É uma das primeiras letras de John com cunho mais político/humanitário, algo que se aprofundaria nos anos seguintes, principalmente em sua carreira solo. Sua letra, de mensagem universal, é rodeada por uma melodia poderosa, com alusões à Marselhesa e "She Loves You". Por essas e outras razões, é uma das canções mais icônicas dos Beatles.
Inicialmente concebida para o filme Yellow Submarine, a debochada "Baby, You're a Rich Man" acabou também se tornando o lado B de "All You Need Is Love". É uma combinação de canções incompletas de John (estrofes) e Paul (refrão), em um caso semelhante ao de "A Day In The Life".
A faixa-título do álbum (e do filme) tem um refrão contagiante e uma letra com conotações lisérgicas, segundo o próprio Paul McCartney.
"The Fool On The Hill" é uma bela canção de Paul sobre um personagem sábio que é incompreendido e tomado por louco: "But nobody wants to know him / They can see that he's just a fool (...) He never listens to them / He knows that they're the fools / They don't like him".
"Flying" é uma faixa instrumental recheada de efeitos psicodélicos, e conta com uma rara assinatura coletiva dos Beatles.
A contribuição de George é "Blue Jay Way". A letra foi escrita durante uma viagem de Harrison para Los Angeles; um dia, enquanto esperava seus amigos, ficou observando a neblina nas colinas de Hollywood e teve uma inspiração. A melodia é desconcertante, como se fosse uma "bad trip" em meio à sonoridade ensolarada da maior parte do álbum.
"Your Mother Should Know" é uma típica balada de Paul, marcada por um tom nostálgico. É a trilha de uma das cenas mais simpáticas do filme.

Três dias antes do lançamento do álbum, foi lançado o single "Hello, Goodbye". Sua simplicidade lírica a tornou presença constante em exercícios do tipo "complete as palavras" em escolinhas de inglês. A dualidade entre otimismo e pessimismo é reforçada pela distribuição dos vocais entre Paul e John. Foi um dos maiores sucessos comerciais dos Beatles; na Inglaterra, por exemplo, ficou sete semanas no topo das paradas.
O lado B deste single (além de 6ª faixa do LP) é "I Am The Walrus". É simplesmente uma das canções mais geniais de John Lennon, com uma letra deliberadamente sem sentido, aleatória e repleta de intertextualidade (a começar pelo título, inspirado no poema "A Morsa e o Carpinteiro", presente em "Alice Através do Espelho", de Lewis Carroll). Os primeiros versos parecem ter sido concebidos em uma viagem de ácido: "I am he / As you are he / As you are me /And we are all together". Seguem-se alusões a freiras pornográficas, sufocantes fumantes, Lucy (sim, aquela do céu com diamantes), creme amarelado pingando no olho de um cão morto, pingüins ordinários cantando Hare Krishna... As melhores referências ficaram para o verso final - "Man, you should have seen them kicking Edgar Allan Poe" - e os trechos de Rei Lear emitidos nos últimos segundos. Se a letra é irreverente (com uma pontinha de melancolia - "I'm crying"), a melodia cria uma atmosfera perturbadora, com destaque para a bateria, os teclados e, é claro, a orquestra regida por George Martin. Até o clipe é sensacional, talvez constituindo o clímax do filme. "I Am The Walrus" é uma das canções do quarteto de Liverpool que são mais elogiadas pela crítica especializada - por exemplo, foi considerada a 3ª melhor composição da banda pela revista Uncut e a 2ª melhor pela JamsBio. A propósito, desde a primeira vez que a ouvi, em Abril de 2004, ela é minha faixa favorita dos Beatles.

Contendo pelo menos quatro das melhores músicas do Fab Four, Magical Mystery Tour certamente consta entre os álbuns essenciais da banda.

23 novembro 2017

Diversão e arte para qualquer parte



No dia 23 de Novembro de 1987, os Titãs lançaram seu 4º álbum, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas. Só pelo título e pela capa já é possível perceber o espírito iconoclasta e a reflexão sociopolítica que permeiam este trabalho titânico.

Liminha, um dos produtores de Cabeça Dinossauro, ganha a confiança da banda e contribui significativamente na concepção de Jesus, incentivando os Titãs a usar samplers (máquina de ritmo). Como resultado, a primeira metade do disco tem uma sonoridade que flerta com a eletrônica.
A dobradinha "Todo Mundo Quer Amor" e "Comida" é cantada por Arnaldo Antunes. Ambas têm caráter de manifesto, especialmente a segunda, que combina seus versos contundentes (não por acaso, é presença constante em protestos populares e livros escolares) com vocais de rap e bateria de precisão milimétrica: "A gente não quer só comida / A gente quer comida, diversão e arte (...) A gente não quer só dinheiro / A gente quer inteiro e não pela metade".
"O Inimigo" e "Infelizmente" são músicas conceituais, com sonoridade minimalista e versos crípticos. Funcionam bem na economia do álbum, mas não se destacam por si mesmas.
A lasciva "Corações e Mentes" possui uma estrofe que parafraseia o clássico "Damaged Goods" (Gang of Four) e um ritmo bem dançante, graças à ênfase tipicamente post-punk no baixo e na bateria.
"Diversão" é forte candidata a obra-prima dos Titãs. Seus versos, escritos por Sérgio Britto e cantados por Paulo Miklos, apresentam uma conotação hedonista e por vezes sombria: "A vida até parece uma festa / Em certas horas isso é o que nos resta (...) Às vezes qualquer um faz qualquer coisa / Por sexo, drogas e diversão / Tudo isso às vezes só aumenta / A angústia e a insatisfação". Esta faixa foi regravada com arranjos diferentes no Acústico MTV (com metais e um ritmo mais alegre) e nos discos ao vivo (mais curta - sem a repetição da letra após o 1º refrão - e roqueira), mas a versão original continua sendo a melhor.
Por sua vez, o Lado B do álbum dá continuidade ao punk politizado de Cabeça; as letras, contudo, se tornam menos tópicas e mais elaboradas.
A faixa-título, cujo único verso é repetido de forma cada vez mais raivosa, tem tons apocalípticos; destaque para a linha de baixo de Nando Reis.
"Mentiras", apesar do animado riff de guitarra, tem uma aura claustrofóbica: "Querem me salvar, querem me curar do que eu não sofro (...) Eu não posso viver comigo, eu não posso fugir de mim".
"Desordem" é um tocante retrato dos sombrios anos 80 no Brasil, mas infelizmente continua muito atual: "Não sei se existe mais justiça / Nem quando é pelas próprias mãos (...) São sempre os mesmos governantes / Os mesmos que lucraram antes".
"Lugar Nenhum" evoca um espírito anarquista em sua recusa a adotar qualquer identidade regional ou nacional. Com uma bateria furiosa à la "Rock and Roll" (Led Zeppelin), é uma das mais empolgantes do disco.
"Armas Pra Lutar" mantém a pegada da faixa anterior, e seu riff lembra "Your Phone's Off The Hook But You're Not", da banda punk californiana X.
"Nome Aos Bois" cita o nome de 34 personalidades ligadas a ditaduras, genocídios, guerras, assassinatos ou simplesmente a polêmicas e controvérsias.
"Violência" ficou de fora do LP (talvez porque Charles Gavin estava insatisfeito com a entrada da bateria, que ele pretendia que fosse mais elaborada), mas felizmente foi incluída como faixa final do CD. É uma das letras mais pesadas dos Titãs, especialmente na estrofe final, uma citação de Dissertação do Papa sobre o crime seguido de orgia, do Marquês de Sade (que voltaria a ser tema de uma canção da banda seis anos depois, em Titanomaquia).
No conjunto da obra titânica, Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas pode ser visto como transição estilística entre Cabeça Dinossauro e Õ Blésq Blom (que investirá ainda mais nas letras metalingüísticas e nos experimentos com eletrônica). Para o rock nacional, é um dos álbuns mais interessantes lançados em 87, ao lado de A Revolta dos Dândis (Engenheiros do Hawaii), Violeta de Outono (Violeta de Outono) e Vida Bandida (Lobão).