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Kaio Felipe
Sou uma pessoa muito sistemática, cheia de neuras e tentativas de racionalizar tudo, desde meus sentimentos até a realidade. Logo, costumo agir de maneira arrogante. Não de um jeito esnobe, mas no sentido de criar nas pessoas baixas expectativas em relação a mim, explicitando meus defeitos; é como se quisesse antecipar críticas e me afastar do convívio humano. Sou um libertário de direita bem convicto de seus ideais. Porém, até os 15 anos, fui um esquerdista, que "evoluiu" ideologicamente. Mesmo assim, continuei agindo com certos excessos, e atualmente procuro ser menos intransigente e normativo em minhas opiniões. Sou apaixonado por rock, e gosto de clássicos como Beatles, Mutantes, Velvet Underground e Kinks, 'oitentistas' como Joy Division, Pixies, New Order, Cure e Smiths, além de contemporâneos como Blur, Oasis, Titãs, My Bloody Valentine e Franz Ferdinand. Pretendo ser cientista político e escritor, e estou cheio de projetos literários e acadêmicos que esperam um dia serem concretizados. Fundei linhas de pensamento na filosofia (Anfisismo) e na literatura (Egoperspectivismo), e admito que ambas são bem pedantes. That's the story of my life.

 

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30 Novembro 2009

Insatisfação Crônica - partes II e III

(Hoje foi a última aula de Oficina. Entreguei a versão final para a professora, e continuarei a reproduzí-la por aqui:)

II

Espelho meu, hoje vi um pianista que me fez lembrar Steven. Não, ele não tinha nem um décimo do talento de meu velho amigo – muito embora as pessoas do restaurante em que ele tocou jurassem que aquela performance foi boa. Porém, de qualquer maneira, recordei-me de uma das poucas amizades que fiz na época em que morei na França.
Nós nos conhecemos durante meu terceiro mês como habitante de Nice. Nos dois primeiros, eu ainda não sabia bem o que fazer e como viver na nova cidade. Cheguei até a ir a algumas daquelas palestras abertas ao público, dadas por sociólogos, escritores e tudo mais. Eles falavam sobre análise do discurso, narrativa polifônica, microfísica do poder, capital simbólico, e tudo aquilo que o mundo acadêmico francês adora. Mas, aquilo já não me interessava mais. Comecei a procurar um emprego; não tanto pela vontade de trabalhar e ganhar dinheiro, mas porque precisava de um mínimo para sobreviver. Só por isso; nunca tive grandes ambições profissionais.
Decidi-me, então, por ser músico de rua, pois eu sabia tocar violão bem, e seria um trabalho que também funcionava como distração. Além disso, esses europeus do Oeste são mais generosos que os do Leste, no sentido de darem mais gorjetas. Espelho, não vá achando que levei uma vida de mendigo, por favor! Meus pais, durante os dois primeiros anos, ainda me enviavam algum dinheiro. Não tanto por generosidade, mas por acharem que pais devem financiar os filhos até uma certa idade. Depois que pararam de me dar essa “mesada”, eu já tinha me organizado de maneira que nunca passei fome ou fiquei sem roupas e moradia. Um padrão de vida modesto, mas o bastante para me contentar.
Foi aí que conheci um rapaz calado na Place Massena, local em que eu mais costumava tocar. Após alguns minutos observando aquela figura frágil e pálida, puxei conversa com ele. Acho que o fiz porque fiquei perplexo ao notar que ele tocava... um piano! Oras, era um instrumento atípico para músicos de rua. Porém, fazia-o com tamanho talento que aquilo parecia um concerto de piano, mas sem ingressos que custavam centenas de francos.
Steven Von Meek tinha aproximadamente a mesma idade que eu; era dois anos mais novo, talvez. Inicialmente, não quis falar comigo; continuou tocando, como se não houvesse ninguém por perto. Quando terminou a música que estava executando (que parecia misturar “Jealous Guy”, de John Lennon, com trechos de Tchaikovsky – acredite se quiser!), ele começou a me olhar, como se quisesse demonstrar atenção pelo que eu viesse a falar em seguida. Comecei perguntando por seu nome; minutos depois, já estávamos discutindo nossas preferências musicais.
Nasceu ali, quando eu menos esperava, uma singela amizade.

Nossos diálogos sempre foram curiosos. Sempre que possível, ele respondia minhas perguntas e colocações balançando a cabeça em sinal de “sim” ou “não”. E, quando falava, era o mais lacônico possível. Foi só com o passar dos meses que ele começou a ser menos tímido, e houve até raras ocasiões em que ele puxou assunto para a conversa. Eu sei, caro espelho, que parece uma empolgação tola da minha parte, mas só conhecendo Steven para saber o quanto os pequenos gestos dele podiam ser, ao mesmo tempo, imprevisíveis e gratificantes.
Durante um bom tempo, foi divertida a nossa parceria musical: o violonista Dedalus e o pianista Steven! O público gostava quando ele tocava sinfonias em ritmo de jazz e eu fazia um folk acelerado no violão. Às vezes tocávamos em lugares separados; eu gostava de dar uma passada pelas redondezas do aeroporto, enquanto Steven era fiel à Place Massena. Mesmo assim, nos víamos quase todos os dias, ainda que fosse só na hora do almoço ou no fim da tarde.
Ele era incansável; quando eu parava para descansar um pouco, ele continuava tocando seu piano, como se parar fosse uma traição à música que executava. Não era raro que algum espectador se emocione com as músicas dele. Eu nem ligava de ser um coadjuvante naquela parceria musical; tocar violão por si só era prazeroso, ainda mais em companhia de um bom colega e de um público que, embora geralmente demonstrasse indiferença, vez ou outra se deixava encantar por melodias que não fossem aquelas do trânsito ou do escritório.
Porém, no fim de meu terceiro ano em Nice, nós já tínhamos nos saturado da música. Eu já tinha perdido minha inspiração; além do mais, o piano de Steven estava meio defeituoso. Foi então que ele surgiu com a idéia de sermos mímicos, pois sua própria forma de se comunicar com nosso público envolvia muitas gesticulações e poucas palavras. Muitos chegaram até a pensar que ele fosse mudo, ou mesmo também surdo.
Arranjamos camisas listradas: a minha era de mangas curtas, acompanhada de uma calça preta na altura da cintura; a blusa dele tinha mangas compridas, além de um suspensório que, combinado com os jeans, assemelhava-se a um macacão. A irmã dele, Julie Von Meek (falo mais sobre ela daqui a pouco, reflexo de vidro), sem saber bem o que achava de nossa “mudança de setor artístico”, emprestou-nos maquiagem para o rosto, e até ajudou-nos na pintura. A minha e a de Steven eram parecidas, embora a dele tivesse um semblante mais soturno, enquanto o meu visual ganhou um aspecto blasé.
Nossa primeira apresentação foi em uma praça bem no centro da cidade. Não me lembro se era a Massena, mas imagino que pelo menos era perto de lá. O inverno já estava acabando, portanto não escolhemos um dia sombrio demais para estrearmos nossa mímica. O pavimento era de cor cinza claro, com poucos desníveis. Parte do público que andava por lá não demorou em perceber a novidade. Havia crianças, idosos, executivos, vendedoras e até universitários. Houve momentos em que mais de 30 pessoas paravam para nos ver, mas também havia dias em que no máximo uma ou duas tiravam um tempo para nos observar. E, assim como nos tempos de músicos de rua, trabalhávamos umas dez horas diárias, com pequenos intervalos.
Posso ser honesto? Às vezes, eu até gostava dessa vida despretensiosa. Era bom não precisar ficar dezenas de horas semanais num escritório ou numa sala de aula, fingindo que está tudo bem em ser um “quadrado” estressado. Ainda mais em um país como a França, em que as pessoas já são inclinadas a não gostar de trabalhar de um jeito “workaholic”, excessivo.

Certa vez, conheci a já mencionada irmã dele, Julie Von Meek. Ela é um pouco mais nova que ele, e não foram poucas vezes em que ela viu nossas apresentações de rua, tanto na “fase musical” quanto na nossa, digamos, guinada profissional para a mímica. Um dia, estávamos tomando um café enquanto Steven estava se arrumando. Resolvi lhe perguntar por que o seu irmão agir daquele jeito tão estranho e misterioso. Ela me contou que nem sempre ele é assim, e que, aliás, quando está com ela, Steven chega a ser meio extrovertido e até maldoso; quando eram crianças, vivia aprontando com ela, aproveitando-se do estereótipo de garoto quieto que todos lhe atribuíam.
Olhe, espelho, não nego que fiquei surpreso. Tudo bem que eu já o vi agir de maneira mais irreverente (no bom e no mau sentido), mas ao saber por Julie que ele tende a agir de maneiras diferentes, dependendo da pessoa com quem está, fiquei em dúvida se Steven era realmente quem se fazia parecer para mim. Fui além nessa paranóia: será que ele de fato valorizava a amizade que tínhamos? A hipótese otimista seria a de que ele não precisa fingir ser uma pessoa estridente e agitada quando está perto de mim. Só que, desde então, instalou-se em mim a desconfiança: talvez ele não apreciasse a minha companhia...
Em meados de 2002, nossa relação começou a se desgastar. Ele andava irritadiço e desanimado. Tudo piorou quando, após algumas noites em claro e indisposições com a irmã, Steven teve uma espécie de colapso nervoso. Era uma mistura de catatonia com depressão, e ele chegou até a pensar em suicídio. Isso me deixou profundamente angustiado, e ajudei-o na medida do possível a melhorar. Mas, depois desse episódio, sem dar explicações, ele começou a se recusar a se apresentar comigo. Inicialmente alegou cansaço, mas depois começou a responder de maneira debochada quando eu lhe perguntava o porquê da súbita mudança de comportamento. Se fosse só por alguns dias, tudo bem, mas aquilo virou rotina.
Ele também teve sérios desentendimentos com Julie, demonstrando pouca consideração pela atenção que ela lhe dava. Acho, contudo, que a reação dela, embora um pouco justificável, foi exagerada: ela resolveu desistir do irmão. Espelho, houve pelo menos duas ocasiões naquele período em que ele passou muito mal, e eu tive que levá-lo ao hospital. Enquanto isso, ela alegava que nunca mais voltaria a se esforçar pelo bem-estar de seu irmão, visto que este nunca dera o mínimo de atenção à ajuda que ela sempre oferecia. Acho que faltou a Julie a capacidade de perdoar, por mais que seu irmão muitas vezes lhe fosse ingrato. Até mesmo porque, conhecendo Steven, eu sei que ele também amava sua irmã, embora agisse daquela maneira displicente.
Steven se comportava de maneira cada vez mais estranha; chegava mesmo a ser hostil comigo. Não se empenhava em sincronizar comigo na mímica, e chegou a importunar alguns dos pedestres quando estes o olhavam com desprezo. Não era incomum que ele começasse a, repentinamente, chorar e gritar comigo. Foi-se criando um mal-estar sobre o qual eu não tinha mais controle - e nem queria ter. Era o estopim para a decisão que eu já estava pensando há algum tempo: abandonar Nice. Já estava farto daquela cidade e aquele ar de hipocrisia francesa (você sabe, fingir que está tudo bem enquanto lamenta e resmunga às escuras), e os desentendimentos com um de meus poucos amigos por lá era o motivo que me faltava.
Mas, continuo essa história amanhã. Até que estou gostando desse desabafo, dessas recordações. Espelho querido!


III

Reflexo de vidro, eu ando em uma fase de reencontros. Hoje, acredito ter visto Paola em um restaurante. Sabe quem foi ela? Minha segunda namorada. A primeira foi Katanyna, na minha adolescência, mas não foi uma relação tão marcante e densa (ou seria tensa?) como aquela que tive com esta jovem romana.
Aliás, sobre essa mudança de cidade, farei um breve prólogo. A capital da Itália é uma cidade realmente linda, e dispensa maiores apresentações. Não me decidi por ela movido por princípios aristotélicos ou coisas do gênero. Para falar a verdade, foi por um acaso que fui para Roma: no dia em que estava na estação, havia uma boa promoção para quem viajasse para tal cidade durante aquela semana. Comprei imediatamente.
Lembra-se, espelho, quando falei dos solavancos, anteontem? Pois é, este foi um dos poucos de minha vida recente. Fiz uma escolha sem maiores reflexões ou planejamentos. Arrisquei-me, sem pensar tanto nas conseqüências (eu seria imigrante irregular, por exemplo), e os resultados foram até bons. Como eu tinha algumas economias, logo consegui alugar um pequeno apartamento, nos subúrbios. Com o dinheiro da mímica, e um ou outro bico (você sabe, aqueles trabalhos temporários, geralmente de fim de ano), daria para eu me sustentar. Foi com base nesse encanto da chegada que agüentei Roma no meu primeiro ano por aqui. Como sempre, não durou muito, e o feitiço estava se quebrando, e uma nova crise existencial se anunciando. Foi quando Paola apareceu na minha vida.

Paola Rossi também levava uma, por assim dizer, vida alternativa; trabalhava como vendedora ambulante de livros, nos mesmos bairros da cidade em que eu circulava. Começamos a conversar porque estávamos igualmente curiosos sobre as profissões “heterodoxas” um do outro. Ela queria entender melhor a minha mímica, e eu, o que a levara a ser uma comerciante autônoma de obras literárias – muitas delas raras e interessantíssimas.
Ela, assim como eu, também chegou a ser universitária. Fazia a Escola de Humanidades, Artes e Ciências Sociais na Universidade de Roma Tor Vergata. Paola era de uma família de classe média alta, e levava uma vida bem confortável, com direito a viagens para o exterior, roupas caras, um apartamento confortável e todos os livros e discos que queria ter. Porém, começou a se cansar da vida rica e pacata que levava; sua juventude ansiava por mais aventuras e incertezas. Até chegou a entrar em depressão, e recusou a terapia e os remédios que seus pais pretendiam lhe pagar. Aos 21 anos, ela decidiu largar a universidade. Arrumou as malas e foi morar sozinha, também nos subúrbios romanos.
Espelho, lembro que Paola tem a mesma idade que eu, mas às vezes parece ser dez anos mais velha, mas também dez anos mais nova. Tinha atitudes maduras, contundentes e dignas de uma mulher independente e que sabe exatamente o que faz. Mas, também costumava se comportar como uma criança mimada, geniosa e constantemente à beira de choramingar para os pais, pedindo socorro. Eu não percebi isso durante as semanas em que fomos apenas amigos; apaixonei-me sem saber desse “lado B” dela. Reparava apenas em seus cabelos castanhos, na sua voz rouca e na sua sensibilidade artística. Porém, quando começamos a namorar, passei a conviver diariamente com seu temperamento instável e inconstante.
Ela brigava por qualquer motivo, desde os mais justos - meu egoísmo, por exemplo - até os mais fúteis, como a sua preocupação excessiva com a opinião alheia, a arrogância não-assumida, o fato de detestar meu gosto musical e até divergências políticas (Paola era comunista, e eu, conservador). Eu, que julgava mais cômodo manter um relacionamento medíocre do que voltar ao vazio conjugal, pacientemente suportava todas as neuras dela.
Porém, chegou um dia em que eu não agüentei aquelas oscilações, com sorrisos coexistindo com lágrimas. Não que fosse uma turbulência insuportável, mas aquela repetição de pequenas alegrias e pequenas tristezas tinha me desgastado. Quando ela falou, pela 18ª vez desde o início do namoro (nas outras dezessete, ela sempre voltava atrás), que queria terminar comigo, eu finalmente disse “sim”. Acho até que ela ficou surpresa.
Quando acabou tudo, após seis meses de relacionamento, eu pensei ter acordado de um pesadelo. Espelho, preste atenção: não é que o namoro foi extremamente ruim, mas era justamente essa alternância entre bons e maus momentos, mas nunca pendendo absolutamente para um dos lados, que me irritou. Se, por um lado, Paola rompeu com a morosidade que reinava em minha vida, por outro só corroborou com as dúvidas e dilemas que tanto me marcaram até hoje.
Nós tivemos bons momentos, é claro. Saíamos bastante, nossa convivência doméstica (ela morou no meu apartamento durante alguns meses) costumava ser agradável, tínhamos altos debates filosóficos e literários... Porém, nossas personalidades eram muito diferentes, e a minha dificuldade em lidar com um relacionamento que demandava tanta paciência e sacrifício emocional, somada à inconstância do humor dela, destruiu aos poucos a paixão que sentíamos um pelo outro. O rompimento, felizmente, foi amigável. De vez em quando, até nos encontramos por acaso na cidade e conversamos.

Como estava dizendo, acho que a vi hoje. Não posso te dar certeza absoluta porque só pude enxergar as costas da garota, muito embora estivesse no mesmo restaurante e na mesma mesa que costumávamos freqüentar. Imagino que era Paola mesmo. Por que não puxei conversa? Estava sem vontade. Mesmo com o clima ameno que se seguiu à nossa separação, algumas daquelas memórias me atormentaram durante o último ano e meio. Ainda me pego olhando para você, espelho meu, à noite, pensando em como minha vida poderia ter sido mais satisfatória. Eu sei perfeitamente que deveria me arriscar mais, e não ficar esperando que as coisas caíssem do céu para mim. Mas sei lá, a letargia contaminou toda a minha alma, e não consigo reagir diante disso...
Acho que, tanto hoje quanto sempre, estava diante de uma miragem. Não sei ao certo. A vontade de encontrar um oásis é tão grande que, mesmo que inconscientemente, acredito em imagens, em impressões. A dúvida que alivia é menos dolorosa que a certeza que desconcerta. Enfim. Mas, veja bem: pressinto um novo reencontro, vidro de reflexo.

29 Novembro 2009

Insatisfação Crônica - parte I

(Texto que produzi para Oficina Literária, em 5 partes. Publicarei as outras quatro no decorrer da semana)

DEDALUS SLOWACKI
13 a 17 de maio de 2005.

I

Espelho, espelho meu! É hora de (mais) uma conversa séria! Sim, é sobre a mesma ladainha de sempre: minha insatisfação crônica.
Fui inocente de acreditar que esse nomadismo todo me traria alguma realização. Vinte e dois anos morando na Polônia, outros cinco na França e os últimos três na Itália... Mas continuo me sentindo incompleto! Sendo piegas, mudei meu exterior, mas não meu interior.
Não que minha vida seja repleta de tragédia e tristeza. Pelo contrário, acho até que falta. Porém, pouca coisa até hoje realmente me fez plenamente feliz. Não faltou variedade; já tentei de tudo, desde a universidade até a mímica. Infelizmente, nada disso foi o bastante para me deixar mais contente em viver.
Espelho, como já lhe disse várias vezes, converso contigo porque não tenho ninguém mais com quem dividir a minha vida. Passo boa parte do dia calado – afinal, sou mímico! -, e, quando chego a casa à noite, despejo tudo o que eu queria falar a você, meu reflexo de vidro.
Em parte, é por escolha minha que sou solitário. Sou um individualista incorrigível; construí minha rotina de maneira à sempre estar voltado para meu próprio bem-estar. Até meu trabalho, por envolver muito a arte, me exige pouca dedicação à vida alheia; é quase auto-suficiente, como se nem fosse necessário que os transeuntes contemplem minha mímica.
Porém, não nego que gostaria de dividir minha vida com alguém, seja com um amigo ou com uma companheira. Já tentei das duas possibilidades, mas nenhuma delas durou o bastante para se consolidar e alterar minha rotina. Steven, em Nice, e Paola, aqui em Roma, que o digam.

Minha infância foi tranqüila, sem grandes traumas, tampouco momentos de extrema felicidade. Meus pais me proporcionaram um padrão de vida razoável, embora nunca fossem muito afetuosos. Na adolescência, fiz algumas amizades, e até mantive uma ou outra com o passar dos anos. Porém, com o tempo fui perdendo o interesse por aquelas pessoas; não sei se por achá-las entediantes, ou se era eu a encarnação do tédio.
Depois disso, entrei na universidade e fiz um curso de Literatura Polonesa por três anos. Vários dos livros e autores com que tive contato naquela época até hoje me marcam. “Solaris”, de Stanislaw Lem, é até hoje meu romance sci-fi predileto, com seu tom perturbador e tão desolador. Tem uma passagem que me marcou profundamente. É mais ou menos assim: “O homem saiu para explorar outros mundos e outras civilizações sem ter explorado seu próprio labirinto de passagens escuras e câmaras secretas, e sem haver descoberto o que jaz atrás das portas que ele mesmo lacrou”. Seria muita pretensão da minha parte dizer que isso é praticamente um resumo da minha vida?
Há também aquele que leio nos momentos em que estou um pouquinho esperançoso. Adam Mickiewicz é o maior dos românticos de minha terra natal, numa época em que a Polônia sequer era independente. Sempre recorro à poesia crua de Czeslaw Milosz quando estou desiludido e às vésperas de desistir de tudo, precisando desesperadamente de uma razão para manter a fé na “realidade”.
Fui, no entanto, me chateando com a universidade. Acho que não nasci para levar uma vida erudita, formal e com um futuro, tanto profissional quanto acadêmico, tão linear. Perdoe-me pela jocosidade, espelho meu, mas considerava a maioria daqueles professores e colegas como pessoas “quadradas”! Você sabe: sem paixão, sem alma, sem carisma, sem capacidade de fugir de um caminho fácil e conhecido.
Foi aí que me decidi por fugir daquele mundo, mas não só dele; também queria dar adeus à minha família, a meus parcos e desinteressantes amigos, à minha ex-namorada Katanyna... Enfim, à Polônia e a pouca atração que ela me exercia. Após algumas semanas de burocracia (na época, eu ainda tinha paciência para isso), arranjei um passaporte e fui para o Oeste. Europeu, é claro.

Mudei-me para Nice, na França. Escolhi-a porque ela tinha um ar de “meio-termo”: era populosa (uns 300 mil habitantes), mas não tão grande quanto Paris ou Marselha; tinha clima mediterrâneo, um equilíbrio entre chuvas e calor; é visada pelos turistas, mas de difícil acesso por ficar perto dos Alpes; é uma cidade histórica, mas que não chega a ser exageradamente nostálgica como uma Veneza da vida. Além disso, não me esqueci de que, certa vez, meu professor de Literatura Positivista – Século XIX mencionou que já havia morado lá, e cobrira a cidade de elogios. Mal sabia ele que alguém ouviria seu conselho...
Sendo sucinto, fui músico de rua durante uns três anos, mas cansei e resolvi virar mímico. É dessa época que conheci Steven Von Meek, um dos poucos colegas que fiz por lá. Com o tempo, no entanto, fiquei farto daquela cidade – e dos franceses em geral -, e resolvi partir para a Itália, onde moro desde 2002. Continuo na mesma: um mímico com Ensino Superior incompleto.
Ah, ainda sobre o tal do “meio-termo”... No fundo, tudo que eu faço é pautado por uma busca da “justa medida”. Só que, muitas vezes, isso é frustrante e infrutífero; ao evitar os extremos, eu permaneço em uma espécie de zona cinza, em que nada é especialmente interessante. É como se eu fugisse da possibilidade de, experimentando a euforia e a melancolia, encontrar-me. Será, espelho meu, que meu erro é justamente esse – não ser “selvagemente ambicioso”?
Não tenho a resposta, portanto contentar-me-ei em continuar falando da minha rotina, certo? Pois bem. As ruas de Roma continuam pouco interessantes. Como sempre, algumas pessoas param para ver minha mímica, poucas delas se divertem, a maioria ignora ou não acha graça... Enfim, o de praxe. Sinto falta de alguma novidade, de algo inesperado. Afinal, seria por meio de um desses solavancos que minha patética existência passaria a ter algum sentido, sabe?
Não quero mais saber, meu caro, de hoje.

21 Novembro 2009

Sobre E. Burke

Essa foi a semana mais docente da minha vida, rs. Dei duas aulas. A primeira foi na quarta-feira passada, em Teoria Política Moderna; sou monitor da matéria, e o professor deixou que eu lecionasse na 2ª aula sobre Edmund Burke. A outra foi ontem, em Teoria Sociológica 1, pois foi o seminário de meu grupo, sobre "Economia e Sociedade", de Max Weber.
A seguir, o roteiro que segui para a aula burkeana:

1. Burke, um conservador?

1.1. Conservadorismo é a filosofia ou postura política que afirma a importância social e política da estabilidade e da continuidade. O crescimento orgânico é mais seguro e bem-sucedido que ambições racionalistas e revolucionárias, cujos resultados são mais incertos e constantemente desagregam a comunidade. Com isso, a melhor ordem social é aquela que, apoiada nas tradições, modera e limita o egoísmo natural do ser humano.
Os conservadores acreditam que os governantes devem levar em conta a opinião pública e os preconceitos, que expressam o bom senso, a sabedoria popular. Além disso, há um sentido moral na liberdade defendida pelo conservadorismo; ela não deve ser vazia de sentido.
Existem vários tipos de conservadorismo: a) Liberal, que combina a defesa do livre mercado e da responsabilidade individual com valores tradicionais; b) Fiscal, que defende a austeridade do governo nos gastos públicos; c) Social, que se preocupa com a ordem e a estabilidade da sociedade; d) Cultural, no caso de povos ou nações que preservam as suas tradições e valores; e) Religioso, quando se procura utilizar ensinamentos de uma religião como base para a argumentação política.
O conservadorismo americano é o que mais assimila idéias liberais, muito embora enfatizando mais a meritocracia e a cultura do esforço do que a defesa dos direitos individuais, tão cara ao liberalismo. Tal tendência foi seguida pelos britânicos a partir do fim dos anos 70, com a ascensão de Margareth Thatcher e seu discurso privatizante. O conservadorismo da Europa Continental – e, de certa maneira, aquele adotado no Brasil e na América Latina – tem um caráter mais paternalista, antiliberal (pois acreditam que o individualismo enfraqueceu os laços sociais), forte influência de valores cristãos e a defesa do intervencionismo visando à promoção da ordem e da união nacional.
1.2. Os conservadores avaliam uma instituição pelo seu passado e tradição; em outras palavras, ela ganha legitimidade na medida em que mantém, por meio de uma evolução gradual, aquilo a que se propôs a garantir. Sendo assim, a conservação dos costumes, a harmonização dos conflitos e seu peso histórico seriam suas maiores virtudes.
Já os liberais falam em eficiência, pois preferem as instituições que alcançam os objetivos para os quais foram criadas, independentemente de serem novas ou antigas. O importante é que ajam de acordo com as forças espontâneas do mercado (a livre concorrência, por exemplo) e voltados para objetivos socialmente benéficos, através de externalidades positivas.
Os libertários enfatizam a importância de que as leis e os costumes não firam as liberdades civis e os direitos individuais. Eles acreditam na primazia do respeito à autonomia do indivíduo de fazer suas próprias escolhas, pois é dono de seu corpo e responsável por suas ações. Há, porém, a condição de que não prejudique o direito dos outros de também gozar dessa autodeterminação.
1.3. Edmund Burke se distingue do liberalismo de John Locke, o principal ideólogo do partido Whig. Enquanto o pensamento lockeano dá um caráter filosófico/metafísico aos direitos do homem, Burke entende-os como sagrados (viés teológico), e também como resultado da experiência acumulada dos séculos. Há aproximação de ambos, no entanto, quanto à idéia de proteção da propriedade privada como origem do governo.
Burke defende que o tempo e a experiência formam uma aristocracia capaz de fazer políticas que gerem o bem-estar para a coletividade. A justiça, a paz e a ordem são tão importantes quanto a liberdade; portanto, deve-se objetivar não uma sociedade perfeita, mas aquela que for praticável.
Do ponto de vista epistemológico, ele aproxima-se ligeiramente dos empiristas, como David Hume, por acreditar no hábito e na experiência como fontes de conhecimento. É também cético quanto às capacidades criadoras da razão humana. Para ele, há uma realidade, que não depende de nós; apreendemos a natureza com referência na tradição lentamente forjada por nossos ancestrais. Burke é, portanto, crítico dos utilitaristas, dos democratas radicais que seguiam Rousseau e do racionalismo dos filósofos iluministas. As três tendências criticadas por ele compartilham a crença na especulação metafísica, pois acreditam nos poderes da razão no sentido de ordenar e reorganizar a sociedade.
Ideologicamente, Burke considera-se um Whig da velha guarda, pois apóia reformas orgânicas e não simpatiza com o viés iluminista e pró-Revolução Francesa dos “novos” Whigs. Aproxima-se das idéias do partido Tory nos momentos reacionários de sua retórica, mas não se compactua com eles quanto à intolerância que demonstram com os católicos e sua posição pró-imperialismo britânico na Índia e na Irlanda.
1.4. Há vários motivos para considerar Edmund Burke um liberal-conservador. Existe um aspecto moderado e anti-revolucionário em seu pensamento, como a defesa dos costumes, convenções e as tradições do direito consuetudinário, assim como a a limitação dos poderes do governo, a ética da política pautada pela religião e o anti-racionalismo.
Porém, Burke também afirmou a proeminência da propriedade privada como um dos fundamentos de uma sociedade livre e vigorosa. Simpatizante da causa dos colonos da América, ele alegou que eles eram dedicados à causa da liberdade segundo a concepção inglesa e baseada nos mesmos princípios da revolução Whig de 1688. Também foi crítico da administração inglesa na Índia, e defendia os direitos dos católicos e a liberdade comercial de sua terra natal, a Irlanda, que sofria imensa opressão religiosa e política da Inglaterra. Aliás, essa defesa dos interesses irlandeses lhe custou uma derrota eleitoral em seu distrito, em 1780.

2. Os legados da Revolução Inglesa e os erros da Revolução Francesa

2.1. Legados: ao invés de eleições e autogoverno, consolidou-se o respeito à hereditariedade e a limitação dos poderes da Coroa. Houve a conservação das leis e liberdades tradicionais. O respeito à herança de nossos antepassados permitiu conservar a unidade na diversidade, evitando desordens e excessos. Forneceu, também, meios seguros de conservar, transmitir e também de melhorar esses hábitos.
2.2. Erros da Revolução em França: em primeiro lugar, a corrupção da moralidade e dos costumes. A luta pela abolição de certos vícios levou a excessos em outros, ainda mais danosos. As instituições já existentes na França, como a religião e a monarquia hereditária, só precisavam de algumas reformas para voltar a ser fortes e saudáveis. Porém, a Revolução Francesa, desde o início, desprezou-as, ao procurar destruir o edifício já existente para criar um novo, sem se preocupar com as gerações anteriores e posteriores. Para o autor, os revolucionários podem ter subvertido a monarquia, mas não recuperaram a liberdade.
2.3. A usurpação e o abuso de poder foram outro aspecto criticável da França revolucionária. O pensamento burkeano considera o poder o maior dos males, pois pode corromper e não gerar resultados mais satisfatórios do que teria se fosse limitado. Os arbítrios são especialmente perigosos quando há ingerência nos meios de subsistência do povo (p. ex., a agricultura), o que leva à sua defesa veemente dos direitos de propriedade privada.
2.4. Outro erro dos franceses foi superestimar a Razão humana. Burke é contrário a um sistema moral sintético e planejado, algo muito comum entre os racionalistas do século XVIII. Para ele, um governo que se guia por idéias abstratas tende a ser mais arbitrário e tirânico. O espírito de inovação tende a ter uma perspectiva restrita e ser egoísta. O autor possuía, portanto, uma postura anti-racionalista: a razão humana é limitada, e não é capaz de organizar a sociedade com especulações filosóficas.

3. A importância dos costumes

3.1. Os costumes são a bússola que nos guia. A cultura moderna deve mais do que gostaria a eles. A prosperidade depende de princípios protetores naturais. Devemos nos guiar por preconceitos, ou seja, pelo que há de bom e sábio no senso comum. Uma revolução nos sentimentos e opiniões é desnecessária, e poderia ser catastrófica.
3.2. A religião impõe aos cidadãos a responsabilidade por seus atos perante Deus, o fundador da Sociedade. Ela aproxima o homem da perfeição, dando-lhe o sentido moral para sua existência. Garantem-se, assim, os sentimentos e valores primitivos e contínuos da humanidade.
3.3. Para Burke a jurisprudência é a razão acumulada dos séculos. Baseada na tradição do direito consuetudinário, ela garante a estabilidade e um terreno sólido para a justiça, assim como conserva a propriedade.
3.4. O Estado é uma associação não só entre vivos, mas também entre os mortos e os que irão nascer. Portanto, mesmo estando no reino universal (dos homens), os homens do Estado não estão moralmente livres para seguir suas vontades, quebrar os laços da comunidade e dissolvê-la em um caos anti-social.

4. A Democracia segundo Burke

4.1. A democracia pode ser necessária e desejável, mas esse não foi o caso da França, nem de nenhum governo democrático já existente. Pode-se dizer que a democracia absoluta leva à opressão da minoria (que, com o tempo, poderá se tornar uma maioria submissa), grandes divisões (fracionamento da coisa pública) e a uma severidade ainda maior que a da monarquia absoluta.
4.2. O povo não pode exercer, de baixo para cima, uma dominação contra a natureza, pois não é a medida do bem e do mal. Precisa, aliás, se livrar de suas ambições egoístas e arbitrárias. A autoridade popular, se absoluta e ilimitada, pode levar a abusos de poder. Uma perfeita democracia seria vergonhosa e temível.
4.3. “É mais fácil imprimir valores republicanos em uma monarquia do que qualquer coisa monárquica em formas republicanas” (Boligbroke). A monarquia francesa poderia se corrigir por meio da religião, das leis e da opinião pública; não havia a necessidade de experimentação política, destruindo o que havia de bom e útil.

5. Falhas do poder Legislativo e do Executivo na França revolucionária

5.1. O verdadeiro legislador é sensível e desconfia de si mesmo, e não é arrogante, precipitado e exaltado. Deve-se evitar a ótica do exagero, que mostra vícios e defeitos sem olhar para as qualidades; pois, assim, acirram-se as tensões políticas.
5.2. Como conciliar a obediência e a ordem com a liberdade, para formar um governo livre? Criticar é fácil, resolver as dificuldades demanda habilidade, coragem e vigor. As instituições velhas são julgadas pelos seus efeitos, se atingem suas finalidades. Já as novas precisam responder perfeitamente aos fins buscados. Tal tarefa ambiciosa não foi alcançada pelos legisladores franceses.
5.3. A monarquia francesa não era tão despótica quanto dizem; a ação dos legisladores O rei francês está em uma situação desonrosa: sem autoridade, pois carente de qualquer faculdade deliberativa, e não tem controle sobre as atividades da Assembléia Nacional; sem direito de se opor a nada, já que não pode votar contra os projetos da Assembléia Nacional; e, sem prerrogativas, porque é impedido de, por exemplo, declarar guerra e paz. O único papel que lhe foi dado foi o de carrasco; ou seja, quem manda executar as leis, e sem poder recompensar quem cumpre suas ordens.
5.4. O espírito do medo não faz a glória de uma nação. Trocando em miúdos, o temor em dar prerrogativas de guerra e paz ao rei levará a uma situação indesejável: uma força executiva enfraquecida e ineficiente. Os franceses, ao não constituírem uma forma de autoridade, estão expostos à anarquia e às invasões externas.

6. Conselho aos Ingleses

6.1. Não seguir o exemplo desastroso dos franceses, em que há liberdade para alguns e servidão opressiva para outros. Na verdade, é a França que deveria se espelhar na Grã-Bretanha. Afinal, a Constituição Britânica é privilegiada: possui um espírito patriótico, independente e livre.
6.2. As mudanças devem ser feitas com o intuito de conservar, no mesmo estilo que a construção já existente. Ou seja, fazer a opção por reformas orgânicas, que preservam o que há de bom e ajustam o que pode ser melhorado.
6.3. Como lidar com os valores que herdamos de nossos antepassados? Devemos conservá-los, e imitar a prudência que lhes foi característica. A liberdade não se basta por si só; precisa de sabedoria e virtude. Esta moderação não pode ser vista como covardia e traição, como estão fazendo os revolucionários franceses.
6.4. A tirania, a opressão e a opulência são indesejáveis. Acima de tudo, deve-se manter a ordem, mas variando seus meios de ação para garantir unidade, estabilidade e equilíbrio na sociedade e na política.

7. A influência de Burke sobre o pensamento conservador (e liberal)

7.1. Michael Oakeshott foi um dos principais intelectuais do conservadorismo no século XX. Porém, ele não segue a linha tradicional dessa corrente, pois não fundamenta sua tese em crenças religiosas, uma visão orgânica da sociedade ou um egoísmo inato. Oakeshott acreditava em um temperamento conservador; ou seja, não o considera como teoria ou ideologia, mas sim uma disposição, um comportamento. Conservador seria aquele que tem preferência por costumes e instituições que existem por longos períodos; ou seja, aquilo que já é conhecido e experimentado é mais desejável. Nem toda inovação é um melhoramento, e a mudança é uma ameaça à identidade. Cabe ao governo administrar as regras do jogo, conhecidas e consentidas, e não impor crenças e/ou coordenar, educar seus súditos.
7.2. Para o economista Joseph Schumpeter, no processo político, prevalecem os interesses individuais; portanto, não se pode falar em vontade geral, do povo. Muitas decisões são feitas por motivações irracionais ou extra-racionais. A democracia deve consistir basicamente em um método, em que eleições são disputadas pelas lideranças políticas. Seus temores quanto a uma participação popular ampliada lembram o receio de Burke quanto à autoridade popular.
7.3. José da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, importou as idéias burkeanas para o pensamento político português – e, conseqüentemente, o brasileiro. Anglófilo, defendia doutrinas econômicas liberais, mas politicamente era reacionário e “situacionista”. Defendeu a união de Brasil a Portugal, e acreditava na manutenção dessa unidade por meio de reformas e concessões de ambos os lados, visando às necessidades e opiniões de portugueses e brasileiros.
7.4. Friedrich Hayek se considera ideologicamente um Whig burkeano. Porém, no posfácio de “Os Fundamentos da Liberdade”, ele afirma que não é conservador, pois, segundo ele, tal ideologia é incapaz de elaborar um conceito geral sobre a maneira pela qual a ordem social consegue sustentar-se, tem tendências totalitárias e freqüentemente apela para a base teórica dos liberais ou socialistas. Porém, Hayek apresenta idéias típicas de tal corrente política, como seu tom crítico à democracia e a afirmação de que a razão humana não pode ser utilizada para gerar poderes coercitivos e exclusivos para o governo.
7.5. No Reino Unido, Burke foi um grande referencial para dois dos maiores estadistas do Partido Conservador: Benjamin Disraeli e Winston Churchill. Disraeli foi um dos parlamentares britânicos mais destacados do fim do século XIX. Dotado de uma retórica feroz, defendia os interesses da aristocracia rural e tinha posições protecionistas e imperialistas. Churchill, por sua vez, destacou-se pela sua postura patriótica – e, muitas vezes, belicista. Liderou a resistência do Reino Unido à ofensiva nazista durante a II Guerra Mundial, e como primeiro-ministro era anticomunista e defendia a aproximação com os Estados Unidos e a manutenção do Império britânico.
7.6. Nos Estados Unidos, a influência burkeana se fez sentir na Guerra Fria, quando vários presidentes americanos, especialmente os Republicanos, justificavam sua “doutrina de contenção” a partir de teses de Burke. O comunismo era visto como uma “doutrina armada”, e a URSS, como a nova França jacobina – a potência subversiva do século XX. A política externa americana, em governos como o de Eisenhower, adotou mecanismos de segurança externa e mútua contra as forças comunistas, como a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Clamou-se pela defesa da civilização contra os inimigos da ordem e da justiça.

Referências bibliográficas:

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução em França. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1982.
CHÂTELET, François. História das Idéias Políticas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
HAYEK, Friedrich. Os Fundamentos da Liberdade. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1983.
OAKESHOTT, Michael. “Sobre o fato de ser conservador”. IN: CRESPIGNY, Anthony de (ed.). Ideologias Políticas. 2ª edição. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1999.

Sites consultados:

http://causaliberal.com.br/causaliberal/index.php?option=com_content&task=view&id=45&Itemid=25
http://educacao.uol.com.br/biografias/edmund-burke.jhtm
http://en.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Disraeli
http://en.wikipedia.org/wiki/Conservatism
http://en.wikipedia.org/wiki/Churchill
http://en.wikipedia.org/wiki/Edmund_Burke
http://partidoconservador.blogspot.com/2007/08/mas-afinal-o-que-isto-de-ser.html
http://partidoconservador.blogspot.com/2007/08/os-inimigos-do-conservadorismo-segundo.html
http://www.arqnet.pt/portal/teoria/burke.html
http://www.arqnet.pt/portal/teoria/burke_lisboa.html

13 Novembro 2009

Eterno Retorno ou Uma Segunda Chance?

"Não existem coincidências, apenas simetrias." Eis o lema que César retirou de uma aula inocente sobre probabilidade e estatística. Pois bem, a sua vida parecia seguir este esquema. A mais recente prova disso é que ele iniciou o namoro com Cristine duas semanas depois do último COPOL (a grande confraternização futebolística de seu curso, Ciência Política), e terminou-o também 2 semanas antes da nova edição do torneio.
Muita coisa ocorreu nos seis meses que separaram os, digamos, Copóis. Além, é claro, das turbulências do namoro, César teve várias boas e más novidades. Entrou no programa de educação tutorial, melhorou a relação com a família e com seu room-mate Mário, permaneceu mais algum tempo em 'ressaca literária', afastou-se um pouco de seus amigos de curso (mas, em Outubro reaproximou-se deles) etc.

Está começando um novo ciclo? Ou a vida é mesmo linear, e eu estou tendo uma nova oportunidade de acertar os eixos e progredir?
Se eu aceitar a 1ª alternativa, faz todo o sentido: eu estava em um impasse no COPOL passado, à beira do fim de uma paixão e do início de outra, incerto sobre os êxitos acadêmicos a curto prazo e menos tranquilo e contente comigo mesmo do que o normal.
Pois bem, Novembro chegou, e estou em um momento parecido. Não tão angustiado quanto estava em Maio, é verdade; mas, ainda assim necessitado de reencontrar as forças para encerrar o ano bem. Estou praticamente livre da paixão que sentia por Cristine, porém esse restinho que ainda não extirpei ainda dói um pouco. Não sei o que fazer para eliminá-lo. Um novo relacionamento? Metas intelectuais e acadêmicas bem definidas (um jeito mais saudável de ser workaholic)? Sair mais com meus amigos(as)? Ou, sei lá, libertinagem e boemia, rs?

Vamos pensar sobre a outra opção. Os últimos seis meses inegavelmente trouxeram vários progressos para a minha vida. Com as devidas proporções, fiquei mais maduro e auto-consciente dos meus limites, além de menos misantrópico e pedestáltico. Mas, ainda assim poderiam ter sido semanas melhores. Fui omisso quando deveria ter tido iniciativa, agi precipitadamente quando deveria ter ficado quieto.
Pode-se dizer que ganhei uma segunda chance. Reconquistei minha liberdade, e agora posso utilizá-la para fazer escolhas melhores do que as que fiz anteriormente. Não necessariamente as coisas acontecerão rápida e intensamente, como em Maio; podem seguir um curso mais lento e cadenciado. O que, no entanto, não será algo ruim. Tudo depende de como eu vou lidar com as responsabilidade dos meus atos e decisões.
Ei. Prefiro pensar as coisas dessa 2ª maneira. Um eterno retorno significaria um eterno fracasso, e eu não acho essa uma perspectiva de vida muito animadora... Mesmo que a concepção linear seja uma ilusão, eu prefiro trabalhar com um cenário em que há alguma chance de "happy ending" do que me resignar à impossibilidade de ser feliz e satisfeito - seja lá o que essas duas palavrinhas signifiquem!
Estou até parecendo um existencialista de direita, hehe. E, amanhã já está chegando. Boa noite!

04 Novembro 2009

Now she's on purple, now he's the turtle

César começou a sentir dentro de si uma mistura de culpa, vergonha e serenidade. Aquela, porque tratou mal Cristine no fim do namoro; por exemplo, demorou 4 dias para voltar a falar com ela, e poderia ter passado mais tranquilidade em sua "1ª conversa como ex". Vergonha, porque agiu de maneira imatura até nos momentos finais de sua relação, como se fosse uma criancinha mimada que, quando contrariada, fere inadvertidamente aqueles que se importam com ela. E serenidade pois, apesar de tudo isso, o clima entre ele e Cristine aos poucos vinha adquirindo paz e estabilidade.
Quanto a Júlia, ele sabe bem o que fazer: nada. No máximo, manter as conversas triviais, afinal ambos adoram dialogar sobre coisas inúteis e aleatórias, embora travestidas de cult. Os livros de Teoria Política (ele) e História Econômica (ela) que haviam comprado na semana passada, o novo álbum do Muse, as novidades sobre a turnê do Franz Ferdinand em Cosmopólia, qual filme assistir no cinema, o que escrever para a próxima aula de Oficina Literária etc.
Tocar no assunto "strawberry girl", no entanto, estava fora de questão. Não que Júlia se sentisse mal em falar dela, mas porque havia um clima sutilmente tenso entre os regressos da viagem. Embora tenha parado de brigar com Henrique, Cristine ainda não tinha obtido uma reconciliação completa com ele e outras pessoas: Manuela, Ingrid, Fábio... Aliás, a própria possibilidade de falar sobre 20 pessoas diferentes na mesma conversa desencorajava César de sequer mencionar essa temática! É claro, no entanto, que não via a hora de essa situação estranha se encerrar.

Ok, evito falar sobre ela com o César, mas me sinto na necessidade de entender o enigma que é Cristine. Temos tantas semelhanças e diferenças que não custa nada enumerar, com um top 5 para cada (juro que a pessoa viciada em listas dessa história não sou eu! É apenas para demonstrar uma teoria, tudo bem?).

S5 - Não nos damos tão bem assim com nossas respectivas famílias, emboras os motivos - e a maneira como lidamos com isso - sejam bem diferentes.
S4 - Achamos que o César, embora tenha idéias bacanas, possui uma retórica fraca, e precisa desenvolver melhor sua capacidade de filosofar se quiser ganhar alguma discussão mais profunda e/ou não parecer prolixo e raso.
S3 - Ela, assim como eu, é alta, magra, de pele branca e cabelos escuros. De quebra, também vive com a neura de que está gorda.
S2 - The Smiths foi a banda que salvou nossas vidas, embora eu também dê crédito para os Pixies nessa redenção.
S1 - Fazemos Relações Internacionais, e ambas somos REL frustradas às avessas. Porém, eu amo Economia e Literatura, e ela quer fazer Sociologia.

D5 - Ela tem os colhões (?) para mudar de curso, enquanto eu me conformarei em tirar o melancólico diploma de, hã, internacionalista.
D4 - Sem querer parecer imodesta, mas sou emocionalmente mais estável que ela. Essa constância não necessariamente é algo maravilhoso, mas vocês não entenderiam por que.
D3 - Eu não acho que Blur é uma mera boy band sem graça (que heresia!), e ela não pensa que a MPB é um inferno repleto de gente chata, pedante e pretensiosa.
D2 - Ela é de esquerda e eu, de direita. Sendo mais detalhista, a Cristine faz a linha desconstrutivista/feminista/socialista utópica, enquanto eu sou uma liberal-democrata à moda antiga, e "Chicago girl". Como o César é libertário e simpatizante do individualismo de Hayek, Ayn Rand e Thoreau, nem preciso falar que havia divergências ideológicas sérias entre eles...
D1 - Por último, Cristine tem menos receio de demonstrar sentimentos por alguém, o que é uma faca do dois gumes, pois não é fria e introspectiva como eu, mas se expõe mais facilmente a decepções e hostilidades.

O César ia adorar uma lista desse tipo, como vocês podem imaginar. Foi de propósito, afinal eu sei que ele vai ler isso e se segurar para não falar - pelo menos explicitamente - sobre esse duplo top 5 comigo amanhã.
Cansei. Vou tomar um chocolate quente e ir para cama.

03 Novembro 2009

A Loucura Sentimental

É uma história meio confusa, mas vou tentar explicá-la.

Antes de mais nada, uma breve introdução. Meu nome é Júlia, tenho 19 anos e estudo Relações Internacionais na UNICOS (na verdade, majoritariamente faço matérias de Letras e Economia, mas isso não vem ao caso).
5 meses e meio atrás, César, meu melhor amigo, começou a namorar uma garota chamada Cristine, a quem apelidamos de "strawberry girl" em razão da música homônima do Siouxsie and the Banshees.
O problema é que, de certa maneira, ele refletiu o platonismo que sentia por mim em sua namorada. Em outras palavras, embora sempre a tratasse por Cristine, inclusive quando entre amigos(as), ele escrevia textos chamando-a de Júlia. É algo do tipo "minha amada se equipara ao meu ideal romântico, a algo que antes eu considerava intangível". Estranho, não?
Não foi a primeira vez que ele fez isso; o mesmo tinha acontecido com as pobres coitadas da Melissa e da Flor, que tiveram que aguentar esse Werther ambulante projetando suas utopias femininas nelas.
Eis a complicação: ele gostava muito dela, mas amava a idéia que fazia dela. Porém, não foi uma paixão tão contemplativa quanto as outras quatro ou cinco que já teve, pois ele tomou a iniciativa quando precisou - ou pelo menos se deixou levar quando usualmente não deixaria. A despeito de todas as brigas e complicações, o namoro César-Cristine foi repleto de momentos genuinamente felizes, e de fato houve atração não apenas psicológica, mas também física. Enfim, existiram reciprocidade, cumplicidade e companheirismo na relação dos dois, e não um, digamos, "unilateralismo platônico".

A trama se complicou quando eu também comecei a delirar. Talvez porque também estava absurdamente apaixonada pelo César, eu comecei a achar que ele estava namorando a mim (sic), que eu estava no lugar de Cristine. O fato de que ela é colega minha; e, por sermos confidentes, ela vivia me contando detalhes de seu relacionamento, afinal jamais imaginaria que sua interlocutora gostava de seu namorado. Isso me fez enlouquecer mais ainda, pois eu me imaginava em situações que ela passara com ele. O Post-silence foi a expressão literária de como ele e eu, de uma maneira intermediária, nos amamos nesses últimos meses. Ele, idealizando Cristine como se fosse eu; quanto a mim, colocando-me no lugar dela.
As coisas começaram a ir longe demais quando tanto eu quanto ele começamos a adulterar os diálogos que nossos 4 melhores amigos escreviam sobre nós. César colocava "Júlia" onde estava "Cristine", e eu fazia o mesmo quando envolvia conversas nas quais estive presente. Leiam, por exemplo, o menos-ambíguo-do-que-parece What ever happened.
O mais bizarro de tudo é que eu e ele quase não nos falamos nesses 5 meses e meio! Foi um distanciamento estranho, para dois amigos que não se desgrudaram nos últimos 3 anos.

Enfim, tudo acabou na semana passada, quando ele e a Cristine brigaram em uma viagem acadêmica na qual eles, eu e o Henrique fomos. Em meio às palestras e festas, as diferenças de personalidade e os problemas mal resolvidos dos dois alcançaram patamares que não podiam mais ser superados. Para piorar, houve um lance meio "bizarre love triangle", sobre o qual até não me sinto à vontade de comentar.

Eu e César voltamos a nos falar nesse fim de semana, e aos poucos ele vem se recuperando da separação - e eu, da correspondência mental e silenciosa (pois também reservei-a à minha produção textual) a esse delírio romântico. Deixei claro para ele o quanto essa amizade é importante para mim, mas também que não estamos em condição de ter um relacionamento mais avançado. Ainda não somos maduros e equilibrados o bastante. Só no momento em que ele deixar de me tratar como um pedestal, e eu parar de ter medo de amar alguém, nós poderemos pôr um final (feliz) a essa tensão melodramática.
Enquanto isso, empresto-lhe meu recém-adquirido "Alta Fidelidade", enquanto ouço uma coletânea dos Smiths que ele gravou para mim meses atrás. Stop me if you think you've heard this one before.

02 Novembro 2009

Selvagemente ambicioso?

Num primeiro momento, César retirou um trecho de um conto vingativo que estava preparando, chamado "A Grande Ilusão":

Achei que tinha acordado de um longo pesadelo. Porém, sabia muito bem que tudo que ocorrera naqueles últimos 5 meses e meio era realidade, por mais terrível que fosse. Meu primeiro relacionamento amoroso acabou, e estou até aliviado com isso.
Ainda não entendo por que insisti na ilusão de achar que era Cristine a garota de minha vida. Pior ainda: cheguei a confundi-la com Júlia, minha melhor amiga e, sendo amargamente sincero, meu eterno ideal romântico.
Hipóteses não faltam: imaturidade, ingenuidade, passividade, pedestaltismo, empolgação de 1º namoro... quem sabe, até um certo prazer em ser enganado.
Desta vez, tive uma desilusão bem diferente das anteriores; ao invés do padrão platonista, cheguei a namorar a garota. Precisei das mais diversas e amargas experiências para chegar ao inevitável desfecho.

Porém, mudou de idéia, e resolver parafrasear um trecho do 1º capítulo do livro que encabeçaria seu top 5 de "melhores leituras pós-breakup" - Alta Fidelidade, de Nick Hornby.

Em ordem cronológica, minhas desilusões amorosas mais memoráveis, as favoritas, as cinco que eu levaria para uma ilha deserta:

1) Tatiana de Souza, 1999-2000
2) Mônica Almeida, 2002
3) Lyla Lima, 2005
4) Melissa Pereira, 2006
5) Flor de Lis, 2009

Estas foram as que doeram de verdade. Se bem que, sendo sincero, nem me apaixonei de verdade pela Mônica; no máximo, a escalei como mocinha do teatrinho de "Escaravelho do Diabo" que fiz na 6ª série. Só coloquei ela na lista para demonstrar o quanto a separação da Cristine não doeu em mim. Está vendo o seu nome na lista, "strawberry girl"? Se você quiser entrar à força na lista, vai ter que se esforçar mais do que isso. Já não sou tão vulnerável quanto era na época em que gostei de Tatiana e Lyla.

Tatiana foi a 1ª paixão, e talvez a que doeu mais. Passei dois anos obcecado por ela. Humilhei-me por ela várias vezes, como na festa de 10 anos dela. Entrei em um longo período do nerdismo depois que me desapaixonei. Felizmente, hoje em dia já não sofro mais por essa desilusão quanto costumava (até 3 anos atrás, eu chegava a colocá-la como "paradigma", momento no qual minha vida entrou em declínio. Sou um Drama King, não?). Atualmente, considero-a apenas um ponto de largada para minha trilha de fiascos platônicos.
Lyla foi a mais curta das paixões (durou só 3 semanas), mas foi aquela que teve influência mais decisiva no meu gosto cultural. Não que eu já não ouvisse indie rock e lesse autores blasé antes de conhecê-la, mas ela me apresentou alguns dos meus prediletos: The Killers e Placebo, Santiago Nazarian e Michael Cunningham, New Order e Muse etc. Curiosamente, usei essas referências cult para me ajudar a esquecê-la.
Melissa foi um caso sui generis. Ela tinha uma personalidade instável, provavelmente mais que a de Cristine. Nossa primeira conversa foi extremamente longa e interessante, o tipo de 'mito fundador' que me deixa inevitavelmente apaixonado por uma garota. Porém, a distância geográfica e o humor inconstante dela atrapalharam tudo, e só me restou o fato de me lembrar dela quando ouço algumas músicas do Jeff Buckley ou do Portishead.
Finalmente, a Flor é aquela mesma que, ressentidamente, falei sobre em Tender. Arrependo-me de ter lidado tão mal com aquilo. Das quatro, é a única de quem continuo amigo (não vejo Tati há cinco anos, Lyla mora em outro país e perdi contato com Melissa). Talvez devesse ter sido sempre assim. Ainda não consigo entender por que, repentinamente, comecei a gostar dela de uma maneira diferente. Talvez seja o jeito espontâneo e alegre dela... enfim.

Ainda insatisfeito, ele tentava entender o que Júlia, anteontem, quisera dizer quando falou que a "loucura sentimental" que o contaminara desde Maio não havia sido exclusividade dele. Ela também havia falado algo sobre "um breve transtorno", e que entendia perfeitamente por que ele se apaixonara por Cristine idealizando-a como ela mesma, Júlia, a ponto de escrever textos trocando o nome de sua namorada pelo de seu eterno pedestal. César ficou ainda mais confuso por, mesmo conscientes do fato de que um gosta do outro, ele e Júlia nunca terem se relacionado além da amizade.
Porém, ele sempre se lembraria das palavras que ela lhe disse alguns dias antes de ele iniciar seu namoro com Cristine:
Não podemos concretizar, ou mesmo lidar, com o que sentimos um pelo outro - seja por palavras ou por gestos. Sinto muito, mas corremos o sério risco de termos uma amizade eternamente assexuada.


E, afinal de contas, o que será que Alice queria dizer quando sentenciara o seguinte:
Meu amigo, você é um Ross Geller da vida. Seu namoro, no início, se parece com o 2º casamento de Ross, e no término, com o 1º. Reflita...


César largou a escrivaninha, e foi dormir. Amanhã decidiria o que fazer, pelo menos literariamente, a respeito de sua recente separação.

04 Outubro 2009

O Liberalismo Beletrista: Reflexões sobre o perfil ideológico da UDN

Neste texto, procuraremos discutir os fundamentos do pensamento político liberal da União Democrática Nacional, assim como suas limitações. A UDN foi um dos mais importantes partidos do período democrático que o Brasil experimentou entre 1945 e 1964, e teve participação decisiva em vários momentos históricos, como a eleição de Jânio Quadros e o golpe militar de 64. Analisá-la-emos através de quatro diferentes perspectivas: Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990), político udenista; Maria Victoria de Mesquita Benevides (1942), socióloga; Vamireh Chacon (1934), professor emérito; e Oscar Pilagallo (1965), jornalista da Folha de S. Paulo.

Comecemos por Afonso Arinos, que foi um dos mais destacados e eruditos membros da UDN. Em sua trajetória, foi jurista, deputado federal (1947-1958), senador (1959-1966 e 1987-1990), ministro das Relações Exteriores do governo Jânio Quadros (1961) e do gabinete do 1° ministro Brochado da Rocha (1962). Ligava-se à ala dos “bacharéis” de seu partido, considerados liberais históricos; também faziam parte desse agrupamento políticos como Milton Campos, Pedro Aleixo e Prado Kelly.
Em seus escritos, ele coloca a UDN como “legítima herdeira da tradição liberal da reforma dos costumes políticos e administrativos” (FRANCO, 1980: 87), pois assume posições que se encaixam no “padrão do liberalismo burguês” (Ibidem, p. 87): moralização da política, garantia das liberdades individuais, limitação da intervenção estatal na economia e a defesa do progresso democrático. Porém, ele enfatiza: é um ideário liberal mais político que social - o que Benevides apontará como clara “distinção entre liberalismo e democracia” (BENEVIDES, 1981: 247) na retórica udenista.
Afonso Arinos ressalta que esse liberalismo seria “anacrônico em países onde a prática formal da democracia já se encontra solidamente conquistada”; porém, no Brasil, “a conquista da forma democrática ainda não se processou completamente, nem está livre de riscos” (FRANCO, 1980: 87). Tal afirmação pode ser considerada como uma expressão moderada do elitismo da UDN, muitas vezes sintetizado na frase “O Brasil ainda não tem cidadãos”. Sendo assim, caberia ao partido uma missão quase pedagógica: guiar, por meio de seu grupo de notáveis, as massas rumo a um futuro de prosperidade. A freqüente ênfase em suas lideranças “espirituais”, como o brigadeiro Eduardo Gomes, “o Prestes da burguesia” (Ibidem, p. 87), demonstra essa concepção.
A UDN também se notabilizou pela constante contradição entre posições progressistas e reacionárias. Por um lado, foi reconhecidamente a agremiação que mais se posicionou contra a cassação dos parlamentares do PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 47; defendia a autonomia e livre associação sindical, contrapondo-se ao sindicalismo de Estado de seus adversários populistas; o já citado Afonso Arinos foi autor de uma famosa lei que proíbe a discriminação racial, e também um dos responsáveis pela “política externa independente” do governo de Jânio Quadros; o programa udenista de 1957 falava em reforma agrária e educacional; era, também, o único partido que assumia formalmente preocupação “com o desenvolvimento científico e tecnológico” (CHACON, 1998: 163).
Porém, também foi a União Democrática Nacional quem, sempre que tinha reveses políticos e eleitorais, defendeu o golpismo. Em pelo menos quatro ocasiões, seus membros protagonizaram crises políticas: em 1954, quando desejaram derrubar o presidente Getúlio Vargas, tendo sido frustrados pelo suicídio dele; um ano depois, procuraram impedir a posse de Juscelino Kubitschek; em 61, queriam evitar que, após a renúncia de Jânio Quadros, o vice João Goulart, um herdeiro político de Getúlio e também nacionalista de esquerda, assumisse a Presidência; e, finalmente, apoiaram a bem-sucedida intervenção militar de 1964.
Outro ponto de controvérsia sobre os udenistas é a sua posição ambígua quanto à democracia. Benevides, por exemplo, sustenta que a defesa do livre mercado, da propriedade privada e dos direitos individuais não necessariamente “leva à democratização da sociedade”, pois esta supõe “a extensão da cidadania política e o reconhecimento da soberania popular” (BENEVIDES, 1981: 248). Embora agradasse à classe média e à imprensa por ser o “partido da eterna vigilância (...), a UDN, elitista, não aceitava a participação política das classes populares” (PILAGALLO, 2002: 78).
Conciliar a defesa da igualdade política com o combate às desigualdades sociais foi um constante dilema para o liberalismo udenista, mas que acabou optando pela 1ª causa em detrimento da 2ª. Sendo assim, o discurso de que “o povo não sabe votar” foi recorrente; Carlos Lacerda, em 64, justificou o golpe militar como um meio de evitar o “golpe por via eleitoral”. Afonso Arinos, que foi um dos udenistas contrários ao movimento de 31 de Março, reconheceu que boa parte de seus colegas de partido eram hostis ao progresso social e não hesitavam em buscar soluções autoritárias para defenderem seus interesses políticos.
De certa maneira, o programa da UDN facilitava a constante pecha de ser um partido tão “ruim de voto”. Tomando como exemplo as eleições presidenciais de 1950, Oscar Pilagallo relembra um comentário da Folha da Manhã (atualmente, Folha de S. Paulo) feito na época: “Getúlio Vargas fala ao ‘homem da rua’. Eduardo Gomes é o campeão das liberdades democráticas que constituem preocupação apenas da elite e não do povo” (Ibidem, p. 70).
Além disso, o partido freqüentemente adota um tom saudosista, como quando relembra o eleitorado sobre o fato de possuir remanescentes da Campanha Civilista (1909-10), da Reação Republicana (21), da Aliança Liberal (30) e do Manifesto dos Mineiros (43). De fato, é possível dizer que há bastante conservadorismo em um discurso que se sustenta na herança, na tradição – enfim, na “volta ao passado” (BENEVIDES, 1981: 249). A autora de “A UDN e o udenismo” retoma o pensador Edmund Burke (1729-1797), grande expoente da aversão conservadora a mudanças do status quo, para explicar a ideologia udenista. Este partido, segundo Maria Benevides, enfatizou a ordem a ponto de, quando julgou necessário, sacrificar a liberdade e a democracia em nome delas. Mesmo o “suicídio” da legenda, em razão do apoio de vários udenistas ao AI-2 (1965) – que extinguiu os partidos -, é um exemplo disso.
Relaciona-se com isso a observação de que, por mais que se empenhasse na retórica liberal, a UDN, junto com seus rivais do PSD (Partido Social Democrático), no fundo, era um dos “partidos de interesses”, considerados “imediatistas e, em geral, conservadores” (CHACON, 1998: 184). Contrapõe-se, assim, a legendas mais “ideológicas” como o PSB (Partido Socialista Brasileiro), o PDC (Partido Democrata Cristão) e, é claro, o PCB. Por mais que tivesse forte base entre grupos intelectuais urbanos (professores, cientistas e jornalistas, p.ex.), e “demonstrava”, através de lideranças como Carlos Lacerda, “que também a classe média consegue mobilizar-se” (Ibidem, p. 185), no fundo era um partido de quadros, com grande influência de latifundiários, grandes proprietários e da alta burguesia. Para Chacon, a dualidade da UDN pode ser assim resumida: “senhorial nas bases locais, (...) e liberal (...) diante do seu eleitorado urbano” (Ibidem, p. 151).
Benevides vai além, ao sugerir que o partido utiliza a “máscara liberal como justificação de combate a Getúlio” (BENEVIDES, 1981: 242). Ou seja, “estava em causa a oposição a Getúlio Vargas, e não ao autoritarismo do regime por ele instalado” (Ibidem, p. 246). Esta análise se pauta pela constatação de que muitos udenistas, independentemente da ala – “bacharéis”, a “Banda de Música” (a mais anticomunista, liderada por Lacerda), os “realistas” (tradicionalistas, apoiavam-se em várias oligarquias destituídas no período varguista) e a “Bossa Nova” (segmento mais reformista e populista, decisivo para o apoio a Jânio em 60) -, preocupavam-se bastante com a manutenção da ordem social e de um Estado forte, pautado pela autoridade e a disciplina. São objetivos bem parecidos com os do Estado Novo de Vargas (1937-1945). Por outro lado, Getúlio, em sua conciliação populista, também buscava o diálogo com os trabalhadores urbanos, ao invés de apenas encará-los como “massas”.
Em meio a “uma autêntica Arca de Noé, mas com o rumo apontado para a centro-direita” (CHACON, 1998: 152), a UDN se constituiu em uma espécie de “beletrismo político”, pois suas lideranças se consideram dotadas de um “sentido de excelência”; ou seja, elites cultas e preparadas para garantir o progresso ao Brasil, sem que haja necessidade de intensa mobilização popular ou de uma interlocução paternalista com a sociedade. A União Democrática Nacional se identifica com o legado do liberalismo pré-democrático, tanto no âmbito do discurso – sob a égide de filósofos como John Locke (1632-1704) – quanto na prática, pois, quando resgatam a memória dos supracitados movimentos liberais brasileiros da 1ª metade do Século XX, “seus herdeiros não apenas se apropriam do legado, como com ele se identificam” (BENEVIDES, 1981: 243).
Dos quatro autores utilizados, verifica-se, destarte, que Pilagallo, ao buscar apresentar a visão da Folha de S. Paulo, revela como a linha editorial deste jornal nutria amor e ódio pela UDN; alinhava-se com ela na simpatia ao capitalismo cosmopolita e na luta contra o populismo, mas discordava do tom reacionário e anti-reformista que os udenistas adotavam. Enquanto isso, Afonso Arinos, embora enalteça o espírito liberal e progressista de sua antiga agremiação, reconhece que a heterogeneidade do partido, dividido entre o moralismo e a inapetência pelo poder dos liberais históricos e o pragmatismo governista dos “realistas”, acabou favorecendo os últimos.
Maria Benevides, em seu estudo, tem como prioridade revelar as contradições e ambigüidades de uma agremiação que, para ela, “se revela progressista no que se opõe e reacionária no que propõe” (BENEVIDES, 1981: 281). Chacon, por sua vez, afirma que “os programas nacionais udenistas (...) apresentam o discurso liberal mais coerente e consistente da Quarta República”, mas “sua tragédia consistiu na sua origem, dentre ‘bacharéis’ liberais, que não conseguiam permear os ‘realistas’, sendo antes engolfados por estes, (...) rumo ao golpismo” (CHACON, 1998: 165).

“O preço da liberdade é a eterna vigilância”; eis o famoso lema da União Democrática Nacional. É também sintomático na revelação do “núcleo” conservador inerente à “crosta” liberal da UDN. Em outras palavras, o partido, em seus vinte anos de existência, não conseguiu superar um elitismo que, em nome da estabilidade e do medo de mudanças bruscas, freqüentemente o levava a tomar posicionamentos reacionários e contra a legalidade. O liberalismo beletrista não teve sucesso em impedir o fortalecimento e subseqüente vitória, em 1964-5, do grupo udenista que não tinha medo em se assumir autoritário e com pretensões de chegar ao poder. Ironicamente, o partido que mais defendia a liberdade foi justamente aquele que teve maior peso na destruição da mesma. Por outro lado, ensinou aos seus herdeiros – e também aos adversários - uma lição valiosa: a defesa dos direitos individuais e da igualdade política, por si só, não constitui alicerce suficiente para a manutenção da ordem democrática.

Referências Bibliográficas
BENEVIDES, Maria Victoria de Mesquita. A UDN e o udenismo: ambigüidades do liberalismo brasileiro, 1945-1965. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
CHACON, Vamireh. História dos Partidos Brasileiros. Brasília: Editora Universidade Brasília, 3ª ed., 1998.
FRANCO, Afonso Arinos de Melo. História e Teoria dos Partidos Políticos no Brasil. São Paulo: Alfa Ômega, 3ª ed., 1980.
PILAGALLO, Oscar. O Brasil em Sobressalto: 80 Anos de História Contados pela Folha. São Paulo: Publifolha, 2002.
(P.S.: Minha revisão bibliográfica de PB2.)

01 Julho 2009

A “Estatalidad”, segundo Nozick, Schumpeter e seus críticos

No Século XX, o Liberalismo teve em Robert Nozick (1938-2002) e Joseph Schumpeter (1883-1950) dois importantes expoentes. Eles participaram de debates sobre temas como Justiça e Democracia. É proposta no seguinte ensaio a discussão de suas contribuições teóricas, tomando como estudo de caso o Estado na América Latina. O que o Libertarianismo e a Democracia Concorrencial, assim como seus críticos, têm a dizer sobre “a necessidade de uma nova ‘estatalidad’” (O´DONNELL, 2004: 190)?

Nozick inicia sua obra categoricamente: “Indivíduos têm direitos. E há coisas que nenhuma pessoa ou grupo pode fazer com os indivíduos sem lhes violar os direitos” (NOZICK, 1991: 9). Inicia, assim, um tratado sobre a função e a justificativa do Estado. Argumenta que “o Estado mínimo é o mais extenso que se pode justificar”, pois “qualquer outro mais amplo” (Ibid., p. 192) fere o direito à propriedade.
Este direito é considerado natural, inviolável e determinado por “princípios históricos” (Ibid., p. 174): a aquisição inicial da propriedade – ou seja, “como coisas não possuídas podem vir a sê-lo” ((Ibid., p. 171); a transferência – o livre mercado; e a reparação – correção de injustiças anteriores à distribuição. Conseqüentemente, “se o conjunto de propriedades é corretamente gerado, não há argumento que dê respaldo a um Estado mais extenso baseado na justiça distributiva” (Ibid., p. 247).
Sobre a “estatalidad”, Nozick e os libertários demonstram cautela quanto a afirmações como esta: “É necessário um Estado capaz de conduzir o rumo geral da sociedade, (...) regular os mercados, (...) estabelecer sistemas de proteção social baseados no princípio de universalidade da cidadania” (O’DONNELL, 2004: 190).
Para o Libertarianismo, as únicas obrigações do Estado são aquelas que dizem respeito à proteção dos direitos individuais, o cumprimento de contratos e a fiscalização. Qualquer outra além desse escopo fere direitos individuais, pois se utiliza de coerção, ao forçar os indivíduos a agir contra suas próprias vontades e habilidades. Portanto, aumentar o Estado, ao invés de aprimorar a democracia e a cidadania, perpetuaria a injustiça. Prejudicaria não só o direito à propriedade privada, ao redistribuir renda através de meios coercitivos (ex.: confisco), como também cometeria “interferência contínua na vida das pessoas” (NOZICK, 1991: 183).
Morresi, contudo, alerta: “Na América Latina, (...) a distopia de Nozick vem se realizando a passos largos”, pois “as reformas neoliberais estão convertendo o Estado em um ente raquítico, incapaz de enfrentar os interesses predominantes no mercado” (MORRESI, 2002: 296). Para ele, o Libertarianismo "serve de sustento à permanência e à expansão dessas iniqüidades" (Ibid., p. 295) nos países latino-americanos. O problema não residiria no excesso de Estado, mas na fraqueza e ineficácia do mesmo em combater as desigualdades socioeconômicas e a exclusão da maior parte da população dos direitos de cidadania. Logo, buscar uma nova “estatalidad” seria legítimo.

Schumpeter afirma que não existe uma vontade do povo, pois, "para diferentes indivíduos e grupos, o bem comum provavelmente significará coisas muito diversas" (SCHUMPETER, 1961: 301). No processo político, prevalecem interesses individuais. Conseqüentemente, há “ausência de uma vontade eficaz” (Ibid., p. 312); “o cidadão típico tenderia na esfera política a ceder a preconceitos ou impulsos irracionais ou extra-racionais” (Ibid., p. 313).
A democracia, para Schumpeter, é apenas um método de tomada de decisões políticas. Há eleições entre elites concorrentes, e a participação do indivíduo se resume ao momento do voto. “O método democrático é um sistema institucional (...) no qual o indivíduo adquire o poder de decidir mediante uma luta competitiva pelos votos do eleitor” (Ibid., p. 321). O princípio, então, passa a ser a vontade da maioria.
No caso latino-americano, a argumentação schumpeteriana questionaria o conceito de democracia contido em “estatalidad”. Que tipo de cidadania é almejado? Até que ponto ela realmente atende ao bem comum? Buscar uma maior participação política, mesmo quando bem-intencionada, não atenderia às vontades dos cidadãos: o "resultado pode ser igualmente desagradável, embora por diferentes razões, a todo o povo" (Ibid., p. 305). Sendo assim, uma radicalização da democracia se choca com as dificuldades em articular interesses entre os grupos sociais.
Há, no entanto, críticas à concepção de Schumpeter. Segundo Miguel, ele é o elo entre a Teoria das Elites e uma conservadora concepção de democracia. Nela, o processo eleitoral deixa de ser o meio para ser o fim democrático em si. Exalta-se a “apatia política" como contraponto ao "excesso de participação" (MIGUEL, 2002: 503). Com isso, “se reerguem as vozes dos que afiançam que” a desigualdade “é ‘natural’ e ‘eterna’” (Ibid., p. 486). Porém, para Miguel, a “estatalidad”, assim como a democracia participativa, não seria inviável, pois “a idéia de ‘governo do povo’ – no sentido da igualdade efetiva na tomada das decisões públicas – insiste em permanecer à tona" (Ibid., p. 506).

Os ceticismos de Nozick e Schumpeter, em relação a Estado e democracia, são movidos por concepções de natureza humana distintas. O libertário americano considera o indivíduo como dono absoluto de seus talentos; portanto, deve ser insubmisso a uma autoridade externa que fere sua liberdade individual. Já para o liberal austríaco, o problema é a bestialização: "o cidadão típico cai para um nível mais baixo de desempenho mental assim que entra no campo político. Argumenta e analisa de maneira (...) infantil” (SCHUMPETER, 1961: 313).
Esses diferentes pressupostos os levam a conclusões variadas. Nozick acredita que ter utopias é desejável. Comunidades independentes podem existir, contanto que não prejudiquem umas às outras e nem aos direitos dos indivíduos que as compõem; ou seja, eles devem ser livres para sair delas quando assim desejarem. Já Schumpeter quer o mínimo de participação política porque, como contemporâneo a regimes totalitários, temia mobilizações de massa que levassem a perigosas convulsões sociais - e que, em última instância, ameaçam a liberdade civil.
Ambos, portanto, discordariam da “estatalidad”, mas por motivos diferentes. Os libertários acreditam que a América Latina não resolverá seus problemas através de uma justiça distributiva que não respeite a propriedade privada e a autonomia dos indivíduos. Ou seja, combater problemas socioeconômicos envolve o respeito às liberdades e direitos individuais. Já os “democratas concorrenciais”, mais conseqüencialistas, não encontram viabilidade em reformas que visam à maior participação e deliberação, pois ambas exporiam desavenças e desarticulação de interesses, que só prejudicariam a eficiência e estabilidade do método democrático.

Um desfecho para este ensaio, mesmo não lançando respostas definitivas ao problema discutido, está contido em “A Volta do Idiota”, livro que comenta o fortalecimento das esquerdas na América Latina:

“Em geral, os latino-americanos (...) acham que a função principal do governo é repartir as riquezas para alcançar sociedades mais justas e eqüitativas. (...) Simultânea e contraditoriamente, os latino-americanos costumam ter a pior opinião possível da classe política e do método democrático de governo. (...) Na América Latina existe um profundo divórcio entre a sociedade e o Estado, o que explica o surpreendente apoio que os golpistas obtêm quando tomam o poder pela força. (...) Os latino-americanos simplesmente não sentem que lhes tiraram algo que lhes pertence ou os beneficia” (LLOSA, MENDOZA e MONTANER, 2007: 215)

Referências bibliográficas:

LLOSA, Álvaro Vargas; MENDOZA, Plinio Apuleyo e MONTANER, Carlos Alberto. “A Volta do Idiota”. Rio de Janeiro, Odisséia, 2007.
MIGUEL, Luis Felipe. “A Democracia Domesticada: Bases Antidemocráticas do Pensamento Democrático Contemporâneo”. Dados – Revista de Ciências Sociais, vol. 45, nº 3, 2002.
MORRESI, Sergio. “Robert Nozick e o Liberalismo Fora de Esquadro”. Lua Nova, nº 55-56, 2002.
NOZICK, Robert. “Anarquia, Estado e Utopia”. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1991.
O’DONNELL, Guillermo (em colaboração com Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas). “A Democracia na América Latina: Rumo a uma Democracia de Cidadãs e Cidadãos”. São Paulo, LM&X, 2004.
SCHUMPETER, Joseph. “Capitalismo, Socialismo e Democracia”. Rio de Janeiro, Fundo de Cultura, 1961. Versão online disponível em Ordem Livre.

(P.S.: Minha prova de Teoria Política Contemporânea)

30 Junho 2009

19 anos e 1 dia

Ontem foi o dia do meu 19º aniversário (ah, sim: aqui é o Kaio mesmo, e não um personagem literário).
Talvez tenha sido o melhor 29/6 da minha vida, sem exageros.
Para começar, minha mãe, de volta de uma viagem à Venezuela, veio me visitar no domingo, e ficou até ontem de manhã.
Passei a maior parte do dia com a Laura. Almoçamos na Subway, jantamos crepes, assistimos a um documentário do History Channel sobre Grécia Antiga...
Ah, e ela me deu vários presentes, e adorei todos eles:

- Um CD, "Os Grandes Sucessos de" Raul Seixas;
- Um DVD, "Efeito Borboleta";
- Um pôster dos Beatles;
- Um livro, em inglês, com as peças teatrais de Oscar Wilde.

O legal é que, só em Junho, já passamos por três datas importantes: her birthday (1º), o dia dos namorados (12) e o meu 'niver' (29).

No mais, o semestre universitário está em reta final. Hoje tive a prova de Literatura Polonesa (foi fácil), ontem foi a de Francês Básico 2 (tanto oral quanto escrita), sexta-feira realizei o 3º exame de Partidos Políticos, quinta foi o de TRI1. HSPG já acabou, e fiquei com SS mesmo.
Amanhã é a 'dead line' para o ensaio final de TPC, e ainda vou aplicar a prova de TPM na turma de que sou monitor. Sobre TP Contemporânea, ainda nem comecei a escrever, mas já decidi que meu texto será sobre as idéias de Robert Nozick e Joseph Schumpeter, mas também usarei L.F. Miguel, "A Volta do Idiota" e Sergio Morresi como fontes. Tenho que terminá-lo até 14h de amanhã, portanto!
Preciso entregar a prova de PB1 até 2ª que vem, e depois de amanhã é a segunda parte do meu seminário sobre "Solaris" para Lit. Polonesa.

Presenteei-me com um CD com minhas 19 canções favoritas. Ficou excessivamente britânico (15 das 19 faixas), admito, mas tentei fazer uma seleção equilibrada: mods, post-punk, shoegaze, BRock, clássicos, britpop etc. Vejam como ficou:

1. I Am The Walrus (The Beatles)
2. Isolation (Joy Division)
3. Bone Machine (Pixies)
4. Country Sad Ballad Man (Blur)
5. I Wanna Be Adored (The Stone Roses)
6. Rubber Ring (The Smiths)
7. Metal Contra As Nuvens (Legião Urbana)
8. Ando Meio Desligado (Os Mutantes)
9. Diversão (Titãs)
10. A Forest (The Cure)
11. Ceremony (New Order)
12. Roll With It (Oasis)
13. Should I Stay Or Should I Go (The Clash)
14. Dancing Days (Led Zeppelin)
15. The Dark Of The Matinée (Franz Ferdinand)
16. Start! (The Jam)
17. I Can See For Miles (The Who)
18. Lola (The Kinks)
19. Here She Comes (Slowdive)

Boa noite; acho que vou dormir para acordar renovado amanhã e fazer a prova da melhor maneira possível.

23 Junho 2009

Post-silence

(Ainda em 24/5, na conversa de Mário e Giovana. Entra Alice)

- Ah, vocês ficaram sabendo? Domingo passado, dia 17, justamente no dia do aniversário da Júlia, ela e o César se beijaram! So cute!
- Poxa, Alice! Nós dois estávamos falando misteriosamente, da maneira mais ambígua possível, e você vem, se intromete e revela o segredo?
- Ué, Giovana, foi mal. Achei que vocês já tinham passado dessa fase, de ficar fazendo fofoca em códigos...
- Relaxem, garotas, sem brigas desnecessárias. O fato é que dois de nossos melhores amigos, finalmente, estão namorando!
- Pois é, adorei essa notícia. Porém, se isso fosse um livro, teríamos esperado 349 páginas por esse acontecimento. Quantas idas e vindas desde 16 d.M., não?
- Exatamente, Alice. Parece que foi a Júlia quem tomou a iniciativa do beijo! O César é mesmo um bobo: 3 anos a tendo como melhor amiga, e ainda assim não foi o responsável pelo ato simbólico...
- Eu até que o entendo, garotas. Também tive dificuldades para iniciar meu 1º beijo. Tudo bem que ele ocorreu muitos anos atrás, mas compreendo a insegurança e a timidez do César. A sorte dele é ter conhecido uma garota tão legal - e de atitude - como a Júlia.
- Concordo. Sendo piegas, "eles foram feitos um para o outro". Suas características, qualidades são complementares, de uma maneira bem peculiar. Logo, não fiquei surpresa quando descobri sobre o beijo. Achei até que demorou, hehe.
- Será que eles estão namorando mesmo?
- Não sei, César e Júlia andam muito calados sobre isso. Como diria Collor, "o tempo é o senhor da razão". Portanto, em breve saberemos...

(1 mês depois, 23 de Junho de 19 d.M. César e Henrique conversam)

- ... o que ocorreu no Conselho foi um problema de falta de comunicação, até mesmo de ação coletiva. O movimento estudantil está fragmentado, cheio de disputas de ego e oportunismo político. Utilizam causas importantes, como as fundações e a Casa do Estudante, como bandeiras para autopromoção, sem se preocupar com a importância crucial daquilo que está se discutindo. O futuro do M.E. de nossa UNICOS é delicado, meu caro César. O que a sua chapa, "a da direita", pensa a respeito disso?
- Serei sucinto, porque essa discussão (aliás, exposição programática feita por você) já está cansando. A opinião que eu e meus colegas liberais/libertários/conservadores compartilhamos é a seguinte: essa nova invasão da reitoria, assim como o impedimento da reunião do Conselho, foram ilegítimas, ilegais, irresponsáveis, sem civilidade e muito menos respeito à liberdade de expressão. A sua chapa, que é o atual 'governista' do Diretório, tinha a possibilidade de fazer algo a respeito, mas preferiu a omissão, em uma atitude lamentável e covarde. É como se vocês fossem coniventes com o radicalismo daquela meia-dúzia de "revolucionários" batedores de panela. Sinto muito, mas seu tom melancólico não me convence de que vocês não erraram em sua avaliação e (falta de) ação. Agora, chega, estou sem paciência para debater política estudantil. Vamos mudar de assunto?
- Ai, ai, tudo bem, César... Mas, em breve abordarei novamente esta temática, e que você não se ausente de uma discussão sobre os rumos de nossa universidade, certo?
- Tudo bem, Henrique... Vamos, sugira um tópico.
- Ok, eu sei que quase nunca falo (ou deixo as pessoas falarem) sobre assuntos 'pessoais', relacionamentos, amor etc., mas hoje vou abrir uma exceção. Até mesmo porque eu mesmo ando menos cínico sobre assuntos românticos, então seria legal jogar esse tema numa conversa. Conte-me sobre como vão as coisas entre você e a Júlia. Prometo que não vou interromper.
- Uau, é raro ver você interessado por falar sobre isso... Façamos o seguinte. Hoje à noite, escreverei um texto, e você poderá lê-lo depois. É que, sei lá, não estou acostumado a falar diretamente às pessoas sobre meu namoro, mas acho que hoje posso quebrar, literariamente, meu silêncio de 1 mês about it:

Estava tocando The Who. "I Can See For Miles". Lentamente, nossos lábios se tocaram. Não tenho dúvidas: foi ela quem tomou a iniciativa do beijo. Não que eu não quisesse; pelo contrário, passei aquela noite inteira pensando nisso. Porém, faltava-me a coragem. Felizmente, ela não foi tão 'mole' quanto eu, e iniciou aquilo por que tanto esperávamos: a confirmação simbólica de que realmente gostávamos um do outro.
O mais fantástico de tudo é a combinação de acasos e fatores. Primeiro, dia 17 era aniversário dela. Segundo, o Mário estava jogando Need for Speed na kit, o que nos impediu de ficar por lá, estudando. Resultado: fomos no carro dela, jantar no McDonald's. Terceiro, eu tinha acabado de voltar de uma viagem-relâmpago para Pastória, e estava meio deprê. Porém, quando ela ligou para mim, às 16h, e eu ainda estava no ônibus (perguntou-me que hora eu chegaria em Cosmopólia), minha intuição dizia que algo importante iria acontecer entre nós, naquela noite. Não necessariamente um beijo ou coisa do tipo, mas pelo menos uma conversa que marcasse as nossas vidas.
Realmente, conversamos por horas a fio. Falamos sobre antigas paixões, estudos, livros, música, ambições, decepções... Descobri muitas coisas sobre a vida dela que ainda não sabia, e vice-versa. O tempo foi passando, e, 0h30, quando tecnicamente já nem era mais 17 de Maio, nós nos beijamos. Nosso 1º beijo foi longo, e inesquecível.
Os dias que se seguiram foram também muito especiais. Talvez porque ainda não soubéssemos o 'status' de nossa relação, entramos em um período de extrema liberdade, e passávamos horas juntos - mas, por outro lado, foi também uma época de "hedonismo burro". Faltamos algumas aulas, e eu cheguei atrasado em quase todos os dias da simulação de que estava participando. Felizmente, no último dia, resolvi calar todas as críticas e conduzi bravamente os trabalhos para aprovar uma versão revisada de um projeto sobre voto distrital misto.
Uma semana depois, já nos tratávamos como namorados. Porém, nem tudo eram flores. Também tivemos brigas. Júlia me deu várias broncas, a respeito de atitudes egoístas e fracas que eu estava tomando. Eu procurei melhorar o máximo possível, para provar a ela que não há sacrifício que eu não estarei disposto a fazer para provar meu amor a ela. Ah, sim, falei a palavrinha mágica: "amor". Ele brotou da maneira mais intensa possível entre nós, o que nos deu forças para superar vários dos problemas que estamos a enfrentar neste semestre (principalmente ela, que está em um período complicado de sua vida).
Outro aspecto importante que descobrimos desde que começamos a namorar foi quanto à quebra de expectativas e (pré) conceitos que tínhamos um do outro. Os estereótipos que as pessoas geralmente atribuem à minha linguagem corporal dizem respeito ao meu jeito introspectivo, aparentemente inseguro, excêntrico e megalomaníaco. Quanto à Júlia, ela, à primeira vista, parecia ser fria, cética, arrogante etc. Ela, no entanto, descobriu, que eu sou seguro de mim mesmo, auto-consciente, transigente, pacato (um "idiossincrático banal", enfim), e eu pude ver o quanto ela é extremamente sensível, romântica, determinada e adorável.
Enfim: eu a amo, "de todas as formas possíveis: como namorado, como amigo, como parceiro (inclusive intelectual), como admirador". Finalmente, meu livro tem um desfecho, embora eu ache que este namoro é apenas o início de uma nova história, menos angustiante e entediante do que aquela que eu estava a escrever em minha existência.
"Pouquíssimas pessoas realmente fizeram alguma diferença na minha vida. Certamente, Júlia é uma delas, e está no topo dessa 'lista'."

(Júlia, em monólogo)

Já faz mais de um mês desde aquele beijo entre eu e o César. Muito ocorreu depois daquilo; Maio e Junho foram dois dos meses mais turbulentos de minha vida. O percurso foi tortuoso, mas cada vez mais temos a certeza de que nos amamos.
Vamos começar falando dos problemas; "as más notícias primeiro". Uma das coisas que mais achei desgastante até agora é precisar frequentemente dizer ao César, com todas as letras, o que ele precisa fazer para me agradar, para não me decepcionar. Isso vale desde a questão da alimentação (afinal, ele andava comendo só 'junk food') até coisas mais sérias, como a atitude que eu esperava de um namorado. Sei lá, faltava a ele me passar segurança e auto-confiança, ser menos egocêntrico e auto-indulgente... Além, é claro, de entender naturalmente os meus sentimentos, sem que eu precisasse ter que explicar a ele como queria que agisse.
Pronto, falarei agora dos (inúmeros) pontos positivos de nosso namoro. Ele é atencioso, sincero, delicado (às vezes parece que ele é a "menina" do relacionamento, hehe), constante, afetuoso... Enfim, lindo! Revelou-se uma pessoa fantástica, com quem eu adoro dividir o meu dia-a-dia. E, fico feliz de ver que ele realmente está mudando, sendo mais espontâneo. Além do mais, César vem me ajudando muito nas últimas semanas, época complicada de minha vida (tanto pessoal quanto acadêmica). Aos poucos, ele vem se tornando um "ponto de apoio" para mim nos momentos difíceis - e vice-versa, segundo ele.
Temos vários gostos em comum, embora César ainda prefira Joy Division e Blur a Chico Buarque e Caetano... Descobri que ele gosta quase tanto quanto eu de cultura 'queer'. O próprio livro que ele me pediu de Dia dos Namorados ("Uma Casa no Fim do Mundo", do Michael Cunningham - César já o leu 2 anos atrás, mas ainda não o tinha 'fisicamente'), assim como o fato de que ele também curte Queer as Folk, Placebo, Montage, Oscar Wilde etc. me deram a certeza disso. Ah, e assistimos juntos a um filme que ele me indicou: "Velvet Goldmine", sobre o glam rock setentista. Digamos que, embora 'straight', ele é culturamente um 'fag', hehe.
Adorei as cartinhas que ele me mandou, tanto de aniversário quanto de Dia dos Namorados, de 1 mês de namoro, entre outras. São coisas como estas que me fazem acreditar que este relacionamento está dando certo - "here, there and everywhere".

24 Maio 2009

What ever happened

(Conversa entre Mário e Giovana)

- Sei lá, o César e a Júlia estão bem estranhos desde a manhã de 2ª feira passada... Alegres e tristes "do nada", sempre andando juntos, muito misteriosos... que será que aconteceu com eles?
- Acho que a pergunta deveria ser "o aconteceu entre eles". Parece que houve alguma coisa no domingo à noite passado que mudou o comportamento deles. Algum palpite?
- Não me arrisco, pode ter acontecido aquilo que se imaginava, ou mesmo o contrário. E o pior é que já surgem boatos dos mais variados para explicar certas transformações na conduta dos dois.
- Pois é, as pessoas andam estranhando o fato de o César ter começado a usar lápis de olho e agido 'picaretamente' durante a maior parte daquela simulação de Congresso da qual ele participou.
- E, a Júlia parece estar bem desencanada (no bom e no mau sentido) em relação aos estudos. Será que... ? Não, isso é impossível.
- Tem certeza? Mistééério...

18 Maio 2009

Bloom

Wow.

"I know you've deceived me, now here's a surprise 
I know that you have 'cause there's magic in my eyes 

I can see for miles and miles and miles and miles and miles 
Oh yeah 

If you think that I don't know about the little tricks you play 
And never see you when deliberately you put things in my way 

Well, here's a poke at you 
You're gonna choke on it too 
You're gonna lose that smile 
Because all the while 

I can see for miles and miles 
I can see for miles and miles 
I can see for miles and miles and miles and miles and miles 
Oh yeah 

You took advantage of my trust in you when I was so far away 
I saw you holding lots of other guys and now you've got the 
nerve to say 

That you still want me 
Well, that's as may be 
But you gotta stand trial 
Because all the while 

I can see for miles and miles 
I can see for miles and miles 
I can see for miles and miles and miles and miles and miles 
Oh yeah 

I know you've deceived me, now here's a surprise 
I know that you have 'cause there's magic in my eyes 

I can see for miles and miles and miles and miles and miles 
Oh yeah 

The Eiffel Tower and the Taj Mahal are mine to see on clear days 
You thought that I would need a crystal ball to see right 
through the haze 

Well, here's a poke at you 
You're gonna choke on it too 
You're gonna lose that smile 
Because all the while 

I can see for miles and miles 
I can see for miles and miles 
I can see for miles and miles and miles and miles  
and miles and miles and miles and miles  

I can see for miles and miles"

17 Maio 2009

Gloom

M: Anteontem foi o aniversário de uma amiga minha. Fomos comer em um restaurante medieval, mas, como estava lotado, fizemos o jantar-festa em um mais "carnívoro", quase flintstoniano.
O César deu de presente para ela um livro do David Hume, pois, certa vez, enquanto conversava com ela, constatou que este era o filósofo mais parecido com a forma de pensar dela. Logo, nada como testar essa hipótese, certo? A Júlia resolveu gravar um CD com as 19 faixas que julgava mais sintonizadas com o gosto musical de nossa amiga (embora tenha colocado três canções que não tinha certeza se ela gostava, mas com grandes chances de êxito). Não me lembro o que o Henrique deu, mas deve ter sido alguma 'inside joke'. E eu? Uma camiseta do Charlie Brown (a HQ, não a banda!).
A noite foi divertida. Conversei bastante com um monte de pessoas que eu ainda não conhecia, ri demais, a comida estava boa...
A propósito, a Giovana viajou ontem para Pastória, mas ainda não me deu notícias.

G: Tive um pesadelo horrível nesta penúltima noite. Sonhei que minha mãe e um dos meus tios haviam morrido, por uma explicação pseudocientífica superestranha. Lembro-me que eu não parava de chorar, mesmo após tanto tempo sem conseguir derramar lágrimas.
De repente, em meio a todo aquele sofrimento (ah, sim: uma amiga minha, não-identicada, me acompanhava na hora em que eu evitava ver o cadáver), pensei que tudo aquilo só poderia ser um mau sonho - e "acordei".
Estava eu, em um quarto vermelho-vinho, e encontrei minha mãe, viva, e meus irmãos. Até me olhei no espelho, e vi que meus olhos estavam relativamente secos; não parecia que eu tinha chorado. Eles estavam comendo bolacha (uma coisa parecida com a Negresco Eclipse), e dividiram comigo.
Depois de algum tempo, acordei de verdade. Estava no quarto do apê que divido com a Alice; ela ainda estava dormindo. Peguei o celular para ver as horas: eram 10h20. Ainda fiquei alguns minutos atordoada. Então, fui ao banheiro, "novamente" me olhei no espelho, e fui para a sala. Liguei o notebook, naveguei um pouco na internet, joguei algumas palavras-chave sobre o pesadelo no Bloco de notas e "twittei" sobre o assunto.
Felizmente, está dando tudo certo na viagem. Saí às 11h30 do apartamento; às 12h, fui ao shopping e comprei o presente do André (meu irmão caçula, que faz aniversário semana que vem, mas não poderei estar em Pastória no dia); peguei o ônibus que partia para a "rodô-ferrô" às 12h30; cheguei lá às 12h45, a tempo de comprar a passagem, e ficar na poltrona 1. E, às 13h, o ônibus partiu.

C: Enquanto tomava banho de manhã, comecei a fazer algumas ligações. Acabei chegando à conclusão de que a maneira como eu penso e ajo no que diz respeito às garotas reflete o quanto sou uma pessoa extremamente carente. Sim, do tipo que cultiva a ilusão de querer um relacionamento despojado, com idas a restaurante chinês e tudo mais, mas com afeto, carinho e atenção mútuos.
Além disso, o fato de que eu não busco me prender a uma rede de amigos só reforça o fato de que só me sentirei realizado (e "agarrado") quando encontrar minha soul mate. É o que, aliás, também espero da garota, para sermos paradoxalmente mais livres e unidos.
Enfim, toda essa construção utópica - inclusive o valor que atribuo ao beijo e ao sexo, a ponto de vê-los necessariamente como um ato de amor - só me complica ainda mais. Afinal, isso só me distancia da realidade, aumentando a incidência de desilusões e decepções. Continuo angustiado por ainda não ter encontrado alguém que, simultaneamente, fosse especial por mim e que retribuísse meu "cativar".
Quem diria que alguém que, até recentemente, finjia ser egocêntrico e arrogante para afastar as pessoas e se isolar do mundo, agora consegue fazer uma revelação tão constrangedora quanto esta.

J: Às vezes, começo a achar que eu sou a síntese de todas as garotas que César já gostou ou amou em sua curta existência: paixões (inclusive as relâmpago), musas inspiradoras, amizades à beira do "to feel something else", ou mesmo aquelas por quem sentiu uma forte atração física e psicológica. Ao mesmo tempo, possivelmente possuo todas as características que ele procura (e ainda não encontrou) em uma mulher. Enfim, sou aquilo que o orkut chamaria de "perfect match" dele.
Porém, minha relação com ele tem um sério impedimento: não podemos concretizar o que sentimos um pelo outro, seja por palavras ou por gestos. Afinal, às vezes parece que estamos em um livro (como sou atéia, não fiquem imaginando que isso é uma crendice do tipo "Deus escreveu minha vida..."), e o autor dele (que provavelmente é alterego tanto meu quanto de César) também nunca passou por experiências físicas e amorosas maiores. Logo, ele simplesmente não sabe como lidar com o que eu e o César sentimos um pelo outro.
É vísivel, portanto, o risco que corremos de passar a vida inteira em uma indefinição; uma amizade enorme, porém assexuada. Enfim, incapazes de concretizar nossos desejos e vontades.
Agora vocês entendem por que sou tão descrente, fria, cética, isolada e calculista - em contraposição a um César extro-introspectivo, dramático, prolixo, carente e confuso.
Nossa relação, muitas vezes, parece com uma androginia, à la "Sheila take a Bow" (Smiths): em nossa heterossexualidade, não há uma bipolaridade, ambos têm características masculinas e femininas que se completam. E isso é adoravelmente patético!

H: Ontem à noite, a Giovana me contou como estava sua estadia em Pastória. As coisas parecem estar tranquilas. Ela e a mãe dela já resolveram aquele mal-estar, pois a Giovana explicou da maneira mais detalhada possível o tanto que ela está cheia de atividades, tarefas e assuntos para resolver em Cosmopólia - mais especificamente, na UNICOS. Portanto, a mãe dela pôde compreender que ela não visitou a família nos últimos tempos por escassez de disponibilidade mesmo, e não por ingratidão ou coisa do gênero.
Ela gostou de reencontrar seu irmão caçula, e ele ficou feliz de poder voltar a ouvir músicas boas no carro; a Giovana alegou que seus pais têm um péssimo gosto musical. Saíram para jantar à noite, e depois ela passou a madrugada na internet.

A: Não estou com paciência para escrever; estou cansada (fui a uma festa ontem, rá). Só queria avisar que hoje, 17 de Maio de 19 d.M., é aniversário da Júlia. Se eu acordar antes da hora do almoço, vou dar uma passada na kit dela. Tchau.

13 Maio 2009

Gates of Dawn

(Henrique)

... estava bastante ansioso em relação à festa da Bio. Inicialmente, ele nem pensava em ir, mas de repente viu que o convite de Alice não era de se descartar. Afinal, a semana havia sido exaustiva, com toda a campanha política e, é claro, as matérias e aulas. Portanto, aproveitar a noite de sexta era não só uma opção agradável, como também indispensável para que ele se desestressasse um pouco.

Combinou de pegar carona com um colega. Enquanto o mesmo não chegava, ficou pensando nos projetos políticos que tinha para a universidade. A responsabilidade que teria agora que fazia parte do diretório era imensa. Como deve ser "estar no poder, na situação"? Será que ele iria fazer diferente mesmo?
Porém, resolveu entrar na internet para chegar na festa com a mente mais fresca. A noite prometia.

(Giovana)

O ínicio da festa foi agradável. Encontrei alguns colegas, e conversamos enquanto os portões não abriam.
Os primeiros minutos foram especialmente cômicos. Estava tocando disco/70s, e os meus amigos alopravam na pista. Eu mesma não me contive, e fiz uns passos bem escrachados. Outro bom momento foi quando tocou "Unbelievable", do EMF. Olha, nem sou tão aficionada por música que nem o César, a Alice ou a Júlia, mas há certas canções de bandas 'one-hit wonders' que realmente são obrigatórias em uma festa que se preze, né?
Havia passado a semana bem confusa, como sempre. Dúvidas, inquietações, incertezas... Céus, quase fico com dor de cabeça só de relembrar o tanto que minha mente ficou atolada nos últimos dias.
E a pressão vinha de todos os lados, sabe? Trabalhos da faculdade, briguinhas bobas com colegas por motivos ainda mais bobos, desilusões contínuas no campo dos sentimentos, falta de tempo para dormir e me alimentar bem, minha mãe me enchendo o saco porque não pude ir para Pastória no Dias das Mães... Aliás, sobre esse último probleminha: juro que é porque eu tinha que terminar uma prova a ser entregue na 2ª de manhã, mas ela pensa que é porque eu sou uma filha desnaturada, mal agradecida.

Nem quero ficar pensando nisso, chega! Oba, estão tocando "Olhar 43"!

(Júlia e/ou César)


O que fazer? 1h30 da manhã, e eu pareço devorada(o) por um "eterno retorno": diversão durante algumas horas, seguida de súbita melancolia nas seguintes. Afastei-me do meu grupo, e fui sentar em um lugar qualquer, bem afastado, entregando-me à consternação. Não queria mais nada: nem amigos, nem música, nem festa, nem prazer... Enfim, é como se eu caísse no vazio, desistisse de viver.
Não conseguia sequer chorar, pois minha alma já estava tão congelada por esse desprezo por mim mesma(o) e a tudo que me cerca, que expressar qualquer tipo de emoção era simplesmente impossível.

Porém, foi nesse ponto que eu resolvi reagir. Precisei chegar à fossa mais profunda para despertar da letargia. Veio-me em mente a seguinte frase, tão banal e tão efetiva: "O que você tem a perder?"

Passei os últimos 18 - quase 19 - anos recusando-me a ser espontânea(o). Evitei toda e qualquer oportunidade que tive para desfrutar de uma existência menos sistemática. Sei que isso é um pedantismo desnecessário, mas não custa nada constatar que, durante todos esses anos, defendi a liberdade, o laissez-faire e a autonomia individual, mas comportei-me como uma autarquia obsoleta e regida implacavelmente.
Detesto falar em contradições, então usarei outros termos para dizer praticamente a mesma coisa: minhas multiplicidades estão em uma coexistência tão conflituosa, que, uma hora ou outra, eu terei que fazer escolhas, e me decidir por uma delas em detrimento das demais. E, sinceramente, pela 1ª vez visualizo meu "eu mundano" próximo de prevalecer.

Foi nessa hora que eu e o César (a Júlia) começamos a andar e dançar juntos. A música estava animada (algum techno da vida, bem ao gosto da Alice), mas isso era o que menos importava naquele momento.
Passamos algum tempo sentados na grama, usando a jaqueta dele (a minha jaqueta) como "tapete" - de mãos dadas, calados. Nem tinha certeza - ou preocupação - se gostávamos um do outro (qualquer dia falo sobre o que é ter uma amizade assexuada em estágio avançado), ou mesmo se avançaríamos para o "próximo passo". Mas, nada disso me interessa agora. Durante aquela hora e meia, eu queria ficar perto dele (dela), e vice-versa. Aquelas paixões malogradas pelas quais havíamos passado já eram pretérito perfeito. Voltar a ser livre é maravilhoso. "I'm taking a ride with my best friend".

(Alice)

Depois que ele foi embora (tinha que dormir cedo para estudar para uma prova), fiquei sozinha, mas não solitária. Já eram 3 da matina, mas a noite ainda estava longe de acabar. Voltei para a pista de dança e fritei.
O César me disse que na tenda mais vazia estavam discotecando anos 80 (Dire Straits, New Order, Joy Division, Siouxsie), e que ele e a Júlia estavam fazendo suas dancinhas 'góticas'. O Mário e o Henrique foram curtir o cover de Mamonas Assassinas, que estavam tocando no palco principal. Eu e a Giovana resolvemos ficar na tenda electro mesmo. Pessoas descoladas, muita androginia (nada no nível Party Monster, mas o suficiente para uma festa com reputação queer), música poderosa... enfim, coisas que eu sempre curti na festa da Bio.
Se fiquei com alguém? Nem lembro. A Giô disse que peguei 2 ou 3 caras aleatórios, mas o simples fato de eu nem ter me recordado deles (e olha que nem bebi tanto, foram só algumas vodkas e drinks) demonstra o quão irrelevantes eram os garotos que eu peguei.

Porém, foi só no fim da noite que fiquei sabendo que uma amiga minha tinha passado mal.

(Mário)

"Usando aquela gíria bobinha", disse, "ela deu P.T." Foi a primeira vez, pelo que lhe disseram. "Eu e o Henrique até demos uma passada lá para cuidar dela, mas o Edgar e o Fábio já estavam lá de plantão".
Mário disse que se preocupou com dela, mas no dia seguinte, pelo Messenger, ficou mais tranquilo. "Foi um susto, mas ela mesma me disse que serviu de lição para não se repetir mais. Se com ela acontecer o mesmo que eu (um 'problema etílico', e a noção dos próprios limites), beleza, já me despreocupo. Enfim, a festa da Bio foi uma degradação, mas deu para curtir um pouco. O cover de Mamonas foi hilário!"
Embora tenha achado que a banda estava mais 'wasted' que o próprio público, ele não mudou sua opinião de que o show havia sido bom. Porém, já eram quase 5 da manhã e ele queria ir logo para casa, pois daqui a algumas horas haveria treino de Fórmula 1. Ele sentia pena de César, que teria que acordar mais cedo por causa de uma reunião de um projeto no qual havia se inscrito.
No final das contas, só Mário e Henrique foram a Pastória no Dia das Mães. Os pais de Alice foram visitá-la (afinal, alguns parentes dela moram em Cosmopólia), e outros três agiram como "filhos insensíveis", e colocaram suas obrigações acadêmicas como mais importantes para aquele domingo do que fazer um agrado às mães.
Ok, trivialidades à parte, era hora de dormir, "pois a F1 não vai me esperar".

11 Maio 2009

Pit Stop

E então, o que acharam dos últimos 4 posts?
Resolvi dar vazão ao meu lado "escritor frustrado" nos últimos dias, e fiz aquela sequência de textos, utilizando os personagens do meu livro. Começou como uma tática do pós-fossa, mas acabei me empolgando e tornando tal estilo de postagem algo mais recorrente.

Estive cheio de atividades nos últimos dias (e ainda estou), então só passei aqui para dar um olá.

Coisas sobre as quais falarei nos próximos posts: BioVinil, Politeia, prova de TPC, aplicar prova de TPM, Fórmula 1, Palmeiras, dia das Mães, upgrades musicais, "my personal life" e outras trivialidades.
Além, é claro de mais "historinhas".

Agora, se me dão licença, vou assistir a "Party Monster" (afinal, estar atolado de tarefas não significa abdicar de um cineminha no notebook). Estou enrolando para ver esse filme desde, sei lá, 2005. De hoje à noite não passa. Bye.

07 Maio 2009

Th(r)e(e) party(ies)

Mário Estávamos os três reunidos: eu, Alice e Júlia. Discutíamos os últimos detalhes sobre a festa em que iremos amanhã. A mesma é organizada pelo pessoal da Biologia, e terá discotecagens e performances que mesclarão rock e eletrônica. Nada que me deixe ultra-empolgado, mas meus amigos se amarram nessa combinação sonora.
Sinceramente, irei à festa para experimentar teorias e paquerar garotas. Como? Oras, testarei cantadas e flertes que aprendi nas últimas semanas, mas também tratarei de ficar observando as pessoas e calculando possibilidades. Adoro combinar racionalidade com desejos e sensações. O César diz que me pareço com o Hans Castorp: um engenheiro com coração.
Ando tão cheio de planos e tarefas que não perderia a primeira oportunidade de descarregar essas tensões e preocupações. Logo, uma balada é a ocasião perfeita para ter uma 'diversão planejada'.
Durante a conversa, nós meio que fizemos uma divisão - cada um de nós deveria tentar convencer outra pessoa a ir à festa. Incubi-me de persuadir a Giovana. Porém, ela anda meio estranha nos últimos dias - sei lá, mais relativista do que nunca. Para ela, ninguém está certo ou errado: "é tudo uma questão de ponto de vista". A Giovana jura que isso é reflexo de uma atitude mais relaxada da parte dela em relação à realidade, mas algo me diz que, no fundo, ela fez ou fará algo que procurará justificar com esse discurso perspectivista.

Alice O Mário puxou conversa sobre a festa, e o assunto veio bem a calhar. Estou animada em relação a esse evento da Bio; eles têm tradição no ramo. Não tanto quanto nós, seres gloriosos da Comunicação Social, mas o suficiente para gerar uma boa festinha. A lista de DJs e shows parece bem promissora.
Minha mentalidade festiva é bem simples: aproveitar cada uma como se fosse meu último dia na face da Terra. Adoro perder o controle durante algumas horas, toda vez que tenho "a date with the night". Eu deixo as coisas rolarem, só me preocupando com arrependimentos (ou, quando possível, a ausência deles) no dia seguinte. Há quem chame essa postura de hedonismo, epicurismo ou sejá lá o que for. Eu prefiro considerar isso uma atitude válida de uma jovem que quer apenas curtir, sem frescuras ou maiores pretensões. Vou dançar bastante, e, se der na telha de ficar com alguém, por que não?
Tive uma semana bem complicadinha, cheia de provas e campanhas políticas. Minha chapa, de esquerda moderada, perdeu para a do Henrique, que é um "socialista mainstream", coisa de petistas mais tradicionais (e não esses vendidos de hoje em dia). Ficamos em um clima meio que de rivalidade; ainda mais ele, que leva política muito mais a sério que eu - que tenho mais com o que me preocupar, né?
Então, agora que a chapa dele venceu a eleição para o diretório estudantil, o Henrique ficou todo exibido. Nem sei se ele vai querer ir na festa da Bio. Porém, vou propor uma trégua partidária para tentar convencê-lo. Ia ser legal tê-lo por lá. Já que o levei pro mau caminho há alguns anos, nada como continuar curtindo junto com ele, até hoje, a nightlife de Cosmopólia. Além do mais, fiquei responsável, depois de um acordo com o Mário e a Ju, de "cuidar" dele; então, façamo-lo.

Júlia Que tédio. Ainda bem que teve o show do Oasis na TV, hoje à noite, para salvar o meu dia.
Tocaram várias das minhas prediletas, tais como "The Importance of Being Idle" e "Supersonic". E, de quebra, ainda apresentaram um cover daquela que César considera a melhor música de todos os tempos: "I Am The Walrus", dos Beatles.
Sobre minha quinta-feira: à primeira vista, horas de palestras, filmes e conversas podem parecer uma maneira agradável de aproveitar o dia. Infelizmente, só parecem. Palestras enfadonhas, filmes caricatos, conversas improdutivas. Nada muito relevante, percebe-se. E olha que eu gosto de cinema, seminários e (um pouco, bem pouco mesmo de) socialização. Cheguei em casa (se você considerar uma kitnet como tal) esgotada fisicamente.
Porém, nada disso me desanima em relação à festa de amanhã. Gradualmente, venho acostumando-me ao ritmo da vida noturna universitária. Ao contrário do Ensino Médio, em que a opção pelas noites misantrópicas era mais do que natural (e sensata), agora eu não tenho mais desculpas para passar a sexta e/ou o sábado sem ter nada para fazer. Continuo a me sentir deslocada quando me arrisco a tentar conviver em sociedade, mas, se a música for boa, tudo vale a pena - até mesmo aguentar "as pessoas".
É nesse intuito que pretendo ir - para saber o que estou perdendo ou não fora da solidão. Só resolverei minha desconfiança me arriscando, e não preciso de horas de reflexões existenciais (como meu amigo com nome de imperador romano) para chegar a uma conclusão tão óbvia. Além do mais, é uma perfeita ocasião para constatar a decadência alheia. Os antropólogos chamariam isso de "pesquisa de campo", mas eu, como internacionalista arrogante que sou, nem me dou ao luxo de criar jargões para isso. Oras, é apenas uma distração do tédio rotineiro.
Eu, o Mário e a Alice estávamos a conversar hoje, e, em meio a assuntos bestialmente aleatórios, decidiu-se que cada um de nós iria abordar algum de nossos(as) amigos(as) para convencê-los a ir na festa. Esperta que sou, escolhi o César, sabendo que ele já comprou o ingresso há umas duas semanas, ainda no 1º lote. Ele parece muito empolgado em relação ao evento da Bio, ainda mais levando em conta que ele acabou de sair de um infortúnio sentimental. Acho que ele já esqueceu a Flor, ou pelo menos parece tê-lo feito; portanto, aproveitará a festa sem maiores dramalhões. Não o vejo tão ansioso em relação a uma "going out" desde o show do New Order, há mais de 2 anos. Isso é ótimo, mas algo continua a me preocupar; não sei ao certo, talvez ele esteja escondendo ou remoendo algo... Hei de perguntá-lo a respeito disso.
Bem, acho que era isso que eu tinha a dizer.

06 Maio 2009

Opinião Externa

(Giovana e Henrique, em uma conversa durante o almoço)

- Você viu? O César escreveu um texto, contando para todo mundo, mesmo que sob forma fictícia, sobre o 'episódio' que ele teve na semana passada!

- Pois é. Sei lá, achei desnecessário. Às vezes ele exagera; sente-se tão legitimado por aquilo que você chamou nele de "extro-introspecção", que começa a ficar fofocando sobre a própria vida (e a daqueles que convivem com ele), como se se sentisse no direito de julgar tudo e todos.
- Não é bem assim; até duvido que ele tenha tamanha malícia. No final das contas, é a maneira que ele encontra para resolver seus problemas. Colocar no 'papel' e expô-los para que quem quiser leia. Acho que, no fundo, essa é a idéia dos blogs intimistas, da 'old-school': um diário aberto, em que você compartilha seus segredos, pouco se importando se ninguém, poucas ou várias pessoas irão ler.
- Eu sei, Giovana, mas reprovo essa conduta. Ele pode magoar quem teve sua vida exposta, mesmo que indiretamente, em suas historinhas. Há certas coisas que podemos (e deveríamos) guardar para nós mesmos - e nisso incluo desde a fé até detalhes sórdidos de nossas vidas.
- Não seja tão dogmático, Henrique. Você mesmo gosta de fazer pregações político-ideológicas (essa última eleição acabou de provar isso), ou mesmo contar para todo mundo o quanto a sua vida mudou depois que você fez 15 anos, e toda aquela ladainha...
- Sim, mas eu não tomo a iniciativa de ficar contando isso para as pessoas, ao contrário dele. Só o faço quando elas me dão abertura para fazê-lo. Acho que você mesma é assim; raramente a vejo revelando para todo mundo sua intimidade.
- Óbvio, afinal quase ninguém entenderia sequer um milésimo dos meus, por assim dizer, traumas foucaultianos. Então, é melhor ficar calada. Porém, agir diferente do César (com seu auto-conhecimento externalizado) ou mesmo da Júlia (que satiriza e despreza as pessoas como válvula de escape para seus próprios problemas) não significa que eu deva reprovar a conduta deles.
- Entendo, mas você não acha que ele, mesmo que não deliberadamente, fez um texto meio 'vingativo'?
- Não. Poxa, Henrique, pare com esse maniqueísmo. Não há apenas uma ou duas interpretações possíveis para as atitudes humanas. Há toda uma teia de detalhes que devem ser analisados antes de um veredicto - e mesmo essa decisão deve ser relativizada. Não quero parecer advogada do diabo, mas há mais na psiquê do César (ou da Júlia, Alice, Mário...) do que seu dogmatismo quer ver.
- Então, mostre-me. O que há para ser compreendido, além de um típico "já que ela não me quer, vou contar pra todo mundo o que aconteceu"?
- Antes de tudo, uma inspiração literária. O César, que sempre reclamou que nunca tinha histórias dignas de serem contadas em um livro, passou por uma situação razoavelmente válida, tanto para o aprendizado dele (que, espero, aprendeu a ser menos iludido no campo do amor) como para exercício estilístico. Concordo que o texto poderia ter sido melhor elaborado, para não ficar tão "óbvio", mas talvez ele mesmo não quisesse formalizar demais algo que não o precisava. Em segundo lugar, preste atenção no desenrolar da trama: depois do fato em si (enfatizado por sublinhados em vermelho), ele pára e reflete, e constata que não existem culpados e vítimas na história; no máximo, uma pessoa que precisou de uma situação extrema para abandonar idéias pré-concebidas; aliás, algo que você mesmo deveria aprender.
- Tudo bem, mas e o ressentimento? Ele fala que quer evitá-lo, mas escrever tão explicitamente sobre o assunto já não denota uma vontade de despejar amarguras?
- Acho que não. A própria filosofia dele, o Anfisismo, já explica isso - discursos aparentemente contraditórios, na verdade, representam multiplicidades. Em outras palavras, e usando um esquema 'tripartite': enquanto a parte mais "ética" dele quer tirar alguma lição daquela experiência, a parte mais "ansiosa" não quer perder a chance de encerrar 'a angústia do silêncio', já a parte mais "tecnocrática" vai jogando informações até encaixá-las de uma maneira que a esclareça melhor, e assim por diante. Conclusão: não é ressentimento, mas talvez a insegurança em lidar com as próprias emoções, a imaturidade de um rapaz com uma trajetória tão previsível como a dele.
- Hum, faz sentido. Eu já sentia essa falta de discrição - e mesmo de tato - do César desde que nos conhecemos, há uns seis anos. Esse jeito "nada a esconder" dele, por um lado, é preocupante e lamentável, mas por outro - e nisso concordo com você - pode também ser visto como uma maneira que pessoas como ele utilizam para, sei lá, encontrarem a si mesmas. É uma opção arriscada (e que pode causar estragos), mas, se ele aprender algo de bom fazendo desse jeito, não é tão reprovável assim.
- Que bom que você entendeu, Henrique. E, melhor ainda, não me acusou de ser "uma realista cínica" (algo que a Júlia adoraria ser chamada, ao contrário de mim). Já estava meio cansada de ficar tentando lhe convencer que o César não é um monstrinho normativo e tragicômico. Mesmo que isso soe sádico, fico feliz por ele ter tido essa situação com a Flor, pois, agora, ele poderá ter um caminhar menos pesado e aproveitar a vida mais tranquilamente - como ele mesmo parece, enfim, querer.
- Tomara, Giovana. Tomara. Mudando de assunto, vai votar na minha chapa?
- Céus, vai começar tudo de novo...

05 Maio 2009

Linger

César, você está conseguindo. A absorção do impacto está quase completa. Em breve, você já terá esquecido, abandonado a paixão que sentiu pela Flor durante as 5 semanas passadas. Preferi manter-me em silêncio durante os dias mais críticos, para intervir só no momento mais adequado. Espero que eu tenha entrado em cena já depois do (anti-)clímax de seu pequeno drama.
É uma pena que você, mais uma vez, tenha malogrado (não reciprocidade, desencanto, "choque de realidade"...). Porém, antes isso do que prolongar indefinidamente a ilusão de que poderia dar certo, não acha?
Só torço para que, de fato, você não guarde mágoas ou coisas do gênero. Algo certo você já fez: não caiu no pedestaltismo. Tanto buscou evitar lamentos platônicos, que soube desistir na hora certa. De fato, viver é muito mais do que circular pelo universo paralelo e normativo que você moldou para si mesmo. Fazendo uma citação piegas, "esse mundo é muito mais do que este campo de sonhos no qual dançamos - e eu quero ver esse mundo".
Agora, é focar-se em outros assuntos. Desafios acadêmicos, amizades enriquecedoras, festas promissoras e, é claro, o bom e velho auto-conhecimento. A tal da "extro-introspecção" - que, se não me engano, Giovana apontou em você - talvez faça sentido. Você realmente é muito voltado para si, para a sua mente, pensamentos e angústias; mas, ao mesmo tempo, gosta de externalizar essas impressões particulares, de dialogar com o mundo de pessoas e possibilidades que o cerca. Quereria eu saber lidar assim com a solidão inevitável a pessoas idiossincráticas como nós.
Rio-me de um tolo fato que agora me ocorreu: você deve ter estranhado o caráter tranquilo que prevaleceu nesse texto, muito diferente do meu tom predominantemente ácido. César, não se iluda: continuo sendo a mesma pessoa fria e sarcástica de sempre. Só não acho pertinente destilar meu veneno retórico em você antes de se completar sua "rehab emocional". Porém, não se preocupe; em breve voltarei a ironizar seu estilo de vida adoravelmente patético. Ceteris paribus, permaneço como uma influência conservadora e cética para você e suas falácias anfisistas. Até mais, e boa sorte na reta final de sua recuperação.

Atenciosamente,
Júlia.

03 Maio 2009

Tender

Já antecipei ontem, pelo Twitter, através de 4 postagens, o que eu irei falar mais detalhadamente aqui em Racio Símio: como o dia de anteontem foi histórico.
É claro que os motivos pelos quais eu o classifico assim não são todos bons, mas unanimente corroboram para a minha tese de que 1º/5/2009 foi marcante. Além disso, vou aproveitar para falar um pouco de ontem, também.
Vamos aos fatos, portanto - e em forma de historinha, com personagens fictícios representando fatos reais e tudo mais (tirando o nome dos times do COPOL, que serão mantidos). É um post longo, portanto tenham paciência.

6h50. César acorda e começa a se arrumar para o COPOL. Ele navega um pouco na internet antes do colega que ia lhe dar carona chegar, uma hora depois. Seu 1º jogo era o terceiro do dia, mas conseguiu chegar a tempo para ver a partida de abertura do torneio.
Houve momentos engraçados, mas César estava mesmo era ansioso para duas coisas em particular: I - A partida de estréia, II - Quando Flor, a garota do "código", iria chegar. A primeira problemática logo se resolveu, e infelizmente seu time perdeu - de virada - o jogo, por 4 a 2, para os Campesinos Maquiavélicos, time formado majoritariamente pelo pessoal de seu semestre (ele está no Weber Brahma, onde é pelo menos 3 e até 6 semestres mais novo que o resto da equipe). Ele só jogou uns 3 minutos, nem dando para tocar direito na bola.
Sua mãe ligou, dizendo que tinha chegado a Brasília (uma surpresa, pois ela ainda não havia lhe dado certeza que iria), e disse que precisava buscar as chaves do apartamento. César falou para ela que seria muito longe (afinal, o COPOL foi no "ParkAway"), mas ela insistiu, e ele e o dono da casa passaram o endereço. Ela chegou durante o intervalo do 2º jogo do Weber (derrota de 2 a 1 para o Finado Chicó, em uma partida mais equilibrada do que o esperado), e o problema foi resolvido.
Pouco depois, o "código" chegou. Porém, seguiram-se horas em que César tentava falar com ela, mas não conseguia sair do bloqueio, trava. Até andava perto e/ou ficava a observando, mas não conseguia puxar assunto. Em uma das poucas ocasiões em que o fez, perguntou rapidamente se ela tinha ouvido o CD que ele lhe gravara, e, como ela disse "não", achou melhor não insistir. Comportou-se, contudo, como uma espécie de "garoto tímido com trejeitos de stalker", algo que não é novidade para ele.
O terceiro jogo foi uma pequena alegria no meio desse turbilhão de emoções. Empate em 2 a 2 com um dos favoritos (e decepções) do torneio, o AI-5, e um dos gols do WB foi... de César! Em meio à confusão dentro da área em um escanteio, conseguiu livrar-se da marcação, chutar, e a bola ainda desviar de leve em um zagueiro. Ele consideraria gol contra, mas todo mundo achou que foi um 'goal' dele mesmo, então, prevaleceu essa opinião, inclusive nos 'papéis oficiais' do jogo.
Depois disso, ele dividiu seu tempo entre acompanhar os jogos das demais equipes e ficar conversando com o pessoal na área principal, que tinha cozinha, cama elástica, cadeiras e tudo o mais.


Quanto ao futebol: no grupo A, o Finado Chicó (time do pessoal do 4º semestre), a despeito de algumas polêmicas (como escalar 1 jogador de fora do curso a mais que o permitido, algo que lhes custou 3 pontos), ficou em primeiro lugar, com 6 pts. Os Campesinos fizeram a mesma pontuação, mas perderam no confronto direto. AI-5 em 3º, e Weber em último, ambos com 1 ponto, mas estes tiveram saldo de gols pior.
N'outro grupo, tivemos a ausência do time dos neófitos (Go Go Boys do Presidente), levando a um triangular: Butina de Ferro (5º e 6º semestres) venceu Medida Provisória (pessoal do 7º), que derrotou Os 8 de Brumário (9º semestre), que também perdeu para o Butina.
Nas semifinais, que foram sob forte chuva, os Campesinos Maquiavélicos perderam por 4 a 1 do Butina de Ferro, enquanto que o Finado Chicó superou o Medida por 2x1. Na finalíssima, o F.C. sagrou-se campeão, ao vencer de virada o Butina: 3 a 2. Foi um jogo tenso e emocionante. Porém, César acha que acabou sendo vencedora uma equipe que não tem tanto o espírito do COPOL. Algo lhe diz que eles levaram o torneio a sério demais, treinaram táticas, discutiram com a arbitragem, tinham torcida organizada... Faltou o caráter amador que tanto permeia o campeonato futebolístico da Ciência Política.

Agora, o assunto principal dessa pequena saga de César. Pois bem, ele continuou bancando o estranho quando via (ou tentava conversar) com a Flor, e a coisa não melhorou muito depois que ela começou a beber. Se ele já se sentia meio deslocado na hora de conversar com certas pessoas quando ambas estão sóbrias, a situação piora quando elas entram em "estado etílico" e ele continua clean. Não que ele as recrimine por isso, mas é inegável que surge certa, sei lá, desigualdade de condições mentais (e até físicas).
Pois bem, conversa vai, conversa vem, e César descobriu que um amigo dele, Edgar, poderia ser a pessoa de quem o "código" gosta. O rapaz não sabia que nosso protagonista estava apaixonado pela Flor, mas o descobrira, através de alguém, durante o COPOL. Só que, como ele estava bêbado, acabou contando mais do que o esperado (e até mais do que César gostaria de saber), sobre o passado e o presente dele e da Flor, levando César a ficar com uma dúvida cruel na cabeça: "Será que é ele mesmo o pretendido dela?"
Cerca de 15 minutos depois, ele teve a resposta. Edgar estava esticado em uma cadeira perto dele. Flor foi lá, conversou rapidamente com o rapaz, depois o puxou e saíram. César continuou assistindo ao jogo, embora preocupado. Pouco depois, ele não resistiu à curiosidade, e virou seus olhos para a esquerda. Eis a cena: a cerca de 30, 40 metros de distância, Flor e Edgar estavam... ficando.
César confessa que quase chorou na hora, mas estava tão perplexo com aquela situação que não conseguia se expressar com lágrimas. Foi ao banheiro, e ficou alguns minutos se olhando no espelho e conversando consigo mesmo, tentando entender tudo aquilo que havia ocorrido. Depois disso, seguiram-se duas horas e meia em que ele ficou andando a esmo (mesmo durante momentos em que estava chovendo), completamente desnorteado.
Pois é, a vida deu um baita tapa na cara de César. Ele teve sua 1ª experiência concreta no que diz respeito ao esquema "gostar de uma garota, ela saber disso, o 'pretê' dela também, e isso não impedi-los de ficarem em público". Foi um desencanto dos mais chocantes se deparar com uma situação daquelas. Nos casos de 10 e 15 d.M., o "não" das garotas foi mais simbólico e sutil, e não tão explícito.
Além disso, ele se depara com alguns outros problemas. Por exemplo, assumir uma postura ética de não querer se envolver com uma garota (por mais que goste dela) que tem algo com um amigo seu. Além disso, fica em profunda dúvida: será que vale a pena continuar sofrendo e insistindo em alguém que, muito dificilmente, será recíproca em relação ao seu 'gostar'?


Porém, César está certo de que deve analisar a situação por outras variáveis, afinal uma coisa é essencial: ele, em hipótese alguma, deve se fazer de vítima. Nosso protagonista está vendo claramente que é tolice culpar a Flor ou qualquer outra pessoa pelo que aconteceu anteontem. O problema é exclusivamente em relação a ele e suas atitudes (ou a falta delas).
César continua sendo muito inocente e sistemático na hora de lidar com as pessoas, especialmente aquelas por quem ele sente algo diferente. Continua a superestimá-las, a encarar os fatos através de teorias comprovadamente falhas e, principalmente, a cair na auto-piedade. Se persistir com esse jeito deprê auto-indulgente de pensar e agir, continuará apanhando da vida.

E agora, o que fazer? A escolha mais sábia e sensata de todas seria esquecer a Flor, e tocar a vida para frente – sem ressentimentos e neuras, sem remoer nada. Além disso, ser mais laissez-faire a respeito de relacionamentos, evitando dogmas tais como “esperar a garota certa”. Porém, César sabe muito bem que uma coisa é ter um discurso reformista, outra é transformá-lo em prática. E é este justamente o maior desafio dele: reagir bem a esse “choque de realidade”, sem cair nos extremos.
Trilhas sonoras para seu novo momento não faltam. Além do “dark side” dos Pixies (“Hey”, “Where Is My Mind?”, “Is She Weird”, “Gouge Away”…), ele selecionou a sua música oficial do pós-fossa: “Tender”, do Blur. Consciente de que “tender is the day the demons go away”, ele faz coro à dor de cotovelo de Damon Albarn: “Come on, get through it. Love is the greatest thing that we have. I’m waiting for that feeling to come.”

Antes de encerrar a descrição de suas aventuras, César tentou relembrar-se rapidamente de como foi a noite de 1º de Maio. Tão intensa em eventos quanto o resto do dia, ela será injustamente minimizada e ofuscada por aqueles poucos minutos em que nosso protagonista teve a tal “revelação”.
Pois bem, ainda no COPOL, depois de horas de “caminhada deprê”, ele resolveu extravasar um pouco seu turbilhão de emoções reprimidas, e pulou na cama elástica durante alguns minutos, cantando alto algumas de suas músicas favoritas (é claro, aquelas adequadas para o que sentia naquele momento). Foi uma maneira de, simultaneamente, libertar-se um pouco de sua dor e fazer um contraponto à música ruim que estava tocando no som (forró e adjacências), e que as demais pessoas dançavam.
Mais tarde, ele pegou carona, em um carro lotado: sete pessoas. Após algum tempo na casa de um colega, ele saiu com alguns amigos (inclusive o próprio Edgar) para ver um show (gratuito, o que é melhor) de uma banda cover de Beatles. Foi um ótimo concerto, e apesar de ter chegado na parte final da apresentação, César ainda pôde conferir (e cantar junto) 8 ou 9 canções do quarteto fantástico de Liverpool.
Depois, eles foram fazer um happy hour dos mais gaiatos, que só foi acabar às 4 da manhã. Mesmo estando sóbrio durante todo o tempo, César não ficou deslocado durante àquelas horas. Pelo contrário, ele compartilhou das risadas de seus colegas, e por alguns momentos chegou até a esvaziar sua cabeça sobre os eventos problemáticos da tarde daquela sexta-feira.


Além disso, ele fez um esforço para contar para si mesmo “o dia seguinte” – o sábado, dia 2. Sua mãe veio lhe fazer uma visita, eles conversaram, foram fazer compras, almoçar, e em torno das 4 da tarde, ela iniciou a viagem de volta para casa, e ele foi até a biblioteca de sua universidade. Objetivo? Pegar o ônibus de graça que iria até o CCBB, onde ele tinha marcado de encontrar dois amigos para verem uma exposição sobre a Virada Russa, movimento de vanguarda do início do século passado. A noite foi ótima, e, após a exposição, eles foram comer crepes, enquanto tinham conversas divertidas e produtivas.
César, às onze da noite, chegou a seu recinto, ficou na internet até 2h30, pensando em coisas que escreveria em um texto-resumo de seus últimos dois dias. Acordou rapidamente às 5h30 e às 7h30, mas voltou para a cama e repousou até meio-dia. “E o resto é silêncio”.

30 Abril 2009

Pacote de Abril

Chega ao fim um dos melhores meses da minha vida. Abril de 2009 foi realmente especial por vários motivos, e não custa nada fazer um top 5 deles.

5 - Atividades paralelas, como a SINUS 2009 e a campanha eleitoral para o pleito do DCE/RD, que me ajudaram a ser mais sociável.
4 - Desenvolvimento acadêmico, graças a matérias interessantes e iniciativas de tentar criar uma pesquisa.
3 - Ótimas festas, desde o Móveis Convida até a Celebrar Brasília.
2 - Primeira vez que me apaixonei para valer por uma garota desde 2005.
1 - Uma nova atitude diante da vida: mais transigente, pragmática e extrovertida.

Nem preciso falar muito sobre cada um deles. É só ler os posts abaixo para 'further information'.

No mais, meus últimos três dias foram especialmente legais.
A terça 28, por causa das aulas (HSPG foi um escracho só, TRI teve debates curiosos), a reunião da chapa 4, o reencontro com o "código" (não a via há 13 dias, e aproveitei para entregar o CD) e, à noite, o show em que fui com uma colega minha - e teve McDonald's na volta!
Ontem, 29 de Abril, em razão da aula de TPC sobre Movimentos Sociais (que é uma linha teórica menos chata do que eu imaginava), PPSE sobre partidos no Império, o debate entre as chapas (boa ocasião para diferenciar as propostas e estilos de cada uma delas), conversas incríveis... Ah, e paguei a inscrição no Politéia (agora, é torcer para ter saído com o DEM na comissão de Reforma Política).
E hoje, 30/04, porque teve Cinema Político (assisti a um filme bem esquisito, "Madeinusa"), novas medidas para ser um monitor de TPM melhor, papos hilários e um clima de 'ufa, a semana acabou!'.

Acho que vou parar por aqui. Estou bem cansado, e amanhã tem COPOL - e, talvez, Landscape ou Galleria à noite. Além disso, terei uma nova ocasião para falar com ela (d'you know what I mean?), desta vez mais abertamente. Ou seja, três eventos importantes já no debut de Maio, hein?