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18 Fevereiro 2012

Sense of Doubt

Confesso que sinto um estranhamento por ter me tornado um "cristão sem fé", ou seja, por ter aderido ao Cristianismo (inclusive aceitando suas conseqüências morais e filosóficas) mesmo sem ter tido uma experiência religiosa, epifânica.
Digamos que de facto eu continuo sendo um cético, uma pessoa intocada pelo sobrenatural; mas, acho que isso não me impede de aceitar racionalmente que os ensinamentos da religião cristã são mais sensatos que as outras filosofias existenciais que conheço. Acho que minha adesão também tem um quê de estética, no sentido de eu achar a doutrina cristã mais "bela" do que as demais.
É, pelo visto a minha decisão de anteontem foi mesmo só o 1º passo, hehe.

16 Fevereiro 2012

Jesus walking on the water

16 de Fevereiro de 2012: o dia em que me assumi cristão. Estou finalmente de volta ao que eu era até os 13 anos.
Passei pelo ateísmo, pelo agnosticismo e recentemente até por quimeras como o "humanismo cristão", mas acho que já é hora de aceitar que a única religião que considero próxima à minha visão do Homem e do Eterno é o Cristianismo. Porém, ainda me falta uma experiência de fé para consolidar essa "conversão".
Digamos que "racionalmente" estou aderindo ao Cristianismo, porém ainda falta fazê-lo "sentimentalmente", por meio daquilo que chamam de epifania. Ou seja, estou dando apenas o 1º passo. (Ah, e é claro, também preciso começar a ler mais a Bíblia!)
Ainda posso ser (e sou!) humanista, mas o meu humanismo é filosófico; jamais poderá se arrogar religioso, metafísico. Em outras palavras, minha cosmovisão é humanista, mas não o que apreendo do sobrenatural, do transcendental. Digamos que eu seja um cético que quer acreditar ("I want to believe", como diria o Mulder), um agnóstico que está disposto a crer, aberto a ter fé.

Vamos recapitular o meu percurso até chegar a essa decisão. Na minha infância eu tinha três opções religiosas: minha mãe é espírita, meu pai (e a família dele) são evangélicos e a família da minha mãe é católica. Porém, nenhuma das três me despertou interesse. Até cheguei a ir a missas dominicais com meu avô, à igreja que meu pai freqüenta e, principalmente, ao centro espírita no qual minha mãe vai. Dos 10 aos 13 anos de fato cheguei a me considerar espírita, mas com o tempo fiquei entediado; minhas preocupações passavam bem longe de assuntos religiosos, e a abordagem pseudo-científica do espiritismo me enfastiava.
De repente, virei ateu. Como na maioria esmagadora das "conversões" ao ateísmo, as circunstâncias foram banais: em uma aula de História na 7ª série, meu professor falava de várias religiões, e por fim mencionou de passagem o ateísmo, sobre o qual eu jamais tinha ouvido falar até então. Pensei com meus botões nessa nova "possibilidade epistemológica" que se abria a mim: "Quer dizer que eu posso simplesmente não acreditar em Deus? Ufa, que bom, já não preciso mais ser hipócrita! Sou ateu!"
Durante os três anos seguintes mantive-me incólume na minha descrença em Deus, combinada a uma forte crença na ciência e no "progresso". Digamos que eu era um Dawkins juvenil, pois eu também adorava criticar a Igreja e tudo relacionado a ela. Certa vez, na 8ª série, cheguei à brilhante conclusão de que Jesus Cristo era socialista! (uma colega católica ficou furiosa quando eu disse isso em uma aula). Mesmo quando abandonei a esquerda mantive meu materialismo na "esfera" metafísica.
Depois que li Nietzsche, então, senti ainda mais legitimidade intelectual para a minha postura. Leiam posts como "Sem tempo", "Pra encerrar o dia", "Kaio, você é o meu ídolo!", "Bem, o que eu tenho a dizer hoje?" para verem como eu tinha a arrogância e petulância típicas dos ateus. Li "Os Irmãos Karamázov" e não me impressionei com o trágico destino de Ivan; pelo contrário, admirei-o sem me importar com a degeneração mental que o niilismo lhe acarretou.
Porém, aos 16 anos, ao fim de uma crise existencial iniciada no 2º semestre de 2005, eu tive uma "crise de fé" em relação a tudo, inclusive meu ateísmo. Tornei-me mais cético em relação a tudo, mas ao mesmo tempo fundei minha própria corrente filosófica (o Anfisismo). No âmbito religioso, decidi-me pelo agnosticismo, por não acreditar na capacidade humana de resolver questões tão complexas como a existência de Deus e o surgimento do universo e da vida. Hoje vejo que esse foi um passo importante, pois envolvia uma certa modéstia intelectual, algo do tipo "Quem sou eu para ter a resposta para algo tão profundo?"
Ainda assim, até pouco tempo atrás eu era um agnóstico de jure e um ateu de facto. Ou seja, embora em tese fizesse suspensão de juízo sobre questões metafísicas, continuava a agir como um completo secularista, partidário do karamazoviano lema "se a alma é mortal e se Deus não existe, então tudo é permitido". O ápice disso foi meu namoro com a Laura em 2009, que era mais do que atéia: ela era anti-teísta! Aliás, foi justamente naquela época que comecei a ver, na perturbada pessoa que ela era, o horror de se viver ancorado(a) numa filosofia existencial completamente secular, sem Deus.

Porém, em 2010, por meio do projeto Estudos Humanistas (graças o qual entrei em contato com vários clássicos do pensamento ocidental e comecei a valorizar mais o patrimônio intelectual de nossos antepassados) e a amizade com colegas católicos (mesmo que um ou outro deles seja fanático, i.e., com uma maneira de pensar muito à la Mídia sem Máscara, rs), comecei a dar uma guinada. Tanto é que, quando reli "Os Irmãos Karamázov", meu personagem preferido passou a ser Aliócha! O convívio com o pessoal relativista/pós-moderno/hiper-racionalista do PET/POL também reforçou minha convicção de que o secularismo e o racionalismo "puro" não estavam com nada.
Já no início de 2011 li duas obras que reforçaram esse novo caminho: "A Vida Intelectual" (padre Sertillanges) e "O Trivium" (irmã Miriam Joseph). O encanto pelas artes liberais - e, é claro, o fundamento cristão-tomista delas - me ajudou a perder minhas reservas e preconceitos em relação ao catolicismo e as demais formas de Cristianismo. Reli com cuidado "O Jardim das Aflições" (Olavo de Carvalho) e achei fascinante a idéia por trás do simbolismo universal da cruz. Assustei-me com as ambições prometéicas da Sociedade da Torre de "Wilhelm Meister" (Goethe), decepcionei-me com a amarga visão de mundo de Voltaire em "Cândido", perturbei-me com o horror do Inferno e me identifiquei com a redenção do Purgatório da "Divina Comédia" (Dante) e vi os horrores proporcinados pelo esteticismo niilista de Leverkühn em "Doutor Fausto" (Mann) - aliás, o curso do Nivaldo Cordeiro sobre este romance reforçou minhas intuições iniciais sobre o simbolismo dessa obra.
Além disso, fiz uma matéria (Política e Direito) com um professor existencialista/nietzscheano, na qual eu era um dos poucos da turma que o desafiava, já que não concordava que a vida não tivesse sentido, que a verdade fosse relativa, que só nos restasse agir baseados no pragmatismo e no comportamento estratégico etc. Resultado: ganhei o apelido de "grego", rs.
Em 4 de Julho, eu disse o seguinte na minha página no Facebook:
"Que bizarro: viro ateu aos 13 anos e volto a acreditar em "metaphysical stuff" (verdade absoluta e universal, que pode vir a ser o tal de Deus) aos 21! Enquanto não resolvo essa transição teológica, definir-me-ei como 'agnóstico cristão'. (...) [P]ensei bastante sobre o assunto nos últimos tempos, movido por livros que nem eram sobre Teologia (eram romances e livros de Filosofia mesmo), e percebi que o ateísmo não faz sentido nenhum, inclusive do ponto de vista lógico. E percebi que meu agnosticismo era uma 'suspensão de juízo' que, uma hora ou outra, cederia a uma admissão de que existe uma verdade metafísica. Ainda me falta uma experiência de fé, epifania para acreditar em Deus, mas do ponto-de-vista filosófico e racional já admito essa 'hipótese'."

Poucos dias depois li uma entrevista do Luiz Felipe Pondé à "Veja" em que ele disse justamente o que eu precisava ler. I couldn't agree more:
"Comecei a achar o ateísmo aborrecido do ponto de vista filosófico. A hipótese do Deus bíblico, na qual estamos ligados a um enredo e um drama morais muito maiores do que o átomo, me atraiu. Sou basicamente pessimista, cético. descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica."

Ao longo do segundo semestre de 2011 esta indagação teológica ficou em banho-maria, pois eu estava muito ocupado com a monografia e a seleção de mestrado. Porém, nessas férias ela voltou a ser uma preocupação central para mim. Após ler "Os Demônios" (Dostoiévski) e "Crítica e Profecia" (Pondé), fiquei mais convicto dos riscos niilistas de um racionalismo excessivo, do quão problemático é o imanentismo (ou, na expressão de Eric Voegelin, a "divinização da sociedade") e da legitimidade do misticismo e da ortodoxia cristã, marcada por um pessimismo antropológico e um otimismo metafísico.
Sendo assim, a decisão que tomei hoje foi meditada durante muito tempo, e ainda sofrerá novas provações. Ao longo desse ano lerei e debaterei muito sobre o assunto. Hoje comecei a leitura de "O Homem Eterno" (G.K. Chesterton), e amanhã vou ao centro espírita com minha mãe. É improvável que, das vertentes cristãs, eu venha a me tornar espírita, e muito menos protestante; por enquanto sou "apenas" cristão, embora tenha muita afinidade com o catolicismo. Porém, não custa nada ir uma vez nesse curso sobre André Luiz que ela está fazendo.

Como eu disse no post anterior, já estava passando da hora de eu sair da minha "zona de conforto". Embora eu seja feliz, estável e sereno de um ponto de vista estritamente materialista/secular, isso é insuficiente, não torna a minha vida plena. Não posso me contentar com a "tranqüilidade"; preciso me questionar, duvidar de mim mesmo, não cair na tolice de achar que sou tão inteligente e bom. Aliás, é por esse viés "cético" e "pessimista" quanto ao ser humano que me interessei pelo Cristianismo: ele recusa a lassidão, o narcisismo, a "auto-ajuda", o excesso de auto-confiança. Nós, humanos, somos limitados, imperfeitos e (ainda tenho dificuldade para apreender o significado da próxima palavra, mas ainda assim a direi) pecadores. Chega de ilusões de que basta o progresso material e o "auto-cultivo" para sermos felizes e completos. Aliás, é preferível ser infeliz mas desconfiado de si mesmo do que "feel-good" mas cego aos problemas morais e ontológicos acarretados por uma filosofia de vida materialista.
Em suma, após 9 anos acho que consegui transferir meu ceticismo da "esfera" metafísica e transcendental para o âmbito da humanidade. Será que isso é suficiente? Acho que não. Como eu disse, essa decisão foi racional, mas ainda estou à espera de uma epifania, de uma metanóia...

P.S.: O título deste post se refere a uma música do Violent Femmes.

15 Fevereiro 2012

Minhas férias so far - 22/1 a 15/2

- 22/1: Peguei carona com o Gino, a Rayssa e o Fernando e voltei para Goiânia.

- 23/1: Terminei de ler "O Crime de Sylvestre Bonnard" (Anatole France). É uma obra que prima pela elegância, clareza e coerência interna, pois tudo se relaciona – mesmo um pequeno detalhe no início de um capítulo pode mais tarde se revelar decisivo para o desenrolar da trama.
É uma pena que Anatole seja um autor tão desconhecido, quando não subestimado - vide o mestre Carpeaux, que o acusou de "evasionismo barato", ou os surrealistas, que fizeram graça até da morte dele!

- 25/1: O 1º episódio da nova temporada de Skins ficou excelente! É um dos melhores "season première" da história da série.
A primeira metade é bem no espírito "Skins party" (sexo, drogas e humor), mas mesmo quando dá uma guinada para o drama, o ep. não fica piegas, mas continua muito bom. Meus três personagens favoritos (Alo, Rich e Grace) proporcionam alguns dos melhores momentos deste 6x01.

- 24 a 26/1: Li "Pais e Filhos" (Turguêniev). É um belo romance, que reforçou minha admiração pela literatura russa do sécullo XIX. Os personagens são extremamente bem construídos, especialmente o aristocrata Pável e o jovem médico Bazárov. Outro destaque do livro é a sensibilidade com que Turguêniev trata de temas como a família e a redenção pelo amor. O debate entre liberais x niilistas que permeia a obra me lembra os que ocorrem e "A Montanha Mágica". Tema para um artigo: será?

- 27/1: À noite, aproveitei um passeio no Goiânia Shopping para comprar o CD "Magical Mystery Tour" (Beatles) e o livro "A Mulher do Tenente Francês" (John Fowles). O primeiro, porque é um clássico e há tempos eu estava procrastinando para comprá-lo; o segundo, porque estava com desconto de 80% e a contra-capa tinha um resumo instigante.

- 28/1: Entrei na internet pelo computador do meu irmão para ver o resultado do vestibular (aliás, parabéns a ele, que passou para Geografia - Bacharelado na UFG! Ele fez a prova só para "treinar", afinal ele acabou de começar o 3º ano, e o curso que ele quer mesmo é Engenharia. De qualquer forma, congratulations!) e descobri que meu mix de Skins Party virou um hit no 8tracks! Naquele sábado já eram 464 likes e 1311 listens, e estava até na página principal do site! Duas semanas depois, meu mix alcançou 1630 likes e mais de 5000 listens. Para quem quiser ouvir minha seleção de 20 músicas dançantes que tocaram em "Skins", clique aqui.

- 29/1: Reassisti ao filme "Curtindo a vida adoidado" (que estava passando na VH1), que é mesmo um dos melhores teen movies de todos os tempos. O Ferris é um anti-herói canalha dos mais carismáticos!

- 1º/2: Melhor notícia do dia foi a estréia do canal Comedy Central, que passa 24 horas por dia só sitcoms, filmes de comédia e programas de humor em geral. Finalmente poderei matar a saudade que tinha de grandes séries que passavam em canais como a Sony, como "Married... with Children", "Third Rock from the Sun" e "Newsradio". Isso sem falar nas doses cavalares de "South Park", que agora está passando em dois canais ao mesmo tempo (o outro é a VH1).

- 5/2: Meu irmão do meio fez um churrasco com os amigos dele aqui em casa. Aproveitei para comer bastante provolone e picanha e jogar Mario Kart Wii no multiplayer. Uma boa notícia no Campeonato Paulista: o Palmeiras fez 2 gols e virou o jogo contra o Santos nos 4 minutos finais!

- 27/1 a 7/2: Período de leitura de "Os Demônios" (Dostoiévski). Houve dias em que li até cem páginas, de tão envolvente que era a leitura. (Prometo um post sobre ele!) Estou até com vontade de fazer um artigo sobre a representação do liberalismo e do niilismo nessa obra, quem sabe comparando com "Pais e Filhos".

- 7/2: Descobri a hilária página no FB (e no Twitter) da Saori Anthena. Já ganhou o meu título de meme de fevereiro. Confiram!

- 9/2: Li as primeiras 70 páginas do instigante "Crítica e Profecia: A filosofia da religião em Dostoiévski" (Luiz Felipe Pondé); fiz selagem e cortei o cabelo (aliás, fazia 11 meses que eu não o cortava!); meu pôster (Bildung e Liberdade em "A Montanha Mágica") foi aprovado para ser exposto no AT de Teoria Política da ABCP, que ocorrerá em agosto.

- 10/2: Apesar de ter acordado com dificuldades (afinal, ontem à noite só fui dormir às 2h30), meu dia melhorou consideravelmente com a viagem para Brasília. Peguei carona com a Lyanna, que eu não via há 4 anos, e tivemos uma longa e vibrante conversa durante o percurso. Ela tem uma enorme bagagem cultural, então assunto não faltou. Falamos predominantemente sobre música e literatura, mas também sobre política e a época do ensino médio (ela também estudou no Classe, e foi corretora de redação na época em que eu estava no 2º e 3º anos). Só lamento o fato de ela não ser mais liberal/direitista (se bem que ser anarquista ainda é melhor do que ser de esquerda...). Inicialmente ficquei meio chocado com essa mudança, afinal a Lyanna é uma das principais "culpadas" por eu ter me desiludido com o socialismo, 6 anos e meio atrás! Porém, acho que isso não é tão "grave" assim... Além do mais, ela é tão culta que nem ligo para essa diferença ideológica.

Cheguei no apartamento e imediatamente me direcionei à Universidade de Brasília, com o intuito de almoçar na Subway e usar a internet. À tardei comprei comida no Big Box, cochilei, li um pouco de "Crítica e Profecia", tomei banho, peguei o ônibus para o Boulevard Shopping, desci no ponto errado e, chegando lá, reencontrei a Nathalia após quase dois anos! Ela continua a mesma, rs.

Assistimos ao filme "A Dama de Ferro", que é bom, mas poderia ter sido melhor. Embora a narração seja meio proustiana (ou seja, com palavras e objetos evocando memórias involuntárias), achei de mal gosto colocar o "foco narrativo" na Thatcher já senil. Obviamente as cenas de que mais gostei foram as que envolviam política, como a eleição de 1979, a Guerra das Malvinas e a renúncia de 1990. Porém, outra que muito me agradou foi uma em que, no médico, ela faz uma reflexão sobre pensamentos, palavras, ações, hábitos, caráter e destino.

Naquela Friday night fui a uma festa na Cult 22 com o Fernando (amigo, não o irmão) e a Nathalia. Aproveitei mais pelas conversas que pelos shows, pois só gostei do Dinamites; a banda principal da noite (Mary Lee & The Sideburn Brothers) não me empolgou tanto.

- 11/2: Acordei às 10h e fui tomar café na CLN 410; aproveitei para passar na LAN House. Peguei o nº do Saulo com o Mateus, e descobri que haveria reunião do DCE/Aliança às 16h. (Dejà vú?) Conversei com o Saulo sobre moradia no Rio de Janeiro (pois é, até agora não resolvi isso! E as aulas começam dia 12/3...); ele me deu várias dicas. Já a reunião não foi tão boa, mas no final o clima melhorou, a ponto de irmos tomar sorvete na Palato, hehe.

Enquanto esperava o Thiago chegar, o Saulo ficou na minha kit, e batemos um papo sobre o mestrado, e fiquei sabendo de várias coisas sobre o IESP. Quando aquele chegou, convidei-o para ir ao show do Let it Beatles que haveria na 904 Sul. Ele disse que ia ver, e casofosse me daria carona. Meia hora depois, quando eu já estava saindo do prédio, o Thiago me ligou e disse que ele e o Kim iriam. Quando chegamos na festa, esperamos meia hora até a Nathalia (e umas amigas dela) aparecerem por lá.

Como eu esperava, a festa foi ótima. Os DJs mandaram bem, e o Let it Beatles fez mais um grande show; tocaram até algumas faixas mais obscuras, como "Rain". Nem preciso dizer que dancei loucamente, né? Ah, e fiquei feliz pelo fato de a Nathalia ter ficado amiga do Kim.

12/2: Acordei só ao meio-dia, almocei Miojo de Calabresa (nossa, estava muito apimentado!), dei uma passada no apartamento do Kim e, no fim da tarde, fui com o Thiago e uma amiga dele à exposição Game On, no CCBB.

Adorei essa expo de videogames! Joguei de tudo um pouco: Pokémon Yellow, Super Smash Bros. Melee, The Beatles Rock Band (mandei super bem cantando "I Am The Walrus" - tirei 94 - e "Don't Let Me Down" - 81), Super Mario Kart, Mario Kart: Double Dash, Soul Calibur I, Donkey Kong (o arcade de 1981!), Ridge Racer I, Street Fighter I (jogabilidade horrível!) e até Legend o Zelda: Ocarina of Time. Depois ainda fomos ver um documentário sobre István Bibó, intelectual e Ministro de Estado húngaro que resistiu bravamente à invasão soviética de 56.

- 13/2: Anotações que fiz no ônibus da "comeback tour":

"Este livro do Pondé sobre Dostoiévski está aguçando a minha preocupação ocm questão religiosas e morais, a qual cresceu bastante no ano passado (vide [o fato de que me assumi um] "agnóstico cristão", em julho) e disparou nas últimas semanas.

Ler "Os Demônios" de Dostoiévski aumentou (ou desmascarou?) minha angústia existencial. Já devo ter dito isso anteriormente, mas repito: os romances dele me fazem sair de minha "zona de conforto", da "estabilidade emocional" e "serenidade intelectual" que eu juro ter. Pondé, em seu "Crítica e Profecia", fez uma análise bem interessante da obra dostoievskiana, principalmente por realçar o aspecto religioso (ortodoxia e misticismo) e filosófico (ceticismo e crítica ao [humanismo naturalista])."

De volta a Goiânia, após um ótimo fim de semana em Brasília! À noite assisti ao vivo ao novo episódio de Skins: 6x04 (Franky). Gostei bastante, pois manteve o alto nível desta sexta temporada.

- 14/2: Passei boa parte do dia na internet e lendo o livro do Luiz Felipe Pondé.

- 15/2: Após ver alguns vídeos de shows antigos dos Titãs no YouTube, li os dois capítulos finais de "Crítica e Profecia". Próxima leitura? Estou pensando em continuar nessa 'vibe' religiosa e me arriscar em "O Homem Eterno", do Chesterton.

Minhas férias so far - 3 a 21/1

Após 1 mês sem postar no blog, vamos recapitular brevemente o que fiz nas últimas seis semanas:

- 3/1: Com alguns dias de atraso, terminei de ler "O Escritor e sua Missão" (Thomas Mann). Agora 2012 começou de verdade para mim!

- 4/1: Finalmente comecei a ler "Em Busca do Tempo Perdido" (Proust). A julgar pelas 10 primeiras páginas, serão livros bem densos, mas instigantes. Até estou ouvindo Claude Debussy para entrar no clima da França da Belle Époque, hehe. (Eu ainda leria um pouco no dia seguinte, mas resolvi interromper por não estar "in the mood" para Proust)

- 6/1: Aniversário do meu irmão do meio, o Fernando. Comi muita pizza no rodízio, hehe. Comecei a reler "Beijar o Céu" (Simon Reynolds), o melhor livro de crítica musical que já li (no caso, a 1ª vez foi em novembro de 2008). A entrevista com o Morrissey ficou excelente!

- 7/1: A coletânea do Radiohead que comprei na Leitura conseguiu um feito notável: comecei a gostar de "Street Spirit (Fade Out)"! O bom é que esse best of tem 6 das 12 músicas do "The Bends", tornando desnecessário que eu o compre também.

- 8/1: No fim da tarde, eu, minha mãe e o Aderson (irmão caçula) fomos ao cinema. Eles assistiram ao filme "Alvin e os Esquilos 3" e eu, "Agamenon". O humor é tipicamente Casseta & Planeta, com piadas, baixarias e trocadilhos tão infames que fazem rir, mas ainda assim gostei.

Enquanto esperava os dois, dei uma passada na Saraiva, onde por acaso reencontrei, após 4 anos, o meu ex-professor de Redação. Fui bem legal bater um papo com ele!

- 9/1: Fui à "otorrino" para ela avaliar se meu ouvido estava infeccionado. Desde que ela jogou um "water gun" na minha orelha ela melhorou bastante ("it's super effective", haha!); o zumbido e o som abafafo já pararam.

- 10/1: Como não estava com pique para ler Proust, resolvi voltar, um ano depois, aos "Ensaios" de Montaigne (tinha parado na metade do livro II).

- 12/1: No ônibus que me levaria a Brasília, fiquei escrevendo no meu bloco de notas para passar o tempo. Eis um trecho:

"No fundo só vim para Brasília para fugir do tédio que estava sendo ficar em Goiânia. Ontem, por exemplo, dormi de manhã, fiquei vendo "Californication" (5 episódios, o que mostra quão 'bored' eu estava), li um pouco de Montaigne, brinquei com o Aderson...

É como eu costumo dizer: não é a minha família que é chata (pelo contrário, eles são ótimos! [...] Agradeço pelo fato de pertencer a uma família tão boa), sou eu que sou enjoado. Aprecio demais a solidão, e quando me canso até dela é melhor estar na cidade em que moram meus amigos e onde há festas nas quais quero (e posso) ir do que em uma [cidade] na qual não tenho muita opções senão ficar em casa ou, no máximo, visitar algum parente ou o Gino.

Liberdade e varidade de opções do que fazer: eis tudo o que quero! [...]

Mudemos [...] de assunto: se 2011 foi um deliberado revival de 2005, o que será 2012?

1) Um ano totalmente inédito e paradigmático (assim como, p.ex., 2008)?

2) Um revival de 2006, com toda aquela melancolia e inércia existencial, mas com um final feliz?

3) Uma repetição de 2010, que só pelos primeiros meses já garantiu o troféu de um dos melhores anos de minha vida? (Embora o final tenha sido meio ruim)

Como vou morar em outra cidade e ainda por cima iniciar o mestrado, acredito que o cenário 1 é o mais provável."

Vejam só que sorte a minha: depois de "almoçar" no Bob's da rodoviária, resolvi dar uma passada na livraria Dom Quixote que há por lá. Qual não foi a minha surpresa quando encontrei, por apenas 10 reais, o livro "Beijar o Céu"! Comprei-o sem titubear para dar de presente (de Natal atrasado, I suppose) para a amiga que iria me hospedar. Acredito que ela vá gostar, afinal várias das bandas que aparecem nos ensaios e resenhas do Simon Reynolds (Radiohead, The Smiths, Joy Division, Nirvana...) estão entre as preferidas dela.

Passei à tarde na UnB e resolvi o resto da burocracia que faltava para eu me formar. Peguei o "nada consta" na biblioteca, gravei e entreguei o CD da monografia, tirei xerox da quitação eleitoral e do certificado de reservista, preenchi um formulário de um órgão da Reitoria cuja sigla nem me lembro mais... Ufa! Agora é só colar grau, daqui a 2 meses.
Ainda aproveitei para pegar minhas menções no IPOL (afinal, o MatrículaWeb dá "acesso negado" para formandos). Good news: tirei SS em 5 das 6 matérias que fiz no meu último semestre, além de um já esperado MS em Estética. IRA final: 4,81!

A partir daquela noite - e até dia 18 - fiquei hospedado na casa de uma amiga minha. Nós e um amigo dela de Anápolis vimos o filme "A Pele que Habito" - um suspense dos bons, diga-se de passagem. A transformação (em alguns casos literal, hehe) pela qual alguns personagens passa é bem intensa.

- 13/1: Dentre os DVDs da minha amiga achei "O Prólogo do Céu"! É claro que resolvi vê-lo, afinal já fazia um bom tempo desde que o assisti e não me lembrava muito bem da trama. De fato o roteiro é meio confuso, mas as lutas são eletrizantes, o tom mais filosófico é pertinente e a parte técnica (animação e dublagem) ficou impecável.

À tarde, depois de almoçar e dar uma passada na UnB para usar a internet, assisti a um ótimo show do Radiohead na Alemanha, em 2001. Em seguida vi a Sessão da Tarde ("Escola de Super Heróis"). O Thiago me ligou, e marcamos de nos encontrar para bater um papo no café Senhoritas, às 18h.

Lá pelas 21h30, quando voltei para o apto. da Luana vi outro filme (!), "The Last Days", de Gus van Sant, inspirado no (fim da) vida de Kurt Cobain. A película tem aquele jeito "quieto" (ou, para ser chique, "minimalista") que é típico do van Sant, e o fato de estar sem legendas (o controle do DVD estava sem pilhas) só tornou ele ainda mais soporífero. Foi difícil aguentar vê-lo até o fim! E nem o achei melhor que "Elephant"...

- 14/1: Após passar a manhã inteira assistindo à Saga de Poseidon e ouvindo e lendo sobre Nirvana ("Nevermind" + "MTV Unplugged" + "From the Muddy Banks of the Wishkah" e "Mais Pesado que o Céu", respectivamente), escrevi no meu bloco de anotações (ao som de "Bandwagonesque", do Teenage Fanclub) e fui à LAN House checar meus e-mails e Facebook. Descobri que haveria uma reunião do DCE dentro de alguns minutos (eram 12h37, e ela começava às 13h!).

Como sempre, a reunião foi longa, mas foi bom reencontrar o pessoal da Aliança pela Liberdade. Depois da reunião fui ao Pátio Brasil, onde tomei um milk shake e comprei os ingressos (meu, do Fernando, do meu amigo Gino e da namorada dele, Rayssa) para o show do Fatboy Slim.

À noite fui à Live Sessions (a.k.a. "Play de sábado"). Curti o show repleto de covers do Rebel Shot Party (rolou Metric, MGMT, Le Tigre...) e as discotecagens foram muito boas, mas não gostei tanto do Rock Rocket. Também acho que tocaram Strokes e Arctic Monkeys em excesso... Infelizmente a festa não lotou, mas a vantagem é que pude dançar mais livremente, sem esbarrar tanto nas pessoas. Adoro quando posso ser o "king of the dancefloor", haha!

- 15/1: Depois que acordei e tomei café fiquei lendo o "Almanaque do Rock" (Kid Vinil), ao som de alguns CDs (Libertines, Doors, Beatles) e DVDs (Smashing Pumpkins, Who). À tarde almocei (embora já fossem umas 4 da tarde, rs) no Giraffa's. A Luana chegou à noite; pouco depois, eu, ela e dois amigos fomos jantar na pizzaria Alfredo's.

- 16/1: À tarde terminei de ler o Livro II dos "Ensaios" de Montaigne (agora só falta o III) e já comecei um do Anatole France que comprei por apenas 10 reais na Leitura do Pátio Brasil, chamado "O Crime de Sylvestre Bonnard". É uma obra com um estilo realmente límpido, claro e elegante, mesmo que pouco "intelectual" ou profundo. Ainda no Pátio mudei o plano do meu celular (agora é Claro Controle 35).

- 17/1: Ao contrário dos cinco dias anteriores, esta terça foi bem internética, pois finalmente meu notebook captou o sinal do wi-fi que a Luana usa! Neste dia também gravei uma coletânea com Friendly Fires, Two Door Cinema Club e Friendly Fires. À noite eu e uns quatro amigos(as) dela fomos para o bar, onde aproveitamos para jantar; só voltamos para o apartamento quando era uma da manhã.

- 18/1: Como a irmã da Luana chegaria em Brasília ainda naquela quarta, resolvi ir para a minha ex-kitnet; além do mais, o Gino e os demais chegariam em breve. Antes de ir embora, aproveitei para lavar toda a louça - afinal não sou um hóspede folgado, né?

À noite reencontrei o pessoal no Balaio, na festa Toranja. Tocaram muitos clássicos, então novamente me diverti bastante. Também reencontrei alguns amigos de UnB.

- 19/1: Passei boa parte do dia revendo episódios da 5ª temporada de Skins, afinal a 6ª começaria no dia 23.

- 20/1: Gino, Fernando e Rayssa chegaram! Fomos ao show do Fatboy Slim, que foi muito bom. Duas horas de "non-stop dancing"! Como o Marina Hall é muito abafado, fiquei completamente suado, mas pelo menos dessa vez não desmaiei de sede, rs.

- 21/1: Almoçamos no Burguer King do Brasília Shopping, onde tomei o melhor sundae de chocolate da minha vida. À noite eles foram para um churrasco no Lago Norte e me deixaram numa festa na Cult 22. É como se tivessem stalkeado meu Last.FM, pois praticamente só tocaram músicas de minhas bandas favoritas! Foi uma boa maneira de me despedir de Brasília, já que no dia seguinte voltaríamos para Goiânia.

12 Janeiro 2012

Holidays, part II

Estou indo para Brasília começar uma nova etapa nas minhas férias. Após três semanas em Goiânia (com exceção do dia 30/12, quando fui buscar o resto das minhas coisas na kitnet), irei para a minha ex-cidade universitária passar alguns dias. Tenho que resolver umas burocracias ligadas à minha formatura, mas tirando isso é só descanso. Tomara que eu possa ler mais livros e ir a mais festas.
Ficarei hospedado no apartamento de uma amiga minha, mas qualquer coisa também posso ficar na kitnet que agora é só do meu room-mate.

P.S.: Levarei os "Ensaios" de Montaigne para ler no ônibus. Um ano depois, resolvi retomar esta leitura. Tinha parado na metade do Livro II (i.e., tinha lido por último a "Apologia a Raymond Sebond"), agora pretendo ir até o fim.

09 Janeiro 2012

Kaio em 2011: uma retrospectiva

2011 não foi o melhor ano da minha vida, mas está longe de ter sido o pior. O ápice foi no mês de outubro (vide este post), mas o resto do ano também foi povoado por bons momentos, sobre os quais falarei mais adiante.

Comecemos esta retrospectiva por quatro tópicos:

1 - Política e Ideologia: depois de uma empolgante meia-semana em Porto Alegre, com o Seminário de Economia Austríaca e o Fórum da Liberdade, eu voltei para Brasília com muita esperança e mais de 10 livros de autores libertários/liberais na bagagem (foi até difícil carregar tudo na volta para casa, rs). Pensava que nós, adeptos do libertarianismo, tínhamos a “luz”, e o que o resto do mundo, principalmente os esquerdistas e pós-modernos, precisavam ser desafiados e refutados. Estava tão animado com o grupo que havia conhecido na capital gaúcha (isto é, o pessoal do LIBER e do Mises Brasil) que até me filiei ao "partido em potência" e me comprometi a ajudar na coleta de assinaturas em Brasília.

Não demorou mais do que alguns dias para que batesse a desilusão. Fatiguei-me com a maneira binária de muitos libertários encararem a realidade, como se tudo se reduzisse a Estado x Mercado, governo x livre-iniciativa, políticos x empreendedores. Aquela crítica que fazem a pensadores como Ayn Rand e Rothbard finalmente começou a fazer sentido: o individualismo extremado deles passou a me soar desagradável, ainda mais depois de eu ter passado um ano e meio imerso nos clássicos humanistas. Além disso, incomodei-me com o "purismo" dos libertários, que rejeitam qualquer um que fizesse a mínima concessão aos "outro lado": os intervencionistas/estatistas, sejam eles socialistas, conservadores ou até mesmo social-liberais. Parece até "trotskismo de direita", como se houvesse uma competição para ver quem é mais intransigente na defesa do livre-mercado.

Além disso, preocupava-me com o "vale-tudo moral" do libertarianismo. Pode até parecer caretice da minha parte, mas acho que falta uma preocupação com a ética - no sentido aristotélico mesmo - no pensamento libertário. Não que seja preciso chegar aos extremos do neoconservadorismo (que, muitas vezes, são hipócritas e falsos moralistas), mas acho igualmente prejudicial o hedonismo que a mentalidade anarco-capitalista pode ter quando aplicada às relações pessoais.

Esses dilemas me fizeram até pensar em me desfiliar do LIBER; não o fiz, mas estou pouco ativo no projeto. Ainda sou libertário, mas sem a mesma empolgação e “calor” que já tive em outras épocas. Meu fervor ideológico quase reacendeu depois da palestra dos professores Paulo Kramer e Antonio Paim sobre Liberalismo, em agosto na UnB; porém, como nos dias seguintes tive que estudar para a prova do mestrado, nem tive tempo para me dedicar a isso. Porém, no fim de outubro, a surpreendente vitória da chapa Aliança pela Liberdade nas eleições para o Diretório Central dos Estudantes proporcionou uma situação assaz curiosa: no meu último semestre de graduação, finalmente a esquerda foi desalojada da liderança do movimento estudantil! Tornei-me coordenador de integração estudantil, cabendo a mim iniciar a construção de um modelo parlamentarista para o DCE. Porém, embora o grupo fosse composto por muitos liberais, minha empolgação com a "causa libertária" não ressuscitou; pelo contrário, o viés pragmático da gestão da Aliança só reforçou minha "desideologização".

Acredito, no entanto, que posso viver bem sem essa "militância", afinal minha utopia social vislumbra justamente um mundo em que eu possa me preocupar com outras coisas para além de política e economia. Em outras palavras, ambiciono viver em uma sociedade na qual eu possa me dedicar integralmente à minha formação cultural e intelectual, à minha Bildung. Seria algo como a Atlantis de "A Revolta de Atlas", só que menos economicista, ou como a Davos-Platz de "A Montanha Mágica", só que virada ao avesso, sem aquele clima de enfermidade.

2 - Relacionamentos: passei mais um ano em branco - não namoro há mais de dois anos. Talvez seja por minha timidez - ou mesmo preguiça - de tomar a iniciativa, de “correr atrás”. Também pode ser porque não encontrei nenhuma garota que me interessasse tão profunda e intensamente ao ponto de eu me sentir obrigado a sair da inércia.

Em 2011 até me "forcei" a gostar de duas meninas (e simultaneamente! Pela primeira vez na minha vida fui um platônico promíscuo, rs), porém em nenhum dos casos a relação passou do status de amizade. Com uma delas (chamá-la-ei de crush #1) gosto de sair para shows de rock e conversar sobre cultura pop, mas ela tem um defeito: é esquerdista, o que me faz evitar assuntos políticos, hehe. Com a crush #2 as conversas são sobre os mais diversos assuntos (desde coisas engraçadas que lemos/vemos na internet até assuntos mais filosóficos e/ou intimistas), mas como ela mora longe quase não saio com ela. Não creio que faço o "tipo" de nenhuma das duas, então me conformei em ser um bom amigo.

Curiosamente, 2 das 3 garotas com quem fiquei neste ano tiveram relação com o insucesso de minhas duas crushes. Para a #2, porque em março, horas antes de ir para a Cult 22, soube que ela tinha ficado com um amigo meu; eu me “vinguei” - ou, usando um termo menos patético, me "redimi" - ao ficar com uma garota mais velha lá na Communist Party*. Para a #1 , pois ela foi embora muito cedo da festa em que nos conhecemos - só deu tempo de dar um selinho nela - e, poucos minutos depois, uma outra menina começou a dar em cima de mim.

* [Em abril, até saí com esta "older girl" mais três vezes; jogamos sinuca na Área 51, fomos na Livraria Cultura e vimos dois filmes no cinema ("O Retrato de Dorian Gray" e "VIPs"). Porém, embora ela fosse mestranda em Sociologia e tivesse bom gosto musical, não me interessei tanto por ela, e não quis ir além do 3º encontro.]

Por sorte, quando eu menos esperava, fiquei com uma 3ª garota no penúltimo dia do ano. Ela era legal e extrovertida, mas provavelmente nunca mais a verei; I believe it was just a one-night kiss. Um fato curioso é que mantive a minha tradição de só ficar com mulheres mais velhas do que eu; mesmo a minha ex-namorada era, embora com a menor diferença registrada até agora (28 dias mais velha). Será que eu tenho "síndrome de Mrs. Robinson", rs?

3 - Vida de Universitário: comecemos por um desabafo - parece que só eu continuo me importando com o projeto Estudos Humanistas. Por mais que os 4 anos de UnB tenham sido maravilhosos, infelizmente não encontrei nenhum/a universitário/a com o mesmo perfil acadêmico que eu, i.e., voltado para a leitura e discussão dos clássicos da cultura ocidental. Meus amigos liberais/libertários estão mais preocupados em trabalhar e ganhar dinheiro; os conservadores, embora até fossem nos colóquios, demostraram ser profundamente arrivistas e megalomaníacos, ainda mais na época da eleição para o DCE; o pessoal do PET era muito socialista e pós-moderno para serem parceiros intelectuais compatíveis; já os meus demais amigos e colegas, por mais gente-boa que sejam, são mais companheiros de festas do que de estudos.

Repeti a sina que me marca há anos: identifico-me mais com meus docentes do que com os colegas da minha faixa etária. Pessoas com o meu "profile" são todos professores. Pelo visto meu futuro passará inevitavelmente pela carreira acadêmica. Só espero que no futuro eu conheça mais "humanistas", porque ser o único do departamento (ou da universidade) com estas preocupações/motivações seria algo bem frustrante.

Porém, 2011 também reservou boas notícias: passei no mestrado, a Aliança pela Liberdade ganhou as eleições para o DCE, formei-me no prazo que tinha estabelecido (quatro anos) e fiz várias novas amizades em pleno último semestre de UnB. Não fui em tantas festas como em 2010, mas mesmo assim estive em algumas muito boas (London Calling em 22/Janeiro, Communist Party em 26/Março e 3/Setembro, Festa da Arquitetura em 22/Outubro, Play em 30/Dezembro etc.)

Li ótimos livros; o melhor deles foi “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister” (Goethe). Fiz uma leitura bem cuidadosa dele: 20 páginas de fichamento, além de ter lido outros livros que o analisavam, como “O cânone mínimo” de Wilma Patrícia Maas. Destaque também para aquele com o qual comecei o ano lendo e terminei 2011 fazendo dele tema de um artigo: “Doutor Fausto” (Thomas Mann), que é quase tão perfeito quanto “A Montanha Mágica”. Completo o top 5 com os “Ensaios” de Montaigne, “Nobreza de Espírito” (Rob Riemen) e “A Vida Intelectual” (Sertillanges). Bret Easton Ellis, que já havia sido spotlight em 2010 com “Os Jogos da Atração”, neste ano manteve meu contato com a literatura contemporânea com suas obras “Abaixo de Zero” e “Suítes Imperiais”. Dentre as releituras, as melhores foram “Crime e Castigo” (Dostoiévski), “O Estrangeiro” (Albert Camus) e “O Jardim das Aflições” (Olavo de Carvalho).

4 - Viagens: em um aspecto 2011 foi imbatível: o ano em que mais viajei. Em fevereiro passei nove dias de férias em São Paulo; em abril fui a Porto Alegre; no mês de setembro fiquei uma semana no Rio de Janeiro para fazer a prova e a entrevista do mestrado; em outubro compareci pela 4ª vez seguida à ANPOCS, em Caxambu; uma semana depois fui novamente para a capital de SP, desta vez para o Planeta Terra.

1. São Paulo, parte I: talvez a única viagem que foi abaixo das minhas expectativas. Por mais que o casal de amigos que me hospedou sejam pessoas legais, ainda assim aqueles 9 dias não foram tão bacanas quanto eu esperava que fosse. Em alguns momentos, foram até entediantes! A D. quase nunca puxava conversa; eu me sentia invisível, e parecia até que eu não era bem-vindo, rs. Ainda bem que trouxe livros para ler (terminei um de ensaios do Rosenfeld sobre Thomas Mann, reli “Uma estação no inferno” do Rimbaud e li pela metade “Às Avessas”, do Huysmans) e DS para jogar (zerei “Pokémon White”). Pelo menos dava para conversar com o F. sobre futebol, videogames ou música; por sorte ele é palmeirense e fã da Sega, e naquela semana foi lançado o novo disco do Radiohead, o que já nos dava pelo menos três assuntos para conversar. Os dois primeiros dias foram até bons: na sexta 16/2, saímos com um casal de amigos deles; no sábado, fomos para um churrasco na casa destes amigos e mais alguns colegas deles, e só fomos embora no domingo, depois do jogo Mogi-Mirim x Palmeiras, hehe. A semana, contudo, foi chata; as coisas só melhoraram no meu penúltimo dia (23/Fev), quando fui à Galeria do Rock e comprei uma camiseta dos Pixies e cinco CDs: “Substance 1987” (New Order), “Different Class” (Pulp), “458489 A Sides” (The Fall), “The Idiot” (Iggy Pop) e “The Singles Collection” (The Kinks).

2. Porto Alegre: como eu disse no tópico 1, estes foram quatro dias maravilhosos. Nunca comi tão bem, nunca gastei tanto dinheiro e nunca conheci tantas pessoas legais em tão pouco tempo. O II Seminário de Economia Austríaca foi sensacional: palestras fantásticas, conheci gente de todo o Brasil e comprei vários livros. Na noite de sábado, fui com o pessoal a um rodízio (de fato, o churrasco gaúcho é excelente!), e acordei cedo para ver Fórmula 1 (como sempre, o Vettel venceu, rs). Os dois melhores momentos do XXIV Fórum da Liberdade foram justamente na primeira e na última mesa-redonda: aquela contou com os irreverentes Lobão e Eduardo Bueno; esta se destacou pelas boas perguntas que o debatedor Hélio Beltrão (fundador do Mises Brasil) fez aos palestrantes Marcelo Tas, que é um chatinho bem "pensamento classe-média", e Marcelo Madureira, o qual, pelo contrário, me surpreendeu com sua modéstia.

3. Rio de Janeiro: prova e entrevista de mestrado, e alguns passeios pela Cidade Maravilhosa. Vide este post.

4. Caxambu: no quesito "vida social e festas", após três ANPOCS tão animadas e cheias de emoções, a desse ano foi bem morna. Veio bem menos gente que nas edições anteriores, tanto no ônibus do pessoal de POL e REL da UnB quanto do público em geral. Só houve uma festa ao invés de três, mas pelo menos tocaram boas músicas nela - rolou desde "Blue Monday" (New Order) até "Bichos Escrotos" (Titãs)! Porém, no quesito "acadêmico", esta ANPOCS foi imbatível. Foram tantas mesas-redondas, GTs e conferências interessantes que preenchi quase trinta páginas do meu bloco de anotações. Gostei de ver que a Teoria Política e a Sociologia da Literatura são áreas que contam com bons estudiosos.

5. São Paulo, parte II: Planeta Terra. Vide este post.

Vamos dar uma guinada neste post, e operar uma breve reflexão.

2011 foi uma grande e deliberada nostalgia de 2005. Celebrei vários momentos daquele que provavelmente foi o ano mais importante da minha vida, tanto no âmbito político (esquerda democrática -> direita libertária) quanto no musical (comecei a ouvir a maioria esmagadora das minhas bandas prediletas: Blur, Pixies, Joy Division, The Smiths, Sonic Youth, My Bloody Valentine etc.), social (apaixonei-me pela 1ª vez desde 2000, fiz várias novas amizades, tive um ótimo 1º ano de ensino médio) e literário (li autores como Nietzsche e Dostoiévski e obras como “1984” e “Admirável Mundo Novo”).

Talvez este paralelo entre os dois anos ajudou meu 2011 a ter um ponto de referência, tanto para se inspirar quanto para se diferenciar. De fato amadureci nos últimos seis anos, mas meus paradigmas culturais, políticos e filosóficos (ou, para juntar tudo, existenciais) continuam praticamente os mesmos. Em outras palavras, é como se eu fosse o mesmo Kaio, só que “better shaped”. Não tenho mais tantas angústias e dúvidas quanto tinha aos 15 anos, mas sou tão idealista e auto-confiante quanto era naquela época. É como se a parte ruim tivesse ficado para trás, só restando o que de bom cultivei em 2005.

Eu sei que esse meu otimismo soa piegas, mas de fato vejo de forma positiva a minha transição da adolescência para a, digamos, maturidade (afinal, ainda preciso trabalhar, casar-me e ter filhos para começar a falar em "fase adulta", rs). Minha vida não é perfeita, mas dentro das possibilidades está muito boa. Talvez eu seja um anti-Cândido: por mais que tudo à minha volta (desde os livros que leio - tenho um fascínio estético por autores soturnos, rs - até grande parte de meus amigos e colegas) tente ver as coisas pelo lado sombrio e negativo, cada vez mais adquiro a convicção de que vivo no melhor dos mundos possíveis. Talvez seja muita precipitação de minha parte dizer uma coisa dessas aos 21 anos de idade; mas, pelo menos até agora, não tenho motivos para ver a minha existência com amargura e tristeza.

31 Dezembro 2011

Diário de Dezembro

(Outro post "retroativo", também escrito em 5/1/2012)

1/12: À noite, no Fran's Café e depois no Girrafa's, tive uma conversa bem legal com duas amigas sobre os mais diversos assuntos: "dondocas", existencialismo, relacionamentos, o curso de Ciência Política etc.

2/12: Após alguns alarmes falsos, finalmente fiquei imerso em "Crime e Castigo".
Reler o capítulo dos homens ordinários e extraordinários (3ª Parte, V) me fez lembrar o quão genial - e central para o romance - ele é.
Ao contrário de 2005, Raskólnikov não foi o personagem com o qual mais me identifiquei; desta vez, o mais "humano", alegre e atrapalhado Razumíkhin se tornou o centro de minhas atenções. Além das situações cômicas que proporciona ao longo da obra, ele ainda fez em certa passagem uma crítica contundente à teoria socialista do crime, hehe.

4/12: No ante-antepenúltimo domingo do ano, curti as emoções da última rodada do Brasileirão. Palmeireinse, torci para meu time impedir o título do Corinthians, e aproveitei para depositar a minha confiança numa vitória do Vasco sobre o Flamengo, uma equipe com a qual não me simpatizo. Infelizmente foram dois empates, e os corinthianos se sagraram pentacampeões brasileiros. Porém, o destaque da rodada foi o ridículo fiasco do Atlético-MG, que, tendo a chance de rebaixar o arqui-rival Cruzeiro, conseguiu a proeza de perder de goleada (6 a 1)! É como diz um amigo meu: os atleticanos fazem companhia aos botafoguenses como os 2 times mais patéticos do Brasil.

5/12: Ensaio de formatura, seguido do debate das chapas. Soltei uma pérola: "CAPOL não tem que ficar defendendo minoria não!" Modéstia á parte, acho que a POLeDance foi melhor que as concorrentes; meus colegas de chapa também mandaram bem em suas colocações.

6/12: Acho incrível a atualidade de "Crime e Castigo". Eis um exemplo: a hipocrisia e o cinismo do socialista Lebeziátnikov são uma vívida descrição de muitos dos "progressistas" do século XIX, XX e até do XXI. Morri de rir da parte em que ele fala que a coleta de fezes, numa comuna, é mais nobre do que a obra de um Rafael ou um Púchkin, pois o critério que deve ser levado em conta é a "utilidade". Isso sem falar que Lebeziátnikov certa vez espancou a vizinha, mas ainda assim se diz feminista, hihi!

À noite, fui ao aniversário de uma amiga, no Balaio. Como ela demorou muito para chegar, aproveitei para ficar lendo o romance dostoievskiano. No início e no meio (quando ela, eu e os demais amigos/as fomos para o apartamento dela) foi legal; deu para ouvir vários dos bons CDs que ela tem. [P.S.: Ela é uma das poucas pessoas que tem uma coleção de discos que considero tão boa quanto a minha, rs!] Porém, quando já eram 5 da manhã, resolvi ir embora, pois eu tinha aula no dia seguinte e a festa tinha começado a ficar chata.

8/12: Chapa POLeDance perde eleição. Recebemos apenas 35 votos e ficamos em 3º lugar, mas cumpriu seu papel: tornar a eleição do CAPOL mais divertida! Além disso, felizmente a chapa feminazi (Rosa dos Ventos) perdeu para a chapa "peemedebista", do discurso vago (União para Integração): 69 e 74 votos, respectivamente.
Após três semanas, finalmente terminei de ler "Crime e Castigo"! Uma vez mais este romance dostoievskiano me marcou profundamente. É impossível ler a errante saga de Raskólnikov sem se contagiar pela atmosfera da obra.

10/12: Em Pokémon HeartGold, passei um sufoco para vencer a Clair. Em uma batalha duríssima, venci o forte Kingdra dela graças a uma tática marotamente improvisada: U-Turn do Schyter + Psybeam do Kadabra. Além disso, demorei um bom tempo até conseguir capturar o Ho-Oh. Ganhei um Dratini com o golpe Extreme Speed na Dragon's Den; o ideal seria deixá-lo já como Dragonite para enfrentar a Elite Four, mas já me dou por satisfeito com um Dragonair lv. 50. Também preciso deixar os demais (Kadabra, Haunter, Schyter, Ho-oh e Red Gyarados) nesse nível, para não sofrer mais nas batalhas decisivas.

Minha mãe veio me visitar, e aproveitamos para ir na Livraria Cultura do Iguatemi; mais tarde, jantamos pizza na Valentina. Comprei a antologia de ensaios do Thomas Mann lançada pela ed. Jorge Zahar ("O Escritor e sua Missão") e também meu presente de Natal: a coleção completa de "História da Literatura Ocidental", do Otto Maria Carpeaux. Adorei a idéia da Livraria Cultura de relançar esta obra-prima! Até resolvi "me dá-lo" como presente de Natal: coloquei em uma embalagem e só abrirei no dia 25, rs!

11/12: Quando eu ia estudar, caiu a energia. Resolvi jogar Pokémon pra passar o tempo. Quando eu ia dormir, voltou a energia! Back to studies? Sim...

12/12: Entreguei a prova de Filosofia da Arte, depois fui para a FA, onde conversei com um colega enquanto ele jogava Pokémon Blue. Depois fui para casa, almocei um panetone que minha mãe tinha deixado para mim e resolvi descansar um pouco.
Ainda faltavam três trabalhos para entregar, mas eu já estava em ritmo de férias. Viva a procrastinação! Em plena segunda-feira, uma maratona "How I Met Your Mother": awesome!

13/12: Almocei com uma amiga, e depois fomos numa papelaria para ela comprar umas coisas.

14/12: Passei o dia lendo os capítulos mais importantes de "A Cultura do Renascimento na Itália", obra do admirável Jacob Burckhardt. Agora, preciso ler alguns textos sobre ele para finalmente fazer o meu artigo para Teoria da História II. Detalhe: a data de entrega é amanhã, às 10h! Só espero que o mantra que aprendi com uma profª funcione: "Não existe criatividade, apenas prazos."

15/12: Entreguei o artigo para Teoria da História 2 e aproveitei para enviá-lo para a revista Tempo de Conquista. Descobri-a por acaso, enquanto procurava fontes bibliográficas para o meu trabalho. Por sorte, visitei o site justamente no último dia do prazo para entregar artigos!
Eu mostrei para meus amigos do DCE o Political Compass. Virou uma febre: todo mundo fez o seu! Inclusive eu, que fiquei mais direitista e um pouco menos libertário do que na última vez que fiz. Confiram:

Ainda naquela tarde, o Facebook quase me proporcionou um ataque cardíaco: o que acontece quando a 1ª garota pela qual você foi apaixonado te adiciona no Fb, 10 anos depois? Sério, fiquei gelado! Ela me descobriu graças ao fato de um amigo em comum ter feito uma conta no Facebook, e eu ter postado na página dele.

16/12: Entreguei o trabalho final de Estética, e agora só faltava uma coisa para que meu 8º semestre de UnB (e, por tabela, minha graduação) chegasse ao fim: terminar o artigo para a disciplina Política & Sociologia na 2ª feira (19/12).

17/12: Hoje ela ficou online. Tomei coragem e resolvi puxar conversa. Até botei Legião Urbana no som, para reforçar a nostalgia (P.S.: 11 anos atrás, fiquei fã da banda graças a ela). Eis a última "pendência", "issue" que tenho a resolver com o meu passado: vê-la como apenas amiga e não "the girl that I liked". Acho que estou indo bem. Tirando o susto inicial, estou lidando serenamente com esse reencontro.
Vi no Cinebeijoca um documentário sobre Ceilândia, chamado "A Cidade é uma só?". Achei até legal; considerando meu desapreço por documentários de temática "social", até que achei este razoável. Depois houve happy hour, mas estava tão chato que fui com o pessoal do DCE à festa Cerrado Virtual. Voltei mais cedo; não curto reggae e maconha, hehe.

18/12: Terminei de assistir à 3ª temporada de "How I Met Your Mother". Barney se tornou meu personagem favorito, embora ele seja meu exato oposto, rs.
Como preparação para o artigo de Política & Sociologia, fichei a maior parte dos capítulos de "Doutor Fausto" (Thomas Mann).

19/12: Acordei bem cedo e fichei o resto dos capítulos.
À tarde, enquanto o escrevia, cheguei à marca de 70 mil faixas escutadas no Last.FM! Como estou cadastrado no site desde 29/10/2005, isso dá uma média de 11,6 mil músicas por ano! A "septuagésima décima milionésima" execução foi Isolation (Joy Division).
Fui ao Sebinho à noite, e comprei de novo o 1º CD da minha vida ("Domingo", Titãs), 15 anos e meio depois. Desta vez adquiri a edição com bonus tracks; porém, quando cheguei em casa a faixa "Pela Paz" estava dando problemas. Paciência... ela nem é uma das minhas prediletas, hehe.
Poucos minutos depois da meia-noite... pronto! Entreguei meu artigo de Política & Sociologia! Finalmente estou de férias!
Foi gratificante fazer este trabalho, pois agora já tenho um roteiro do que estudar nos próximos 2 anos para a minha tese de mestrado.

20/12: Aproveitando a carona do meu room-mate Gino, voltei mais cedo que o programado para Goiânia. Semana que vem ainda passaria em Brasília para buscar as coisas que faltou trazer, mas desta vez já será como turista, e não como graduando da UnB, rs!

21/12: Em um só dia comecei e terminei de ler "O Poder das Idéias" (uma biografia do Mises, de autoria coletiva) e li "Nobreza de Espírito" (Rob Riemen) até a metade.

22/12: Terminei de ler "Nobreza de Espírito", que superou minhas expectativas. A obra como uma antologia de diálogos e pensamentos humanistas. Thomas Mann, Spinoza, Nietzsche e Albert Camus são alguns dos pensadores que povoam este ensaio de Riemen. A parte sobre o 11/9 também foi interessante.

23/12: Com subsídio materno, comprei o resto dos meus presentes natalinos, os quais farão companhia à coleção do Carpeaux: uma eição especial em CD duplo de "Nevermind" (Nirvana); o CD do show "Stop Making Sense" (Talking Heads); a peça teatral "Os Bandoleiros" (Schiller); uma coletânea de artigos sobre "Arte e Filosofia no Idealismo Alemão"; a edição Saraiva de Bolso de "A Vida Como Ela É" (Nelson Rodrigues).

24/12: Descobri a 8Tracks, uma rádio online muito legal, e já publiquei um mix por lá: Interzone. Enquanto minha família se diverte cantando no videokê, fiquei no meu quarto, sendo misantrópico e ouvindo música no 8tracks. Porém, mais tarde fiquei mais animado e fui fazer a social. Pois bem, dentre várias músicas com performances épicas, cantei a plenos pulmões o tema de Cavaleiros do Zodíaco no videokê. Agora ninguém (nem eu mesmo!) tem o direito de me chamar de autista, hehe.

28/12: Terminei mais uma leitura: "O Marido de Minha Mulher", de Luigi Pirandello. Os contos deste italiano são bem espirituosos, mesmo quando lidam com temáticas delicadas, como a guerra e a morte.

29/12: Eu e o meu irmão Aderson zeramos Pokémon Sapphire em apenas dois dias! Começamos a versão no dia anterior e na noite deste dia 29, vencemos a Elite Four e o campeão Steven. Valeu a pena ter passado a noite inteira treinando todos os pokémons do time (Torkoal, Kyogre, Crawdaunt, Sceptile, Salamence e Glalie) até o nível 50, pois a vitória contra os cinco treinadores finais foi facílima!

30/12: Vim com minha mãe buscar o resto das minhas coisas em Brasília. Quando voltar para cá, em meados de Janeiro, será como turista (ou, para ser chique, flanêur), e não estudante universitário, hehe.
Almocei na Spoleto do Pátio e passeei na Saraiva e na Leitura; porém, não encontrei nada de interessante.
À noite, na Livraria Cultura, eu comprei: os dois volumes do "Fausto" de Goethe pela edição de bolso da Editora 34, que tem a mesma ótima tradução e os prefácios e comentários da edição "de luxo" que a mesma editora lançou anos atrás; o CD "Daydream Nation" do Sonic Youth, completando assim a trilogia com "Goo" e "Dirty", os quais eu já havia comprado neste ano.
A Play, festa na qual eu não ia há mais de um ano, foi até melhor do que eu esperava. Encontrei a UnB inteira por lá, rs. O pessoal de Ciência Política, então, estava em peso na festa! Tocaram muita música boa, desde clássicos como "Lust for Life" até novidades como "Pumped Up Kicks"!
Além disso, fiquei com uma garota, quebrando a “maldição dos 6 meses”: desde 2010 eu só beijava fêmeas que conhecia em festas nos meses de março e setembro. Sendo assim, nada como encerrar 2011 destruindo este tabu, hehe. O melhor de tudo é que foi ela quem deu em cima de mim: durante a festa inteira ela ficava me olhando de um jeito "flertante", até que, lá pelas duas da manhã, resolvi me arriscar. Em questão de minutos já estávamos nos beijando, hehe. Acho que essa é a única vantagem de ser tímido: só fico com garotas que têm iniciativa!

31/12: No último dia do ano, poucos antes de uma súbita e irritante dor de ouvido que estragou meu Reveillon, fiz no 8Tracks um mix com as que considero as 12 melhores músicas do ano: My Favourite Songs from 2011.

20 Dezembro 2011

A Bildung demoníaca: “Doutor Fausto” e a Crise da Modernidade

(Artigo que escrevi para a disciplina Política e Sociologia. Finalmente estou de férias!)

Resumo: O propósito deste artigo é examinar como o romance “Doutor Fausto” (1947), de Thomas Mann, se relaciona com o seu contexto político e histórico. Esta obra, por meio da história do músico Adrian Leverkühn, é uma alegoria do cenário intelectual da Alemanha no período entre guerras, com o crescente fascínio por doutrinas radicais e baseadas na “vontade de poder”. Além disso, a saga de Adrian nos permitirá entender melhor a crise do ideal da Bildung frente a uma adversa situação social, política e até filosófica. Sendo assim, este artigo analisará de que forma “Doutor Fausto” postula que a tragédia alemã no Século XX tem suas raízes em idéias gnósticas, niilistas e esteticistas, as quais passam por pensadores influentes como Lutero, Goethe e Nietzsche.

Palavras-chave: Bildung, Gnosticismo, Niilismo, Humanismo, Esteticismo.

1. “Linhas Precedentes”: Introdução

“Doutor Fausto”, publicado em 1947, é o último grande romance do renomado escritor alemão Thomas Mann (1875-1955). O narrador desta obra é o humanista Serenus Zeitblom, que conta ao leitor a sombria história de seu melhor amigo, Adrian Leverkühn, um homem dotado de grande genialidade artística, mas melancólico e atormentado por demônios interiores. As tragédias pessoais que ocorrem tanto no círculo social dos dois amigos quanto na Alemanha e na Europa em geral parecem não perturbar Adrian, que progressivamente se isola para elaborar suas inovadoras e herméticas composições.

Em certa medida, esta postura é recorrente em vários intelectuais alemães da época: o esteticismo, isto é, a autonomia exacerbada da arte, com a valorização da forma e da beleza em detrimento das questões políticas e sociais – ou, pior do que isso, a estetização da própria política. Leverkühn pode ser visto como uma alegoria do fascínio da intelligentsia alemã por idéias niilistas, gnósticas e/ou de forte influência nietzschiana. Ele é um mosaico de várias personalidades, construído de tal forma que emana a psicologia coletiva da Alemanha desde a Reforma. Thomas Mann irá fundir simbolicamente essa trilha histórica ao esculpir o protagonista de “Doutor Fausto”.

A biografia de Adrian também é um retrato do próprio Século XX: ao se referir a “Doutor Fausto”, Mann disse que pretendia elaborar “um romance da minha época, disfarçado numa história de vida de artista altamente precária e pecaminosa.” (MANN, 2001: 35) Por fim, a obra é uma síntese da filosofia que permeia toda a produção artística de Thomas Mann:

“Toda a vida de Thomas Mann, no seu sentido mais profundo, é um constante esforço de superar a sua natureza, impregnado do romantismo musical da Alemanha, a sua vida é uma vida exemplar no seu aspecto de superação moral e de vitória sobre as suas mais profundas inclinações. E toda a sua vida nada é senão a expressão estética desse esforço de contrapor os dois valores, de pô-los em xeque, de referi-los num jogo de dialética altamente ambígua, de ironizar-lhes a unilateralidade, de salientar a necessidade de sua síntese final num humanismo em que espírito e vida se interpenetrem e em que o indivíduo isolado se integre de novo na sociedade, enriquecido pela experiência da “doença”, da “morte” e da alienação.” (ROSENFELD, 1994: 93)

Este artigo estudará este romance à luz do conceito de Bildung (formação), avaliando como este é representado no complicado contexto político e histórico em que “Doutor Fausto” foi escrito; estamos falando da ascensão do Nazismo e da crise dos valores humanistas na Europa do período de entreguerras (1919-1939). A Bildung é uma idéia central para a intelectualidade alemã desde a época de Goethe (embora suas origens remontem ao Pietismo), porém este ideal da formação universal e auto-cultivada entrou em xeque no Século XX. Em sua obra, Thomas Mann procurou retratar esta guinada anti-humanística, que segundo ele teria suas raízes já em Lutero. Em outras palavras, seu compromisso em “Doutor Fausto” era fazer um estudo aprofundado da catástrofe que se abateu sobre a Alemanha na primeira metade do século passado, como um corolário de um processo iniciado na Reforma.

Três são as questões que nortearão esta discussão. Em primeiro lugar, de que maneira a música de Adrian Leverkühn reflete as influências intelectuais de seu círculo social. Segundo, se é possível afirmar que este personagem é uma combinação de várias personalidades históricas alemãs. Por fim, como a trajetória de Leverkühn se configura como síntese e alegoria da crise da Alemanha e dos próprios valores da Modernidade.

Este artigo percorrerá o seguinte trajeto: o próximo capítulo - “Elementa: Conceitos básicos” - definirá os conceitos de Bildung, Bildungsroman, Gnosticismo, Niilismo, Humanismo e Esteticismo. Neste capítulo também será feita uma breve exposição do mito de Fausto.

No Capítulo 3, “‘A Música é a ambigüidade organizada como sistema’: a formação de Adrian”, o foco será a trajetória do pianista Adrian, e como ela se configura como síntese das tendências intelectuais que marcaram a Alemanha. Os principais momentos de sua vida – com ênfase em sua formação intelectual – serão descritos. Além disso, será feita uma revisão bibliográfica, apresentando alguns comentadores da obra.

O capítulo seguinte, “Os dilemas da Modernidade em ‘Doutor Fausto’”, tratará do simbolismo entre o personagem principal e três personalidades alemãs: Lutero, Goethe e Nietzsche. Além disso, será realçada a oposição entre as visões de mundo de Serenus Zeitblom e Adrian Leverkühn.

Por fim, na conclusão, o argumento central é que “Doutor Fausto” significa a ruptura definitiva de Mann com o esteticismo, com uma crítica contundente a muitos pensadores que o influenciaram. O autor recusa a guinada ao niilismo e ao esteticismo que seu país deu, e procura resgatar os valores humanistas e cristãos que fundamentam a cultura e civilização ocidentais.

2. Elementa: Conceitos básicos

A bibliografia utilizada para desenvolver este artigo será bem diversificada, envolvendo autores das áreas de Filosofia Política, Sociologia, Crítica Literária, Estética etc. Esta abordagem interdisciplinar nos permitirá estudar o romance de Mann de uma forma mais ampla, sempre buscando compreender as interfaces entre o livro, o seu contexto social e as idéias filosóficas, artísticas e políticas que o atravessam.

O marco teórico que utilizaremos para justificar a Literatura como fonte de estudo para a Teoria Política é a noção de “arte crítica”, segundo a qual “a arte aparece como forma de conhecimento e investigação, constituindo uma modalidade de saber, apta a compreender o mundo e sintetizar a realidade.” (CHAIA, 2007: 22) Na medida em que o artista possui a capacidade de “expressar poeticamente a sua sociedade” (Ibidem: 13), sua obra de arte ajuda na apreensão dos limites e paradoxos da política.

Outro referencial para este estudo será Luis de Gusmão, para quem a Literatura é “um saber acerca das motivações, sentimentos e paixões dos seres humanos, cujo valor cognitivo se coloca acima da dúvida sensata.” (GUSMÃO, 2007: 251) As obras dos literatos de gênio – categoria na qual se pode incluir Thomas Mann – reúnem um acervo de observações penetrantes sobre a condição humana, além de “vívidas e circunstanciadas descrições compreensivas de mundos sociais particulares encontradas na melhor historiografia.” (Idem, 2011: 43)

A seguir, definiremos seis conceitos que serão importantes para o desenvolvimento do artigo. O primeiro deles é Bildung. Ela consiste, segundo Wilhelm von Humboldt, na “realização de uma individualidade nutrida pela diversidade da experiência.” (HUMBOLDT, 2004: 76) Análoga à Paidéia grega[1], este ideal vê como verdadeira finalidade do Homem a “formação a mais alta e harmoniosa possível de suas forças em direção a uma totalidade completa e consistente.” (Ibidem: 143) A Bildung é um projeto educacional e filosófico que visa à formação universal, envolvendo tanto a moralidade e a racionalidade quanto a sensibilidade. Tal ideal tem uma forte marca alemã, pois conciliou ambições iluministas e românticas, como se verifica no famoso diálogo artístico e filosófico entre Goethe e Schiller. [2]

Bildungsroman (romance de formação) é o gênero literário que pode ser considerado como exposição artístico-pedagógica do ideal da Bildung. Segundo Wilma Maas, neste estilo de romance “o protagonista deve ter uma consciência mais ou menos explícita de que ele próprio percorre não uma seqüência mais ou menos aleatória de aventuras, mas sim um processo de auto-descobrimento e de orientação no mundo.” (MAAS, 2000: 62) Além disso, ele deve passar por experiências típicas à separação da casa paterna: a atuação de mentores e de instituições educacionais, o encontro com a esfera da arte, experiências estéticas, o contato com o campo profissional e, se for o caso, também com a vida pública. “Doutor Fausto”, com as devidas proporções, pode ser considerado como um romance de formação, muito embora ele questione este cânone tanto do ponto de vista estético quanto do próprio conteúdo, a começar pelo fato de ser concretamente situado na história e no espaço. (cf. VEJMELKA, 2009: 300)

Embora o Humanismo seja uma visão de mundo heterogênea (afinal, existem humanistas ateus e cristãos, materialistas e idealistas), ele pode ser entendido como “a idéia e o imperativo de uma formação ideal, que tende a ter como conteúdo e escopo o próprio homem, digamos: o ideal do homem, o homem ideal.” [3] De forma geral, os humanistas se preocupam com a plena formação cultural e intelectual do ser humano; daí o ideal do “homem universal”, capaz de dominar todas as artes e ser apto tanto ao estudo dos clássicos quanto ao pleno exercício da cidadania. Em “Doutor Fausto”, o personagem-narrador Serenus Zeitblom pode ser identificado como um humanista de viés católico, preocupado com a preservação dos valores ocidentais.

O Gnosticismo, por sua vez, é uma cosmovisão remanescente da antiga seita religiosa e esotérica dos gnósticos, a qual pregava um “conjunto de crenças, símbolos, valores e atitudes da cultura espiritual greco-romana” (CARVALHO, 2000: 194). Acredita-se que, por meio da gnose (intuição ou conhecimento esotérico) é possível alcançar a salvação da alma em relação ao mundo material, o qual foi criado por um demiurgo (isto é, um deus imperfeito). Segundo Eric Voegelin (1982), o gnosticismo é uma marca de quase todas as ideologias políticas modernas, desde o liberalismo até o socialismo, manifestando-se na pretensiosa noção moderna de “progresso”, na medida em que visa a uma "redivinização da realidade", colocando o materialismo como religião civil.

Há várias possibilidades de se definir o Niilismo; como Nietzsche é um pensador bastante visível em “Doutor Fausto”, adotaremos a perspectiva nietzschiana sobre este conceito. Para ele, segundo Rita Cássia de Oliveira, o que caracteriza a postura niilista é uma vontade de poder fraca e reativa, que não afirma a vida e não promove a criação de novos valores que elevem o ser. No niilismo é a negação da vida que rege a passagem do mundo de Deus ao mundo dos homens, não havendo abertura ao devir e ao eterno retorno. Porém, nesse vazio de valores há uma brecha para a ação: o homem deve agir abrindo-se para o devir e o tempo, transformando a vida em uma experiência de criação e destruição. (cf. OLIVEIRA, 2008: 62) Ou seja, o que caracteriza a postura niilista é o ceticismo radical quanto à possibilidade de se atribuir um sentido à vida, à existência humana. Sendo assim, quaisquer princípios e critérios “absolutos” ou “universais” podem e devem ser dissolvidos ou abolidos.

O último conceito a ser definido é o Esteticismo, que consiste na afirmação da superioridade dos valores estéticos e do caráter auto-suficiente da Arte. No caso do esteticismo nietzschiano, o que se tem é a justificação estética da existência. Os valores estéticos são superiores aos demais, “pois a Arte se situa acima do Bem e do Mal, e é a única atividade através da qual o homem, manifestando a sua vontade de poder, restabelecendo o seu contato com os instintos agressivos reprimidos pela educação moral, pode criar um sentido para a existência.” (NUNES, 1999: 39) Para este filósofo alemão, pouco importa que a criação artística se afaste da realidade, pois suas ilusões são mais humanas e suas exigências morais mais autênticas que os conceitos frios e abstratos da ciência e da filosofia. Para Nietzsche, a Arte é o grande estimulante da vida. (cf. NIETZSCHE, 2006)

Por fim, eis um breve resumo do mito fáustico. Segundo Castro, ele vem dos tempos medievais, atravessando a literatura moderna por meio de autores como Marlowe e Goethe. A relação de Fausto com Mefistófeles (que é um dos asseclas de Lúcifer) consiste em um pacto: aquele vende a alma em troca de fama, riqueza e conhecimento. O demônio é o símbolo da soberba, da rebeldia do homem contra o Criador. Fausto, no entanto, "ao ver esgotar o pó da ampulheta, entra em um conflito existencial. Apesar de saber-se proscrito das relações divinas, ainda pensa em uma forma de se livrar do castigo que o espera.” (CASTRO, 2004: 100-101)

3. “A Música é a ambigüidade organizada como sistema”: a formação de Adrian

Adrian Leverkühn é de família luterana. Jonathan, seu pai, é praticamente uma descrição do progenitor do próprio Mann; é um alemão à moda antiga. Ele é herdeiro de uma Bíblia dos tempos de Lutero, encadernada com tecido de porco (elemento simbólico, pois este é um animal associado ao demoníaco). “Alquimista fora de moda”, o pai de Adrian possui – e transmite ao filho – uma curiosidade científica análoga à dos bruxos (cf. MANN, 1996: 20).

A trajetória do personagem dá vários indícios de que há algo de terrivelmente peculiar no filho de Jonathan. Na escola, por exemplo, Serenus se angustiava com a mescla de talento e soturnidade que marca o seu melhor amigo: “Há maus alunos em grande número. Adrian, porém, representava o fenômeno de um mau aluno na figura de um primeiro da classe.” (Ibidem: 62)

Ao longo da infância, Adrian tinha certa indiferença pelo “mundo dos instrumentos”, mas na adolescência, influenciado pelo professor estrangeiro Wendell Kretzschmar, não pôde fugir de seu próprio destino, e desenvolveu sua aptidão artística de forma acelerada. “Kretzschmar não se opunha e até favorecia a pressa com que o jovem vibrante de inteligência se adiantava também em matéria de música, ocupando-se com coisas que um mentor mais pedante teria proscrito como disparates.” (Ibidem: 98) A Bildung de Adrian, facilitada pela cumplicidade de seu mestre, é tema de outro dito espirituoso do narrador: “Um professor é a personificada consciência do aluno; confirma-o nas suas dúvidas; explica-lhe os motivos de sua insatisfação e lhe estimula a vontade de melhorar.” (Ibidem: 242)

O primeiro curso universitário que Leverkühn fez foi Teologia, o que já revela seu interesse em decifrar os mistérios do Eterno. Um de seus professores é o sombrio Schleppfuss, que, em uma de suas aulas de Psicologia da Religião, alega que o Mal é conseqüência necessária da existência de Deus, e que o livre-arbítrio e o pecado são indissociáveis:

“O Mal contribuía, segundo ele, à perfeição do Universo e, sem aquele, este não seria perfeito. Por esse motivo, Deus o admite, já que Ele mesmo é perfeito e, portanto, deve querer a perfeição. (...) A verdadeira justificação de Deus em face do mísero espetáculo da criação consistia em sua faculdade de fazer o Bem brotar do Mal.” (Ibidem: 137-138)

Porém, embora profundamente marcado pelos conhecimentos que adquiriu nas aulas e mesmo nas discussões com os colegas, após um ano Adrian abandona o curso e assume em definitivo a sua vocação para a Música. Ele até envia uma carta a Kretzschmar notificando-o da decisão:

“O senhor acha que tenho vocação para essa arte e me dá a entender que o desvio que me conduziria até ela nem sequer seria muito grande. Meu luteranismo concorda com isso, já que reputa a Teologia e a Música esferas vizinhas, muito afins e, para mim, pessoalmente, a Música sempre tem representado uma combinação mágica entre a Teologia e a tão divertida Matemática.” (Ibidem: 175)

Segundo Nivaldo Cordeiro (2011), esta carta é uma espécie de manifesto esteticista, com o resplandecer da gnose tão própria desta tendência filosófica, da qual Nietzsche foi o apogeu.

O professor de Adrian fica feliz com a decisão de seu pupilo, e tenta acalmar Leverkühn quanto às inquietações e dúvidas que este ainda tem sobre a sua vocação, afirmando que a Arte também tem um caráter supra-individual:

“A Arte progride – escreve Kretzschmar – e o faz por intermédio da personalidade, que é produto e instrumento da época, e na qual fatores objetivos e subjetivos ligam-se até tornarem-se indistinguíveis, assumindo uns a forma de outros. Devido à necessidade vital que a Arte tem do progresso revolucionário e da realização do renovamento, depende ela do veículo do mais intenso sentimento subjetivo, que acha chochos, inexpressivos e obsoletos os recursos ainda corriqueiros e se serve daquilo que aparentemente não é vital, a saber, da predisposição pessoal para a lassitude, do fastio intelectual, do asco que acomete a quem perceba o segredo do feitio, da maldita inclinação de ver as coisas à luz de sua própria paródia, do senso do cômico. O desejo de vida e progresso, inerente à Arte, põe as máscaras dessas indolentes qualidades pessoais, para assim manifestar-se, objetivar-se, cumprir-se.” (Ibidem: 181)

Esta digressão de Kretzschmar deixa claro que o tema de “Doutor Fausto” é justamente a intelectualização da arte. O otimismo do professor, no entanto, subentende “o conhecimento de uma civilização altamente complexa e vítima das forças destrutivas que traz em si mesma, o fato de que na era mais sofisticada do intelecto emergiram as forças irracionais com poder até então inimaginável de destruição." (MISKOLCI, 1998: 194)

Outro personagem intrigante é Chaim Breisacher, segundo o narrador “um filósofo da cultura cuja mentalidade se dirigia, contudo, (...) contra a própria Cultura” (MANN, 1996: 377). Ele via na história da mesma um processo de decadência, e desprezava o “progresso”. Uma de suas falas mais perturbadoras é quando, após criticar o Rei Salomão por abandonar as tradições de um deus nacional – segundo Breisacher, “quinta-essência da força metafísica do povo” – e iniciar o culto a um Deus abstrato, ele afirma que não existe pecado, pois na religião autêntica de um povo genuíno não existem “conceitos teológicos débeis, tais como ‘pecado’ ou ‘castigo’, com seu nexo causal apenas ético.” De acordo com este filósofo, a Religião e a Ética nada tem em comum, a não ser o fato de que esta representa a decadência daquela. “Tudo o que é moral é deformação ‘puramente espiritual’ do rito.” (Ibidem: 383)

Uma passagem decisiva na vida de Adrian foi a sua visita a um prostíbulo, quando tinha cerca de vinte e dois anos de idade. Foi com a meretriz Esmeralda que ele adquiriu sífilis, a doença demoníaca que o marcaria pelo resto de sua existência. “A entrega da alma ao Diabo é a condição para o artista dominar a Arte e alcançar seus delírios de grandeza. (...) É pelo intercurso com Esmeralda que Leverkühn (...) recebe o germe criador, a sífilis, que o atormentará por toda a vida.” (CORDEIRO, 2011) Sobre a relação entre enfermidade e inspiração artística, eis o que Richard Miskolci nos diz:

“A sífilis sempre foi vista pela sociedade como a doença que atinge todos os que desprezam as conseqüências dos seus atos; e o que caracteriza o Fausto manniano e é indissociável de sua genialidade é o niilismo. A decisão voluntária pela doença pode ser um meio de negação da vida como ela é e a aceitação do lado escuro da existência como próprio do artista. (...) Entre os inúmeros sifilíticos famosos do século XIX contam-se Baudelaire, Flaubert, Wilde e Nietzsche.” (MISKOLCI, 1998: 195)

Porém, o momento mais marcante da obra, e que é praticamente um ensaio crítico sobre o pós-modernismo, é a estranha conversa de Leverkühn com o Diabo, por meio da qual fazem um pacto que garante ao compositor a genialidade artística durante um período de 24 anos:

Um diabo ilustrado disserta sobre estética e filosofia, cita Kierkegaard e Goethe, nega ironicamente toda a tradição do Fausto. Muda de aparência conforme a temática, do cafajeste ou cafetão (...), pelo intelectual elegante parecido com Adorno (...) à figura clássica do Cujo animalesco. Explica que nem o pacto pode ter mais a forma clássica: já fora negociado e assinado há tempo, a conversa é somente a explicitação dos termos estabelecidos. Tudo fica indeciso entre sonho e realidade, não se sabe se foi um delírio – parecido ao de Ivan Karamázov [4], cujo 'sonho febril' inspirou o capítulo –, a incerteza se intensifica pelo fato de o pacto ser narrado pelo próprio Leverkühn em anotações da manhã seguinte, que são reproduzidas literalmente por Zeitblom.” (VEJMELKA, 2009: 301)

No início do diálogo, o Diabo se parece com um rufião, “falando alemão e espalhando frio”; um agravante é que o tímido Leverkühn não gosta de tutear. Porém, Ele muda de aparência, tomando a forma de um intelectual musicólogo (seria Kretzschmar?), com isso se tornando mais elegante (como disse Vejmelka, parecendo-se até com Adorno!). Adrian começa a se sentir à vontade. À medida que a conversa avança, ele ganha a aparência de um professor de Teologia (Schleppfuss?).

O Diabo concorda com Adrian no sentido de considerar a Arte Moderna como paródia, e a paródia como um niilismo aristocrático. Além disso, infla o ego de seu “parceiro comercial” ao mencionar as vantagens da genialidade artística que lhe fornecerá:

“Tu serás um líder, imprimirá o ritmo à marcha que conduz ao futuro; teu nome será adorado pela rapaziada, que graças à tua loucura, já não precisará enlouquecer. (...) Não somente vencerás as estorvadoras dificuldades dos tempos; não, os próprios tempos, a fase da Cultura e seu culto serão superados por ti; terás a audácia de uma barbárie duplamente bárbara, por ocorrer após o humanismo, após o refinamento burguês e qualquer tratamento de canal que se possa imaginar.” (MANN, 2009: 329)

Porém, há uma cláusula no contrato: em troca da inspiração criativa, Adrian deve renunciar a amar: “O amor te fica proibido, porque esquenta. Tua vida deve ser frígida, e, portanto, não tens o direito de amar pessoa alguma.” (Ibidem: 337) Segundo Nivaldo Cordeiro (2011), aqui reside a essência do pacto fáustico e do próprio esteticismo: o anti-amor ao próximo. Além disso, o acordo satânico de Leverkühn revela o problemático fundamento de sua Bildung. Se por um lado o pacto pode ser visto como uma escapatória das dificuldades da crise da cultura européia, também podemos encará-lo como a ânsia por eclosão, a qualquer custo, de um espírito orgulhoso e ameaçado de esterilidade. Mesmo em seu último discurso, à beira do colapso, Adrian continua acreditando piamente que vender a alma ao Diabo era inevitável para que ele se tornasse um gênio da Música:

“... esta é a época em que já não é possível realizar uma obra de modo piedoso, correto, com recursos decentes. A Arte deixou de ser exeqüível sem a ajuda do Diabo e sem fogos infernas sob a panela... Sim, sim, meus caros companheiros, certamente cabe aos nossos tempos a culpa de que a Arte estagna, que se tornou difícil e zomba de si mesma, que tudo se tornou por demais difícil e a pobre criatura de Deus já não percebe nenhuma saída, na sua miséria.” (Ibidem: 672)

Trataremos agora de revisar a fortuna crítica de “Doutor Fausto”. Comecemos por Lukács, que embora em certos momentos demonstre uma boa compreensão do romance de seu amigo Thomas Mann, em outros acaba por cair em um marxismo reducionista. Vejamos um exemplo de sua argumentação excessivamente ideologizada: “O que Thomas Mann nos fornece neste romance é a análise da problematicidade de toda a arte moderna. Ele mostra como o momento puramente subjetivo, o afastamento de toda coletividade, o desprezo por toda comunidade, surjam, por um lado, como conseqüência necessária do moderno individualismo burguês do período imperialista.” (LUKÁCS, 1968: 216)

Segundo Eloá Heise, o contexto histórico é fundamental para entender “Doutor Fausto”, e como essa obra simboliza a crise da Modernidade: “A Primeira Guerra Mundial, um marco decisivo da época, materializou as premonições sinistras dos poetas da virada do século e deu um novo sentido à idéia de grande ruptura. A partir de 1914 o caráter humano mudou. O moderno não era mais uma experiência ousada de novas formas de expressão, mas a objetivação de uma nova situação macabra.” (HEISE, 1990: 243)

Para Maryson Borges, Mann se preocupou em mostrar que o apego à interioridade e à fuga utópica que marcam o povo alemão (especialmente com o advento do Romantismo), se num primeiro instante deram sentido e unidade cultural à Alemanha, em seguida condenaram seu povo “a um grau de solidão e egoísmo nacional que culminaria num egocentrismo xenófobo estimulado ulteriormente pelo nazismo.” (BORGES, 2010: 75)

Richard Miskolci, por sua vez, prefere apreender a filosofia da história intrínseca ao romance de Mann, e faz observações bem lúcidas ao relacioná-lo com as tendências literárias daquela época:

“A arte moderna descobriu-se num dilema: servir a objetivos sociopolíticos ou rejeitar qualquer laço exterior e desenvolver-se a partir de regras estritamente codificadas. Mann foi um artista moderno sui generis, tinha consciência demais de seu papel histórico e de tudo o que devia a seus predecessores para considerar-se um vanguardista stricto sensu. Seus romances, ainda que inovadores em termos de conteúdo intelectual, parecem reverenciar a forma do romance tradicional. Essa relação com a tradição romanesca, ainda que irônica, tem o mérito de tornar maior a acessibilidade do leitor ao conteúdo não-literário da obra.” (MISKOLCI, 1998: 196)

Marcus Mazzari focou-se na questão do pacto fáustico e disse que em “Doutor Fausto” há uma “vigência de aspirações que só se concretizam por meios diabólicos, impondo ao pactário um permanente esquivar-se diante das pessoas, da vida social, da realidade histórica – conseqüentemente, a fuga cada vez mais intensa para dentro de si mesmo: ruptura do casulo e advento da borboleta apenas e exclusivamente na solidão da existência estética.” (MAZZARI, 2010: 73)

Segundo Nivaldo Cordeiro, o esteticismo presente em Leverkühn é apenas outro nome para o niilismo resultante do abandono a metafísica cristã. A arte e o belo não podem ser sucedâneos para as verdades da alma e caem no vazio existencial inexoravelmente. Nietzsche seria, portanto, o apogeu dessa loucura: “Thomas Mann reconhece que a raiz primeira da orgia de sangue que foram as guerras da primeira metade do século XX está na Reforma, que criou o homem fáustico, esta figura tipicamente moderna. O homem faustico é o pequeno Satã, o rebelde contra Deus. É aquele que foi proibido de amar ao próximo.” (CORDEIRO, 2011)

Embora Cordeiro dê um viés demasiadamente conservador à sua análise, há algo em que podemos concordar com ele: Mann conseguiu prever o ambiente de descrença e cinismo que iria permear o pós-modernismo, resultante justamente da necessidade modernista de ruptura constante.[5] Afinal, o esteticismo se opõe à moral, assim como o satanismo se coloca contra a verdade revelada, elevando o homem acima do bem e do mal, o que nos remete novamente a Nietzsche.

4. Os dilemas da Modernidade em “Doutor Fausto”

Thomas Mann, ao formar Adrian Leverkühn, conseguiu somar no mesmo símbolo Lutero, Goethe e Nietzsche. O fato de ser músico acentuou o caráter dionisíaco – e demoníaco – desse personagem. Comecemos pelo severo diagnóstico de Mann sobre o desencadeador da Reforma:

"Lutero era um herói libertador, mas em estilo alemão. Nada sabia de liberdade. Não falo de liberdade do cristão, mas da liberdade política, do cidadão, liberdade esta que só deixava Lutero indiferente, mas cujas exigências lhe eram repugnantes... A concepção alemã de liberdade era sempre dirigida contra o exterior; ela acentuava apenas o direito de ser alemão, só alemão e nada além disto... é uma concepção de protesto apenas, de autodefesa contra tudo que tende a limitar e restringir o egoísmo nacional.” (MANN apud ROSENFELD, 1994: 140).

No que diz respeito a Goethe, o individualismo alquímico deste reitera a característica central de Fausto: a inflação do indivíduo que busca superar o próprio criador. Além disso, há um quê de ressentimento germânico em relação ao Ocidente, a “Civilização”, encarnada em França e Inglaterra - ou, para ser mais específico, os valores católicos. “Goethe, ao imaginar a Noite de Valpurgis Clássica, onde expôs o intercurso entre Helena e Fausto, mostrou esse impetuoso desejo germânico de abolir qualquer relevância de Roma e do catolicismo, como se isso fosse possível. A narrativa é aterradora. A beleza poética não esconde seu caráter medonho.” (CORDEIRO, 2011)

A alusão a Nietzsche é a mais explícita das três. “Mann trabalhou com os paradoxos da genialidade e chegou a denominar seu romance de um Nietzsche Roman, revelando seu intuito de, a partir do caso patológico do filósofo, diagnosticar a doença que atingira a germanidade espiritual.” (MISKOLCI, 1998: 198-199) A profunda afinidade do autor de “Assim Falava Zaratustra” com a Música só reforça a analogia, que chega a se expressar em datas: Leverkühn falece em 25 de Agosto de 1940, exatos quarenta anos depois da morte de Nietzsche.

Como foi dito na introdução deste artigo, também é preciso levar em conta que os destinos de Leverkühn e da Alemanha estão entrelaçados. Adrian “é produto da crença segundo a qual a cultura nacional superaria qualquer outra, sendo a Alemanha a veiculadora de uma nova ordem e, para provar ao mundo sua teoria, não importava o preço que lhe seria cobrado.” Enquanto uma representação individual do processo de produção da nova ordem (encarnada no Nazismo), ele sempre busca estar à frente do seu tempo. “Sua percepção o leva à superação de conhecimentos, em contraposição a Serenus.” (CASTRO, 2004: 93-94)

Ainda sobre a oposição entre Zeitblom e Leverkühn, é preciso dizer que, enquanto o primeiro é um humanista, o seu melhor amigo combina ambições gnósticas, uma melancolia tipicamente niilista e uma forma esteticista de encarar a arte. Além disso, seu profundo interesse pelas Ciências da Natureza o leva a zombar da visão de mundo de Serenus, chamando-a de medieval. Há um nítido sentimento de superioridade na fala de Adrian, que demonstra um desprezo pela metafísica análogo ao de filósofos e cientistas do século XIX. Além disso, cabe uma nota biobibliográfica: este ataque lembra muito os embates presentes em outra obra de Thomas Mann, “A Montanha Mágica”, onde o também niilista Naphta ridicularizava as idéias de Settembrini, outro humanista – embora agnóstico, ao contrário do católico Zeitblom. Vejamos a crítica de Adrian:

“Teu Homo Dei é em última análise ou, desculpa, é antes de mais nada um pedaço de asquerosa natureza, com uma quantidade parcimoniosamente conferida de espiritualização. De resto, é divertido observar a que ponto teu humanismo, e provavelmente qualquer humanismo, tende para o geocentrismo medieval, evidentemente por necessidade. (...) Isso é Idade Média. A Idade Média foi geocêntrica e humanista. A Igreja, na qual sobreviveu, opunha-se às percepções da Astronomia à base do espírito humanista; condenou-as e proibiu-as, por terem sua origem no Demônio; insistiu na ignorância em nome da humanidade.” (MANN, 1996: 369)

Serenus Zeitblom, ao contrário do colega luterano, critica a renegação humana em prol de uma predeterminação absoluta, a qual seria o tijolo fundamental da quebra da relação religiosa entre obras e salvação, ou pelo menos do comportamento moral coerente com a vontade divina na ação no mundo. (cf. CORDEIRO, 2011) Ainda sobre este ponto, Nivaldo Cordeiro diz que a relação entre o narrador e o personagem principal é também simbólica. O primeiro admira e inveja o segundo, embora esteja consciente de cada passo que este deu para o mergulho no pacto mefistofélico. Esta teria sido a relação do mundo católico com o protestante: uma ponta de inveja por suas realizações fáusticas. “Esse pano de fundo é absolutamente necessário para explicar a inação do mundo diante de Hitler, personificação do niilismo esteticista que tomou contra da Alemanha até o limite do suicídio. O catolicismo ficou paralisado diante do olhar ofídico do demônio do Norte.” (Ibidem)

5. Ecce Homo”: Conclusão

Chegamos ao desfecho deste artigo com a seguinte constatação: Thomas Mann foi um crítico construtivo da Modernidade. Ao mesmo em que procurou preservar valores caros à cultura ocidental, ele não deixou de refletir sobre as novas idéias do período em que vive. Em outras palavras, conciliou transigência com integridade. Ao mesmo tempo, “Doutor Fausto” é uma ruptura de seu autor com o esteticismo, ligando-o definitivamente ao humanismo. Embora Serenus não seja por completo uma representação de Mann, há vários pontos de convergência entre ambos, a começar pela angústia e a indignação diante da decadência moral e intelectual da Alemanha.

O círculo social de Adrian teve influência decisiva na sua formação intelectual, como revelam as falas dos professores Kretzschmar e Schlepfuss e o filósofo Breisacher citadas no capítulo 3 deste artigo. A sua Bildung corrompeu-se ao longo do tempo; problemáticas tendências inatas foram fortalecidas por uma atmosfera hostil à bondade e ao amor. Por fim, de fato a trajetória de Leverkühn se configura como síntese e alegoria da crise da Alemanha e dos próprios valores da Modernidade. Como vimos no capítulo anterior, há um quê de Nietzsche, Goethe e Lutero na composição da personalidade de Adrian, e sua tragédia pessoal se mistura ao destino fatídico da própria Alemanha, que se manteve no seu ímpeto fáustico até que a derrota na II Guerra Mundial pôs fim às pretensões nacionalistas que já estavam enraizadas na cultura alemã desde os tempos da Reforma.

Apesar do relativo fracasso pessoal de seu personagem Adrian Leverkühn (que produziu grandes composições, mas morreu de forma trágica, vítima da sífilis), o ideal da Bildung mantém sua validade no ideário de Mann, porém com uma ressalva: ele não pode se isolar ou ignorar as adversidades políticas e as tentações demoníacas da “arte pela arte”. Zeitblom, nesse aspecto, funciona como contraponto “positivo” de Leverkühn, pois, como vimos no capítulo anterior, sua formação intelectual mais “humanística” o resguardou das tentações fáusticas que corromperam o seu amigo.

Segundo Nivaldo Cordeiro, Thomas Mann foi o único que compreendeu o que estava em jogo, desde sua origem, quando o processo todo estava em marcha e as potências do Ocidente ainda falavam em desarmamento voluntário. Por isso ele foi um dos poucos intelectuais que nunca fez concessões aos nazistas, mesmo quando estes estavam em seus primórdios (cf. CORDEIRO, 2011). Em “Doutor Fausto”, ele colocou com maestria a genealogia do problema alemão:

“Esse intercurso entre a ficção e os fatos históricos é a peculiaridade do romance, que não permite interpretação alternativa do tema tratado. Alemanha, teologia reformada, demonismo, esteticismo, niilismo, guerra, a proibição de amar ao próximo. Tudo se conecta maravilhosamente neste 'livro do Diabo', formando um quadro definitivo que mostra como o Ovo da Serpente foi gestado.” (Ibidem)

Por último, podemos dizer, concordando com Miskolci, que “a grande mensagem de Mann é a de que o espírito deve amar a vida, a razão humana não pode nunca abdicar do amor e cair na armadilha da frieza autodestrutiva. A bondade e o amor devem ser encarados como comuns à ética e à estética, talvez até mesmo haja um Eros oculto a interligá-las..” (MISKOLCI, 1998: 206) Trocando em miúdos, Thomas Mann, com bem salientou Anatol Rosenfeld em uma citação presente na introdução deste artigo, manteve em “Doutor Fausto” o seu ímpeto em conciliar espírito e vida, sem deixar que um prevaleça sobre o outro. A verdadeira Bildung é aquela que cultiva o intelecto sem cair no vazio existencial, em cinismos esteticistas ou em ambições gnósticas. Embora fosse preciso meio século de muitas tragédias, o último grande romance de Mann parece simbolizar a vitória (ao menos moral) do Humanismo.

Referências bibliográficas

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[1] Paidéia era o processo educacional de formação cultural e intelectual dos jovens nobres na Grécia Antiga. Segundo Werner Jaeger, “a palavra alemã Bildung (...) é a que designa de modo mais intuitivo a essência da educação no sentido grego e platônico.” Vide JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 13.

[2] Vide Goethe e Schiller: Companheiros de Viagem (apresentação, tradução, seleção e notas: Claudia Cavalcanti). São Paulo: Nova Alexandria, 1993.

[3] Vide MOURÃO-FERREIRA, David. Do humanismo à omnisciência narrativa na obra de Thomas Mann. Colóquio Letras. Lisboa, v. 27, set. 1975.

[4] Personagem ateu e niilista do romance “Os Irmãos Karamázov” (Dostoiévski), que enlouquece após uma conversa com o Diabo (Livro XI, Capítulo 9).

[5] Fonte: http://felipedeamorim.opsblog.org/2006/10/21/doutor-fausto-de-thomas-mann