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02 agosto 2015

10 anos de Racio Símio - parte 2

Com um dia de atraso, completo hoje a retrospectiva "biobibliográfica" de Racio Símio.

Antes, uma recapitulação: nos cinco anos em que mais escrevi no blog (afinal 2/3 d0s 803 posts foram escritos entre 2005 e 2009), o tom dos posts era predominantemente intimista. Racio Símio era meu diário, mas também o lugar em que eu "filosofava", expunha minha agonia e meu êxtase e discutia de forma bastante impressionista sobre literatura, música e cultura pop.
A partir de 2010 o blog começou a mudar um pouco. Comecei, por exemplo, a postar fichamentos e resumos das reuniões do projeto de extensão que criei naquele ano, o grupo Estudos Humanistas (GEH). A quantidade de postagens caiu, mas felizmente a qualidade subiu: os textos, quando vinham, eram mais elaborados. Mesmo os "desabafos" não tinham aquela puerilidade tão recorrente nos posts de 2005 e 2006. Sinal de amadurecimento, mas também de adaptação do blog a uma fase da minha vida em que eu não era mais tão solitário (e misantrópico): primeiro em Brasília com os amigos da UnB (principalmente os dos Estudos Humanistas) e depois no Rio com minha namorada e os amigos liberais e os do IESP, eu passei a ter com quem compartilhar meus pensamentos, dúvidas, angústias e idéias aleatórias. Sendo assim, não precisava mais ficar "falando sozinho" (ou para um público anônimo e difuso) aqui no blog. Não quero dizer com isso que passei a valorizá-lo menos; apenas me tornei mais seletivo com os conteúdos que postava aqui.
Prossigamos, portanto, com a jornada da obra e do autor.

Em 2010 tive as melhores férias de verão dos quatro anos que morei em Brasília (e uma das melhores da minha vida). Durante dois meses minha rotina semanal consistia basicamente em ter aulas de Crítica Literária de manhã e Francês de tarde (além de reuniões semanais do PET-POL); no tempo livre, comecei a sair para mais festas (chegou-se a um ponto em que eu era o "conselheiro de baladas" dos meus amigos, rs) e, como já foi dito acima, me reunia com o pessoal do GEH. Alguns posts representativos daquele ano excelente são: The Kaio's Vida NoturnaAuf Achse, Karamazov - parte 2, Cinco anos! - parte 2, Days of Our Lives e 2010 is over. Ah, e foi naquelas férias que assisti pela 1ª vez a Neon Genesis Evangelion, o meu anime favorito (ao lado de Os Cavaleiros do Zodíaco). Em Janeiro escrevi um post com minhas impressões imediatas, e meses depois, já pelos Estudos Humanistas, fizemos uma reunião sobre EVA. Ambas anotações seriam a base para um artigo acadêmico que eu escreveria dois anos depois. 2010 foi um dos anos mais politizados da minha vida: participei ativamente do movimento anti-greve estudantil e representei a Aliança pela Liberdade no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão. Também foi um ano bem musical: discotequei em algumas festas, conheci bandas novas (obs.: embora o "essencial" do meu gosto musical tenha sido formado em 2005, de vez em quando ele expande um pouco - ainda que mais horizontalmente do que verticalmente, rs) e em Novembro tive um fim de semana incrível em São Paulo, no qual fui pela 1ª vez ao festival Planeta Terra e assisti a um show de Paul McCartneyPor fim, embora tenha sido em 2009 que defini o tema da minha monografia (os debates político-ideológicos no romance A Montanha Mágica, de Thomas Mann), foi no ano seguinte que escrevi meu primeiro artigo sobre este livro; eis uma versão preliminar dele.
2011 manteve as "good vibrations" do ano anterior, embora com um adendo significativo: era meu último ano de UnB. Dando prosseguimento a algo que eu já fizera no 2º/2010 (quando cursei Introdução à Teoria da Literatura e Evolução das Idéias Econômicas e Sociais) peguei várias matérias em outros departamentos (História das Idéias - aliás, eis meu ensaio final para uma inusitada disciplina sobre a Geração Beat e a contracultura -, Estética, Teoria da História, Filosofia da Arte etc.) para aproveitar ao máximo meus últimos meses de graduação; eis um relato singelo sobre esse objetivo. Nesse sentido, também escrevi um texto refletindo sobre a importância de uma formação generalista. O projeto Estudos Humanistas seguiu adiante, e além de colóquios, grupos de estudos e atividades em escolas de ensino médio organizamos várias palestras, dentre elas uma dos professores Kramer e Paim sobre o Liberalismo que lotou o auditório Joaquim Nabuco. Por uma ironia do destino (ou predestinação), estou estudando atualmente o autor homenageado naquela conferência: José Guilherme Merquior... Os meses de Setembro e Outubro (em dois posts) foram os melhores daquele ano, concentrando os maiores e melhores acontecimentos: a viagem ao Rio de Janeiro para a seleção de mestrado do IESP/UERJ; a aprovação nesta seleção; as várias (e ótimas) festas em que fui; as novas amizades; a vitória da Aliança pela Liberdade nas eleições de DCE; e, por fim, a defesa da monografia sobre A Montanha Mágica. No início de Novembro ainda fui a mais um ótimo Planeta Terra.
2012 tinha tudo para dar errado. Não só por motivos concretos (afinal eu estava me mudando para o Rio de Janeiro e iria morar num quarto de uma pseudo-república, dividindo o apartamento com uma família - e sem poder usar a cozinha!), mas também por razões "místicas" (eu tinha uma teoria de que dois anos empolgantes eram seguidos por um ano difícil, complicado - ex.: 2004 e 2005 bons, 2006 ruim, 2007 e 2008 bons, 2009 ruim, 2010 e 2011 bons...). Durante o 1º semestre a escrita estava se mantendo: após uma aproximação do cristianismo, entrei em uma crise de fé; tive dificuldades financeiras, principalmente em Maio e Junho; durante dois meses e meio estive em um namoro à distância que foi bastante turbulento; não conseguia encontrar um orientador no IESP (e os dois melhores professores estavam de saída para a PUC); após um início promissor, comecei a me distanciar um pouco da maioria dos meus colegas de turma. Eu estava me sentindo num abismo. As férias daquele ano, contudo, começaram a quebrar a "maldição": o Politeia 2012 foi talvez a melhor edição desse "RPG legislativo" da qual participei; até a festa de encerramento foi muito boa. No dia 10 de Agosto, na última balada na qual fui antes da volta às aulas, conheci a minha namorada. Consegui um orientador. Mudei um pouco de posição político-ideológica: deixei de ser libertário e me tornei um liberal-conservador. Entrei em uma fase academicamente bem prolífica, com direito a um artigo sobre a questão do niilismo segundo meus dois romancistas favoritos. Fui a uma edição do Planeta Terra na qual tocou Suede, uma das minhas bandas prediletas. Em Novembro viajei com a Carolina para Petrópolis e fomos a um show dos Titãs (aliás, ela virou minha companheira de shows, pois antes mesmo de "oficializarmos" o namoro assistimos a uma performance da Plebe Rude).
2013 foi marcado pela ansiedade em relação à seleção de doutorado - dentre outros motivos, porque ela determinaria minha permanência no Rio de Janeiro. Mesmo assim, foi um ano bem produtivo do ponto de vista acadêmico (escrevi e publiquei vários artigos), e "turístico" (viajei pelo Brasil inteiro para ir a congressos em cidades como Porto Alegre e Curitiba), além de ótimo na vida afetiva (o namoro com a Carol só melhorava com o tempo). Estava, contudo, tão atribulado com a dissertação de mestrado que, tal como em 2009 (mas por motivos bem diferentes, é claro), fiquei três meses sem escrever no blog. Dentre as principais contribuições estão: uma lembrança do show do New Order que acabou se tornando um retrato de minha angústia pré-seleções de doutorado; a longa e inesquecível performance do The Cure no Rio; meu relato do tão aguardado show do Blur no Planeta Terra; e, é claro, a tradicional retrospectiva de fim de ano.
2014 foi um ano mais complicado. Após um início tranqüilo, com direito a textos sobre o seriado Freaks and Geeks e o último episódio de How I Met Your Mother, percebi que era bem pesado fazer dois doutorados (Sociologia no IESP e História ns PUC) ao mesmo tempo; essa dupla jornada me deixou bem cansado, principalmente no 2º semestre. No fim do ano acabei trancando (na verdade, pedindo afastamento) o da PUC. Atualizei pouco o blog, e mesmo o post de 31/12 foi bem sucinto; além disso, há dois posts inacabados que mostram como eu não consegui me organizar bem para escrever aqui: um relato do Lollapalooza e um roteiro de temáticas relativas aos meses de Agosto e Setembro sobre as quais eu iria escrever. O único momento do ano em que publiquei bastante foi entre Junho e Julho, graças à espetacular Copa do Mundo: eis todas as análises que fiz da "Copa das Copas". Em compensação, não escrevi nada aqui sobre as eleições presidenciais; em compensação, postei freneticamente no meu Twitter durante aqueles dramáticos três meses.
Em 2015, após três anos morando em quartos e repúblicas, finalmente comecei a dividir apartamento com um amigo, no Catete/Flamengo. Essa "estabilidade imobiliária" me ajudou em vários âmbitos da minha vida: estudos, alimentação, entretenimento (p.ex., estou ouvindo mais CDs), namoro (inclusive porque agora moro mais perto da Carolina - dá até para ir a pé até Botafogo!) etc. Escrevi pouco em Racio Símio; na escassa produção deste ano, os destaques são um post consternado com a decadência das universidades brasileiras, um de aniversário falando sobre minha "evolução" nos últimos 5 anos e três posts de temática musical: um sobre Pavement, outro sobre o Lollapalooza 2015 - que, desta vez, acompanhei pela TV - e, por fim, um mais reflexivo sobre XTC.

À guisa de conclusão, espero que este blog sobreviva pelo menos mais dez anos para que eu possa escrever outra retrospectiva como essa. Foi muito prazeroso relembrar tantas estórias!

31 julho 2015

10 anos de Racio Símio - parte 1

Hoje completa-se uma década desde que comecei este blog.
Embora eu não esteja atualizando-o tanto nos últimos três anos quanto na "era de ouro" (2005-2008) ou mesmo na "renascença" dele (2010-2012), ele ainda é uma parte muito importante da minha vida. Sempre que quero escrever um texto muito longo para ser um tweet ou muito pessoal para ser postado no Facebook, o Racio Símio sempre aparece como uma válvula de escape. Para homenageá-lo, então, nada melhor do que escrever sobre ele!

Já em seus primeiros meses o que eu publicava aqui refletia o meu amadurecimento (tanto emocional quanto intelectual). Se o primeiro post era pura revolta adolescente, não demorou muito para que eu começasse a escrever textos dos quais ainda me orgulho, como Comunidade, identidade, estabilidade (que inclusive foi publicado no mês seguinte no Correio Classe, jornal do meu colégio) e Tell me, how do I feel! ("overanalyzing" a canção Blue Monday), e outros que são bem auto-reflexivos, como This is the end... of the month e My Parklife
Passei por várias transformações entre Julho de 2005 e Janeiro de 2006: ampliei consideravelmente meu gosto musical (comecei a ouvir The Smiths, Joy Division, Sonic Youth, My Bloody Valentine etc.) e literário (descobri Dostoiévski, Kerouac, Nietzsche...); mudei de posição ideológica (de um "socialista democrático" me tornei um libertário que, após certa hesitação, se assumiu "de direita"); tive uma paixão-relâmpago (durou apenas três semanas e não foi correspondida, mas para quem já se considerava quase um assexuado, foi um progresso); fiz vários novos amigos na escola, após um 1º semestre em que fiquei meio isolado; passei a me interessar mais por cinema e filosofia.
2006, contudo, veio a ser um ano psicologicamente bem difícil; minhas angústias adolescentes chegaram ao paroxismo, patenteado em textos como Meia-idade na adolescênciaViolently happy?, DeslocadoO Kaio é um idiota e Desordem. Em Maio criei Sofisma Burlesco, um blog secundário que seria sobre música; mas, ele acabou adotando um tom bem intimista e com isso virando uma extensão de Racio Símio, então abandonei-o e voltei para a matriz. A Copa do Mundo foi um intervalo na melancolia que dominou meu humor aquele ano (um dos sintomas desse mal-estar é que as bandas que mais ouvi naquele ano provavelmente foram Joy Division e The Cure); aliás, o título da Itália, seleção que admiro desde criança, não poderia ter vindo em melhor hora. Pouco depois, contudo, uma nova paixão - desta vez por uma garota que eu nem conhecia pessoalmente, mas só pela internet - em meados de Outubro combinou-se com uma transição ideológica mal resolvida (é como aquele crente que, após uma empolgação inicial, entra em crise de fé e começa a ter que provar para si mesmo que está no rumo certo) para gerar textos como Problemas ideológicos (em duas partes) e Sartre, ó Sartre... o mundo não é mais o mesmo. Tive alguns delírios megalomaníacos, como quando criei minha corrente filosófica, o Anfisismo. Nos últimos dois meses daquele ano, meu humor melhorou (além de muita "auto-análise", minha viagem para São Paulo para ver o New Order provavelmente ajudou nisso), e uma transição para uma etapa melhor da minha vida se iniciava.
2007 foi um ano excelente, algo que percebi já naquela época - vide textos como Six Different Ways, Uma carta na garrafa e Dois anos de Racio Símio. Comecei a escrever um romance (ainda possuo um blog no qual coloco rascunhos dele), mas até hoje não o terminei. No mais, li muitos livros (os melhores foram: Política, Aristóteles; A Ciência como Vocação e A Política como Vocação, Max Weber; O Idiota, Dostoiévski; Uma Casa no Fim do Mundo, Michael Cunningham; e O Caminho da Servidão, Hayek), passei no vestibular, minha escrita se aprimorou (as redações semanais no colégio acabaram sendo um bom treino para isso) e nos últimos meses, em meio às específicas para o vestibular da UnB, comecei a me preparar psicologicamente para o me aguardava a partir do decisivo ano seguinte (vide O ano que (ainda) não acabou).
Em 2008, já morando em Brasília, comecei minha graduação em Ciência Política. Pela segunda vez em três anos (afinal mudei de escola do ensino fundamental para o médio), tive que renovar meu círculo social, e a tarefa foi mais fácil do que eu esperava: consegui me enturmar bem com os veteranos do meu curso e os colegas de outros departamentos que conheci nas disciplinas externas; a propósito, eis um resumo dos meus primeiros meses de UnB. Minha adesão ideológica ao libertarianismo chegou ao ápice; li muito Hayek, Mises, Friedman, Ayn Rand etc. Um momento decisivo para minha "formação" naquele ano foi a viagem para a ANPOCS - mas, só fui fazer um relato sobre ela meses depois, em Fevereiro de 2009. Em mais um ano de muitas leituras, finalmente terminei A Montanha Mágica (meu romance favorito até hoje) e fiz um trabalho para a inesquecível disciplina Escrita e Sociedade na América Latina comparando dois dos melhores livros que li naquela época: Ulisses e Grande Sertão: Veredas.
O ano seguinte, entretanto, foi uma espécie de ressaca dos ótimos dois anos anteriores - ou, olhando por outra perspectiva, foi o início turbulento de uma nova fase. Tive uma nova paixão unilateral de curta duração e, apenas poucas semanas depois, houve meu primeiro beijo e começou meu primeiro relacionamento amoroso. Com uma vida afetiva tão movimentada e pouco tempo para refletir sobre tantos acontecimentos, inevitavelmente atualizei bem menos o blog em 2009. Quando o namoro acabou, no fim de Outubro, voltei a escrever bastante em Racio Símio; do final daquele ano os melhores textos são o conto Insatisfação Crônica (dividido em três posts), a retrospectiva Down By The Water e o musical Listen Up!.

Bom, por hoje é só. Amanhã farei um balanço do blog (e de seu autor) de 2010 a 2015.

05 julho 2015

Saudades da Seleção de 2002


Assistir a este compacto dos 18 gols que o Brasil fez na Copa de 2002 me fez ter uma baita saudade do que já foi um dia a Seleção Brasileira. A seleção jogou muito naquela Copa: o Felipão montou um 3-5-2 surpreendentemente ofensivo; o trio Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo teve atuações brilhantes e marcou muitos gols; São Marcos foi um goleiro confiável; havia figuras carismáticas como Vampeta; a vibração no banco de reservas a cada gol era palpável; e, pasmem, até o zagueiro Edmílson fazia golaço! Enfim, era um time tão bom que Romário foi esnobado na convocação - e não fez falta.


Eu torcia com gosto para a Seleção até 2005, ano em que comemorei meu aniversário com uma goleada de 4x1 do Brasil sobre a Argentina na final da Copa das Confederações.
Na Copa do Mundo de 2006, contudo, senti que algo estava errado: aquele "oba-oba" todo no pré-Copa, somado às atuações fracas na 1ª fase (mesmo vencendo todos os jogos), me deixaram desanimado, e impatrioticamente torci pra França nos eliminar e a Itália ganhar aquela Copa. Fui pé-quente, mas mal sabia que naquele 1º de Julho de 2006 começava um período sombrio para a seleção brasileira.
Dunga virou técnico, e contava com um único tipo de jogada (o contra-ataque) para vencer seleções ofensivas como Argentina e Chile - mas penava para equipes retranqueiras como Bolívia e Venezuela. Em 2010 não titubeei e novamente torci contra a Seleção; aliás, quase apanhei dos meus amigos quando a Holanda nos eliminou naquela Copa, rs.
As coisas pioraram mais ainda com o mediano Mano Menezes no comando da seleção brasileira, e perdemos uma Olímpiada em que éramos favoritos absolutos quase que por culpa exclusiva deste técnico.
Luiz Felipe Scolari voltou, e durante a Copa das Confederações de 2013 a seleção até me empolgou (principalmente na final contra a Espanha), mas infelizmente o torneio em que ele e o time fizeram tudo certo não era Copa "pra valer"... um ano se passou, e assim como em 2006, talvez o excesso de confiança tenha impedido que a equipe se preparasse direito. Resultado: a Copa de 2014 viu uma seleção brasileira marcada por desequilíbrio tático, descontrole emocional e más atuações de vários jogadores. Um dia antes do jogo contra a Alemanha tive uma epifania sobre isso e resolvi que apoiaria os germânicos; óbvio que não esperava uma goleada, mas talvez aquele 7x1 tenha sido necessário para expor de forma visceral o estadio calamitoso em que dirigentes, técnicos e jogadores deixaram a nossa Seleção.
Dunga strikes back, para desgosto meu e de todos que desprezam o "pragmatismo", o "futebol de resultados". Felizmente desta vez ele não ganhou uma Copa América, o que talvez aumente a chance de não continuar como técnico até a Copa de 2018. Torço para que até lá seja contratado algum técnico com perfil mais ofensivo, que faça escalações melhores e que tente resgatar pelo menos metade da magia da seleção nessa época áurea, mas não tão distante. Diante da crise da CBF (e do futebol brasileiro em geral, que vive uma entressafra), talvez isso seja pedir demais.

29 junho 2015

Meu XXV Aniversário

Hoje completo 25 anos. 
Gosto muito quando completo idades que são números redondos, pois elas têm cara de marcos cronológicos. Quando completei 10 anos entrei na pré-adolescência, decidi que queria ser jornalista (em perspectiva vejo isso como uma adesão ao Lado Humanas da Força, rs) e tive minha primeira paixão; aos 15 estava no ápice da adolescência, tive minha segunda paixão, mudei de visão política e moldei grande parte do meu gosto cultural (principalmente o musical); e na época do meu 20º adversário estava no meu melhor ano de UnB e comecei a deslocar minhas "preocupações existenciais" da política para a formação humanística.
O que posso dizer, então, do último quinqüênio?
1. Avancei algumas etapas em minha trajetória acadêmica. No meu último ano e meio de UnB dediquei-me ao projeto Estudos Humanistas e à escrita da monografia sobre Bildung e  Liberdade em A Montanha Mágica (Thomas Mann). Em setembro de 2011 viajei para o Rio de Janeiro para fazer a seleção de mestrado do IESP/UERJ, e no início de outubro veio o resultado positivo. Mudei-me cinco meses depois para o Rio, onde continuei minha pesquisa sobre Mann (desta vez sobre o romance Doutor Fausto). Após um 2013 intenso, no qual fui em vários congressos e publiquei vários artigos, concluí minha dissertação sobre A Crise da Bildung em Doutor Fausto em outubro e a defendi no 18 do mês seguinte. Dias depois fui aprovado em duas seleções de doutorado: em Sociologia no próprio IESP e em História Social da Cultura na PUC-Rio. Decidi fazer ambos, mas como a carga de disciplinas estava bem pesada (sem falar na perspectiva de escrever duas teses ao mesmo tempo, rs), no fim de 2014 pedi afastamento do doutorado da PUC para me dedicar durante dois anos exclusivamente ao do IESP. Este ano tomei uma decisão acadêmica muito importante: fazer a minha tese em Sociologia sobre José Guilherme Merquior ao invés de Thomas Mann (cuja pesquisa retomarei quando acabar o afastamento da PUC, em 2017). Estou bastante empolgado com essa mudança temática, afinal Merquior tem uma trajetória inspiradora, e eu o vejo como um role model por sua capacidade de abordar - e com densidade - tantas áreas temáticas (crítica literária, sociologia, teoria política, antropologia...).
2. Na vida amorosa, após passar dois anos solteiro, em 2012 comecei um namoro à distância que durou dois meses e meio, e após me recompor emocionalmente nas férias que passei em Goiânia e Brasília em Julho daquele ano, voltei para o Rio achando que iniciaria um novo ciclo de solteirice. Felizmente eu me enganei, pois logo na primeira festa em que fui na volta ao Rio conheci minha namorada, a Carolina. Pedi-a em namoro no dia 4 de Setembro, no mesmo banquinho de lanchonete Fornalha no qual passamos a manhã depois da festa daquele 10 de agosto. Os últimos 3 anos vêm sendo muito felizes nesse "departamento" da minha vida, rs. Viajamos para vários lugares (Petrópolis, Saquarema, São Paulo...); nos presenteamos com CDs ou livros nos aniversários de namoro/dia dos namorados/aniversários um do outro, sempre com dedicatórias muito bonitinhas... enfim, vou parar, senão este post vai ficar muito piegas, rs.
3. Na esfera política, mudei um pouco. Não foi uma mudança tão radical como a que ocorreu quando eu tinha 15 anos (quando fui da esquerda para a direita - ou, sendo mais específico, de um "socialista democrático" para um libertário), mas sim um amadurecimento. Deixei de ser um libertário meio utópico para me tornar um liberal-conservador de perfil cético. Na "práxis", participei do movimento estudantil pela Aliança pela Liberdade; fui vice-presidente, representante discente no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão da UnB e, quando fomos eleitos para o DCE numa vitória histórica em outubro de 2011, fui coordenador de integração estudantil. Depois que me formei continuei ativo na Aliança, como "geronte" (sim, temos um conselho de anciãos, haha). Fico orgulhoso de ver o tanto que a AL cresceu nos últimos quatro anos. E pensar que nos primórdios mal enchíamos uma mesa de sorveteria, rs.
4. No âmbito musical não houve grandes alterações; o essencial do meu gosto foi formado mesmo em 2005-2010. Nos últimos cinco anos, contudo, incorporei algumas bandas a meu cânone: Engenheiros do Hawaii, Teenage Fanclub, of Montreal, Marina & the Diamonds etc. Outras que eu já gostava bastante subiram bastante na minha preferência: Suede e XTC, por exemplo. Fui a festivais e shows muito bons nesse quinqüênio: Porão do Rock 2010 (She Wants Revenge e Pato Fu), Vaca Amarela (Velhas Virgens), Planeta Terra (nas quatro vezes em que fui assisti a bandas como Pavement, Smashing Pumpkins, Interpol, The Strokes, Suede e Blur), Paul McCartney, Bad Religion, Fatboy Slim, Morrissey, Titãs (três vezes), Nada Surf, Franz Ferdinand, Plebe Rude, The Cure, Lollapalooza 2014 (no qual vi, dentre outros, Johnny Marr, Pixies e New Order) e Echo & the Bunnymen. Depois que ganhei um toca-CDs da Carol no Natal de 2013, comecei a comprar os discos que sempre sonhei em ter. Em 2015, aliás, ampliei bastante minha coleção graças ao sebo Baratos da Ribeiro e ao MercadoLivre; a propósito, me dei de aniversário uns 12 CDs (aproveitando uma leva inacreditável que chegou no Baratos), hehe!
5. Por fim, nos "assuntos gerais", posso destacar: a gradual adaptação ao Rio de Janeiro, após quatro anos morando em Brasília; a crescente frustração com a seleção brasileira (mais uma vez não torci por ela numa Copa, embora tenha me sentido um pouco "culpado" depois que a Alemanha para quem torci ganhou daquela forma); o título da Copa do Brasil seguido de rebaixamento do Palmeiras em 2012; os períodos de jogatina desenfreada (o último deles foi entre Setembro do ano passado e Janeiro deste ano, no qual cheguei a zerar três versões de Pokémon ao mesmo tempo); a paixão por Neon Genesis Evangelion, que me levou até a escrever um artigo acadêmico sobre este anime/mangá; os vários bons seriados que assisti (How I Met Your Mother, Community, Freaks and Geeks, Skins, Californication, Girls...). Ah, para fechar, eis os cinco melhores livros que li nos últimos cinco anos: Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Goethe), Doutor Fausto (Mann), O Mundo como Vontade e Representação (Schopenhauer), Os Demônios (Dostoiévski) e Saudades do Carnaval (Merquior).

P.S.: Coincidentemente, este post de aniversário é justamente o 800º do blog! Parabéns para mim e para ele!

30 maio 2015

A decadência da universidade, de 1942 a 2015

Diante da greve nas federais e nas estaduais - e, mais especificamente, do cenário de guerra que virou a UERJ, onde dou aula de estágio-docência e tive que interromper o curso por causa da greve (e da violência generalizada no dia 28 entre estudantes e seguranças/policiais) -, é triste constatar que os problemas que Otto Maria Carpeaux apontou em A idéia de universidade e as idéias das classes médias (publicado em 1942, na coletânea de ensaios A cinza do purgatório) continuam extremamente atuais, ainda mais se comparados com o texto A universidade não é uma ágora,  publicado na Folha esta semana por Francisco Carlos Panomano Marinho. 
Vejam estes trechos de ambos:

"A decepção foi muito grande. Via a biblioteca coberta de poeira, os auditórios barulhentos, estupidez e cinismo em cima e em baixo das cadeiras dos professores, exames fáceis e fraudulentos, brutalidades de bandos que gritavam os imbecis slogans políticos do dia, e que se chamavam 'acadêmicos'. A última vez que passei perto deste 'templo das Musas', o edifício estava fechado; os estudantes haviam-se juntado a uma imensa manifestação popular. Sabia muito bem o que isso significava para mim: um adeus para sempre. Olhando pelas frestas das portas monumentais — estávamos na primavera — via sob a luz branda do sol os pórticos, as velhas pedras, o jardim, e a deusa nua, tendo nos lábios o sorriso enigmático da morte. E reconheci um fim definitivo. (...) Quem é o culpado? Ainda uma vez apelo para aqueles que disso entendem. Por toda parte onde há aqueles regimes os estudantes estão nas vanguardas da violência. Não é um acaso. Ouso responder: os estudantes são os culpados." (Carpeaux, 1942)

"O clima de banalização do espaço universitário vai além. Basta uma greve, por exemplo, para que cadeiras sejam retiradas das salas de aula e se transformem em barricadas a fim de impedir o livre acesso de docentes, alunos e funcionários. Mobilização fácil essa que, diga-se, resulta apenas no impedimento ao diálogo entre as partes conflitantes. (...) Em nome de um discurso ideologizado, impede-se a defesa do patrimônio público. (..) Em nome de verdades absolutas, conduzidas por vanguardas autoritárias, não têm dúvidas sobre suas ações. São minorias que, ignoradas no mundo real, se escoram nessa bolha que tem se tornado a universidade." (Martinho, 2015)

22 maio 2015

Dear God

Ao lado de Blur (graças ao lançamento do novo álbum) e Joy Division (devido ao "aniversário" da morte de Ian Curtis), a banda que mais ouvi nas últimas semanas foi o XTC. Finalmente comprei meus dois discos favoritos desta banda (Skylarking e English Settlement), além da coletânea dupla Fossil Fuel e Chips from the Chocolate Fireball (do psicodélico projeto paralelo The Dukes of Stratosphear).
"Dear God" é uma das melhores canções do XTC. Ela não é simplesmente uma canção ateísta; sua angústia metafísica vai além, e a letra lembra até Ivan Karamázov explicando a seu irmão Aliócha por que não acredita em Deus; o argumento humanitário, amparando sua descrença na indignação diante do sofrimento e da miséria do mundo, é bem parecido. 
Não sei se compartilho da raiva e decepção de Andy Partridge com relação a Deus (ou à idéia que se faz d'Ele). Tornei-me ateu aos 13 anos de idade, mas desde meados de 2011 me considero um agnóstico cristão, um "católico wannabe", ou mesmo um ateu que quer crer em Deus; enfim, aderi filosófica e culturalmente ao catolicismo, mas (ainda?) não dei o "salto da fé" sobre o qual Kierkegaard falava.
Voltando a "Dear God", os arranjos dela são poderosos, sendo um dos frutos de uma tumultuada mais exitosa parceria do XTC com Todd Rundgren para produzir a obra-prima Skylarking (1986). Os últimos 50 segundos desta canção são especialmente tristes e furiosos. O clipe é cheio de simbolismo, sendo quase indispensável para a plena fruição de "Dear God".


29 abril 2015

O White Album do Pavement


Há vinte anos, em abril de 1995, o Pavement lançou o seu disco mais controverso: Wowee Zowee. Controverso porque desapontou os fãs e críticos musicais que esperavam que a banda fizesse um disco pop e melódico como o antecessor, Crooked Rain, Crooked Rain (1994). Em suas 18 faixas, a banda se dispersa por vários estilos (country, punk, acústico, indie-rock...), e não há nenhuma canção com cara de hit. A Rolling Stone chegou a acusar o Pavement  de estar se auto-sabotando, de ter medo do sucesso.
Ainda no final da década de 90 a opinião pública sobre Wowee Zowee começou a mudar, e hoje em dia ele é merecidamente reconhecido como uma caótica e excêntrica obra-prima, o White Album do Pavement; muitos - dentre eles eu - até o consideram o melhor álbum da banda (e olha que o Pavement possui dois outros grandes discos: "Slanted and Enchanted" e Crooked Rain, Crooked Rain).
Dentre as melhores faixas destacam-se o riff e o solo apaixonantes de "Father to a Sister of Thought", a pancada melancólica de "Rattled by the Rush", a maníaca e eletrizante "Flux = Rad", o manifesto "Fight this Generation", o ritmo delicioso de "Grave Architecture" e a belíssima balada "Grounded". 
P.S.: Quase dez anos depois que comecei a ouvir Pavement, finalmente comprei Wowee Zowee, e o CD chegou hoje. Obviamente estou ouvindo-o enquanto escrevo este texto, hehe.
P.S. 2: Eis três ótimos textos sobre este álbum: um da Pitchfork, outro do Stereogum e um da própria Rolling Stone, dezenove anos depois que espinafraram Wowee Zowee.


30 março 2015

A redenção de Billy Corgan no Lolla 2015

Não fui ao Lollapalooza desse ano, mas assisti a vários shows pelos canais Multishow e Bis; aliás, ótima cobertura, a qualidade de som e imagem estava muito boa - o único ponto fraco foi o pedantismo dos comentários do Rodrigo Pinto entre os shows.

Embora algumas das apresentações tenham sido excelentes, essa edição não foi tão boa quanto as anteriores. Tomara que o Lolla do ano que vem seja melhor, pois o festival é o novo reduto dos órfãos do Planeta Terra, mas ao mesmo tempo tem um público quase do mesmo patamar do Rock in Rio. 
Enfim, vamos às resenhas:

Ontem os Smashing Pumpkins fizeram um show daquele tipo que redime uma carreira. Assisti à banda no Planeta Terra de 2010 e saí muito frustrado; o setlist foi mal escolhido (tanto na seqüência quanto nas faixas - por exemplo, não teve "1979", mas tocaram a chatérrima "Heavy Metal Machine"), e boa parte do show foi perdida com solos de guitarra e egotrips de Billy Corgan.
No Lollapalooza 2015, porém, o que vi foi uma performance muito superior. Logo de cara a banda tocou três clássicos: Cherub Rock", "Tonight, Tonight" e "Ava Adore". Ao longo da apresentação apareceram obras-primas como "1979" (numa introdução que curiosamente lembrava "Song 2", do Blur), "Disarm" (precedida de um surpreendente e tocante desabafo de Corgan) e "Bullet With Butterfly Wings" (numa performance visceral). Mesmo as músicas do disco novo não fizeram feio (vou até baixá-lo, parece que ficou melhor do que as inéditas divulgadas no show de 2010). 
Vale destacar também a contribuição substancial dos músicos convidados: o baterista Brad Wilk (Rage Against The Machine) e o baixista Mark Stoermer (The Killers). No bis, uma emocionante versão acústica de "Today". 
Definitivamente foi o melhor show do Lolla 2015, ao lado de Jack White.

P.S.: Este texto do Tiago Dias publicado no UOL sobre o show é lamentável. O jornalista mal sabe a história da banda (antes de corrigirem o texto, ele informou que Siamese Dream era de 1995!) e diz que Corgan não quer envelhecer (chega a falar em "síndrome de Peter Pan", num trecho com ares de pseudo-análise psicológica). Em primeiro lugar, o próprio vocalista lamenta que o público prefira as músicas antigas do que as novas (ele próprio mostrou no show muito mais empolgação tocando o material recente); em segundo lugar, essa preferência é algo extremamente comum em relação ao publico de bandas veteranas (a nostalgia movimenta boa parte da indústria do pop/rock); em terceiro, dá para perceber a má vontade do autor em trechos desnecessários como "enquanto Pharrell tocava 'Happy', Billy encerrou o show melancolicamente com as dores de um adolescente de 'Today' no violão."



Sobre as outras bandas que vi na edição deste ano:
- St. Vincent: só comecei a assistir a partir da metade. "Surgeon" foi meio chata, mas "Cheerleader" ficou boa ao vivo e o final com"Your Lips Are Red" foi espetacular, a Annie Clark parecia em transe. 

- Robert Plant: uma grata surpresa. Não só ele está com a mesma voz dos tempos de Led Zeppelin, mas também mais da metade do setlist foi composto por músicas de uma das maiores bandas de todos os tempos. Destaque para o trio de canções que abre o Led Zeppelin II ("Whole Lotta Love", "What Is And What Should Never Be" e "The Lemon Song"), para "Babe I'm Gonna Leave You" (que abriu muito bem a apresentação) e "Rock and Roll" (que a fechou de forma contundente). Das músicas do trabalho mais recente dele, gostei muito de "Turn it Up".



Jack White: uma apresentação impecável. Sob uma iluminação totalmente azul e contando com uma ótima banda de apoio (principalmente o baterista), o excêntrico músico tocou muitas canções dos White Stripes (aliás, foram quatro do meu disco preferido deles, White Blood Cells: "Hotel Yorba", "Dead Leaves and the Dirty Ground", "Fell in Love with a Girl" e "We're Going to Be Friends") e dos Raconteurs (dentre elas o hit "Steady, As She Goes"). O disco solo Lazaretto contribuiu com sete faixas; aliás, é outro que preciso baixar logo; depois desse show incrível não tenho mais desculpas, rs.



- Interpol: outro show que foi melhor do que a apresentação anterior - no caso de Paul Banks e cia., o Planeta Terra de 2011. Eu até gostei daquela, mas a do Lolla 2015 teve dois trunfos: mais músicas de Turn on the Bright Lights (desta vez não tocaram "Obstacle 1", mas em compensação incluíram "Leif Erikson", "PDA" e "NYC") e o disco novo, El Pintor, é bem melhor do que Interpol, que estava sendo divulgado na turnê de quatro anos atrás. Quatro músicas de Antics (dentre elas minha favorita da banda, "Not Even Jail") também marcaram presença, assim como "Rest My Chemistry", uma das poucas canções boas de Our Love To Admire.

- Foster the People: não é tão bom ao vivo quanto no estúdio (senti falta dos efeitos nos vocais de Mark Foster), o que ficou evidente na performance mediana de "Houdini". Por outro lado, as empolgantes "Helena Beat", "Call It What You Want", "Pumped Up Kicks" e "Don't Stop (Color on the Walls") não deixaram a desejar. Gostei de algumas das faixas do álbum Supermodel (dentre elas "Are You What You Want To Be?"), vou começar a ouvi-lo mais no meu Media Player.

07 fevereiro 2015

Do rock à política

Já li quatro livros neste ano: BRock: O Rock Brasileiro dos Anos 80 (Arthur Dapieve), A vida até parece uma festa: toda a história dos Titãs (Hérica Marmo e Luiz André Alzer), As idéias conservadoras explicadas a revolucionários e reacionários (João Pereira Coutinho) e Pensadores da Nova Esquerda (Roger Scruton).
Graças aos dois primeiros, tive uma overdose de rock nacional nas últimas semanas, principalmente com Titãs. Eles já eram minha banda nacional favorita, mas depois de ler a história deles fiquei ainda mais fascinado pelo "ex-octeto e agora quinteto". Até comprei novamente três discos que eu tinha, mas estavam bem arranhados: Õ Blésq Blom (na minha opinião, a obra-prima dos Titãs), Volume Dois (veio como brinde do Õ Blésq Blom; após anos desprezando este disco, já fiz as pazes com algumas das regravações, como a de "Miséria") e Televisão (o disco mais esquisito deles; algumas letras são puro nonsense).
Os livros de Coutinho e Scruton são complementares: se o primeiro expõe de forma sucinta os princípios do pensamento conservador (para ser mais específico, o conservadorismo britânico, marcado pelo ceticismo anti-utópico e pela prudência), o segundo desfere ataques contundentes em seus principais adversário intelectuais no fim do século passado: os autores ligados à "New Left", que compartilham uma crítica paranóica ao poder e um desprezo pelas instituições ocidentais. 
Se As idéias conservadoras, até por ser mais curto, é um livro mais "redondo" (os capítulos se sucedem de forma fluida), Pensadores da Nova Esquerda apresenta instabilidades. Alguns capítulos são sensacionais (os sobre Foucault, Gramsci, Althusser, Anderson, Galbraith e Sartre), outros são razoáveis (Dworkin, Laing, Bahro, Williams e Wallerstein) e outros são um pouco decepcionantes (Thompson, Habermas e Lukács), na medida em que analisam e criticam estes autores a partir de poucas obras, deixando de lado outras cuja discussão valeria a pena (p.ex., no caso de Lukács senti falta de uma abordagem da sua ética kierkegaardiana nos anos 1910 e de sua crítica literária na fase marxista). Felizmente o capítulo final (com o propositalmente ambíguo título "What is right?") consegue "amarrar" bem as discussões anteriores.
Hoje comecei a ler os textos que pretendo usar nos meus trabalhos finais. O primeiro deles é O modernismo reacionário: tecnologia, cultura e política na República de Weimar e no 3º Reich (Jeffrey Herf).

31 dezembro 2014

Victory Road - parte 2

Escrevi pouco no blog em 2014, exceto na época da Copa do Mundo. Sendo assim, nem vale a pena fazer uma retrospectiva mais completa. Apenas relatarei os acontecimentos mais importantes do meu ano, mês por mês:

JANEIRO
Passei minhas férias em Goiânia e Brasília. Venci a Elite Four + Champion em Pokémon X. Fiz cirurgia para extrair meus quatro sisos e tive que ficar de repouso durante alguns dias.

FEVEREIRO
Terminei de assistir à excelente série Freaks and Geeks, a qual me empolgou tanto que escrevi dois posts sobre ela. Voltei para o Rio de Janeiro, para o meu primeiro semestre nos dois doutorados em que passei. As aulas na PUC-Rio começaram antes do Carnaval. 

MARÇO
Após o Carnaval, começaram as aulas no IESP/UERJ. Escrevi um trabalho final sobre Joy Division; meses depois revisei-o para publicá-lo como ensaio na Revista Polivox
Consegui um estágio-docência de Sociologia Geral para calouros de Filosofia. Infelizmente tive que ceder a turma a um professor do IESP e seu orientando, após uma reunião no mínimo desgastante). Felizmente os alunos fizeram um abaixo-assinado demonstrando interesse em continuar assistindo às minhas aulas, mesmo que de forma informal, como grupo de estudos. Semanas depois tentei formalizá-lo como Estudos Humanistas (retomando assim o projeto de extensão que desenvolvi nos meus tempos de UnB), mas ele não foi aceito pelo departamento de extensão da UERJ, que o considerou com caráter muito de pesquisa e pouco de extensão. Resolvi manter o grupo, e continuamos a ter reuniões semanais (ou, dependendo dos meus compromissos, quinzenais) ao longo do ano. Como podem ver, o início desse ano foi uma montanha-russa no âmbito acadêmico. Confesso que em muitos momentos me senti frustrado com tantos percalços, mas enfim, a vida acadêmica é repleta deles.

ABRIL
Na madrugada do dia 1º de Abril, assisti - junto com minha namorada e alguns amigos - ao último episódio de How I Met Your Mother. Gostei do desfecho da série, e resolvi escrever um texto sobre ele.
Fui ao Lollapalooza, e vi os shows de Apanhador Só (surpreendente), Raimundos (nostálgico), Johnny Marr (melhor do que a apresentação do Morrissey que vi em 2012), Pixies (finalmente!) e New Order (mesmo sem Peter Hook, foi uma boa performance). Até iniciei um post com a cobertura do festival, mas até hoje não o terminei, rs. Espero que em janeiro eu resolva tirar uma manhã (ou uma tarde) para passá-lo a limpo.

MAIO
Foi lançado Nheengatu, o melhor disco dos Titãs nos últimos vinte anos. Fiz uma resenha dele.
Viajei para Curitiba para apresentar um trabalho sobre o pensamento social de José Guilherme Merquior em um seminário. Adoro a capital do Paraná; já havia gostado muito de viajar para lá em 2013, e desta vez aproveitei mais ainda. Novamente fiz uma excursão pelos sebos, mas também encontrei pessoalmente um amigo dos tempos de Orkut e visitei alguns pontos turísticos, como o Jardim Botânico.
Durante minha estadia em Curitiba acompanhei as eleições para o DCE da UnB. Em uma longa e divertida madrugada, vi as urnas consagrarem uma segunda reeleição para a Aliança pela Liberdade, com uma vitória notável sobre a "chapa megazord" das esquerdas: 52% x 36%.
No dia 27 assisti, junto com a Carol, ao show do Jesus & Mary Chain no Vivo Rio. Os irmãos Reid fizeram um ótimo concerto, com destaque para "Head On", "Blues from a Gun", "Just Like Honey" e o bis com "Reverence".

JUNHO
Acabaram as aulas e, justamente no dia dos namorados, começou aquela que seria a melhor Copa do Mundo desde 1998 - e uma das melhores de todos os tempos. Já em seus quatro primeiros dias houve jogos espetaculares; a segunda rodada quebrou várias expectativas criadas após a primeira; frustrei-me com a eliminação precoce da Itália; e fiz uma análise dos classificados para as oitavas...

JULHO
... que foram eletrizantes. A fase seguinte classificou as quatro melhores seleções do Mundial, embora uma delas (o Brasil) viesse tendo uma campanha irregular. O castigo para o despreparo técnico, tático e emocional da seleção brasileira não tardou: vitória massacrante da Alemanha. Na final, os argentinos fizeram sua melhor partida, mas acabaram sendo derrotados pelos alemães, que de fato foram a equipe que melhor combinou beleza e eficiência.
Fiz um post sobre Titãs e Bon Jovi (as duas primeiras bandas de rock da minha vida) como aquecimento para o aniversário de 9 anos do blog, que ganhou um especial de duas partes.

AGOSTO
Falando em Titãs, assisti a um show deles no Circo Voador. Foi o melhor dos quatro em que já fui até hoje.
Assisti a um jogo entre Atlético e Vila Nova no Serra Dourada com meu avô; para felicidade dele, o "Flamengo goiano" ganhou. Acompanhei a 1ª vitória do Rubinho na Stock Car (na etapa da Corrida do Milhão) na área VIP da Mapfre. Senti-me um pé-quente, rs.
No início do mês, ainda antes da volta às aulas, viajei para Brasília para participar do encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, no qual apresentei outro artigo sobre Merquior, desta vez sobre seu pensamento político.
Com o início do período eleitoral, minha "overdose" de futebol foi substituída pela de política. O caráter imprevisível desta eleição, que passou por tragédias (como a morte de Eduardo Campos) e farsas (a campanha difamatória do PT contra Marina), me deixou constantemente aflito. Evitei, contudo, me "manifestar" nas redes sociais; felizmente consegui passar as eleições inteiras sem brigar com ninguém.
No fim de agosto, viajei para Goiânia para estar no 50º aniversário de minha mãe. Foi muito bonita a homenagem que minha família preparou para ela. 

SETEMBRO
Antes de voltar para o Rio, fui para Brasília prestigiar a formatura do Gino, meu melhor amigo.
Na última viagem acadêmica do ano, estive em Juiz de Fora para apresentar um paper sobre Thomas Mann e Lukács. Gostei muito do campus de Ciências Humanas da UFJF; se um dia tiver concurso para professor adjunto lá, vou tentar.
Fui pela segunda vez ao Maracanã junto com o Saulo para assistir a vitória contundente do time dele (Fluminense) contra o meu (Palmeiras).
A campanha de Marina Silva (em quem, durante alguns dias, cheguei a pensar em votar) gradualmente perdeu fôlego, e após um excelente desempenho nos últimos dois debates, Aécio Neves parecia estar cada vez mais próximo do segundo turno. 

OUTUBRO
Aécio passou ao 2º round, mas após chegar a liderar as pesquisas, levou a virada de Dilma. O resultado apertado (51,6% x 48,4%), no entanto, fez a derrota ter gosto de empate, ao menos para mim. Semanas depois, a nomeação de Joaquim Levy para ministro da Fazenda me deixou aliviado.
De última hora consegui um estágio-docência: Introdução às Ciências Sociais para uma turma de Odontologia. Foi o mais difícil dos que já peguei, devido à enorme distância temática entre a área deles e as Humanidades.

NOVEMBRO
Mais uma troca de overdoses: agora, por videogames. Passei boa parte do meu tempo livre jogando Pokémon, tanto que comprei Alpha Sapphire apenas três dias depois de seu lançamento mundial.
Fui com a Carol a um show do Echo & The Bunnymen. Estava bastante ansioso, afinal a banda tem uma boa reputação ao vivo, mas infelizmente a estrutura precária da Fundição Progresso estragou o espetáculo. Ian McCulloch ficou tão irritado com os problemas de volume no vocal e na guitarra de Will Sergeant que a banda nem voltou para o bis. Apesar do final melancólico, o show teve bons momentos, como "Never Stop", "The Killing Moon" e "The Cutter".

DEZEMBRO
No início do mês viajei para Vitória, para assistir ao exame de kendo da Carolina, assim como o campeonato. Foi um fim de semana divertido, embora eu estivesse exausto no dia em que cheguei (sábado), pois mal dormi na quinta e sexta anteriores.
A propósito fim de ano nas quatro disciplinas que cursei (e no estágio-docência que lecionei, no alemão e nas palestras em que fui) foi bem atribulado, especialmente com a entrega do trabalho final de Intelectuais, Nação e Identidade Latino-Americana. O fim "oficial" do semestre acadêmico, em 18 de dezembro, foi um verdadeiro alívio. Nunca mais vou pegar tantas matérias num semestre só, rs.
Enfim, 2014 foi um ano instável, cheio de bons e maus momentos. Foi um sucessor bastardo dos meus anos mais tumultuados (como 2006 e 2009). Espero que 2015 siga o padrão mais sereno de 2004 e 2007, ou que seja tão empolgante como 2010 ou 2012.

06 dezembro 2014

Victory Road - parte 1

Viajo daqui a pouco para Vitória, para assistir ao exame e campeonato de kendô dos quais a Carol irá participar.
Depois da viagem (e do trabalho final sobre Alberdi que preciso entregar na PUC até terça), vou tentar retomar o blog. Há muita coisa que preciso escrever sobre este 2º semestre, o mais cansativo que tive nos últimos anos - não que tenha sido ruim, mas de fato eu me atolei de coisas para fazer nos últimos meses (4 disciplinas, 2 grupos de estudo, estágio-docência, alemão, corpo editorial de revista acadêmica...). Isso sem falar nas eleições, que me "tomaram" mais de 2 meses, tanto intelectual quanto emocionalmente.
Com licença, tenho uma mala, digo, mochila para arrumar, hehe.

30 setembro 2014

Shows, jogos, textos e eleições

Atlético e Vila
Bolshoi
Stock car
ABCP
Disciplinas
Campeonato de Pokémon
Eleições - Debates
Titãs
Viagem para Goiânia - aniversário da minha mãe
Formatura do Gino
Aniversário de namoro
Projeto de tese
Palmeiras e Fluminense
Cavaleiros do Zodíaco
Palmeiras e Flamengo
Viagem para Juiz de Fora
Eleições - pesquisas e aflição
Novo estágio-docência

(terminarei de escrever este post amanhã, dia 1º)

01 agosto 2014

The Best of Racio Símio: 2009-2014

Após pesquisa e análise cuidadosas, escolhi os seguintes posts para compor o disco 2 dessa coletânea de Racio Símio.

16. Is it too late? (1º/3/2009): talvez o último texto no "espírito virjão" que dominou os primeiros anos do blog. Resolvi fatiar minha personalidade em seis facetas: sóbrio, estóico, assexuado, indie, nerd e cult; porém, já aponto para a necessidade de fazer menos "overanalyzing" e ter mais atitude. Não por acaso, há neste post um tom profético, como se eu estivesse conscientemente diante de uma nova etapa na minha vida. De fato foi, mas não do jeito que eu esperava.
Quote: "19 d.M., vulgo 2009, é mesmo 'O' ano decisivo para mim. É consenso que preciso largar velhos hábitos e ter uma nova postura diante da realidade."
17. They've found a new way (8/3/2009): sem dúvidas, uma das melhores resenhas sobre música que escrevi até hoje. Seguindo a hipótese de que este seria um álbum conceitual, resolvi interpretar as letras e o sequenciamento das faixas. De fato constatei que Tonight é um disco inteligente, criativo e, em canções como "Lucid Dreams", tem até tonalidades épicas. Fiquei feliz quando vários amigos me disseram ter começado a gostar do álbum - que, à primeira audição, de fato soa estranho - graças ao meu texto.
Quote: "Arrisco-me a dizer que é possível que 'Tonight' venha a ter a mesma importância de 'Unknown Pleasures' (Joy Division, 1979) teve para os anos 80 ou do álbum homônimo dos Stone Roses (1989) para a década passada."
18. Eterno Retorno ou Uma Segunda Chance? (13/11/2009): resolvi não postar neste top 30 nenhum texto que trate diretamente de meus dois fracassos amorosos em 2009, sendo um platônico e o outro um relacionamento concreto; quem tiver curiosidade (e saco para aguentar tanto melodrama!) pode procurá-los no arquivo do blog. Escolhi este porque simbolizou a época em que comecei a sair do pântano emocional em que me afoguei durante a maior parte do ano. Além disso, é o quarto de uma série de cinco posts escritos usando personagens fictícios, que inclusive são os mesmos do meu romance inacabado. Um psicanalista poderia me acusar de estar operando uma "sublimação", rs.
Quote: "Pode-se dizer que ganhei uma segunda chance. Reconquistei minha liberdade, e agora posso utilizá-la para fazer escolhas melhores do que as que fiz anteriormente."
19. Listen Up! (31/12/2009): encerrar um ano de forma digna é o primeiro passo para começar bem o ano seguinte. Após um bom mês de Dezembro e faltando três dias para embarcar naquelas que seriam as melhores férias de verão do meu período universitário, escrevi este texto, que faz um apanhado dos destaques musicais de 2009, das bandas mais relevantes da década de 2000 e também daquelas que conheci (ou passei a ouvir mais) naquele ano.  
Quote: "PJ Harvey consegue colocar amargura, sarcasmo, sensualidade, fúria e desejo de vingança em suas canções de uma forma idiossincrática."
20. Auf Achse, Karamazov - parte 2 (30/3/2010): escolhi este post não tanto por critérios estilísticos, mas sim pelo que ele representa: uma fase bastante feliz de minha vida. Relatei três eventos: o show do Franz Ferdinand em Brasília, no qual fui com meus amigos da "caravana indie de POL"; a 1ª reunião "oficial" do Grupo de Estudos Humanistas, o projeto de extensão que tanto marcou a 2ª metade da minha graduação; e, minha primeira discotecagem, justamente no aniversário do filho do Renato Russo. 
Quote: "Em meio a uma UnB contaminada por militantes, picaretas e todos os problemas típicos da 'universidade pública e gratuita brasileira', nada como organizar um projeto que pretende ler, estudar e debater obras importantes."
21. Cinco Anos! - parte 2 (4/8/2010): de certa maneira, este post é uma continuação de "Is it too late?". Analisei as "caixinhas" da minha vida social: Party Boy, Humanitas, Clube dos Aleatórios, Viva a República e Aufklärung. O saldo é positivo ("estou menos enclausurado no meu mundo imaginário e mais aberto ao mundo"), embora já se prenuncie minha ruptura com o PET/POL.
Quote: "juro que não estou sendo auto-indulgente fazendo essa 'listinha'. É apenas para refletir se meus últimos meses valeram a pena e/ou se estou em uma tendência 'inercial' ou 'em ebulição'."
22. Um fim de semana em São Paulo - O Sábado Sociável / Um fim de semana em São Paulo - O Domingo Solitário (29 e 30/11/2010): dois posts que valem por um, como se fossem faixas sem intervalo à la "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" / "With A Little Help From My Friends" ou "The Happiest Day of Our Lives" / "Another Brick In The Wall Part 2". O primeiro deles é um relato do primeiro dia de minha viagem para São Paulo, no qual fui na Galeria do Rock e - iniciando uma tradição que se repetiria nos anos seguintes - no Planeta Terra; o segundo deles conta as aventuras por que passei para voltar para o hotel e como foi o histórico show do Paul McCartney.
Quote: "quando já estava no 'bus', eis que percebo que havia esquecido a minha carteira! Voltei, só que não conseguia encontrar o prédio em que estavam os meninos. Procuro na bolsa, e descubro que havia esquecido outra coisa: o celular!"
23. O difícil caminho da sabedoria (30/4/2011): os anos se passam e começo a escrever menos no blog; felizmente, isso também significou filtrar melhor os meus escritos. Um bom exemplo é este ensaio; nele tento encontrar meu caminho em meio aos dois gurus que muito me influenciavam naquela época: Ayn Rand e Olavo de Carvalho. Critico um através do outro, e tento elaborar uma síntese a partir das idéias libertárias/individualistas e conservadoras/tradicionalistas.
Quote: "O importante é nunca perder o ânimo e a inquietação intelectual, mesmo diante de tantas adversidades que a Academia – e a própria sociedade – coloca(m)."
24. Formação universal > Especialização (12/8/2011): inspirado pelo excelente romance Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister (Goethe), refleti sobre duas alternativas pedagógicas: a especialização, que é atualmente a forma dominante, e a formação humanística e generalista, que perdeu muito espaço, ainda que nos últimos anos tenha timidamente voltado a angariar seguidores e divulgadores. Recorri à minha graduação na UnB como estudo de caso, pois no início do curso eu pensava em fazer uma grade bem "economicista", mas ao longo dos semestre resolvi diversificar os campos de estudo e acabei fazendo disciplinas em Filosofia, História, Letras e Sociologia.
Quote: "Soa-me como a mais amarga das derrotas e desistências quando alguém que é um polímata (...) resigna-se a um ofício específico."
25. Ansiedade, Euforia, Reflexão (9/10/2011): após viajar pela 1ª vez para o Rio de Janeiro em Setembro para fazer a prova e a entrevista da seleção de mestrado, eis que veio a boa nova: fui aprovado! Resolvi fazer um post no estilo "passado/presente/futuro", e contei sobre como estava nervoso pelo resultado, como o comemorei e, por fim, como isso abriu as portas para aquele que seria um dos melhores meses da minha vida.
Quote: "enquanto eu estava enfrentando a líder do 4º ginásio de 'Pokémon Black', a Lizie (...) me liga às 22:43 para dizer que eu poderia 'adiantar o porre', pois tinha passado!"
26. Jesus walking on the water (18/2/2012): nas férias que antecederam minha mudança para o Rio de Janeiro, li vários livros, e três deles (Pais e Filhos, de Turguêniev; Os Demônios, de Dostoiévski; e Crítica e Profecia, de Pondé) contribuíram para uma importante mudança em minha visão de mundo: aproximei-me do cristianismo. Ao longo de 2012 minha empolgação com o ideário cristão arrefeceu, mas este ensaio marcou o início daquela que por enquanto é a última guinada ideológica pela qual passei: de libertário-individualista para liberal-conservador (em política me inclino pela prudência teórica e a moderação prática; meu conservadorismo é mais no âmbito cultural e estético, tal como o Lukács e sua ojeriza dos modernistas, rs).
Quote: "Ainda me falta uma experiência de fé, epifania para acreditar em Deus, mas do ponto-de-vista filosófico e racional já admito essa 'hipótese'."
27. Phoenix (13/8/2012): novamente pulei outro desastre na minha vida amorosa para o momento em que a poeira começou a baixar. No 2º semestre de 2012 finalmente quebrei uma sina que me acompanhava desde 1997: dois anos bons seguidos de um ano turbulento, complicado. Foi assim em 2000, 2003, 2006, 2009 e estava acontecendo novamente nos seis primeiros meses daquele ano. Meu "renascimento" teve entre seus pilares o encontro da Associação Brasileira de Ciência Política, em Gramado (aliás, eis outro padrão, desta vez positivo: toda ABCP marca um bom momento em minha vida - em 2008 formei meu núcleo duro de amigos na UnB, e em 2010 fiz novas amizades e decidi que faria mestrado no IESP/UERJ, graças a uma ótima palestra do professor Jasmin; falando nisso, semana que vem irei pela 4ª vez ao encontro dos cientistas políticos, que desta vez será em Brasília e eu finalmente apresentarei uma comunicação oral! Será no AT de Pensamento Político Brasileiro, sobre o liberalismo social de Merquior); porém, o acontecimento principal retratado neste post foi o início de meu relacionamento com a Carolina!
Quote: "Ela é gente-boa e nerd; estuda Arquitetura, gosta de rock clássico, Sandman, filmes 'mindfuck' (tipo Réquiem Para um Sonho) e RPGs."
28. Thursday I'm in love: The Cure no Rio (12/4/2013): e pensar que foi preciso um inusitado taxista fã de pós-punk para me convencer a ignorar o preço alto do ingresso e ir ao show do The Cure... Nem preciso dizer que valeu muito a pena, pois a apresentação de Robert Smith, Simon Gallup e cia. durou três horas e quarenta músicas, a maioria delas belíssimas.
Quote: "Cure foi a minha trilha sonora em 2006, um ano de crise seguida de redenção. Ver e ouvir ao vivo músicas que tanto me marcaram foi uma experiência inesquecível."
29. Vanishing Point (13/11/2013): por incrível que pareça, quanto mais velho, mais ansioso eu me tornei. Se eu estava bastante aflito com o resultado do vestibular e da seleção do mestrado, em relação aos processos seletivos do doutorado de História (PUC) e de Sociologia (IESP/UERJ) a pressão psicológica a que me submeti conseguiu ser ainda maior. Este post é um retrato de um momento que deveria ser de alívio (afinal, eu havia terminado minha dissertação, já estava com a defesa marcada e tinha acabado de voltar do Planeta Terra, onde eu e a Carol tínhamos assistido ao show do Blur), mas acabou sendo oportunidade para eu externalizar minhas preocupações. Este foi um texto que tomou um rumo diferente do que eu planejava; relembrar a apresentação do New Order de 2006 acabou sendo um pretexto para indiretamente confessar minha ansiedade.
Quote: "Acho que, no fundo, o motivo deste post auto-reflexivo é minha insegurança diante das duas seleções de doutorado que terei nas próximas semanas."
30. Reflexões sobre o desfecho de How I Met Your Mother (1º/4/2014): embora Seinfeld seja minha sitcom favorita, How I Met Your Mother foi aquela que mais se entrelaçou com minhas experiências pessoais: "Estava tentando ser menos parecido com o Ted e mais com o Barney. Acabei virando Marshall." Não por acaso assisti ao último episódio de forma cerimonial: quase ao vivo (isto é, assim que ele caiu no Torrent, rs), com minha namorada e três amigos. Gostei muito do plot twist no final, ao contrário de inúmeros fãs da série. Fiquei tão empolgado com o debate que resolvi explanar os motivos pelos quais eu concordava com o polêmico desfecho de HIMYM.
Quote: "Nossa vida é muito curta para ficarmos eternamente atormentados pelo passado, assombrados pelas lembranças de bons tempos que não voltam mais. Sendo assim, vale a pena arriscar; mesmo que dê errado, é melhor tentar do que não fazê-lo e passar o resto dos dias em amargo arrependimento." 

31 julho 2014

The Best of Racio Símio: 2005-2008

790 posts e 9 anos depois, cá estou eu ainda escrevendo em Racio Símio, o blog que me acompanha desde que eu tinha uma década e meia de vida. Ele desempenhou um enorme papel no meu amadurecimento, afinal foi um espaço que funcionou como diário, divã, oficina literária, divulgação e crítica cultural, ensaios e tentativas filosóficas...
Foi aqui que compartilhei empolgações, frustrações, dúvidas, idéias, relatos de viagem. O momento mais "aborrecente" da minha adolescência (2005-06) foi retratado neste blog; já o período seguinte (2007-08) foi marcado pela transição do ensino médio para a universidade, assim como por uma voracidade em relação aos livros e uma leve expansão da minha vida social; 2009 foi um ano difícil, marcado por uma paixão não-correspondida e, semanas depois, pelo início do meu 1º namoro (que acabaria 5 meses depois); os anos de 2010 e 11 foram muito bons, com destaque para minha evolução acadêmica; em 2012 me mudei para o Rio de Janeiro, tive um namoro que durou apenas 2 meses e comecei outro que, felizmente, continua até hoje; ano passado postei pouco por estar muito ocupado com minha dissertação e com a seleção de doutorado; em 2014 voltei a ter mais estabilidade, e recentemente entrei de cabeça no espírito da Copa do Mundo (vide os 7 últimos posts).
Acredito que dá para encontrar um telos, delinear uma Bildung na minha trajetória nestes nove anos. Minhas convicções fundamentais pouco mudaram; tornei-me mais moderado e menos utópico e misantrópico, mas em geral vejo mais continuidades do que rupturas entre o Kaio de 15 anos de idade e o que sou hoje.
Resolvi "me" homenagear e selecionar 30 (isso mesmo, 30) posts importantes que escrevi em Racio Símio. Alguns escolhi porque considero bem escritos, inteligentes; outros têm valor sentimental; há até alguns que me causam certo constrangimento quando releio, mas eles simbolizam, ainda que pelo negativo, o amadurecimento de seu autor.

Vamos, portanto, ao disco 1 do Best Of! Como não poderia deixar de ser, as "faixas" foram escolhidas em ordem cronológica.
1. Até que enfim... (31/7/2005): a estréia de Racio Símio não poderia ser mais constrangedora e embaraçosa. Um texto nervoso, raivoso, que captura Kaio em pleno chilique de adolescente. Não surpreendentemente, ele reviu várias de suas posições categóricas pouco tempo depois.
Quote: "Só escrevo por escrever, por não ter nada a fazer e ninguém para conversar."
2. Dissidência (28/8/2005): apenas um mês após declarar a plenos pulmões seu socialismo, este que vos fala inicia seu processo de desligamento da esquerda. Os delírios megalomaníacos continuam, mas já se nota a influência da crítica anti-totalitária de George Orwell e a forte impressão deixada pelas reflexões existenciais de Crime e Castigo.
Quote: "Eu não quero ser outro intelectual de butique que vive destilando belas idéias, mas fica trancafiado em seu apartamento, bebendo vinho e se considero superior em relação às proles."
3. My Parklife (26/12/2005): no fim do ano, em meio a uma chácara na qual minha preguiça de socializar chegou a patamares estratosféricos, um livro me salva: On The Road, de Jack Kerouac. Nos próximos meses, este será um dos escritores que mais lerei. Há um tom desencantado, prenunciando como será 2006, o meu ano "gótico".
Quote: "Apenas quero encontrar pessoas com quem eu tenha prazer de ter a companhia. Viver no underground, ouvindo meus discos de Rock alternativo, lendo Nietzsche e conversando com meus amigos. E só."
4. Meia-idade na adolescência (13/2/2006): um dos melhores textos que escrevi naquela época. Um retrato do nerd solitário quando jovem. Sim, há muita arrogância, auto-suficiência e intransigência, mas também há sinceridade e potencial para ser lapidado.
 
Quote: "Com quinze anos, não há quase nada a se fazer. É o ponto médio da adolescência."
5. Soy loco por ti, América? (15/2/2006): uma divertida e contundente análise política da América Latina; foi até publicada no Correio Classe, jornal de minha escola. Fazia poucas semanas desde que eu havia saído do armário ideológico e me assumido de direita. Daí se explica meu tom impiedoso com os caudilhos de esquerda que dominavam (e, em vários casos, ainda dominam) a política de nosso sub-continente.
Quote: "Talvez os latino-americanos não querem ainda embarcar na pós-modernidade e na globalização, e é sinal dessa obsolência a vitória de políticos populistas e nacionalistas/socialistas. (...) O atraso permanente da região é evidente, ela sempre está um passo atrás do resto do mundo."
6. Violently happy? (6/3/2006): um post angustiado, escrito após um fim de semana de altos e baixos. Mesmo assim (ou talvez justamente por isso), foi um dos comentados da história do blog, rs. Surpreendi-me ao reler a forte auto-crítica do trecho a seguir.
Quote: "Do nada, tive a idéia de reler uns posts antigos do meu blog. E fiquei perplexo - como os meus textos eram horríveis. Não do ponto de vista gramatical ou de concordância, mas sim no conteúdo: egomania, paixões cegas, imbecilidades, surtos de arrogância, promessas não cumpridas. Me senti triste. Tanto que nem consegui dormir."
7. Happy birthday to me (29/6/2006): eis um auto-balanço. O Kaio de 16 anos conta um pouco do que passou desde que fez 15. Eu era bastante duro comigo mesmo; por exemplo, eu me chamava de "velho rabugento" e "imaturo e inconseqüente".
Quote: "Crio problemas imaginários para compensar a frustração de que não tem nada de errado comigo nem ou na minha vida."
8. Let's go out and have some fun! (15/11/2006): para sair da fossa após uma paixão internética não-correspondida, nada como viajar pela 1ª vez para São Paulo e assistir a uma de minhas bandas favoritas naquela que viria a ser sua última turnê com Peter Hook. A apresentação do New Order foi incrível, e me animou a ponto de agir como um divisor de águas, iniciando uma "nova ordem": dali em diante passei a diminuir minha atitude negativa diante do mundo e de mim mesmo.
Quote: "Acabou! 1h35 do show que, por muitos anos, será o melhor momento da minha vida. O sorriso estampado no meu rosto após o fim do concerto era a prova disso."
9. Tonight I think I'll walk alone (26/11/2006): antes da redenção, uma recaída. Este post retrata o ápice da minha misantropia. Embora eu reclame das "centenas de pessoas homogêneas e patéticas", na verdade quem foi patético fui eu, sentado e "austistando" numa escada do Centro Cultural Oscar Niemeyer.
Quote: "Espero que a semana que está por se iniciar compense isso, e se aproveite do fato que eu ando feliz apesar da falta de momentos felizes. Uma contradição entre o homem e seu meio."
10. Let there be love (7/3/2007): uma das minhas redações preferidas. Usei uma menina do colégio por quem eu tinha uma "crush" (porém, nunca cheguei a me apaixonar para valer por ela) como musa inspiradora e resolvi fazer uma metáfora amorosa a partir de Platão e Aristóteles. Meses depois, quando comecei a escreveu meu romance (até hoje inacabado, diga-se de passagem), César e Penélope reaparecem como protagonistas, embora a garota tenha mudado de nome (Júlia).
Quote: "Penélope estava silenciosa, mas, mentalmente, a operar uma série de raciocínios e conclusões a respeito do que o professor dizia. Enquanto isso, César falava constantemente, pois aprendia a matéria comentando e participando da aula, sempre com uma oratória vibrante."
11. A dilatação da espera (1º/7/2007): outra boa redação que escrevi naquela época. A influência dos Fragmentos de um discurso amoroso (Roland Barthes), livro que meu professor de Redação havia me recomendado e emprestado, é notória. 
Quote: "Se há alguma coisa da Física Moderna que se pode aplicar aos relacionamentos, estamos falando da dilatação do tempo."
12. Blue, azul, bleu, freedom, liberdade, liberté (13/7/2007): post escrito de madrugada, em meio à ansiedade pelo resultado do vestibular da UnB; poucas horas depois, descobri que, mesmo tendo feito a prova como treineiro, eu tinha passado. Em um raro momento cinéfilo, resenhei três filmes de uma só vez: "Politicamente Incorreto" ("Bulworth"), "Barbarella" e "A Liberdade é Azul".
Quote: "'Você é o que quiser'. Talvez seja esta uma das mensagens que o filme passa. Ou não."
13. A Entropia da Liberdade (6/8/2007): um texto longo, pretensioso e com ares de "filosofia da história". Usei metáforas da Química para justificar minha crença em um futuro anarco-libertário. Hoje em dia obviamente não compartilho dessa ingenuidade ideológica, mas valeu como ensaio, como experiência de pensamento.
Quote: "Não me surpreenderia se chegássemos ao fim do Século XXI regidos por um protótipo de anarquismo."
14. Politics go so good with... UnB! (21/2/2008): depois de passar novamente no vestibular (e, desta vez, já com o ensino médio concluído, podendo de fato me matricular na universidade), a euforia foi tanta que resolvi glorificar meu método de estudo. Texto bobo, mas tem valor histórico.
Quote: "O importante é que a tática kaionista deu certo, e poderá servir como exemplo para as gerações futuras. O plano de dominação global está prestes a ser aplicado! [Risada diabólica]"
15. A Magia da Montanha (8/7/2008): esta resenha foi o ponto de partida para aquele que seria o meu objeto de estudo desde então: os aspectos filosóficos e ideológicos da literatura de Thomas Mann. Li as últimas 500 páginas de A Montanha Mágica em apenas 7 dias, de tão empolgado que estava com os debates entre Settembrini e Naphta e com a tumultuada formação moral e estética de Hans Castorp.
Quote: "Se Castorp é Weimar, Settembrini é a voz do cânone ocidental pregando paz, harmonia, valores republicanos e liberalismo, enquanto Naphta encarna os radicalismos que ganhavam mais e mais terreno naquela época: nacionalistas, socialistas e anarquistas."

Amanhã postarei o disco 2!