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16 outubro 2019

Palavras pra esquecer versos que repito, palavras pra dizer de novo o que foi dito

Em 16 de Outubro de 1989, chegou às lojas o álbum que considero a obra-prima dos Titãs: Õ Blésq Blom. É o disco mais eclético e experimental do octeto paulista, combinando elementos de música regional, punk, post-punk, pop rock, MPB, funk, eletrônica, country e reggae. As letras estão entre as melhores que os Titãs já escreveram: há crítica social ("Miséria"), lirismo ("Flores" e "Palavras"), inventário de patologias fisiológicas e anímicas ("O Pulso"), angústia existencial ("Medo" e "Deus e o Diabo"), intertextualidade ("32 Dentes"), e humor metalinguístico ("Racio Símio", "O Camelo e o Dromedário" e "Faculdade").
As origens de Õ Blésq Blom remontam à passagem da banda pelo Nordeste em meados de 1989, no fim da turnê de Go Back (álbum ao vivo lançado em 1988). Em Recife, na praia da Boa Viagem, eles conheceram os repentistas Mauro e Quitéria. Ficaram tão encantados com a música deles que Paulo Miklos correu para o hotel para buscar um gravador, e alguns trechos registrados em fita cassete serviram de abertura e encerramento para o futuro LP (além de um trecho da faixa “Miséria”). O próprio título do disco é tirado do inusitado dialeto criado por Mauro: segundo conta Ricardo Alexandre em Dias de Luta: o Rock e o Brasil dos anos 80 (2002), ele era estivador e durante muitos anos conviveu com estrangeiros no cais do porto de Recife, de forma que o dialeto de suas canções mistura palavras em idiomas como inglês, grego, espanhol e italiano. “Õ blésq blom” significaria algo como “Os primeiros homens que pisaram sobre a Terra”.
Gravado no estúdio Nas Nuvens, no Rio de Janeiro, entre Julho e Setembro de 1989, este é o álbum mais sofisticado dos Titãs até então; o contraste com a produção crua dos três primeiros LPs, inclusive Cabeça Dinossauro (1986), é nítido, embora o lado A de Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas (1987) já antecipe sua sonoridade mais limpa e seus experimentos com funk e eletrônica. Na época foi chamado de “o vinil mais bem produzido que este país já viu” (José Augusto Lemos, da revista Bizz – a qual, aliás, elegeu Õ Blésq Blom como o melhor disco brasileiro de 1989, tanto na votação dos críticos quanto na dos leitores). Ele ainda soa moderno, e mesmo a bateria eletrônica não o deixou datado; pode-se dizer que o 5º LP titânico é o ápice de Liminha como produtor e dos Titãs como banda de estúdio.
Após dois anos quase ininterruptos na estrada, o conjunto estava em sua fase mais prolífica: 30 músicas foram escritas para o álbum, das quais 10 foram selecionadas (além das vinhetas com Mauro e Quitéria e "Natureza Morta", que é uma espécie de introdução a "Flores"). Dentre as sobras de Õ Blésq Blom, algumas chegaram a ser lançadas posteriormente:“Nem 5 Minutos Guardados”, “A Melhor Forma” e “Não Vou Lutar” – Acústico MTV (1997); “Era Uma Vez” e “Senhora e Senhor” – Volume Dois (1998); “Eu Prefiro Correr”, “Saber Sangrar”, “Estrelas”, “Minha Namorada”, “Aqui É Legal” e “Porta Principal” – E-Collection (2000). Com exceção das ótimas "Nem 5 Minutos Guardados" e "Não Vou Lutar", é possível dizer que a banda realmente foi criteriosa na escolha das faixas que entraram no álbum.

Vamos a uma análise das faixas de Õ Blésq Blom:



- “Miséria”: é, ao lado de “Comida”, a melhor crítica social escrita pelos Titãs. Ela também se assemelha - e supera - à sua antecessora no contraste entre o contagiante ritmo funkeado com os delicados temas sociopolíticos de que trata: "Miséria é miséria em qualquer canto / Riquezas são diferentes (...) Fracos, doentes, aflitos, carentes (...) A morte não causa mais espanto". Segundo o livro de Ricardo Alexandre, ninguém menos do que Caetano Veloso elogiou a música na época: “Os Titãs chegaram ao topo da MPB”.
- “Racio Símio”: a banda mostra sua faceta mais excêntrica com uma letra desconexa que faz paródia – por vezes bem cáustica – de ditos populares: "Quem esporra sempre alcança (...) Só os chatos não disfarçam / Os sonhos despedaçam / A razão é sempre do freguês (...) Quem come prego sabe o ** que tem". A propósito, "Racio Símio" era o título original do álbum, e inspirou o nome deste blog. Em seu Guia Politicamente Incorreto dos anos 80 pelo Rock (2017), Lobão cita esta faixa, ao lado de “Flores”, como um dos exemplos de “letras sensacionais” de um disco que “transborda criatividade”.
- “O Camelo e o Dromedário”: se a faixa anterior já era esquisita, esta vai ainda mais longe, com uma letra inusitada sobre as diferenças entre os dois ruminantes típicos de regiões desérticas, sob um delicioso ritmo de reggae. Paulo Miklos arrasa nos vocais predominantemente “falados”, como se cantasse um rap; vide versos hilários como: "Será que, por ter duas corcovas, o camelo passa mais tempo sem beber água? / Ou, pelo contrário, com um peso maior, beba mais água que o dromedário? / Será que o bom dromedário com sua única corcova tem por cima mais espaço? / E ficaria assim nosso amigo camelo exposto a um maior cansaço?".
- “Palavras”: em um disco marcado pela metalinguagem, esta é a faixa que traz esse elemento da forma mais lírica e pungente: "Palavras não têm cor / Palavras não tem culpa / Palavras de amor / Pra pedir desculpas / Palavras doentias / Páginas rasgadas / Palavras não se curam / Certas ou erradas". Destaque também para a bateria de Charles Gavin.
- “Medo”: curta, acelerada e nervosa canção que contém uma das letras mais intrigantes de Arnaldo Antunes: "Precisa perder o medo do sexo / Precisa perder o medo da morte / Precisa perder o medo da música". É a faixa do LP mais similar ao punk rock de Cabeça Dinossauro e do lado B de Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas.


- “Flores”: o maior hit do álbum. Seu videoclipe foi premiado no VMA da MTV de 1990 (na categoria Escolha da Audiência Internacional – Brasil) – e a viagem para Nova York serviu para a banda gravar o clipe de “Deus e o Diabo”. A letra de "Flores" pode ser interpretada em pelo menos dois níveis: o relato de um suicida numa perspectiva post mortem ("Os pulsos os punhos cortados / O resto do meu corpo inteiro / Há flores cobrindo o telhado / E embaixo do meu travesseiro"); e uma reflexão sobre o caráter efêmero e contingente da vida ("As flores de plástico não morrem"). Devo discordar de Caetano (e de certa forma concordar com Marisa Monte, que fez um dueto dela com Branco Mello na versão do Acústico): esta é a canção do álbum mais próxima da MPB.



- “O Pulso”: mais um momento excêntrico, com a enumeração de 48 doenças, inclusive as da alma (rancor, estupidez, hipocondria, ciúmes, cleptomania, hipocrisia, culpa). A despeito de todas as enfermidades listadas, o ser humano ainda sobrevive: "O pulso ainda pulsa"; por outro lado, há um limite: "O corpo ainda é pouco". Arthur Dapieve, em BRock – O Rock Brasileiro dos anos 80 (1995), interpreta esta faixa como uma “versão patológica” de “Nome aos Bois”, canção de Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas que citava vários ditadores e personalidades controversas. Para além da inusitada letra, vale elogiar a linha de baixo de Nando Reis e os teclados de Sérgio Britto. "O Pulso" é a música mais associada a Arnaldo do catálogo titânico; não por acaso, foi ele quem a cantou no Acústico.
- “32 Dentes”: os Titãs resolvem embarcar no country, em uma das melhores performances vocais de Branco Mello (que a cantava de um jeito ainda mais enlouquecido ao vivo). O riff inicial lembra “The Hungry Wolf” (X); aliás, é o segundo álbum seguido em que uma canção composta por Branco Mello, Tony Bellotto e Marcelo Fromer se inspira nessa banda punk californiana (o caso anterior foi “Armas pra Lutar”, cuja abertura remete a “Your Phone’s Off The Hook But You’re Not”). A supramencionada intertextualidade é com “Traumas” (Roberto Carlos): "Meu pai um dia me falou / Pra que eu nunca mentisse / Mas ele [também] se esqueceu / De me dizer a verdade").
- “Faculdade”: um funk que brinca com a polissemia de algumas palavras (faculdade, propriedade, utilidade, identidade). O sax de Miklos cria uma permanente tensão que finalmente se consuma nos segundos finais.
- “Deus e o Diabo”: uma das letras mais filosóficas dos Titãs – e olha que Arnaldo Antunes não está entre seus compositores! É interessante notar que Õ Blésq Blom é o álbum com mais contribuições líricas de Paulo Miklos e Nando Reis (inclusive esta faixa, que compuseram junto com Sérgio Britto), os dois titãs com maior inclinação para a MPB; vide suas carreiras solo. Assim como em "Miséria", há uma parceria nos vocais de Britto e Miklos, mas em "Deus e o Diabo" ela adquire o interessante contorno de inverterem os papéis de Deus e do diabo, os quais podem ser vistos como alegorias de estados emocionais, algo sugerido pelo refrão: "O que há de errado com meu coração?". Esta é a faixa mais eletrônica de Õ Blésq Blom (há até o sample de uma britadeira); segundo a biografia da banda A Vida Até Parece Uma Festa (2002), de Hérica Marmo e Luiz André Alzer, não surpreendentemente ela desagradou os guitarristas Fromer e Bellotto, pois quase não participaram de sua gravação. Controvérsias à parte, "Deus e o Diabo" é umas das minhas preferidas do álbum; eis o clipe dela:



Õ Blésq Blom foi aclamado pela crítica e teve boas vendas (220 mil cópias até o fim de 1990). O seu principal legado estético foi sobre o mangue beat (estilo de bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A), pela mistura de rock com ritmos regionais. O próprio Chico Science disse anos depois a Paulo Miklos que, no show dos Titãs em Recife na turnê do álbum, ele e outros fundadores do movimento estavam na primeira fila.

10 outubro 2019

Nothing he's got he really needs, 21st Century schizoid man


O dia 10 de Outubro de 1969 marcou o lançamento de três grandes álbuns de rock: Arthur  (or the Decline and Fall of the British Empire), dos Kinks (a propósito, hoje publiquei uma resenha dele no Album of the Year); Hot Rats, de Frank Zappa (que mistura rock instrumental com jazz-fusion); e um dos melhores discos não só da década de 1960, mas de todos os tempos: In the Court of the Crimson King, a estréia de uma banda formada apenas nove meses antes: o King Crimson, um quinteto composto por Robert Fripp (guitarra), Michael Giles (bateria), Greg Lake (vocais e baixo), Ian McDonald (backing vocals, mellotron, flauta, sax e vibrafone) e Peter Sinfield (letras).
1969 foi um annus mirabilis na trajetória dos Crims: 
- Em Janeiro, a banda fez seu primeiro ensaio no porão de um "road cafe"; 
- Em Abril, fizeram seus primeiros shows na Inglaterra;
- Em Julho, tocaram para cerca de meio milhão de pessoas em um festival no Hyde Park, como banda de abertura dos Rolling Stones (e de certa forma roubando a cena deles);
- Em Agosto, gravaram o seu disco de estréia, sendo eles próprios os produtores do álbum, após terem desavenças estéticas com Tony Clarke, produtor dos Moody Blues; 
- Em Outubro, lançaram In the Court of the Crimson King, que estreou direto no 5º lugar na Inglaterra (atrás apenas de grandes sucessos comerciais como Abbey Road, dos Beatles, e a coletânea Through the Past Darkly, dos próprios Rolling Stones), alcançou cinco meses depois o 28º lugar nos Estados Unidos e também um surpreendente 1º lugar entre os discos internacionais no Japão (superando até Abbey Road)
- No fim do mesmo mês, começaram uma extensa turnê pelos EUA, que teve uma ótima recepção; 
- Em Dezembro, durante a turnê americana, a banda se desintegrou, pois McDonald tinha divergências artísticas com Fripp (o primeiro queria que o King Crimson adotasse uma direção mais folk e romântica e com temáticas menos pesadas e sombrias, e o segundo priorizava a verve experimental), Giles não queria manter a rotina cansativa das turnês (chegou a defender que virassem uma banda de estúdio, como os Beatles, mas Fripp não se interessou por isso) e Lake foi convidado por Keith Emerson para formar o supergrupo Emerson, Lake & Palmer.
Ou seja, em menos de um ano a primeira formação crimsoniana passou por um início promissor, uma ascensão meteórica (foi um dos discos mais elogiados de 69, mesmo tendo sido lançado na mesma época de Abbey Road e Led Zeppelin II; além disso, conseguiu Disco de Ouro tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos) e um desfecho abrupto. Robert Fripp e Peter Sinfield mantiveram a banda viva, sendo que o primeiro foi o único integrante constante em todas as formações posteriores (já Sinfield sairia em 71, e dois anos depois começaria a compor letras para o Emerson, Lake & Palmer).

In the Court of the Crimson King é considerado um clássico, dentre outros motivos, por ter lançado as bases definitivas do rock progressivo, desde o apelo conceitual (a temática apocalíptica de três das cinco faixas) até o ecletismo, incorporando outros estilos musicais - inclusive música clássica/erudita - e saindo da ortodoxia do rock baseado no blues. Cabe ressaltar que quatro de suas canções estão entre as mais populares e influentes de toda a carreira da banda, e a outra ("Moonchild"), por mais que divida opiniões até hoje, foi importante por seu espírito vanguardista e por antecipar as improvisações ("blows") que se tornarão recorrentes nos álbuns seguintes. 

Eis uma análise faixa-a-faixa do debut crimsoniano:

21st Century Schizoid Man
Sete minutos de revolução sonora. Esta faixa combina elementos de heavy metal (aliás, foi uma das canções pioneiras no gênero), jazz (sua parte intermediária consiste em quase 4 minutos de uma insana e frenética improvisação) e rock progressivo (estrutura complexa, com muitas mudanças de ritmo, camadas sonoras e elevada "musicianship"). Na parte musical tudo é no mínimo espetacular: a guitarra feroz de Robert Fripp, os vocais distorcidos e o baixo contundente de Greg Lake, o sax histérico de Ian McDonald e a performance visceral de Michael Giles na bateria (experimente escutar uma versão da faixa com a bateria isolada dos demais instrumentos). Cabe notar que ela foi gravada ao vivo, num take só. 
A letra também merece destaque, contendo fortes tonalidade distópicas ("Neurosurgeons scream for more (...) Poets starving, children bleed"), criticando desde a Guerra do Vietnã ("Innocents raped with napalm fire") até o consumismo desenfreado ("Nothing he's got he really needs"). A propósito, a célebre e perturbadora capa de In the Court... retrata justamente o "schizoid man" descrito na letra.
Fripp manteve esta faixa no repertório até 1974 (ano do fim da primeira encarnação da banda), em 1996 e de 2014 em diante, talvez porque fosse o único elo do primeiro álbum com todas as demais encarnações do King Crimson: o sucessor In the Wake of Poseidon (1970) - no qual foi inserida a sua irmã caçula, "Pictures of a City" -, a fase jazzística de Lizard (1970) e Islands (1971) e a sonoridade mais pesada de Larks' Tongues in Aspic (1973), Starless and Bible Black (1974) e Red (1974).
"21st Century Schizoid Man" é, ao lado de “Starless”, a melhor canção do King Crimson, e curiosamente ambas se complementam: uma abriu o leque de possibilidades estéticas da banda e a outra o apresentou em sua forma definitiva. 

I Talk To The Wind
Um dos momentos mais belos do álbum é justamente a transição entre o caos de “21st Century...” e a serenidade de “I Talk To The Wind”, pois é nela que se percebe que estamos diante de uma banda eclética e talentosa.  Aliás, provavelmente foi durante esses poucos segundos que o King Crimson me conquistou, 8 anos atrás.
A performance de Ian McDonald na flauta é magistral, e mostra bem o tipo de sonoridade pastoral que ele queria – mas não pôde – desenvolver no King Crimson, e que acabou realizando no ótimo álbum solo McDonald and Giles (1971).

Epitaph
Outra transição notável é entre a faixa anterior e esta, com os tambores anunciando o início de uma canção tão épica em sua sonoridade quanto trágica em sua letra. Mais uma vez Sinfield evoca uma visão pessimista e decadentista: "The wall on which the prophets wrote / Is cracking at the seams (...) When every man is torn apart / With nightmares and with dreams / Will no one lay the laurel wreath / When silence drowns the screams".
Esta é uma das canções em que o uso do mellotron é mais proeminente, criando uma atmosfera lúgubre, como se estivesse retratando a agonizante queda de um Império. A guitarra acústica adiciona certa delicadeza à melodia, e os vocais de Greg Lake são majestosos.
A propósito, "Epitaph" contém os meus versos favoritos de uma letra do King Crimson: “Knowledge is a deadly friend / If no one sets the rules / The fate of all mankind / I see is in the hands of fools".

Moonchild
Os 3 primeiros minutos parecem sugerir uma canção melódica e delicada, na linha de "I Talk to the Wind", mas os 9 minutos finais vão por um caminho inusitado, cheio de improvisações instrumentais, envolvendo desde vibrafone até percussão.
É possível afirmar que "Moonchild" lança a semente para as intrigantes, desconcertantes - e, mesmo assim, por vezes belas - improvisações que marcarão álbuns posteriores, como Larks' Tongues in Aspic (1973).

The Court of the Crimson King
Das cinco canções do disco esta é a mais paradigmática para o rock progressivo, desde o uso abundante do mellotron (desta vez com uma tonalidade mais expansiva) até a letra profundamente alegórica e rebuscada (vide versos como "The pattern juggler lifts his hand / The orchestra begin / As slowly turns the grinding wheel / In the court of the crimson king"). Pode-se rastrear seu legado em bandas como Yes, Genesis, Pink Floyd, Camel e em qualquer outra que tentou construir uma canção sinfônica (ou simplesmente longa e ambiciosa) desde então. 
A faixa-título consegue transmitir elegância e melancolia ao mesmo tempo, e seu poderoso refrão é um dos momentos mais catárticos da discografia crimsoniana - e que ainda por cima é realçado quando ela é tocada ao vivo, criando uma sensação ecumênica (que felizmente pude experimentar no Rock in Rio - festival do qual farei uma resenha em breve).
Do ponto de vista da sonoridade, novamente temos a bela flauta de McDonald e o desempenho avassalador de Giles na bateria. A canção ainda conta com uma coda, que surge lentamente após o suposto clímax e desfecho; mesmo em seus dois minutos finais a canção (e o álbum) nos guarda um último momento sublime, ao retomar de forma ainda mais intensa a melodia principal. 

O rock nunca mais seria o mesmo depois de In the Court of the Crimson King; a elevação artística e o potencial de alta cultura de um estilo musical que começara estritamente popular e comercial já encontrava uma primeira demonstração cabal nos meses finais da década de 60, e o legado da primeira (e maior) obra-prima do King Crimson continua encantando ouvintes exatas cinco décadas depois.

06 outubro 2019

King Crimson no Rock in Rio no dia do 45º aniversário de Red


6 de Outubro de 2019: o King Crimson tocará no Rock in Rio, em sua 1ª turnê no Brasil em 50 anos de banda (ainda que interruptos, pois assumiu várias encarnações: 1969-74, 1981-84, 1994-2004, 2007-09 e 2013 em diante). Irei ao show, para o qual estou extremamente ansioso. Será um setlist de apenas uma hora, mas repleto de clássicos (dentre eles, espero, duas faixas sobre as quais falarei abaixo - "Red e "Starless").

6 de Outubro de 1974: Red, o sétimo álbum de estúdio do King Crimson, é lançado. Na época soou como um disco póstumo, pois poucos dias antes do lançamento o guitarrista Robert Fripp dissolveu a banda (para surpresa dos demais integrantes, que já estavam se preparando para uma nova turnê nos Estados Unidos) e entrou em um retiro espiritual da Fundação J. G. Bennett, um seguidor do místico Gurdjieff. Há quem diga que a banda estava à beira de repetir o sucesso de seu primeiro álbum (In The Court Of The Crimson King, de 1969, o mais famoso dos Crims), mas também se pode dizer que o conjunto acabou na hora certa – não só porque Red foi uma despedida em grande estilo, mas também porque o rock progressivo começou a perder prestígio entre crítica e público nos anos seguintes, a ponto de ser o bode expiatório do movimento punk como “tudo aquilo que está errado” no Rock. Após o fim da primeira encarnação do King Crimson, Fripp se tornaria um músico bastante requisitado, participando em faixas de artistas mais próximos ao art rock e à new wave, como Brian Eno, David Bowie, Peter Gabriel (outro egresso do rock progressivo), Blondie e Talking Heads. Quando ressuscitou o conjunto, em 1981, ele apontaria para outras direções estilísticas, tão interessantes quanto as adotadas nos anos 70, o que mostra como o King Crimson foi uma das bandas que mais levou a sério a proposta de fazer música progressiva, que não se apega ao passado e está sempre se movendo e se reinventando esteticamente. Nesse aspecto “metamórfico” ele só possui dois equivalentes na música do Século XX: Miles Davis e David Bowie.






“Red”, a canção que abre o álbum homônimo, é uma das mais poderosas e sombrias do catálogo do King Crimson. Em parte isso se deve, segundo o musicólogo Eric Tamm em seu livro Robert Fripp: From King Crimson to Crafty Master, ao uso do trítono, que na Idade Média era chamada de “a nota do diabo” (“diabolus in musica”), pois o intervalo entre notas cria uma dissonância que evoca um efeito de tensão soturna no ouvinte. A faixa-título possui a distinção de ser uma das poucas músicas da banda que foi tocada por todas as formações posteriores.



“Fallen Angel” tem uma letra sobre a violência das gangues em Nova York. Os versos evocam certa delicadeza (aliás, é interessante notar que todo álbum do King Crimson tem uma faixa mais gentil e melódica que as demais), mas no refrão a canção ganha peso, com direito a uma corneta estridente e a um solo de guitarra desconcertante.



“One More Red Nightmare” é a primeira e única letra do vocalista e baixista John Wetton para a banda (todas as letras da demais faixas dos três álbuns em que ele esteve no King Crimson foram escritas por Richard Palmer-James, ex-Supertramp; porém, Wetton também escreveu a letra inicial de "Starless") é sobre um pesadelo de um acidente aéreo. Para evocar essa sensação de desespero foi providencial a ferocidade com que Bill Bruford tocou os pratos de bateria que achou em um lixo (aliás, vale a pena conferir a empolgação com que ele relata isso em sua autobiografia).



“Providence” é uma improvisação feita em um show em Providence (capital de Rhode Island, nos EUA) no dia 30 de Junho de 1974 – aliás, foi o penúltimo da banda antes da dissolução. É a única canção do álbum com participação do violinista David Cross, que foi demitido por "incompatibilidades artísticas" entre o fim da turnê americana e a gravação do álbum, em Julho. À primeira vista soa meio deslocada em Red (embora continue os experimentos ao vivo já presentes no álbum anterior, Starless and Bible Black), mas funciona muito bem para criar o clima de tensão que antecederá a última faixa, assim como dar um respiro após a intensidade das três canções anteriores.






“Starless” é possivelmente a obra-prima do King Crimson, a canção que em 12 minutos sintetiza todas as fases da banda: o início (até cerca de 4:30) é sinfônico e melancólico, a parte intermediária (entre 4:30 e 9:00) é uma improvisação que gera uma tensão crescente - em especial pelo ritmo repetitivo da guitarra - e o final (de 9:00 em diante) é uma explosão sonora que oscila entre o jazz e o metal, à la "21st Century Schizoid Man" (a eletrizante 1ª faixa de In The Court of the Crimson King). Segundo Eric Tamm, essa estrutura tripartite é semelhante à de uma sonata, por conter exposição, desenvolvimento e recapitulação (afinal nos dois últimos minutos a melodia inicial é retomada). A versão de estúdio substitui o violino que David Cross usava na versão ao vivo por um dos mais belos solos de guitarra de Fripp, e que antecipa o estilo atmosférico que ele adotará nos anos seguintes em faixas como “Heroes” (David Bowie). A ótimo letra de Palmer-James é brilhantemente cantada por Wetton, o qual também contribui de forma substantiva com seu baixo, que em combinação com a bateria de Bruford compõe o que Fripp chamava de “flying brick wall”. Todos esses elementos fazem de “Starless” um final digno para a primeira fase do King Crimson.



Red, até pela falta de uma turnê e pelo desapontamento de ser um álbum de uma banda defunta, não vendeu bem (chegou apenas ao 45º lugar das paradas britânicas e ao 66º das americanas), mas em compensação foi o segundo disco mais influente do King Crimson (o primeiro é o álbum de estréia, afinal nada menos do que inventou o rock progressivo). Inspirou desde bandas de metal progressivo (como Tool) até de grunge (Kurt Cobain citou Red na sua lendária lista de 50 álbuns favoritos, e In Utero é certamente um herdeiro de sua dinâmica sonora entre versos calmos e refrões furiosos). Além disso, é um dos álbuns progressivos que melhor envelheceu; um ouvinte desatento poderia pensar que ele foi lançado nos anos 90, talvez pela combinação da sonoridade pesada produzida pelo “power trio” Fripp, Wetton e Bruford com a sofisticação dada pelos instrumentos de sopro (em especial o sax de Ian McDonald em “One More Red Nightmare” e “Starless” – aliás, foi uma participação mais do que especial, pois McDonald é um ex-membro da banda, tendo sido o principal compositor de In The Court of The Crimson King).

14 setembro 2019

Neighbors can dance in the police disco lights




No dia 14 de Setembro de 2004, a banda canadense Arcade Fire lançou seu primeiro álbum, Funeral. O título mórbido se justifica pela triste coincidência de que vários parentes dos membros da banda faleceram durante o período em que o disco foi gravado: a avó da baterista e vocalista Régine Chassagne, o avô do vocalista e guitarrista Win e do baixista William Butler e a tia do multi-instrumentista Richard Parry. Ao contrário, contudo, de uma resignação fatalista, o álbum evoca uma tonalidade redentora diante das vicissitudes; não por acaso, um de seus momentos mais sublimes é a apoteótica "Wake Up". Por ter sido lançado por um selo independente (Merge Records), o disco foi um "sleeper hit", tendo sua reputação construída de forma gradual; pode-se dizer que foi o melhor álbum de 2004 a ser citado em várias listas de melhores de 2005. O reconhecimento veio de todas as formas: ganhou nota máxima de vários críticos (e mesmo a rigorosa Pitchfork deu 9.7 para Funeral); o single de "Rebellion (Lies)" chegou ao top 20 das paradas britânicas; o álbum conseguiu Disco de Ouro nos EUA e de Platina na Inglaterra; e ninguém menos que David Bowie postou em seu fórum que era fã do Arcade Fire (a propósito, sua penúltima apresentação ao vivo, em 2005, foi em parceria com eles, e em 2013 Bowie fez uma participação especial na faixa-título de Reflektor). A primeira metade do álbum, com exceção de "Une Année Sans Lumière", possui unidade conceitual: há 4 faixas intituladas "Neighborhood", mas cada uma delas toca em aspectos diferentes: "Neighborhood #1 (Tunnels") evoca o escapismo de dois adolescentes apaixonados; "Neighborhood #2 (Laïka)", como sugerido por seu clipe, é sobre a luta dos jovens do Leste Europeu contra a opressão dos regime comunistas; "Neighborhood #3 (Power Out)" é baseada na tempestade de gelo que levou a um blecaute em Montreal, em 1998, mas expressa uma catarse emocional que transcende esse contexto; "Neighborhood #4 (7 Kettles)" é a mais intimista das quatro, e trata da passagem irreversível do tempo. "Crown Of Love" é a canção mais romântica de Funeral, e sua coda (imediatamente após os versos "You gotta be the one / You gotta be the way your name is the only word that I can say") é espetacular, com direito a violinos acelerados. "Wake Up" é de tamanha força expressiva (tanto em sua letra quanto em sua sonoridade) que remete ao U2 dos anos 80. A própria banda tem consciência desse potencial e costuma utilizá-la para encerrar seus shows até hoje. A bilíngue "Haïti" conta um pouco do passado da família de Régine, que fugiu da sangrenta ditadura de François Duvalier (Papa Doc) no Haiti: "Mes cousins jamais nés hantent les nuits de Duvalier". Não foi lançada como single, mas é sem dúvidas um dos destaques do álbum; felizmente é uma presença constante nos setlists do Arcade Fire. A penúltima faixa é também a melhor (não só deste debut, mas possivelmente de toda a carreira da banda): "Rebellion (Lies)". Ela é perfeita em todos os detalhes, em especial os backing vocals "Lies, lies!" no refrão, a mudança de escala aos 3:37 e, claro, a letra marcante: "Sleeping is giving in, no matter what the time is (...) / People say that you'll die faster than without water / But we know it's just a lie, scare your son, scare your daughter / Now here's the sun, it's alright! (...) Now here's the moon, it's alright!" A faixa de encerramento, "In The Backseat", possui os melhores vocais de Régine no álbum, e sua letra usa a metáfora do banco de trás do carro para tratar do medo de enfrentar a mortalidade - e a necessária (ainda que lenta) superação do mesmo. 15 anos se passaram e o debutante Funeral e continua podendo ser elencado como um dos grandes álbuns da década passada (aliás, para mim ele é o 2º; só Kid A o supera). P.S.: Aproveitei o aniversário deste disco para fazer uma playlist de Arcade Fire no Spotify. Inicialmente seriam 25 músicas, mas algumas muito boas ficariam de fora, então decidi colocar 30 - nada contra, pois a deixou com a duração de um CD duplo.

03 agosto 2019

This ain't no party, this ain't no disco



Hoje é aniversário de 40 anos do meu disco favorito dos Talking Heads: Fear of Music.
A canção mais famosa deste álbum é "Life During Wartime", que combina uma letra apocalíptica ("I got three passports, a couple of visas / You don't even know my real name / (...) I might not ever get home" ) com um arranjo que cruza funk com punk; ao contrário das demais faixas, ela surgiu de uma jam session, o que talvez explique seu ritmo frenético (a propósito, quando tocada ao vivo costumava ser 2 minutos mais longa).
Outra faixa bastante conhecida é a reflexiva e melancólica "Heaven", possivelmente o grande destaque lírico do álbum: "When this kiss is over / It will start again / It will not be any different / It will be exactly the same (...) / Heaven / Heaven is a place / A place where nothing / Nothing ever happens".
"Cities" é uma das mais enérgicas e dançantes ao lado de "I Zimbra", que conta com a participação especial de Robert Fripp (King Crimson) e indica a direção estética à la "world music" que o Talking Heads seguirá no disco seguinte, Remain In Light (1980).
A propósito, Fear of Music é álbum mais post-punk deles, contendo faixas soturnas como "Air" (a minha preferida, por vários motivos: a bateria forte, os teclados e backing vocals arrepiantes e o belo refrão: "What is happening to my skin? / Where is that protection that I needed? / Air can hurt you too / Some people say not to worry about the air / Some people never had experience with air..."), "Drugs" (a faixa mais modificada pelos experimentos sonoros de Brian Eno, a ponto de mudar de nome; inicialmente ela se chamava "Electricity") e "Memories Can't Wait" (destaque para as dramáticas mudanças de ritmo e para os versos "There's a party in my mind / And I hope it never stops").

04 julho 2019

Brasil x Peru na final da Copa América 2019

Mal poderia imaginar que justamente a seleção cujo jogo eu vi no Maracanã, 2 semanas atrás, iria voltar ao estádio no próximo domingo para jogar a final contra os donos da casa!
Pois é. Contra todos os prognósticos, o Peru está na final da Copa América. Pelo visto a dura goleada sofrida para o Brasil na 3ª rodada da 1ª fase "acordou" a seleção peruana. Primeiro, nas quartas-de-final, anulou o poderoso ataque uruguaio com uma forte retranca e venceu nos pênaltis - sendo que o goleiro Gallese pegou a cobrança de ninguém menos que Suárez. Na semifinal contra o Chile, impõs forte ritmo já nos primeiros minutos, abriu o placar aos 20 e antes do intervalo aproveitou falha bisonha do goleiro chileno para sair com 2x0 no placar. No fim do jogo, após um 2º tempo impecável de Gallese, o capitão Guerrero fez o 3º gol; antes do fim do jogo o goleiro peruano ainda defendeu um pênalti: uma cavadinha batida com desleixo por Vargas, aumentando o já enorme constrangimento chileno. Foram de salto alto para a semifinal e terminaram sendo derrotados de forma contundente. Engraçado lembrar que, no início da competição, os chilenos diziam que, como atuais bicampeões continentais, já estavam credenciados a considerar Argentina e Uruguai como rivais; que tenham sido abatidos pela sua verdadeira nêmesis no futebol, o Peru (a propósito, leiam esta matéria do Trivela sobre essa rivalidade), é um choque de realidade daqueles.

Ricardo Gareca de fato conseguiu um feito à altura da classificação para a Copa do Mundo após 36 anos: levou o Peru para sua 1ª final de Copa América desde 1975; aliás, naquela edição a seleção andina foi campeã após eliminar justamente o Brasil nas semifinais. Tal confronto também marcou a última derrota verde-amarela em jogo eliminatório contra equipes sul-americanas jogando como anfitrião. Ou seja, os peruanos acabaram de derrubar um tabu e agora tentarão outro.
A propósito, as fotos que acompanham esse post são do jogo Peru 3x1 Bolívia, pela 2ª rodada da Copa América. Diverti-me bastante ao acompanhar a animada torcida peruana desde o metrô (foto 1) até a entrada do Maracanã (foto 2). Durante o 1º tempo um dos torcedores que estava perto de mim (foto 4) era daqueles bem fanáticos e elétricos, que cantam e pulam o tempo todo; toda vez que o Peru errava um ataque (e quando levou o gol boliviano) ele ficava furioso, rs. No 2º tempo mudei de lugar para ter uma visibilidade melhor, já que os times trocaram de lado. Os peruanos ao meu lado (foto 5) comemoraram bastante a virada e o 3º gol. Não sei quanto às demais torcidas sul-americanas, mas pelo menos a peruana achei bem carismática.
Por sua vez, o Brasil também avança à final após uma boa exibição na semifinal. Despachou a Argentina, num jogo marcado por grandes atuações de Gabriel Jesus (que enfim marcou um gol em competições pela seleção brasileira, após 9 jogos de tabu, e ainda correu 70m, driblou vários argentinos e tocou para Firmino marcar o 2º gol), Daniel Alves (liderou a equipe e ainda deu o chapéu e o passe que originaram o 1º gol) e Alisson (impressionou, p.ex., a segurança dele ao pegar uma cobrança de falta de Messi).
A defesa brasileira continua segura (ainda não tomou gols no torneio), e resistiu às forte investidas da Argentina. A Albiceleste, aliás, fez seu melhor jogo na Copa América, tanto na postura aguerrida quanto nas fartas chances de gol (teve bola na trave, no travessão e defesas difíceis de Alisson), mas continua apresentando limitações técnicas, principalmente no setor defensivo. Messi fez uma ótima partida (deu muito trabalho para Casemiro, num duelo com requintes de Real x Barça, mas o mesmo não se pode dizer dos outros dois veteranos, Agüero e Di María. Resta saber se o técnico Scaloni será mantido no cargo ou se AFA buscará um dos vários bons técnicos argentinos espalhados pelos times europeus (ou mesmo em seleções vizinhas, como o Peru). Quem sabe um bom desempenho na disputa pelo 3º lugar contra o Chile - sim, pela 3ª edição seguida do torneio teremos o embate entre argentinos e chilenos, mas dessa vez não será na final - possa segurá-lo no cargo.
Ainda sobre o Brasil, a equipe oscilou ao longo da competição: teve trabalho contra retrancas (Venezuela e Paraguai), mas foi bem contra equipes de perfil mais ofensivo (Peru e Argentina), pois Tite pôde jogar no seu estilo favorito: fazer 1x0 cedo e segurar o placar até encaixar um (ou mais) contra-ataque(s). Ajuda o fato de que enfim a dupla de ataque Jesus & Firmino desencantou, o que permite combinar a segurança defensiva com criatividade dos atacantes (e subidas dos laterais, no caso de Daniel Alves); foi a receita de sucesso de Parreira em 1994, e Tite parece querer se espelhar nesse modelo, tal como já havia esboçado em 2018. Resta saber se o Peru que enfrentará no domingo terá o mesmo estilo propositivo e agressivo que mostrou contra Brasil e Chile, com resultados bem diferentes, ou se será tão defensivo e cauteloso quanto foi contra o Uruguai. Tendo a achar que será a segunda opção, e é bom que a equipe brasileira esteja preparada para furar essa possível retranca.
A seleção brasileira é favorita para ganhar sua 9ª Copa América (a 5ª em casa), mas não pode ter a mesma postura arrogante do Chile, do contrário teremos, como bem definiu um tweet do Impedimento, "uma cruza de Maracanazo com Milagre de Berna: bater o Brasil no Rio + superar um time de quem foi goleado impiedosamente na primeira fase".

ESTADOS UNIDOS X HOLANDA NA FINAL DA COPA DO MUNDO FEMININA 2019
Após duas finais antecipadas contra França e Inglaterra, ambas vencidas por 2x1, as americanas enfrentarão as holandesas em sua busca pelo tetra. A campanha sem sobressaltos da seleção dos EUA (no máximo teve algum trabalho para vencer a Espanha nas oitavas-de-final) mostra que a longeva superioridade de sua equipe no futebol feminino continua. O triunfo sobre as inglesas foi especialmente delicioso, considerando que foi às vésperas do aniversário da Independência dos Estados Unidos (que é hoje), e teve até comemoração debochada de Alex Morgan, fingindo tomar chá (em alusão à Tea Party, de 1773, protesto que acirrou as tensões que levariam à Revolução Americana, três anos depois), o que gerou enorme polêmica entre os ingleses - tanto as jogadoras quanto, é claro, a imprensa local (sobre isso, leiam esta thread).
A Holanda terá que fazer uma partida impecável para barrar as pretensões americanas. Mesmo que tenha pego um chaveamento relativamente mais acessível que o de sua adversária na final (exceto, talvez, pelo duelo complicado contra o Japão, também nas oitavas); o desempenho das holandesas ao longo da competição foi consistente, com vitórias em todos os jogos, sendo que a última, contra a Suécia (que vinha embalada após surpreender a favorita Alemanha nas quartas, de virada), veio só na prorrogação, em uma partida bem equilibrada.
Faz sentido que a melhor seleção da América enfrente a atual campeã da Europa na final da Copa do Mundo. Os EUA teoricamente têm um time melhor, ainda mais se Rapinoe se recuperar de lesão a tempo da final; mas, quem sabe a Holanda se supera e consegue ganhar sua 1ª Copa do Mundo feminina e, com isso, alcançar algo que a seleção masculina do país ainda não conseguiu (aliás, bateu na trave três vezes - uma delas literalmente, nos acréscimos da final de 1978).

27 junho 2019

Rumo às quartas da Copa América e da Copa do Mundo feminina

Hoje começam as quartas-de-final tanto da Copa América masculina quanto da Copa do Mundo feminina. Sendo assim, farei alguns comentários sobre os duelos que acontecerão, assim como a trajetória das seleções que chegaram até essa etapa (e, eventualmente, de algumas das eliminadas).

Copa América
Brasil x Paraguai
A seleção brasileira não mostrou um bom desempenho nos dois primeiros jogos; Tite ainda não resolveu o seu calcanhar-de-aquiles dos últimos anos: enfrentar equipes retranqueiras. O placar contra a Bolívia só saiu do zero graças a um pênalti apontado pelo VAR, mas o mesmo raio não caiu contra a Venezuela - pelo contrário, o Brasil teve dois gols anulados pelo árbitro de vídeo. As críticas ao técnico alcançaram o ápice; em todas as redes sociais e caixas de comentários que eu lia era quase unânime a insatisfação com o trabalho de Tite, seja pela postura apática do time, pela insistência em jogadores que não rendiam tanto ou pelas substituições equivocadas (uma delas, a troca  entre Casemiro e Fernandinho contra a Venezuela, rendeu um meme de Galvão Bueno soltando uma interjeição seguida de silêncio constrangedor).
Felizmente o escrete canarinho se redimiu na última rodada, contra o Peru. Ajudou o fato de que os peruanos adotaram uma postura ofensiva, até mesmo temerária, nos primeiros minutos de jogo, e o Brasil de Tite "encaixa" melhor contra adversários assim. A falha do goleiro peruano ajudou a encaminhar a goleada, mas não se pode desmerecer os belos gols de Everton "Cebolinha", Daniel Alves e Willian. A entrada de Everton no time titular surtiu efeito, mas Gabriel Jesus ainda precisa jogar melhor (leia-se: fazer gols) para justificar sua titularidade. A entrada de Allan no lugar do suspenso Casemiro será um bom teste, e é vista com certo alívio dado que a opção original, Fernandinho, está contundido. 
Embora tenha conseguido apenas dois empates e uma derrota na primeira fase (e tenha sido ajudado pela incompetência de Japão x Equador, que empataram um jogo no qual o vencedor se classificaria), não se pode subestimar o Paraguai. Em primeiro lugar, porque é o time que mais eliminou o Brasil em competições no século XXI (duas Copas América - 2011 e 2015 - e um Pré-Olímpico, em 2004); em segundo, pois já avançaram bastante em edições anteriores do torneio na base do empate (o vice de 2011, por exemplo, veio após nenhuma vitória, cinco empates e uma derrota, justamente na final); em terceiro, porque a seleção paraguaia está em um momento de reconstrução, e conta com vários jogadores que se destacam no futebol brasileiro, como o goleiro botafoguense Gatito Fernández e o zagueiro palmeirense Gustavo Gómez. 
O Brasil é favorito, até por ser anfitrião, mas os fracassos recentes em quartas-de-final (inclusive contra os paraguaios) não permitem um otimismo exagerado.

Venezuela x Argentina
Pelo segundo ano consecutivo (afinal o mesmo já havia ocorrido na Copa da Rússia), a Albiceleste avançou da primeira fase em 2º lugar, com 4 pontos, na base do sufoco e contando mais com a sorte do que com o juízo. O técnico Lionel Scaloni é inexperiente e até teve boa intenção ao renovar o elenco, chamando vários jogadores que atuam no futebol local, mas em campo o time continua com seus problemas de sempre: defesa frágil, falta de entrosamento, muitos gols desperdiçados, Messi tendo que resolver tudo (e muitas vezes não dando conta do recado) etc. 
A Argentina, contudo, jamais pode ser subestimada, e talvez reencontre o bom futebol no mata-mata. O adversário nas quartas, a Venezuela, será um bom teste para isso, afinal é uma das seleções com melhor defesa da Copa América (que o digam Peru e Brasil, que não conseguiram penetrá-la) e conta com sua melhor geração de todos os tempos, que pode até sonhar com uma vaga na próxima Copa.
Os argentinos têm maiores chances de passar de fase, mas não seria surpreendente se os venezuelanos vencesses, caso mantenham a consistência que mostraram nos três jogos anteriores - aspecto esse que faltou na própria seleção argentina.

Colômbia x Chile
Promete ser o duelo mais equilibrado das quartas. Foram duas das seleções que mostraram melhor futebol na competição até agora. Os elencos são recheados de jogadores de alto nível (James Rodríguez, Mina e Cuadrado de um lado; Vidal, Alexis Sánchez e Vargas do outro), e os técnicos também são excelentes: Carlos Queiroz já levou três seleções diferentes para a Copa do Mundo (pela última delas, o Irã, chegou perto de eliminar Portugal na 1ª fase de 2018) e Reinaldo Rueda, duas (além disso, fez um ótimo trabalho recente no Atlético Nacional, tendo sido campeão da Libertadores de 2016 , e no Flamengo, onde foi vice da Copa do Brasil e da Sul-Americana de 2017). 
Queiroz pegou um ótimo time herdado de José Pekerman, e mesmo tendo um estilo tático mais defensivo que o de seu antecessor, o futebol colombiano por enquanto não saiu prejudicado pela mudança. 
Já Rueda tinha um desafio maior em mãos (um Chile que, mesmo após ser bicampeão continental e vice da Copa das Confederações, ficou de fora do Mundial da Rússia), mas por enquanto vem fazendo o time render; mesmo a derrota para o Uruguai pode ser atribuída à escalação mista, e ainda assim foi um jogo bastante disputado.
A seleção colombiana parece ligeiramente melhor, mas essa é a partida com mais cara de que poderá ser decidida nos pênaltis.

Uruguai x Peru
Falando na Celeste, ela continua com o mesmo técnico nos últimos 13 anos (Oscar Tabárez) e o nível permanece alto; pode-se até argumentar que ele vem subindo desde 2017, afinal os uruguaios ficaram em 2º nas Eliminatórias (após quatro edições seguidas ficando em 5º e tendo que jogar a repescagem) e 5º na Copa do Mundo (melhor colocação de um sul-americano). O primeiro jogo na Copa América 2019 foi um 4x0 avassalador sobre o Equador, mas logo em seguida veio um preocupante 2x2 contra o Japão, em que por vários momentos o Uruguai esteve próximo da derrota. A partida contra o Chile foi melhor, mas o time precisa encontrar alternativas para a dependência das jogadas em velocidade envolvendo Cavani (foto) e Suárez (que não está na sua melhor forma).
Já os peruanos, cuja vitória por 3x1 contra a Bolívia eu vi no Maracanã no dia 18, esbarraram no goleiro venezuelano Fariñez na primeira rodada e foram massacrados pelo Brasil (cinco gols de cinco jogadores diferentes) na última. Resta saber se serão esses jogos ou o bom desempenho na segunda, quando viraram o jogo contra os bolivianos, que será a tônica de sua performance contra os uruguaios. Gareca já fez muito mais do que se esperava pela seleção peruana (desde a classificação para a Rússia até as boas campanhas nas duas últimas Copas América), mas precisa enfrentar o envelhecimento do elenco: os dois principais astros, Guerrero e Farfán, já estão na faixa dos 35 anos de idade. Outra preocupação para o Peru é corrigir a fragilidade defensiva mostrada contra o Brasil. 





Copa do Mundo feminina
Noruega x Inglaterra
As norueguesas tiveram bastante trabalho para eliminar as australianas nas oitavas-de-final. Jogaram bem melhor, mas o 2º gol não saía (e a Austrália ainda conseguiu empatar com um gol olímpico). Nos pênaltis, contudo, tiveram um desempenho impecável e resolveram a decisão já na 4ª cobrança. É uma seleção tradicional no futebol feminino, mas seu último título foi nas Olimpíadas de 2000. Talvez seja a seleção menos cotada das oito que avançou para as quartas, mas pode surpreender a favorita Inglaterra.
Falando nas inglesas, sua trajetória é oposta à norueguesa: sua equipe vem em ascensão, e conseguiu ótimos resultados no último Mundial e campeonato europeu: 3º lugar em ambos. Sua campanha na França vem sendo impecável, com 4 vitórias. Pode chegar no mínimo à semifinal, mas dali em diante o que vier é lucro (e merecido).

França x Estados Unidos
As francesas tiveram muito mais trabalho do que se esperava para despachar a seleção brasileira. Pesou o fato de que o Brasil teve sua melhor atuação na competição (e sua melhor performance desde o 5x1 contra a Suécia nas Olimpíadas de 2016), com muito mais garra, foco e segurança defensiva do que havia mostrado nas partidas anteriores; me impressionou, por exemplo, a quantidade de desarmes. Infelizmente dois erros na prorrogação foram fatais para o destino brasileiro: o gol na cara que Debinha perdeu aos 105' e a falha de marcação na falta que gerou o tento decisivo de Henry (foto), dois minutos depois. De toda forma, o desempenho da seleção feminina deve ser enaltecido, dadas todas as dificuldades (contusões, técnico medíocre, falta de investimento nas categorias de base e clubes fortes etc.); o fato de ter caído de pé contra a seleção anfitriã só reforça esse mérito.
A França, tal como a Inglaterra, é outra seleção em ascensão no futebol feminino (5ª no Mundial de 2015, 6ª nas Olimpíadas de 2016 e no campeonato europeu de 2017), mas precisa superar essa barreira das quartas-de-final. A adversária que terá para conseguir essa façanha não poderia ser mais complicada: a equipe dos EUA, a maior campeã mundial na categoria, com três títulos, inclusive o de 2015. As americanas começaram o torneio goleando a Tailândia por 13x0, e também não tiveram problemas contra Chile (3x0) e Suécia (2x0); a primeira dificuldade apareceu no 2x1 contra a Espanha, devido à forte marcação sobre sua craque Alex Morgan, fazendo com que os gols só saíssem em duas cobranças de pênalti de Rapinoe. 
Não há dúvidas de que França x EUA será uma final antecipada; a forte seleção americana parece ter ligeiro favoritismo, mas as francesas contam com o apoio da torcida e o moral fortalecido após superarem o difícil jogo contra o Brasil nas oitavas.



Itália x Holanda
Outras duas seleções que vêm crescendo nos últimos anos, mas uma delas já tem um troféu para demonstrar isso: as holandesas foram campeãs européias em 2017; por outro lado, elas só conseguiram entrar no Mundial via repescagem (curiosamente eliminando a mesma Dinamarca que haviam derrotado um ano antes na final do campeonato europeu). O bom futebol mostrado contra as poderosas seleções do Canadá, na 1ª fase, e do Japão, nas oitavas, credenciam a Holanda a sonhar alto.
As italianas surpreenderam no grupo mais difícil da competição, ficando à frente de Austrália e Brasil. É uma seleção que conta com ótimas jogadoras como Girelli e Galli (ambas atuam na Juventus), e após a vitória tranquila contra a China nas oitavas terão pela frente um confronto complicado contra as holandesas, mas que podem vencer caso mantenham o futebol eficiente que mostraram até agora.

Alemanha x Suécia
Duas seleções cuja pesa, embora a alemã seja certamente a mais pesada. Tal como no futebol masculino, a seleção feminina da Alemanha é copeira, e sempre chega longe nas competições que disputam; basta lembrar que são bicampeãs mundiais e ganharam a última Olimpíada - aliás, em duas dessas ocasiões (Mundial de 2003 e Rio-2016) derrotaram justamente as suecas. São as favoritas, inclusive porque contam com a única defesa invicta do Mundial.
A Suécia já não conta mais com a retranqueira (mas vitoriosa) técnica Pia Sundhage - algoz de EUA e Brasil em 2016 -, mas continua sendo uma seleção que inspira respeito. Despacharam as chilenas com dois gols nos minutos finais, golearam as tailandesas (embora "apenas" por 5x1), perderam com dignidade para as americanas e venceram um duelo árduo contra o Canadá nas oitavas-de-final. Será que terão sua revanche contra as germânicas?

24 junho 2019

Esquerda em Vertigem


Assisti hoje ao documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Seguem alguns comentários sobre ele.

Em primeiro lugar, não gostei da narração de Petra; há muita chantagem emocional, beira o melodrama. Em segundo lugar, tenho fortes ressalvas à forma como a autora tenta criar uma trama segundo a qual a democracia brasileira começa a morrer nas manifestações de 2013 (que são retratadas quase como uma ingratidão aos "anos dourados" petistas, rs), e que tudo que veio depois foi orquestrado, desde o impeachment (talvez a parte mais interessante do filme, porque ela filmou várias cenas dentro do Congresso), a Lava-Jato (ela acredita na teoria da conspiração de que os EUA estão por trás da operação!) até a eleição de Bolsonaro (que claramente foi colocado no documentário de forma tardia, porque a autora deve ter tomado um susto com a eleição dele, e com isso fez um "posfácio").
Em terceiro lugar, apreciei duas coisas: a estética (a fotografia é ótima) e algo que talvez nem fosse a intenção da autora: Democracia em Vertigem é um bom retrato da perspectiva de certa esquerda brasileira sobre a ascensão e queda de seu projeto de poder. A dramaticidade da narrativa do documentário é aguçada pelo seu caráter autobiográfico, pois a autora tem uma relação religiosa com a política, já que é filha de dois militantes comunistas que viveram na clandestinidade. Ou seja, o que ela retrata é o desmoronamento da expectativa dela própria em relação ao rumo de sua vida.
Não por acaso, já li por - e concordo - que o documentário deveria se chamar Esquerda em Vertigem, não só porque para certos setores da esquerda o termo "democracia" é sinônimo de "nós no poder" (não é à toa que, sempre que outro agrupamento político vence a eleição no lugar deles, falam em ascensão do "neoliberalismo", do "conservadorismo" ou até do "fascismo", numa retórica de um maniqueísmo bem soviético), mas também porque o que o filme de fato descreve é como certa intelligentsia de classe média/alta (com ênfase no meio artístico) lidou com os acontecimentos políticos dos últimos anos. E o resultado foi, para eles, desesperador: em menos de 6 anos o paraíso se converteu em inferno, devastando todas as suas esperanças: primeiro, as manifestações populares majoritariamente contrárias ao governo que supostamente representava o povo (junho/2013); segundo, a investigação do escândalo bilionário de corrupção que mostrou de forma desmoralizante como a esquerda no poder recorreu - e até ampliou - os mesmos mecanismos que durante décadas condenou (2014-2016);  terceiro, o impeachment da 1ª presidente mulher, ainda mais simbólica por seu passado na guerrilha (abril-agosto/2016); quarto, a prisão de seu líder messiânico (abril/2018); por fim, a vitória de um candidato que assumidamente defendia o legado da ditadura militar (outubro/2018). Se eu fosse de esquerda - e, mais especificamente, petista - eu também entraria em colapso depois de tudo que aconteceu.
Em suma, o documentário prega para convertidos, só reitera a narrativa para quem já acredita nela ("golpe", "cadê as provas", "500 anos de elite escravista/demófoba/corrupta/oligárquica" etc.), e não se esforça em persuadir quem discorda dela (não só quem está no outro oposto ideológico, mas também os moderados). O tom é mais de terapia do que de documento histórico-político.

15 junho 2019

To the center of the city in the night, waiting for you



Em 15 de Junho de 1979, foi lançado o álbum Unknown Pleasures, o primeiro do Joy Division. Sem sombra de dúvidas é um dos 10 melhores discos de estréia da história do rock, não só pelo repertório extremamente consistente (contém vários clássicos da banda, como "Disorder", "She's Lost Control", "Shadowplay" e "New Dawn Fades") mas também pelo caráter inovador, na medida em que consolidou a estética post-punk e influenciou bandas dos mais diversos estilos, não só do próprio post-punk (The Cure, U2, Bauhaus...) mas também do rock alternativo em geral (Radiohead, Nine Inch Nails, Interpol, The Killers etc.).
Em 2014 escrevi uma análise estética e sociológica sobre Joy Division a partir de Adorno como um trabalho para a disciplina Teoria Estética (Letras/UERJ), e depois adaptei o texto para a revista Polivox. Eis alguns trechos, levemente adaptados, sobre Unknown Pleasures:

"Ian Curtis tinha uma notável cultura literária e filosófica, algo que sua esposa Deborah ressaltou em sua biografia Tocando a Distância: 'na maior parte do tempo, ele lia Dostoiévski, Nietzsche, Jean-Paul Sartre e J.G. Ballard'. Logo em seguida, ela observa, com certa consternação, que 'ficava chocada por Ian passar todo seu tempo livre lendo sobre o sofrimento humano'.
O Joy Division, ao mesmo tempo em que era informado pelo passado (a fascinação mórbida pelo nazismo, a começar pelo próprio nome da banda), compunha uma música futurista, que soava paradoxalmente espacial (aliás, a acústica dos shows da banda soava melhor em grandes salões do que em pequenos clubes) e claustrofóbica. Era um notável contraste com a utopia do rock dos anos 1960, com seu imaginário da estrada como fronteira (como em 'Born to be Wild', do Steppenwolf) e sua 'expansão cósmica' em bandas psicodélicas como Pink Floyd e The Jimi Hendrix Experience. 
Esta característica da sonoridade do conjunto foi reforçada pela parceria com o produtor musical Martin Hannett, que se dedicou a capturar e intensificar essa espacialidade: segundo Reynolds, 'Hannett acreditava que o punk era sonicamente conservador precisamente porque se recusava a explorar as capacidades do estúdio de gravação para criar espaço.' Uma notável amostra dessa experimentação foi Unknown Pleasures, o 1º álbum do Joy Division. 
Lançado em junho de 1979, o disco impressionou os críticos musicais britânicos por sua música 'ambiental': ruídos extravagantes (p.ex., o som de uma cadeira quebrando em 'I Remember Nothing' e o de um elevador antigo subindo em 'Insight'), ênfase no baixo, bateria desacelerada e repleta de eco e uma guitarra em segundo plano, mas capaz de produzir riffs arrepiantes. A poesia de Ian Curtis também merece destaque, ao abordar temas como epilepsia (doença da qual ele sofria e retratou, em terceira pessoa, em 'She’s Lost Control'), morte ('Shadowplay'), solidão ('I Remember Nothing'), horror ('Wilderness') e o ritmo frenético da vida urbana ('Disorder'), sendo que esta última descreve a paisagem sombria da Manchester pós-industrial e a reflete no eu-lírico, o qual percebe em si mesmo uma crescente perda de sensibilidade:

It's getting faster, moving faster now, it's getting out of hand,
On the tenth floor, down the back stairs, it's a no man's land,
Lights are flashing, cars are crashing, getting frequent now,
I've got the spirit, lose the feeling, let it out somehow

Outro exemplo da lírica melancólica de Curtis é este trecho de 'Insight':

Guess you dreams always end.
They don't rise up, just descend,
But I don't care anymore,
I've lost the will to want more,
I'm not afraid not at all,
I watch them all as they fall,
But I remember when we were young

Esta estrofe nos permite enfim remeter ao pensamento estético de Adorno. Em primeiro lugar, porque para este filósofo a arte exprime o sofrimento inerente à condição dos seres humanos, 'cindidos uns dos outros e em si mesmos'. Ou seja, ela é o veículo privilegiado de expressão do sofrimento que cada um de nós experimenta, 'de modo velado e reprimido, na vida cotidiana'. Em letras como a de 'Insight', a arte lírica aparece como linguagem do sofrimento e reflexo do desencantamento do mundo.
Em segundo lugar, porque Adorno acredita ser preciso levar a referência ao social para dentro da obra de arte, e com isso ver no poema não uma 'mera expressão de emoções e experiências individuais' e sim uma esperança de extrair, da mais irrestrita individuação, a 'participação no universal'. Em canções como 'Insight' há uma evocação do mal-estar que acometia os habitantes de Manchester (e do Reino Unido em geral) no fim da década de 1970. A propósito, a eleição da conservadora Margaret Thatcher - em quem, aliás, Ian votou como forma de protesto ao governo do trabalhista James Callaghan -, um mês antes do lançamento de Unknown Pleasures, pode ser interpretada como sintoma da insatisfação dos britânicos com a crise do país, na qual muito pesou a inércia do Partido Trabalhista diante das greves gerais e da recessão econômica.
A ressonância sociocultural da poesia de Ian Curtis, assim como sua inspiração na literatura underground de Burroughs, também encontra respaldo no depoimento da artista Genesis P-Orridge para um documentário sobre a banda, de 2008: 'suas obras eram um pesadelo pós-industrial. Se tratava de intolerância e falta de ética. Cínico, cheio de ódio, totalitário, escuro.'"