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01 abril 2014

Reflexões sobre o desfecho de How I Met Your Mother

(SPOILER ALERT: Este post contém inúmeras revelações sobre os eventos dos dois episódios finais de HIMYM. Não leia se não quiser estragar a surpresa.)

Era para eu ter escrito ontem um texto sobre tudo o que aconteceu de bom e de ruim comigo ao longo do mês de Março (um dos mais intensos da minha vida, diga-se de passagem), mas isso fica para depois. Ontem passei o dia inteiro pensando, lendo e assistindo a How I Met Your Mother, e no fim da noite vi os episódios finais com minha namorada e três amigos. "Last Forever - Part One" e "Part Two" são tão impactantes - além de polêmicos e controversos - que me senti impelido a dar minha interpretação sobre eles.

Comecei a assistir à série em Janeiro de 2011, quando ela já ela estava em sua 6ª temporada. Eis um tweet que postei na época: "Uau, em menos de 10 dias já descobri um 3º seriado legal para acompanhar: How I Met Your Mother.  Funny, e os personagens são carismáticos." Cinco dias depois, uma nova mensagem mostra que não demorou muito para eu ser fisgado pelo romantismo da série: "Grrr, os 2 últimos eps. de How I Met Your Mother que eu vi (1x12, 1x13) foram tão românticos que me "contaminaram". Odeio quando fico meloso".
Para quem não lembra, é no 13º episódio ("Drumroll, Please") que Ted conhece Victoria, e a forma como ocorre o primeiro encontro deles é tão bonita que resolvi dar um tempo em HIMYM; pressenti que seria doloroso ver como um relacionamento que começou tão bem iria necessariamente acabar mal, afinal provavelmente Victoria não seria a mãe. (Aliás, é no mínimo intrigante ter descoberto ontem (!) que, na verdade, ela poderia sim ter sido "The Mother": esse era o plano dos criadores, caso a série fosse cancelada após a primeira temporada.)
Enfim, passei alguns meses sem ver a série - e admito que um motivo para isso foi meu platonismo, pois na época eu estava em um momento difícil da minha vida de solteiro, amargurado pelo desejo de ter um relacionamento sério e duradouro. O fracasso do meu 1º namoro, em meados de 2009, não me marcou como desilusão amorosa; pelo contrário, me deixou ainda mais esperançoso de que as coisas poderiam dar certo com uma nova namorada.
O destino quis que, em Agosto de 2012, já morando no Rio de Janeiro, durante uma sexta-feira em que eu estava assistindo a alguns episódios da 4ª temporada (aliás, após uma nova pausa - e, por engano, vi o episódio "Not a Father's Day" antes do "Happily Ever After", portanto soube que a Stella deixou Ted no altar de forma indireta, e só depois assisti a como tudo ocorreu, rs), eu fosse em uma festa na qual fiquei com uma garota com quem passei horas conversando depois que a boate fechou. Ironicamente, uma das primeiras coisas que eu disse para ela no caminho - depois, é claro, de perguntar se ela já tinha ouvido falar em How I Met Your Mother - foi "Estou numa fase da minha vida em que quero parar de ser como o Ted e agir mais como o Barney". Em outras palavras, eu estava de saco cheio de tentar um relacionamento sério (dois meses antes, meu 2º namoro também acabou mal), e estava tentando ser um rapaz solteiro "normal", que fica com várias meninas sem ficar pensando em compromisso.
No dia seguinte, vi vários episódios de HIMYM e pensei que terminaria minha noite de forma pacata, mas um amigo me chamou para uma outra festa; de repente tive a idéia de chamar a menina da noite anterior para ir comigo e, por sorte, ela aceitou. Kids, that's how I met my girlfriend!
De tanto eu insistir, Carolina começou a assistir à série, o que me permitiu rever os episódios (foram muitas maratonas!) e notar o quanto How I Met tinha a ver com nosso relacionamento, desde coincidências da nossa história com a da "mãe" e Ted até semelhanças entre nós e o casal Marshall & Lily. (Meses depois fizemos um teste no Zimbio que confirmaram que "somos" estes dois personagens.) Isso me levou a pronunciar, certo dia, uma frase que define a importância da Carol na minha vida: "Estava tentando ser menos parecido com o Ted e mais com o Barney. Acabei virando Marshall".

Fiz todo esse prefácio para finalmente chegar à análise de "Last Forever". (Mais uma vez aviso: spoilers a seguir!) Se HIMYM já era conhecido por seu enredo cheio de reviravoltas, os quarenta minutos finais da série levaram essa premissa às últimas conseqüências:
1) Após três temporadas "construindo" o casamento de Robin e Barney (sendo que a última delas se passou inteira durante os 3 dias da cerimônia), é revelado que, apenas três anos depois, o casal se divorciou. O principal motivo para o término foi a prioridade que Robin deu à sua vida profissional, viajando pelo mundo inteiro para fazer suas coberturas jornalísticas. Barney se cansa dessa rotina e, cumprindo seu voto de que sempre seria sincero a sua esposa, confessa que está insatisfeito, e ambos terminam amigavelmente - bem, não tanto quanto no break-up anterior (no 7º episódio da 5º temporada, em 2009), pois Robin começa a se afastar cada vez mais do grupo de amigos. Porém, há um outro motivo para esse distanciamento...
2) ... que é o fato de que ela percebe o quanto ama Ted e o quanto dói vê-lo tão feliz com Tracy (eis o nome da mãe!). Uma tragédia, entretanto, muda tudo: após 11 anos de relacionamento, 4 anos de casamento e 2 filhos, Tracy é acometida por uma doença terminal (não é especificada qual, mas imagino que tenha sido algum câncer) e morre em 2024. Após seis anos de luto - eis a grande revelação deste episódio final -, Ted conta a seus filhos a história de "como conheci sua mãe", mas segundo eles próprios aquilo soou mais como "ainda sinto algo por sua tia Robin". Penny e Luke dão a seu pai o aval para tentar retomar a relação com sua ex-namorada, agora que ambos já conquistaram aquilo que antes os impedira de continuar o namoro: seus interesses conflitantes (Ted se casou e teve filhos e Robin já viajou pelo mundo inteiro e alcançou sucesso profissional).
3) Para completar, Barney "regride" ao estilo de vida promíscuo e playboy que o caracterizava antes de seu amadurecimento emocional, a partir da 7ª temporada, o qual floresceu em seus relacionamentos com Nora, Quinn e Robin. Ele, contudo, abandona esta persona de "player" quando descobre que uma das garotas com quem teve one-night stand está grávida - e de uma menina! Barney volta a "evoluir", passando a ser menos misógino. Achei muito bonito o que ele disse quando segurou pela primeira vez sua filha Ellie: "Você é o amor da minha vida. Tudo que tenho... e tudo que sou... é seu. Para sempre."
4) Por sua vez, Marshall e Lily têm um terceiro filho. Além disso, após cinco anos desde que desistira de ser juiz para viajar para a Itália e comemorar a segunda gravidez de Lily, Marshall é chamado novamente para ser juiz; e, em 2020, "Marshmallow" ganha a eleição para a Suprema Corte. "Lawyered!"

Ao longo dos últimos meses, a teoria de que a mãe estaria morta ganhava cada vez mais força nos fóruns da internet; mesmo assim, muitos fãs duvidavam que a série poderia ter tal desfecho, e consideravam que tudo não passava de "conspiração", de especulação mórbida. Eu mesmo era um deles, como demonstra este comentário que fiz ontem no Facebook, em resposta a uma amiga: "você leu a teoria do "The Mother is dead"? Eu achei meio viajada (e inverossímil, afinal seria uma maneira extremamente depressiva de acabar a série), embora episódios como "Tive Travelers" e "Vesuvius" dêem subsídios para ela.
Sobre os episódios mencionados: no primeiro deles Ted faz um discurso extremamente triste sobre o fato de que gostaria de ter passado 45 dias a mais com "a mãe": 


Já em "Vesuvius" há várias pistas: 1) a mãe diz a Ted que ele não pode mais viver em suas histórias, pois precisa seguir em frente ("life only moves forward"); 2) ao se lembrar de que o casamento de Barney & Robin foi uma das últimas ocasiões em que todos os cinco amigos estiveram juntos, Ted consola-se ao pensar que é melhor aproveitar os momentos enquanto você ainda pode, e assim deixar algumas coisas não-ditas ("it's best to leave it unspoken"); 3) quando seu marido se refere ao fato de que a mãe de Robin finalmente apareceu no hotel, Tracy brinca: "Que tipo de mãe iria perder o casamento da própria filha?". Ted reage de forma bastante emotiva, como se tal frase fosse premonitória:




Os cinco minutos finais da série confirmaram as teorias (e temores) dos fãs. O tom nostálgico de Ted ao se referir à mãe, combinado com um "slide-show" de momentos importantes que passaram juntos (e com os filhos), me preparou para o pior. Eis que ele diz, após explanar sobre a importância de perseverar no amor a despeito de todas as brigas e desentendimentos: "Eu carreguei essa lição comigo. Carreguei até mesmo quando ela adoeceu. Até lá, no que podemos chamar de pior dos tempos, tudo o que eu conseguia fazer era agradecer a Deus (...) por ter encontrado aquela garota linda, naquela plataforma de trem, e por ter tido coragem de me levantar, caminhar até ela, e tocar seu ombro,  abrir a minha boca, e falar." Foi um final emocionante. 
Muitos, no entanto, não gostaram desse "plot twist"...

Este texto foi profético sobre como seria a reação de muitos fãs caso "The Mother is dead" fosse mais do que uma especulação: "Really, this could all be a big, misleading twist. Just for fun, though, can we just step back and imagine what the Internet will do if it reveals that after nine seasons of Ted telling the tale of How He Met Their Mother to his future kids, it’s all because the mom is dead? It would be a triumph for conspiracy theorists everywhere, but Internet commenting systems might actually explode. If there’s one thing you don’t want to do, it’s make an obsessed fandom feel like they’ve wasted their time (still thinking of you, “Lost”) — and that’s how many would feel if the producers revealed that the end of a glorious love story is actually a completely depressing tale of death."

Nas últimas horas li textos extremamente agressivos, criticando o desfecho de How I Met Your Mother. Compreendo a sensação indignada de muitos fãs, afinal não foi o "final feliz" que se esperava; porém, acredito que é justamente por isso que gostei tanto dele: foi corajoso, ousado. Destruir as expectativas dos telespectadores dessa maneira pode render, por exemplo, a acusação de que unir Robin e Ted foi um "cheap trick"; mas, peço que os detratores façam o seguinte: assistam novamente ao primeiro episódio da série. Creio que um dos motivos pelos quais adorei o final foi justamente porque havia decidido rever o piloto de HIMYM ontem, enquanto almoçava. Poucas vezes a estréia de uma série cresceu em importância à medida que ela avançava. A chave para entender o porquê desta comédia dramática ter terminado com o casal Ted & Robin reside no fato de que How I Met começou justamente enfatizando o quanto os dois combinavam, o quanto tinham uma notável química: 



Mesmo que o narrador termine o episódio-piloto deixando claro que ela não é a mãe mas sim a "tia Robin", é impossível acreditar que as coisas parariam ali. Ted precisou de nove temporadas para "esquecer" Robin, mas foi graças a esse processo de superação que este personagem se tornou maduro o bastante para "estar pronto" para encontrar o amor de sua vida, Tracy. Depois que sua esposa morreu, Ted passou por um longo período de luto até perceber que, viúvo aos 52 anos de idade, ele merecia a chance de ainda (tentar) ser feliz. O amor eterno jurado à "mãe" não o obrigava a passar o resto da vida sofrendo, se martirizando com o próprio passado - e esse "siga em frente" foi algo que a própria Tracy pediu para que ele fizesse: "I don't want you to be the guy who lives in his stories."
Para aqueles que ainda não estão convencidos do pleno sentido que a morte da mãe faz para o enredo da série, eis algo que ela diz no famoso episódio "How Your Mother Met Me":



Portanto, também ela passou pela perda traumática do amor de sua vida (Max), e demorou seis anos até decidir namorar novamente. Porém, foi preciso tomar uma decisão mais radical ainda: ela recusou o pedido de casamento de Louis porque sentia que aquele relacionamento ainda não era o bastante, era "casual", não tinha a consistência que ela precisava para que realmente considerasse que havia superado o luto. Eis que, na noite seguinte, ela conhece Ted, sua "segunda chance no amor", e ele foi um companheiro maravilhoso para Tracy nos 11 últimos anos da vida dela.
O ponto central da trama não é, portanto, "como conheci a pessoa perfeita para mim", mas sim "como superei a perda de alguém que eu amava e estou me dando uma segunda chance de ser feliz". Um comentarista do A.V. Club explicou bem isso, relacionando este tema com a cena acima: "A scene that also takes on additional weight in retrospect is when Tracy breaks off her relationship and asks her deceased ex for permission to move on. Her decision to move on with her life and try to find happiness does not detract from her love for him. Likewise with Ted, she did not want him to "live in his stories" and she would have given him permission to be able to move on and explore a life with Robin. It does not take away from his love for Tracy. This is the story of him six years later thinking back on his younger life and deciding it's not too late to give Robin another chance."
Este outro comentário feito por um dos fãs no A.V. Club sintetiza bem o que eu penso: "The show was never really about meeting the mother. They said that many times- it's about the journey. Just because he gets with Robin TOO doesn't mean his journey to meet Tracy, THE MOTHER OF HIS CHILDREN, isn't equally important. It's about how it's not about the "one" or even about the perfect person. Robin and Ted would never get married before: he wanted and needed kids and she needed to travel and be independent. If Ted had met Tracy when he met Robin, he was not the man he needed to be.
Para encerrar as "referências bibliográficas", este belíssimo texto de Donna Bowman - mesmo tendo sido escrito antes de ela ver o episódio final - também enfatiza que a série é sobre amadurecimento, tanto afetivo quanto num sentido mais amplo.
Cabe afirmar também que HIMYM já havia lidado anteriormente com o tema da mortalidade, e sempre de forma tocante; por exemplo, a morte do pai de Marshall (6ª temporada), ainda mais por ela ter ocorrido no mesmo dia que o marido de Lily havia descoberto que seria pai pela 1ª vez. É raro ver uma comédia com tamanha capacidade de emocionar:


O final de How I Met Your Mother é do tipo "ame ou odeie", e vai continuar a dividir opiniões por muitos anos. De alguma forma, contudo, eu prefiro um final assim do que um feito na medida para agradar aos fãs, como o de Friends. A ousadia dos criadores de HIMYM me fez lembrar de outro desfecho inusitado: o de Seinfeld, que "cuspiu" na cara dos fãs ao mostrar que os quatro protagonistas eram cínicos e misantrópicos, e portanto mereciam ser "punidos" por anos e anos de comportamento abertamente anti-social.
É claro que muita gente que acompanhou a série estava movido pela expectativa de que haveria muitos episódios sobre "a mãe", e que portanto o título do seriado deveria ser tomado ao pé da letra; mas, esta nunca foi a intenção dos criadores. O fato de que o final de How I Met já estava roteirizado em 21 de Fevereiro de 2006 deixa claro que, já em seus primórdios, HIMYM é a história da superação, pelo protagonista, da perda da "Mother", e uma investigação autobiográfica que permite a redescoberta de um amor antigo. Robin e Ted finalmente estão maduros e livres para serem felizes para sempre. Ambos tiveram suas auto-realizações (ela no trabalho - e, durante algum tempo, no casamento com Barney; ele, na vida conjugal com Tracy e nos dois filhos que tanto queria ter); agora que estão solteiros na meia-idade, por que não tentarem novamente um relacionamento? Nossa vida é muito curta para ficarmos eternamente atormentados pelo passado, assombrados pelas lembranças de bons tempos que não voltam mais. Sendo assim, vale a pena arriscar; mesmo que dê errado, é melhor tentar do que não fazê-lo e passar o resto dos dias em amargo arrependimento. Creio que esta é uma bonita lição de vida, e que atenua qualquer morbidez que possa haver no final da série.

26 fevereiro 2014

Ruby Tuesday

Ontem foi um ótimo dia.
Eu e Carol acordamos cedo, tomamos café da manhã enquanto assistíamos à série Girls, compramos nossos ingressos para o 2º dia do Lollapalooza (palavras-chave: Pixies e New Order) e pegamos o 435 para ela ir para o UFRJ no Fundão e eu, para a PUC na Gávea.
No ônibus terminei de ler o ensaio "Suplementos à teoria do sofrimento do mundo", um dos melhores de Arthur Schopenhauer. Percebi que ele será mais pertinente do que eu esperava para o trabalho final que vou escrever sobre a compaixão em Schopenhauer.
Assim que cheguei na PUC comprei meu caderno; por sorte achei um da Cambridge, mesma marca de um dos melhores que já tive (o que usei no 1º semestre de 2011, ainda na UnB). Almocei no Spoleto do Shopping da Gávea, e depois fui para a primeira aula de História e Historiografia da Cultura I, matéria obrigatória do mestrado em História Social da Cultura que farei como ouvinte. Ela será bem interessante: uma discussão sobre o conceito moderno de História, inicialmente a partir do verbete "História" do dicionário de conceitos fundamentais organizado por Koselleck e cia. e depois com leituras sobre as transformações da História desde a ênfase ético-política dos renascentistas ("a História como mestra da vida") até a concepção da mesma como processo, teleologia pelos iluministas. A propósito, o professor da disciplina, Marcelo Jasmin, é um dos "culpados" de eu ter vindo fazer pós-graduação no Rio de Janeiro, pois adorei a palestra que ele deu em 2010 na ABCP (a qual foi justamente sobre o tema desta disciplina que farei), e decidi que iria fazer mestrado no ex-IUPERJ e atual IESP/UERJ.
Depois que a aula acabou, fui na livraria Carga Nobre e comprei o livro que será usado nas primeiras aulas, o já mencionado O Conceito de História (Koselleck, Meier, Günther, Odilo Engels). Acabei encontrando duas amigas minhas quando estava saindo da livraria, e ficamos conversando sobre política e economia e relembrando sábado passado, quando fui num bar da Cobal com elas, a Carol e dois amigos nossos. Depois que nos despedimos, fui para a sala dos alunos que fica na secretaria do departamento de História. Fiquei por lá meia hora batendo papo com umas colegas do mestrado, e às 16h desci para a aula de História e Historiografia da Cultura IV, obrigatória do doutorado e ministrada justamente pelo meu orientador, Ricardo Benzaquen. O curso será sobre três autores que eu adoro (e que inclusive usei como base teórica na minha dissertação): Georg Simmel, Max Weber e o jovem Lukács. Durante a aula também conheci os colegas de turma de doutorado que eu ainda não havia conhecido nas reuniões de matrícula (12/2) e de apresentação da pós-graduação em História Social da Cultura (21/2).
Encerrada a aula, finalmente veio a conversa que eu aguardava há mais de dois meses: enfim eu e o Benzaquen falamos sobre a questão dos dois doutorados. Ele sensatamente me recomendou a fazer só um dos dois, e mostrou-se solícito à idéia de ser meu co-orientador, caso eu fique só no IESP. De toda forma, o veredicto será só daqui a duas semanas, quando saírem as cotas de bolsas para os programas de doutorado. Não vejo muitas chances de eu ganhar bolsa CAPES ou CNPq pela PUC, então a tendência é eu preferir fazer Sociologia no IESP/UERJ. Quando as aulas voltarem lá, vou conversar com o César sobre a orientação. De toda forma, o Benzaquen disse que posso continuar fazendo duas disciplinas da PUC que escolhi fazer neste semestre (além da dele, estou fazendo História e Cultura Urbana, com o Antonio Edmilson), pois elas contarão como matérias externas.
Confesso que esta conversa me tranqüilizou bastante, pois desde Dezembro eu estava agoniado com o dilema em decidir qual dos dois doutorados fazer, ou mesmo ter que cursar ambos. Fico feliz que o professor Ricardo esteja me ajudando nisso.
Em torno das 18h30 peguei o 432 que estava saindo da PUC, e terminei de ler outros dois ensaios de Schopenhauer ("Sobre o suicídio" e "Suplementos à doutrina da afirmação e da negação da vontade de viver"), e estou impressionado com o impacto da ética dele sobre mim. Ele está longe de ser o pessimista que muitos apressadamente o rotulam; há um genuíno fundamento ascético em sua filosofia moral, que busca evitar esperanças vãs na vida e desenvolver um auto-conhecimento profundo das limitações e imperfeições inerentes ao ser humano. É claro que o tom dessas considerações é inevitavelmente desiludido e amargo, mas ao mesmo tempo há um efeito quase catártico, parecido com o do cristianismo monástico, em trechos como o seguinte: "Com qualquer tolice, falha, vício humano, deveríamos ser indulgentes, pensando que o que temos diante de nós é somente nossas próprias tolices, falhas e vícios: pois são justamente as falhas da humanidade, a que também nós pertencemos, possuíndo em conseqüência também todas a falhas, mesmo aquelas sobre as quais ora nos indignamos apenas porque justamente agora não se manifestam em nós." (pp. 163-164)
Quando o ônibus estava passando em Copacabana, mandei mensagem avisando a Carol, para que quando ele passasse em Botafogo ela o apanhasse. O plano deu certo - mais ainda porque, segundo ela, o 432 que passou no ponto antes estava lotado, enquanto o que pegamos estava relativamente vazio. Para melhorar, tivemos uma ótima conversa no ônibus.
Chegando em casa, assistimos ao episódio novo de How I Met Your Mother, "Rally". Achei-o muito engraçado, cheio de referências - e desfechos - à mitologia da série: Weekend at Barney's, os desejos ligeiramente lésbicos de Lily por Robin, a bebida anti-ressaca, entre outras. Também gostei de ver mais uma demonstração de maturidade emocional de Barney.
Enfim, estes foram os motivos pelos quais gostei tanto de 25 de Fevereiro.

11 fevereiro 2014

Come Sail Away


Assisti agora há pouco ao último episódio de Freaks and Geeks, e minha admiração pela série é ainda maior do que a demonstrada no post anterior. É incrível como tanto o roteiro quanto as atuações conseguem transmitir uma notável mescla de seriedade e sensibilidade. 
A crise existencial de Lindsay (aliás, sempre interpretada de forma brilhante por Linda Cardellini) é o centro gravitacional de Freaks and Geeks - algo que o último episódio mostra de forma tocante e com um desfecho surpreendente. A série, contudo, também dá um generoso espaço para os demais personagens, chegando ao ponto de praticamente fazer um episódio próprio para cada um deles. Exemplos não faltam: Lindsay procura conhecer outras facetas de seu self para além do estigma de "a melhor aluna da escola"; seu irmão Sam (John Francis Daley) enfrenta as "panelinhas" típicas do ensino médio e mostra um notável senso de moralidade; os "freaks" Daniel (James Franco), Kim (Busy Phillips) e Nick (Jason Segel) lutam contra tanto a baixa auto-estima quanto a subestimação de seus pais e professores; os dramas familiares dos "geeks" Bill (Martin Starr) e Neal (Samm Levine) são comoventes; e mesmo personagens mais fechados como Ken (Seth Rogen) amadureceram bastante ao longo dos 18 episódios. 
Por fim, cabe ressaltar o viés "humanista" de F&G: concordo com Todd VanDerWerff quando ele diz que os personagens de Freaks and Geeks são fundamentalmente bons; por mais que cometam erros, estão sempre dispostos a se tornarem pessoas melhores. 
Enfim, esta série se tornou uma das minhas favoritas; ouso dizer que é uma genuína coming-of-age story, de um romance de formação em forma de seriado televisivo.
P.S.: Sim, a trilha sonora continua espetacular nos 11 últimos episódios. Para não dar maiores spoilers para quem ainda não viu a série, direi apenas que dois dos capítulos homenageiam The Who e Grateful Dead!

[...]

Hoje viajo para o Rio de Janeiro, pois amanhã é o único dia em que haverá a matrícula do doutorado na PUC. As aulas no IESP, no entanto, só começam em Março; mesmo assim, aproveitarei as próximas semanas para terminar (aliás, começar!) os trabalhos finais de "A Sociologia como Filosofia Moral" (farei um sobre o conceito de compaixão para Schopenhauer) e "A Teoria Estética de Theodor W. Adorno" (analisarei o contexto social e a música da Joy Division a partir do pensamento de Adorno). Também preciso terminar um artigo sobre Mario Vieira de Mello para uma revista, e já estourei meu prazo; estive tão em ritmo de férias (games, TV, internet, ir ao shopping para comprar livros e CDs etc.) que não consegui me concentrar para escrever nada. Espero que, chegando no RJ, eu consiga encontrar a inspiração necessária.
Estas férias estão entre as melhores que tive até hoje, principalmente pelo bom tempo que passei com minha família (tanto os pais e irmãos quanto as visitas aos avós) e pelas três semanas que a Carol esteve comigo (destaque para os quatro dias que passamos em Brasília). Foi uma renovação "de corpo e alma" comparável à de 2008, e coincidentemente em outro ano no qual começo uma nova etapa da minha vida: se seis anos atrás me preparei psicologicamente para a UnB, desta vez me "energizei" para o doutorado. 
Tomara que este ano continue tão bom quanto começou!

01 fevereiro 2014

Bad Reputation


Por enquanto só assisti a 7 dos 18 episódios, mas Freaks and Geeks já é uma das minhas séries favoritas. É o melhor retrato da adolescência que já vi na televisão, pois cumpre aquilo que Skins prometia, mas perdeu o rumo a partir da 3ª temporada: mostrar de forma realista os conflitos existenciais e sociais de seus jovens personagens, oscilando com maestria entre o humor e a catarse.
Outro ponto forte da série são seus protagonistas: Lindsay (Linda Cardellini), uma "geek" que procura se aproximar dos "freaks" e freqüentemente sente o choque entre os dois mundos, mas sempre age com bom coração diante das dificuldades; e seu irmão Sam (John Francis Daley), que está em meio à transição da infância para a puberdade e a cada episódio precisa lidar com as mudanças que o amadurecimento lhe coloca. 
A trilha sonora é excelente: a abertura tem "Bad Reputation" (Joan Jett), e ao longo da série tocam bandas como Styx, Cream, Rush e Van Halen. Provavelmente encontrarei ainda mais músicas de qualidade nos episódios que ainda não vi.
O episódio 4 ("Kim Kelly is my friend") é tão visceral ao apresentar a família disfuncional de Kim (Busy Philipps) que na época chegou a ser censurado pela NBC; só foi exibido um ano depois, pela Fox Family, que comprou os direitos da série depois que esta foi precocemente cancelada.
Além de ter Judd Appatow (Girls, Superbad, O Virgem de 40 Anos) como produtor executivo, cabe também mencionar o elenco lendário de Freaks and Geeks, que revelou atores como Linda Cardellini (a Welma de Scooby-Doo),  Jason Segel (o Marshall de How I Met Your Mother), Seth Rogen (que fez personagens hilários em filmes como O Virgem de 40 Anos e Superbad), James Franco (o Duende Macabro de Homem-Aranha) e Busy Philipps (a Audrey de Dawson's Creek).

Eis uma boa definição da série feito pelo Todd VandDerWerff, que resenhou todos os episódios no A.V. Club: "The audience that wants the easy-fix excitement of a cop, doctor, or lawyer show has always been larger than the audience that wants something more experimental. This is too bad for Freaks And Geeks, because here’s a show that’s never once met a set of high stakes it could get behind. The high stakes in “Carded And Discarded” are all theoretical—Lindsay might not get into college someday!—or incredibly intimate—Sam and his friends might lose their new friend, Maureen! That makes this the very definition of low-stakes television, complete with a lengthy montage of people setting off model rockets. (You won’t see that on Without A Trace.)"

31 janeiro 2014

Full recovery

Deu tudo certo na cirurgia de extração dos sisos, mas em compensação tive que ficar uma semana como um velho precoce, pois eu só podia consumir alimentos líquidos (sopas, caldos, vitamina) ou sorvete. Hoje finalmente tirei os pontos e pude voltar a comer alimentos "mastigáveis".
Estou assistindo a três séries ainda em cartaz (Girls, Community e a última temporada de How I Met Your Mother) e uma clássica (Freaks and Geeks). Nos últimos dias estava meio sem vontade de ler, mas hoje retomei O Hobbit
Já corrigi os trabalhos finais da minha turma de Sociologia Geral. Fiquei extremamente satisfeito com o alto nível dos textos dos alunos; houve muitas notas 9 e 10.
Volto para o Rio no dia 11, portanto ainda tenho uma semana e meia de férias em Goiânia (e, talvez, Brasília, caso eu resolva passar uns dias da semana que vem lá).

24 janeiro 2014

Janeiro, 2014, pp. 1-24

O Início do Ano
3 - Eu e Carol fomos ao cinema assistir ao filme Frozen. Gostei bastante, pois além de ser muito bonito, tece uma autocrítica ao "amor à primeira vista" das princesas da Disney.
6 - Aniversário do meu irmão Fernando, devidamente comemorado com um lanche no McDonald's.
7 - Após mais de 16 anos procurando este disco (e não tendo dinheiro quando o encontrava), ontem finalmente comprei Titanomaquia, o disco grunge/metal dos Titãs. Faixas como "Hereditário" e "A Verdadeira Mary Poppins" estão entre as melhores da banda.
Aproveitei para comprar na Leitura o romance World of Warcraft: A Ruptura para dar de presente de aniversário para o meu irmão.
9 - Dia da formatura da prima do Gino, no longínquo campus Samambaia da UFG.

A Viagem para Brasília
10 - Eu e Carolina viajamos para Brasília. Jantamos na excelente pizzaria Valentina para comemorar nosso aniversário de "conhecença".
11 - De manhã fomos ao Sebinho, onde comprei os CDs Death to the Pixies e uma coletânea dos Engenheiros do Hawaii, além da biografia Os Irmãos Mann (Nigel Hamilton). À noite tomamos sorvete na Palato.
12 - Finalmente entendi as instruções do Gino (culpa minha e não dele, que fique claro, rs) e arrumei a internet no apartamento. À noite eu e minha namorada fomos ao Outback, onde encontrei dez dos meus amigos de Brasília. Foi uma noite divertida.
13 - À tarde encontrei meu amigo Thiago na Palato, depois fui a um sebo e por sorte encontrei As Cabeças Trocadas (Thomas Mann). Por fim, eu e Carol comemos no Burger Gourmet junto com a Janaína, uma amiga dela e o Fernando.
14 - De manhã demos uma passada na BCE da UnB, para eu pesquisar e fichar uns livros do José Guilherme Merquior, pois tentarei apresentar um trabalho na ABCP sobre ele. Depois do almoço o Robert nos deu carona para Goiânia.

De volta a Goiânia
16 - Fomos bem cedo para o aeroporto, pois era hora de a Carol voltar para o Rio. Ainda neste dia enviei meu resumo para a ABCP.
17 - O Gino deu uma passada aqui em casa e jogamos, junto com meus irmãos e o dele, Super Smash Bros. (N64); depois assistimos ao episódio V de Star Wars: O Império Contra-Ataca.
18 - Terminei de ler Confissões do impostor Felix Krull (Thomas Mann). É um livro divertido e com um narrador-protagonista carismático, que vive grandes aventuras como um farsante. Minha cenas preferidas: quando Felix simula um ataque epiléptico para escapar do serviço militar; a conversa em que ele e o Marquês de Venosta decidem trocar de identidade durante um ano; o encontro entre Felix - disfarçado de Marquês - com o rei de Portugal, no qual ele alega sua visão política conservadora e aristocrática; o "discurso do amor" que o protagonista faz para Zuzu, sua amada portuguesa. 
19 - Comecei a ler Nos penhascos de mármore, de Ernst Jünger.
22 - Terminei de ler Nos penhascos de mármore. É uma obra que começa lenta, cheia de descrições botânicas, mas que a partir do capítulo 7 (no qual se fala pela primeira vez do monteiro-mor) se torna uma obra política e repleta de suspense e terror. Jünger escreve magistralmente, e passagens como a da batalha no Corno do Carrasco são sublimes.
Após 45 horas de jogo (como já disse em outro post, fiz várias side-quests, rs), finalmente venci a Elite Four e a Champion em Pokémon X! Eis a minha equipe: Nico (Gardevoir) lv. 65, Hendrix (Delphox) lv. 65, Lennon (Heracross) lv. 65 , Rita Lee (Garchomp) lv. 66, Francis (Blastoise) lv. 66 e Kim Gordon (Gengar) lv. 66.
24 - Vou fazer às 7h uma cirurgia para extrair meus sisos.

31 dezembro 2013

Um balanço de 2013

I. Mês a mês

Janeiro: Passei a virada do ano sentado no sofá com a Carol, assistindo ao DVD do show dos Beatles no Shea Stadium. Nos dias seguintes passeamos por Brasília e Goiás Velho. Depois que ela voltou para o Rio, continuamos mantendo contato pelo Skype. Uma das estratégias para amenizar a saudade foi fazer colóquios semanais sobre diversos temas: arquitetura, literatura, lendas do Rei Arthur, filosofia etc. No último dia do mês, finalmente venci o Champions Tournament de Pokémon Black 2. Passei mais de três semanas tentando, acumulei dezenas de derrotas, mas enfim superei o desafio ao vencer Wallace (campeão da Liga em Pokémon Emerald) na final.

Fevereiro: Um dos destaques do mês foi a leitura de O Humanista (Mario Vieira de Mello), um dos maiores - e menos conhecidos - pensadores brasileiros do Século XX. Gostei tanto dessa obra que meses depois apresentei um trabalho sobre ele num congresso acadêmico. Na madrugada do dia 3, após horas tentando baixá-lo, finalmente ouvi o 3º disco do My Bloody Valentine (mais sobre ele daqui a pouco!). Além dos colóquios via Skype com a Carolina, passei boa parte do mês assistindo às novas temporadas de Community e Girls. Terminei de ler A Teoria do Romance (Lukács), obra importante para o desenvolvimento do meu trabalho final de Teoria Sociológica II. Por fim, passei pelo último desafio de Pokémon Black 2: os 10 andares da Black Tower.

Março: A ansiedade em relação a onde eu moraria em 2013 finalmente chegou a um desfecho: a Carol visitou um bom quarto em Copacabana, e no mesmo dia minha mãe ligou para a dona do apartamento para confirmar. Voltei no dia 7 para o Rio, e terminei os três trabalhos finais a tempo - embora com um pouquinho de emoção (leia-se: imprimir na Xerox faltando 5 minutos para ela fechar). Finalmente comprei e li o excelente Saudades do Carnaval: Introdução à crise da cultura (José Guilherme Merquior); aliás, boa parte da leitura se deu em Saquarema, cidade para a qual eu, Carolina, a irmã e dois amigos dela viajamos. Foi uma boa viagem, com direito a fondue de carne e uma épica partida de War.

Abril: No dia 2 assisti a uma palestra de Luiz Felipe Pondé na PUC-Rio. Gostei dela, mas desde então meu interesse por Pondé diminuiu; confesso que estou frustrado com a auto-vulgarização pela qual ele vem passando. Creio que o jeito cínico dele já não me diverte mais... 
Dois dias depois eu e minha namorada comemoramos nosso aniversário de namoro de uma forma bem especial: assistindo ao show do The Cure no HSBC Arena. Foi uma apresentação longa, com quarenta músicas em três horas; portanto, a banda fez justiça à sua enorme história (e discografia). Não faltaram clássicos: "Lovesong", "Lullaby", "A Forest", "The Walk", "Killing an Arab" etc. Dia 8 foi aniversário da Carolina; comemoramos no dia anterior, junto com os amigos dela, no Outback. 
Ainda neste mês assisti a alguns jogos da Libertadores com outros palmeirenses em um bar de Botafogo; foi uma boa experiência, infelizmente interrompida semanas depois com a eliminação do Palmeiras nas oitavas-de-final. No dia 28 terminei de ler Os Buddenbrooks (Thomas Mann), um belo, monumental - e, por vezes, irônico - romance sobre as quatro gerações de uma família que "decai" do espírito comercial para a sensibilidade artística.

Maio: Comecei o mês com febre, pela 1ª vez em muito tempo; porém, recuperei-me rapidamente. No dia 6 começou o estágio-docência, no qual dei aulas de Sociologia I para calouros de História da UERJ, junto com meus amigos Hugo e Fernando. Ao longo do semestre fiquei responsável pelas aulas sobre Max Weber, Nietzsche, Alexis de Tocqueville e Norbert Elias; aproveitei para dar uma sobre A Ideologia Alemã (Marx) e outra sobre a história político-partidária e acadêmica do marxismo. Foi uma ótima experiência docente. 
No dia 14 baixei e ouvi o 4º disco do Daft Punk, Random Access Memories; mais detalhes em II. Os melhores discos
Fui a uma palestra sobre Chesterton na UFF e conheci vários conservadores cariocas; passei o dia inteiro conversando com eles. Voltei a ler Mario Vieira de Mello (Desenvolvimento e Cultura) para começar a preparar o trabalho sobre ele que eu iria apresentar em Agosto no III Fórum Brasileiro de Ciência Política; porém, a principal leitura do mês foi Uma História Filosófica da Sociologia Alemã, do meu professor Frédéric Vandenberghe. 
No dia 24 fui ao churrasco dos pós-graduandos do IESP; não foi tão bom quanto a edição 2012, mas pelo menos tive boas conversas, comi bem e vi a final da Champions - Bayern 2x1 Borussia.

Junho: Apresentei em Porto Alegre, no V Seminário Nacional de Ciência Política, um trabalho sobre O Pensamento Conservador nas Considerações de um Apolítico de Thomas Mann. Aliás, os dois dias que passei na capital gaúcha foram ótimos; fiquei hospedado em um hostel bem legal e aproveitei para ir nas apresentações de graduandos na Semana da Filosofia que estava acontecendo na UFRGS. 
Não fui em nenhuma manifestação; ignorei-as solenemente. Só me "manifestei" com choque diante do infernal dia 20 de Junho, que encerrou prematuramente a euforia em torno dos protestos. No mesmo dia fui com a Carol assistir ao jogo Espanha 10x0 Taiti no Maracanã, e demos sorte de voltar cedo para casa, pois poucos minutos depois o clima esquentou no centro do Rio. No mês mais politizado dos últimos anos, portei-me como um esteta (e um entusiasta de futebol, afinal me empolguei bastante com a Copa das Confederações; aliás, o desempenho do Brasil de Felipão foi uma grata surpresa). 
Comemorei meu aniversário com minha namorada e alguns amigos numa pizzaria de Vila Isabel; ganhei da Carol - e me dei de presente - vários livros:

Julho: Um artigo meu sobre o mito de Fausto - e como foi representado na tragédia de Marlowe - foi publicado na 13ª edição da Revista Tempo de Conquista. Terminei de escrevê-lo no início da estadia de minha mãe e meus irmãos no Rio de Janeiro. Foram quatro dias regados a muita comida, muitos passeios e até uma inédita ida à praia, onde minha mãe tirou uma foto divertida na qual estou lendo outra obra do Merquior, O Marxismo Ocidental:

Antes de viajar para Brasília no dia 22, terminei em cima do prazo um artigo sobre Adorno e Thomas Mann que tinha uma dupla finalidade: ser meu trabalho final de Poéticas da Modernidade (matéria sobre Lukács, Benjamin e Adorno que fiz no 1º semestre) e minha contribuição para o I Simpósio de Estética e Filosofia da Música, que seria realizado meses depois (aliás, a deadline se refere a este motivo, pois eu tinha que terminá-lo até 20/7).
Na capital federal participei pela 4ª vez do "RPG legislativo", o Politéia. Fiz meu melhor projeto de lei - sobre uma reforma curricular para o Ensino Médio - e debati-o intensamente com meu relator (a ponto de fazê-lo mudar de parecer, com as devidas alterações sugeridas por ele), mas infelizmente ele não foi apreciado no Plenário. A discussão sobre o "PL da maconha" foi demorada, e para piorar uns deputados idiotas da bancada conservadora queriam derrubar o quórum quando viram que seriam derrotados na votação. Fiquei indignado com esse episódio e cheguei a chorar. Felizmente minha estadia em Brasília teve muitos bons momentos para compensar este; por exemplo, a manhã que passei no Sebinho e os passeios com meus amigos, tanto os do Politéia quanto com a Janaína.

Agosto: No último dia do mês anterior viajei para Curitiba, para participar do supracitado III FBCP, onde apresentei meu artigo Humanismo e Liberdade no Pensamento Político de Mario Vieira de Mello. Fiquei hospedado na casa da filha mais velha do meu padrasto; ela, seu marido e seus filhos foram extremamente gentis comigo nos dias que fiquei na cidade. Nos intervalos do Fórum aproveitei para fazer uma excursão pelos sebos de Curitiba; comprei vários livros, dentre eles mais um do Merquior (Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin) e As Sociologias de Georg Simmel (Frédéric Vandenberghe) - além de uma enciclopédia de Samurai X para a Carol.
A descoberta musical do mês foi o novo disco do Franz Ferdinand, sobre o qual falarei mais adiante.
Passei alguns dias em Goiânia antes de voltar para o Rio; foram dias bem tranqüilos, antecedendo a maratona acadêmica na qual entrei a partir de minha volta para o RJ, no dia 12. Aproveitei o trabalho final de Teoria Sociológica III para adiantar os capítulos que faltavam para a dissertação de mestrado. Comecei três disciplinas, nenhuma delas contando créditos - afinal eu já tinha cumprido o mínimo de 9 matérias no semestre anterior: A Teoria Estética de Theodor W. Adorno (professor Marcus Motta), A Sociologia como Filosofia Moral (prof. Vandenberghe) e História e Historiografia da Cultura II (prof. Benzaquen; esta fiz como ouvinte). Coincidentemente ou não, as três matérias eram com os professores que eu pretendia que fossem meus orientadores nos três processos seletivos de doutorado que eu tentei: Letras/UERJ, Sociologia do IESP/UERJ e História da PUC-Rio, respectivamente.
No último dia de Agosto eu e minha namorada fomos na Bienal, realizada na Barra da Tijuca. Apesar de passar muitas horas em ônibus ou em filas, valeu a pena, pois comprei sete livros por preços extremamente razoáveis, dentre eles Dostoiévski: Filosofia, Romance e Experiência Religiosa (Luigi Pareyson), Arte e Sociedade (Lukács) e Estio do Tempo: Romantismo e Estética Moderna (Pedro Duarte).

Setembro: Na sexta-feira 13 finalmente terminei a "versão final inicial" da dissertação. Entreguei as 140 páginas para meu orientador, que leu e se sentou comigo durante uma tarde inteira para a revisarmos, página por página.
Assisti bastante à MTV Brasil em seu último mês de existência. Poucas vezes um canal se despediu de forma tão digna; a MTV deu um salto qualitativo em seus momentos finais, mesclando programas de comédia repletos de auto-deboche e reprises de programas antigos.
No dia 16 comecei meu segundo estágio-docência, desta vez em Sociologia Geral para uma turma de Psicologia, na companhia de meu amigo Filipe. Foi até melhor que o anterior, pois montamos uma ementa que continha temas mais afins à minha pesquisa; dei aulas sobre Simmel, Weber, Marx, Freud, Marcuse, Lukács, Merquior, Thomas Mann e, por fim, Neon Genesis Evangelion!

Outubro: Revisei minha dissertação, que ficou com 123 páginas. Como eu tinha que viajar para Porto Alegre no dia 16 pela manhã, a Carol a imprimiu e deixou na secretaria para o professor César pegá-la. Na semana seguinte ele terminou de (re)lê-la e marcamos a data da defesa: 18 de Novembro. Mais detalhes neste post.
Em Porto Alegre fui ao I Simpósio de Estética e Filosofia da Música. Fiz novos colegas, assisti a palestras bem interessantes e apresentei o meu artigo sobre Adorno e Mann. Novamente contei com a hospitalidade do meu amigo Pedro, e mais uma vez aproveitei para comprar vários livros; o melhor deles foi O Homem sem Qualidades (Robert Musil).
Infelizmente não passei na seleção de Letras, o que me deixou meio desanimado; por outro lado, das três opções era a que eu menos queria, então passei a me focar totalmente nos processos seletivos de História e Sociologia.

Novembro: Em meio à ansiedade pré-seleções, fui a São Paulo com a Carol para o Planeta Terra, onde assistimos a um incrível show do Blur. O relato completo desta ótima viagem está neste post.
No dia 18 ocorreu a minha defesa da dissertação. Foi curta, mas decisiva: os comentários e críticas dos professores da banca me ajudaram bastante a preparar meu projeto da PUC (tendo o Benzaquen como orientador) e minha carta de intenções do IESP (mantive o César como mastermind).
Passei boa parte do mês - e, como podem notar, do ano - escrevendo e lendo textos estritamente ligados ao que eu precisava escrever. Estive bastante angustiado, mas felizmente consegui inspiração e terminei tudo dentro do prazo. Agora era esperar as próximas etapas... 

Dezembro: ... e colher bons frutos de meu exaustivo esforço acadêmico de 2013. Meu projeto e minha carta de intenções foram selecionados, e após uma extensa preparação consegui ir bem em ambas as entrevistas. No dia 9 soube de minha aprovação na PUC, e quatro dias depois, no IESP/UERJ. Como passei em 2º lugar em Sociologia, conseguirei bolsa; em História passei apenas em 6º, mas pelo menos por enquanto não quero abrir mão da orientação do Benzaquen. Em 2014 tentarei conciliar os dois doutorados, mas se realmente for difícil conciliá-los, terei que trancar o da PUC e me dedicar exclusivamente ao do IESP. 
De toda forma, meus planos para 2013 foram alcançados: passei no doutorado, me aproximei mais de minha família (algo me diz que minha migração ideológica para o conservadorismo tem algo a ver com isso, rs) e meu namoro com a Carolina está cada vez melhor (ela foi um enorme apoio emocional e intelectual para mim neste ano, e espero também tê-lo sido para ela). Queria ter lido mais, mas isso fica como meta para o ano que vem, rs.
Passei o Natal em Goiânia e ganhei da minha mãe um Nintendo 3DS e o game Pokémon X - o qual já estou jogando compulsivamente; da Carol, um aparelho de som da Philips; de mim mesmo, quatro livros da É Realizações: Razão do Poema (Merquior), A Era de T.S. Eliot (Russell Kirk), Como Ouvir e Entender Música (Aaron Copland) e A Política da Prudência (Kirk). Minha namorada veio para cá no dia 27, para passar o Ano Novo - e parte das férias - comigo.

II. Os melhores discos do ano

5. The Next Day (David Bowie): o camaleão voltou, dez anos depois, com um disco digno de comparação com seus anos de ouro (1969-1983). Nostalgia e melancolia se mesclam em canções maravilhosas como "The Stars (Are Out Tonight)", "Love Is Lost" e "Where Are We Now?".

4. Bloodsports (Suede): outro retorno triunfal, desta vez de uma das melhores bandas britânicas da década de 90. Brett Anderson e cia. produziram um disco que, como bem notaram alguns críticos, soa como o intermediário que faltava entre o art-rock trágico de Dog Man Star (1994) e o pop alegre e hedonista de Coming Up (1996). Minhas prediletas são "Hit Me", "It Starts And Ends With You" e "Barriers".

3. Random Access Memories (Daft Punk): quem poderia imaginar que o duo francês voltaria com um álbum tão redondo como este? Após o experimental mas irregular Human After All (2005), eu não esperava que o Daft Punk poderia renascer de forma tão brilhante. A banda soa mais pop do que nunca em "Get Lucky" e "Lose Yourself To Dance", começa o disco em grande estilo com "Give Life Back To Music", homenageia um ídolo da disco em "Giorgio by Moroder" e relembra a sonoridade mais eletrônica de seus primeiros trabalhos em "Contact". 

2. Right Thoughts, Right Words, Right Action (Franz Ferdinand): o quarteto escocês mantém o alto nível de sua discografia com um disco menos conceitual que seu antecessor Tonight, mas tão urgente quanto o debut de 2004. A tradição do FF de canções dançantes se mantém com "Right Action" e "Love Illumination"; outras faixas de destaque são a profana "Evil Eye", o romance contado do break-up ao início em "The Universe Expanded" e uma bela reflexão sobre a finitude em "Fresh Strawberries".

1. mbv (My Bloody Valentine): como puderam perceber, 4 dos 5 discos da minha lista são de bandas que não lançavam álbuns há um bom tempo. O recorde fica com o My Bloody Valentine, cujo último lançamento havia sido em 1991 - a obra-prima Loveless. Vinte e dois anos depois, Kevin Shields finalmente concluiu o sucessor daquele grande trabalho, e o resultado é sensacional. mbv, em suas três primeiras faixas (principalmente na viciante "Only Tomorrow"), dá continuidade à estética de Loveless; as canções intermediárias "If I Am" e "New You" apostam em uma sonoridade mais fleumática e menos distorcida; o terço final do disco é mais experimental, como demonstram o ritmo impulsivo de "In Another Way" e a peculiar "Wonder 2".

Menção honrosa: Reflektor (Arcade Fire), um disco ousado e surpreendente.

13 dezembro 2013

Futuro acadêmico no Rio: garantido

Esta foi uma semana de definições. E ansiedade.

Na segunda-feira, fui à defesa do Filipe e depois me desloquei para a PUC-Rio para saber do resultado da seleção de doutorado em História Social da Cultura. Passei, mas em 6º lugar, portanto com poucas chances de conseguir bolsa. À tarde fui à UERJ para dar minha aula  de Sociologia Geral sobre Doutor Fausto (Thomas Mann).
Na terça fiz minha entrevista para a seleção de Sociologia do IESP. Fui bem, já esperava as perguntas que me fizeram (p.ex., por que me mudei de Ciência Política para Sociologia, por que quero estudar sobre Thomas Mann, quais autores são minha base teórica para desenvolver esse tema, se eu estudo alemão e pretendo fazer doutorado-sanduíche lá, etc.). Saí com uma sensação de que tinha boas chances de ser aprovado.
Na quarta tive minha última aula de Sociologia como Filosofia Moral, e apresentei meu projeto de trabalho final sobre a compaixão em Schopenhauer. Depois do almoço comecei a sentir uma dor de dente que só piorou ao longo do dia.
Quinta-feira eu fiz uma aula particular de Francês e fui ao IESP para ver se já tinha saído o resultado. Não foi caso, e segui-se uma noite em que, graças ao "combo" de ansiedade e dor de dente, dormi extremamente mal.

Hoje fui novamente ao Instituto, e mais uma vez não tinham divulgado os selecionados. Fiquei chateado (e à beira de um ataque de nervos). Fui para a UERJ preparar minha aula sobre Neon Genesis Evangelion e, por coincidência, encontrei no elevador um dos professores da banca de seleção. Perguntei-lhe se o resultado seria divulgado na segunda-feira, mas ele disse que já o tinha sido. E o melhor:
- Eu passei?
- Sim.
Entrei no Facebook e confirmei a boa nova. Liguei para todo mundo (minha mãe, minha namorada, a ex-bibliotecária do IESP que também trabalha onde faço Alemão...), e depois de almoçar na Subway por sorte encontrei o Hugo, e aproveitei para convidá-lo para assistir à aula de Evangelion. Em torno das 14h liguei para a secretária do IESP/UERJ para saber em qual colocação eu tinha passado, e para minha surpresa fiquei em 2º lugar. Ou seja, bolsa mais do que garantida.
Ainda preciso conversar com meus orientadores para ver a viabilidade disso, mas pretendo ser doutorando nos dois cursos em que passei. Há outras possibilidades, como fazer pelo IESP e ter co-orientação informal pela PUC, mas tudo isso vou resolver nos próximos dias.
Dei uma passada no IESP para o coquetel de lançamento de livros, mas fiquei pouco tempo; encontrei a Carol e fomos para a UERJ. À noite dei minha aula sobre EVA, tendo Hugo e minha namorada como convidados especiais. Passei os dois episódios finais, a turma ficou perplexa com o que viu, e por fim expliquei alguns pontos (p.ex., o contexto cultural japonês dos anos 90 e a discussão sobre identidade).

P.S.: A má notícia é que meus três melhores amigos no mestrado do IESP não farão doutorado comigo. O Filipe não passou (algo que não entendi até agora), o Hugo vai se dedicar exclusivamente às suas bandas e o Fernando voltará para Brasília para fazer o doutorado em Ciência Política na UnB.

18 novembro 2013

A defesa

Hoje às 14h ocorreu a minha defesa de dissertação de mestrado. Os professores da banca (Ricardo Benzaquen e Frédéric Vandenberghe) elogiaram meu trabalho, fizeram comentários, críticas (a principal delas foi que preciso, para além do contexto - segundo eles, minha dissertação foi uma 'história das idéias', uma 'perspectiva sintética' -, me focar mais no texto; em outras palavras, "cerquei" Doutor Fausto pelo lado filosófico, pelo biográfico, pelo sociológico etc., mas faltou fazer uma análise imanente da obra) e sugestões (p.ex., estudar a questão da arte da vida, ou "a vida como obra de arte") pertinentes e aprovaram minha dissertação. 
Tudo foi bem rápido, e às 15h a defesa já estava encerrada. Sou mestre em Ciência Política pelo IESP/UERJ!



Próximo desafio: as seleções de doutorado em História (PUC) e Sociologia (IESP), nas próximas semanas.

13 novembro 2013

Vanishing Point

Em 13 de Novembro de 2006 eu assisti a um show que mudou minha vida. Naquela época eu estava no momento mais “aborrecente” de minha adolescência: 1) não tinha saco para ser sociável no colégio; 2) escrevia textos arrogantes e solipsistas no meu blog; 3) havia acabado de sair de mais uma desilusão amorosa (desta vez, para aumentar o caráter tragicômico, havia sido por uma amiga online que morava em SP); 4) tive até um flerte com a estética gótica (e se eu disser que até criei um perfil fake no Orkut, além de um MSN e até um blog para o meu “dark side”?).
Foi quando viajei para São Paulo com minha mãe para ver a New Order, duas das minhas bandas preferidas (afinal eles são ¾ da Joy Division), ao vivo na Via Funchal. Compramos nossos ingressos em Setembro, de tão ansioso que eu estava. Tudo bem que semanas depois a banda confirmaria um show extra em Brasília, mas não importa: eu não quis ficar à mercê do destino e decidi que iria ao de SP mesmo. 
Por que tanta empolgação? Oras, Joy Division e New Order me "salvaram" em 2005. Em meio à crise existencial (ou, em termos menos dramáticos, em meio ao meu "mimimi adolescente") que eu senti no 2º semestre daquela ano, ouvir a melancolia dançante de ambas era  uma trilha sonora para os maus (e bons) momentos. "Isolation" superou "I Am The Walrus" (Beatles) como minha música favorita, e até escrevi uma redação inspirada em "Love Will Tear Us Apart" e um post apontando "Blue Monday" como a 1ª música do Século XXI.

A viagem foi ótima, com direito a muitos CDs comprados na Galeria do Rock (já virou uma tradição: das sete vezes em que viajei para São Paulo, dei uma passada na Galeria em cinco delas) e na Fnac. 
O show, então, foi apoteótico: a banda estava impecável ao vivo, com direito às dancinhas esquisitas de Bernard Sumner e Peter Hook solando com seu baixo pertinho do público. Assistir ao vivo a clássicos como "Ceremony", “Love Will Tear Us Apart”, “Bizarre Love Triangle” e "Temptation" foi inesquecível. Na época eu disse que era o melhor dia da minha vida; ainda hoje ele entraria no meu top 5. Para maiores detalhes sobre o 13 de Novembro, leiam o post que escrevi na época.
Esta apresentação da New Order foi tão importante para mim que me infundiu sentido existencial: cansei de ficar resmungando sobre mim mesmo e o mundo, e renovei minhas energias para 2007, o último e decisivo ano do ensino médio. Em outras palavras, voltei ao meu "estado natural" de otimismo. Não só estudei com muito mais afinco, como também avancei no meu auto-cultivo e na minha formação cultural. Cheguei bem preparado na UnB, e nela as coisas progrediram em velocidade maior ainda. Sinal disso é que, quando leio textos que escrevi antes de entrar na faculdade, sinto até certo estranhamento com o Kaio de outrora. Por mais que certas marcas estilísticas permaneçam (principalmente em minhas resenhas de discos), meus escritos tinham uma "certeza provinciana", coisa típica de quem tem muita teoria e pouca experiência de vida. Não que hoje eu seja um Bukowski da vida, mas passei por várias situações nestes sete anos - desde relacionamentos amorosos até participação em grupos de pesquisa e no movimento estudantil - que me ajudaram a crescer.

Além disso, esta viagem para São Paulo em 2006 me permitiu respirar novos ares, e voltei revitalizado; desde então aproveitei toda oportunidade que tinha para viajar, seja para congressos acadêmicos ou para shows. Talvez o que sociólogo Georg Simmel disse sobre a aventura tinha alguma razão... Cabe citar um texto de meu amigo Glauber que parafraseia Simmel: 
"A aventura surge como uma perspectiva da vida com contornos próprios, uma espécie de península ligada ao continente cultural da vida moderna apenas por um pequeno trecho de terra, sem se articular com o todo de forma homogênea. Se na aventura a vida não encontra continuidade com o mundo, contudo, ela também não está completamente isolada dele. Experiência fugidia, trata-se mesmo de outra maneira de se lidar com o cotidiano que, nesse sentido, produz um espaço à margem, mas não completamente estranho a ele".

Duas semanas depois do show ainda tive uma recaída (em 24/11, no festival Goiânia Noise, portei-me como um autista e passei horas sentado numa escada ouvindo música e lendo), mas isso é normal; ninguém amadurece de uma só vez. E meu amadurecimento ainda nem acabou; por mais que hoje eu me sinta uma pessoa melhor do que eu era em 2006, ainda estou muito longe do meu telos, do meu ideal formativo. Tornei-me menos egocêntrico e misantrópico, mas uma comparação favorável com meu passado se daria mais pelo negativo (ou seja, o que eu não sou mais - ou, o que sou de forma menos intensa) do que pelo positivo (i.e., algo que "adquiri"). 
Muitas das angústias que me afligiam naquela época continuam a me atormentar - sendo que uma delas até se sobrepôs à política (assunto no qual eu mais pensava durante boa parte da minha adolescência) e se tornou a maior: a minha dúvida sobre a existência de Deus e da mortalidade da alma. Ok, isso soa pretensioso (algo do tipo "Quero soar dostoievskiano"), mas a resposta para ambas as perguntas traz grandes implicações existenciais. Já estive mais próximo da negativa de Ivan Karamázov, mas ainda não tenho a fé inabalável de Aliócha. Sou um agnóstico mais próximo de crer na transcendência do que de me resignar - e muito menos celebrar - a imanência.
No fundo, estudei Doutor Fausto porque queria fortalecer minha certeza de que a "solução" não está no Mal, no esteticismo, na arte que escarnece da moral. Felizmente estou do lado de Thomas Mann e contra Adorno: não acho que cabe à arte expressar somente as fraturas de nossa época, mas também ter um papel pedagógico, além de ser capaz libertar a alma humana do medo e do ódio, e assim auxiliar o homem em sua viagem pela vida (P.S.: estou citando um trecho da minha dissertação, rs).

Acho que, no fundo, o motivo deste post auto-reflexivo é minha insegurança diante das duas seleções de doutorado que terei nas próximas semanas. Nem estou tão ansioso pela defesa da dissertação (que será no dia 18) quanto normalmente estaria. Ainda não comecei a escrever o projeto para a PUC nem a carta de intenções para o IESP, embora já tenha uma noção do que pretendo desenvolver. O medo de não passar em nenhuma das seleções talvez seja até maior do que aquele que eu nutria em 2011, antes de ser aceito no mestrado. Embora eu confie no meu potencial e esteja longe de ter baixa auto-estima, a importância de entrar no doutorado não é meramente acadêmica, mas também para me dar uma certeza sobre como será minha vida nos próximos anos. A última vez que eu senti tal tranqüilidade e segurança foi no primeiro ano de UnB. Seria bom ter essa sensação novamente ano que vem, nem que seja por apenas alguns meses...

Este texto ficou com um tom mais sombrio do que eu imaginava. Talvez minha "transição" da Joy Division para a New Order não tenha sido completa... Sendo assim, como epígrafe para este post citarei "Ceremony", uma das últimas músicas escritas por Ian e que virou o primeiro single da nova banda:

This is why events unnerve me
They find it all a different story
(...)
Oh I'll break them down, no mercy shown
Heaven knows it's got to be this time

12 novembro 2013

The Universal

Desde 2010 desenvolvi uma tradição de ir a São Paulo em novembro (ou outubro) para assistir ao festival de rock mais bem organizado do Brasil: o Planeta Terra. 
Na primeira edição em que fui, eu vi Of Montreal, Mika, Phoenix, Pavement e The Smashing Pumpkins (e, num "combo", assisti no dia seguinte, no Morumbi, a um inesquecível show de Paul McCartney); em 2011 acompanhei Toro y Moi e o finalzinho do show do Garotas Suecas, mas fui mesmo para ver Interpol e The Strokes; no ano passado me diverti com Banda Uó e vi apresentações inesquecíveis de Suede, Garbage e Gossip. 
Desta vez, havia dois motivos secundários (Beck e Travis) e um principal: Blur, uma das minhas cinco bandas favoritas de todos os tempos. Comprei o ingresso apenas algumas horas depois que foram iniciadas as vendas, e minha namorada - que também adora esta banda - fez o mesmo.

Após três meses e meio de ansiedade, no dia 9 de Novembro eu e Carolina saímos às 6h30 da rodoviária do Rio de Janeiro em direção à capital paulista. Durante a viagem de seis horas li bastante As Idéias e as Formas, excelente coletânea de ensaios de José Guilherme Merquior; dormi um pouco também, é claro. 
Chegamos em São Paulo ao meio-dia. Pegamos metrô para a estação República e, após algumas andanças pela rua São João, encontramos o hostel em que ficaríamos hospedados. Ele fica bem localizado, perto de vários lugares do centro da cidade. Almoçamos no Habib's e depois fomos à Galeria do Rock. Comprei dois CDs - a coletânea dupla The Best Of (Suede) e o clássico Disintegration (The Cure) - e uma camiseta do New Order, com a capa do Substance

Em torno das 15h30, mais uma viagem de metrô (aliás, o subway de São Paulo é muito mais complexo - e legal - do que o do Rio), e pouco depois chegamos na estação Santana, a que fica mais perto do local do festival, o aeroporto Campo de Marte. 
A fila foi surpreendentemente curta, e pouco depois já estávamos nos divertindo no tobogã do Banco do Brasil. Desci tão rápido que até quiquei, haha.


Após fazermos nosso estoque de água (compramos 4 copos), eu e minha namorada nos ajeitamos na platéia para ver Travis, a banda que é um elo entre as baladas à la "Wonderwall" do Oasis e o Coldplay. As músicas são muito parecidas entre si, mas a banda é simpática - principalmente o baixista, metido a galã. Destaques para "Selfish Jean" (talvez a única realmente agitada), "Sing" (a mais famosa e cantarolável), a versão acústica de "Flowers In The Window" (que ficou melhor do que a de estúdio) e "Why Does It Always Rain On Me?" (um hino loser). 

A organização do Planeta Terra teve a péssima idéia de colocar Beck como atração do palco "alternativo" ao invés daquilo que seria mais sensato, isto é, entre Travis e Blur. Essa decisão em si não seria tão ruim não fosse a atração musical que ficou nesse "gap": a patética Lana Del Rey. Sua única qualidade é a semelhança física com a Robin de How I Met Your Mother; no mais, temos uma cantora medíocre, artificial, que ficou dando autógrafos antes mesmo de tocar a segunda música, cheia de frases prontas, clipes de fundo extremamente auto-indulgentes (o mesmo pode ser dito de suas letras) e, para piorar, um fã-clube feito à sua imagem e semelhança, ou seja, adolescentes blasé, nojentinhas, mal-vestidas e com coroas de flores em suas cabeças. Para passar o tempo eu e a Carol chegamos a ficar olhando fotos antigas em nossos celulares. Haja tédio!

Após a tortura que foi o show de Lana Del Rey, a espera foi recompensada: enfim, após 8 anos tendo Blur como uma das minhas bandas favoritas (e 15 desde que escutei "Song 2" pela primeira vez, em FIFA 98), eu estava vendo Damon, Graham, Alex e Dave ao vivo! Aliás, foi impossível não gargalhar com o visual irreverente do baixista Alex James: bermuda, lenço no pescoço e ainda por cima ofereceu uma xícara de chá para o público!


Logo de cara mandaram dois hits dançantes: a andrógina Girls & Boys e a resignada There's No Other Way. Obviamente eu e todos os demais fãs pulamos muito e cantamos a plenos pulmões.


Após a obra-prima Beetlebum e a bela Out of Time, o Blur executou quatro faixas do álbum 13, que envelheceu bem e hoje em dia é um dos preferidos de público e crítica. A banda começou pela swingada Trimm Trabb, uma das mais intimistas de um álbum que já é extremamente confessional; seguiu com a deprimida Caramel, que antes era a música do 13 que eu menos prestava atenção, mas ao vivo ela provou o seu valor, graças principalmente à guitarra de Graham Coxon; a brilhante Coffee & TV foi a seguinte, e foi curioso notar a timidez de Coxon, afinal ele não olhava para a platéia enquanto a cantava; a seqüência foi encerrada com o hino gospel da noite: Tender, cujo refrão "Oh my baby, oh my baby, oh why, oh my" foi cantado por muitos fãs antes, durante e depois do show. 



Em seguida veio a serenata To the End, na qual Damon Albarn se declarou para a lua crescente que iluminava a noite paulistana. Damon desceu para cantar junto com a platéia em Country House. Ele se empolgou tanto que até pegou uns óculos da HP de alguém da platéia. Se no documentário No Distance Left to Run (2010) esta música era apontada como aquela que tornou a banda, da noite para o dia, antipática para o público (afinal, eles foram considerados os "vilões" na rivalidade com o Oasis, numa espécie de luta de classes do britpop, em que o Blur representava a classe média/alta londrina e a banda dos Gallagher, os homeless do norte da Inglaterra), anos depois Albarn pode cantá-la com bom humor.




Phil Daniels, protagonista do filme Quadrophenia (1979) e convidado especial dos shows do Blur desde 2009, veio cantar Parklife. Um dos momentos altos do show foi a platéia cantando alto toda vez que chegava no refrão ("All the people / So many people / They all go hand in hand / Hand in hand through their parklife"). Estávamos diante de outra seqüência de faixas do mesmo álbum, desta vez três do ParklifeApós o pop melancólico de End of a Centuryque ainda soa atual ("Sex on the TV / Everybody's at it / And the mind gets dirty / As you get closer to thirty")o show alcança novo ápice com This is a Low ("This is a low /But it won't hurt you / When you are alone it will be there with you / Finding ways to stay solo") O quarteto retira-se do palco, mas Graham deixa a guitarra distorcida ainda ligada.



A banda volta para o bis com Under the Westway, uma canção triste, mas bonita, lançada no ano passado. Talvez tenha sido o último single do Blur, afinal não há planos para o lançamento de um oitavo álbum; quando esta turnê acabar ano que vem, depois dos shows no Japão e na Austrália, ninguém sabe o que vai acontecer. A performance continuou com duas canções épicas: For Tomorrow (se Joyce fez de Dublin o palco de seu Ulisses, então esta canção sobre Londres é a Odisséia do fim do século passado) e The Universal (a propósito, a preferida da minha mãe).



A última música do show não poderia ser outra senão Song 2, a melhor canção americana feita por uma banda britânica (ou qualquer outro paradoxo ou ironia em que vocês puderem pensar). Pulei tanto que acabei dando uma "queixada" na Carolina; doeu tanto que ela até chorou, tadinha... Mesmo assim, continuamos pulando até o fim do show, haha! Considerando que esta faixa de 2 minutos estava tocando quando nos conhecemos (numa festa em agosto do ano passado), parece que agora eu e ela temos um segundo motivo para nos lembrarmos dela, hehe.

Enfim, o show do Blur foi inesquecível. Os fãs da banda, ao contrário dos da Lana Del Rey, são civilizados e simpáticos; tanto é que eu e um monte de gente nos abraçamos e conversamos efusivamente depois que a apresentação havia acabado. Pouco depois, uma amiga da Marina e da Joana deu carona para nós quatro, e fomos jantar na Augusta antes de voltar para o hostel.

No domingo, tomamos café da manhã, fizemos check-out no hotel e fomos para a Liberdade, bairro dos imigrantes japoneses e chineses. Almoçamos junto com a Marina num restaurante chinês (cujas garçonetes não sabiam falar português!), e a Carol comprou várias coisas - para si mesma e para dar presentes - na feira que ficava perto da estação de metrô. Aproveitei para adquirir um ímã de geladeira para a minha mãe, que adora esse tipo de lembrancinha. Em seguida a Carolina foi buscar sua shinai (espada de kendo), a qual havia encomendado semanas antes para um vendedor coreano que mora na Liberdade. Passamos duas horas conversando com ele sobre kendo, comida coreana e até a hiperinflação brasileira nos anos 80 e 90.
À noite nós três passeamos na Avenida Paulista, e fomos na maior Livraria Cultura do Brasil - aliás, foi nela que no ano passado comprei A Teoria do Romance (Lukács). Foi difícil me segurar para não comprar nada, mas eu já tinha gasto muito dinheiro no dia anterior, na Galeria do Rock...
Às oito e meia da noite nos despedimos da Marina, jantamos no McDonald's e fomos para a rodoviária; por sorte, há uma estação de metrô que passa dentro dela. Duas horas depois, saiu o ônibus de volta ao Rio. Era o fim de mais uma das ótimas viagens que fiz em 2013. Pela primeira vez minha excursão para o Planeta Terra não teve aventuras aleatórias (porém divertidas) nas quais eu não sabia sequer onde iria dormir; em compensação, a inestimável companhia da Carol fez com que a trip deste ano seja a minha preferida. Que venha o Terra '14!