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24 setembro 2018

Like all our pretty songs, but don't know what it means

(Texto escrito em 24/09/2016)



Duas décadas e meia atrás, em 24 de Setembro de 1991, o Nirvana lançou seu segundo disco, Nevermind. A primeira faixa, "Smells Like Teen Spirit", foi também o primeiro single. Tendo como trunfos um riff lendário, uma dinâmica à la Pixies de versos calmos e refrão barulhento e uma letra que soou como hino de uma juventude entediada e angustiada ("I feel stupid and contagious (...) I'm worse at what I do best"), o anárquico clipe da canção foi ganhando destaque na MTV, o single subia nas paradas e o álbum começou a receber ótimas resenhas dos dois lados do Atlântico. 

Não demorou para público e crítica descobrirem que estavam diante de um clássico instantâneo: Nevermind ia muito além de "Smells Like Teen Spirit", e continha várias outras canções excelentes, das quais três viraram singles (a soturna "Come As You Are", a maníaco-depressiva "Lithium" e a debochada "In Bloom"), duas mostravam uma faceta mais acústica e melancólica ("Polly" e "Something in the Way") e três figuram entre as favoritas de muitos fãs ("Lounge Act" e "Drain You" - faixas de melodias irresistíveis que tratam do relacionamento de Kurt com Tobi Vail, do Bikini Kill - e o furioso punk "Territorial Pissings"). 
O som da banda, além da supracitada influência de Pixies, misturava a sensibilidade pop dos Beatles e do R.E.M. com a fúria dos Sex Pistols, o peso do Black Sabbath e o equilíbrio entre melodia e distorção do Sonic Youth (banda que, aliás, levou o Nirvana para a gravadora Geffen e fez uma turnê histórica com Kurt, Krist e Dave em meados de 91, registrada no documentário 1991: The Year Punk Broke).
A expectativa da Geffen era que Nevermind vendesse um pouco mais do que Goo (Sonic Youth), o qual havia alcançado 250 mil cópias. Quatro meses após o lançamento, contudo, Nevermind já estava no 1º lugar das paradas americanas e vendia cerca de 300 mil unidades por semana; hoje em dia já são mais de 10 milhões nos Estados Unidos e 30 milhões no mundo inteiro. 
A carreira do Nirvana foi meteórica; entre o lançamento de "Nevermind" e o suicídio de Kurt Cobain passaram-se apenas 2 anos e meio, e nesse meio tempo a banda ainda lançaria outra obra-prima (In Utero), teria uma relação de amor e ódio com a fama e faria shows espetaculares, dentre eles o belíssimo acústico para a MTV em 93.
De certa maneira o sucesso do trio foi ao mesmo tempo o início de uma era (o rock alternativo ganhou maior visibilidade comercial, o que permitiu a ascensão de bandas como Smashing Pumpkins e Pavement, e a cena grunge virou o Zeitgeist da juventude da 1ª metade da década de 90) e o fim de outra (de certa maneira o Nirvana, com sua postura rebelde, anti-comercial e niilista, foi o último ato do movimento punk, pois desde então nenhuma banda de rock conseguiu causar tanto impacto cultural quanto eles; isso sem falar que, desde então, a linha que separa o rock alternativo do mainstream se tornou tênue).

21 setembro 2018

Teenage angst has paid off well, now I'm bored and old


Em 21 de Setembro de 1993 foi lançado nos Estados Unidos o álbum In Utero, o terceiro do Nirvana. Dois anos após o estrondoso êxito de Nevermind, que tornou a banda a mais popular do planeta, a ponto de direcionar o mercado e o público para uma maior aceitação do rock alternativo, o "power trio" de Seattle resolveu adotar uma sonoridade calcada na agressividade e urgência de discos como Surfer Rosa (Pixies) e Pod (The Breeders), ambos produzidos por Steve Albini - o qual, não por acaso, foi convidado para produzir o álbum. Há, contudo, uma influência menos óbvia, admitida por Kurt Cobain em uma entrevista em 93: In Utero também é inspirado em Red (King Crimson), um álbum de rock progressivo marcado pelas distorções no baixo e guitarra e pela elevada dinâmica sonora (isto é, a variação entre momentos mais calmos e outros mais barulhentos).
A gravação do disco transcorreu em apenas duas semanas, em Fevereiro de 1993. O lançamento, contudo, foi adiado devido à tensão entre a banda e a gravadora Geffen sobre a estética abertamente anti-comercial adotada em In Utero. O próprio Kurt, contudo, não gostou de como Albini produziu "Heart-Shaped Box", "All Apologies" e "Pennyroyal Tea" (não por acaso, as três faixas mais melódicas do álbum, e todas lançadas como singles), e pediu para Scott Litt (produtor do R.E.M.) remixá-las; no caso de "Pennyroyal Tea", a nova versão não entrou no disco, mas apenas como single em 94, algumas semanas antes da morte de Cobain. Além disso, a excelente faixa "I Hate Myself And Want to Die" foi retirada de última hora da tracklist do CD, possivelmente para evitar controvérsias sobre o seu título.
In Utero é uma contundente afirmação artística; se Nevermind foi o álbum em que Kurt Cobain conseguiu encontrar o equilíbrio entre a sonoridade alternativa e o apelo comercial, In Utero é uma opção deliberada pela experimentação estética (tanto na temática sombria das letras quanto na sonoridade pesada) em detrimento das expectativas do público.
"Serve The Servants" é uma das faixas mais desconcertantemente autobiográficas que já abriu um disco de rock: "Teenage angst has paid off well / Now I'm bored and old (...) I tried hard to have a father / But instead I had a dad / I just want you to know that I / Don't hate you anymore". O riff e o solo de guitarra estão entre os melhores do catálogo do Nirvana.
"Scentless Apprentice", inspirada no romance O Perfume (Patrick Süskind), é possivelmente a música que mais chocou os fãs casuais de Nirvana em 1993 - ainda mais por ser a 2ª faixa do CD. A bateria introdutória de Dave Grohl é outro momento marcante, assim como a distorção cavalar na guitarra e vocais de Kurt Cobain e no baixo de Krist Novoselic.
"Heart-Shaped Box", primeiro single do álbum, é uma macabra e por vezes escatológica declaração de amor de Kurt a Courtney Love: "I've been locked inside your Heart-Shaped box for weeks (...) / I wish I could eat your cancer when you turn back (...) Throw down your umbilical noose so I can climb right back". É um dos destaques do disco, e a única que ganhou um clipe (excelente, diga-se de passagem), dirigido por Anton Coribjn.
"Rape Me" começa parodiando o riff de abertura de "Smells Like Teen Spirit" (o maior hit da banda, mas que devido à superexposição Kurt odiava tocar ao vivo) para depois declamar uma letra anti-estupro, na qual o eu-lírico promete se vingar de seu algoz.
"Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle" é minha faixa favorita de In Utero, pois é a que melhor representa a dinâmica sonora entre versos calmos e refrões barulhantes. A letra é especialmente cortante ("I miss the comfort in being sad"), ao traçar um paralelo entre o drama pessoal de Cobain (desde a pressão da gravadora para lançar algo tão comercial quanto Nevermind até a invasão de sua privacidade pela imprensa) com o de Frances Farmer, atriz que se rebelou contra seu estúdio e, após anos de conduta errática, foi submetida a uma terapia de choque.
"Dumb" é uma música sobre alienação, comodismo: "I'm not like them / But I can pretend (...) The day is done / But I'm having fun / I think I'm dumb / Or maybe just happy" É a música com melodia mais calma do CD, evocando uma melancolia semelhante à de certas canções dos Beatles escritas por John Lennon.
"Very Ape" começa com uma crítica ao machismo (mais especificamente, a um estereótipo de masculinidade agressiva): "I take pride as the king of illiterature / I'm very ape and very nice". Um lado de Kurt Cobain pouco conhecido é seu ativismo feminista, algo pouco comum no meio musical no início da década de 90. Não por acaso, ele era muito próximo das integrantes do Bikini Kill (inclusive era ex-namorado da baterista Tobi Vail). A segunda parte da letra, contudo, pode ser vista como uma auto-descrição: "I'm too busy acting like I'm not naive / I've seen it all, I was here first".
"Milk It" é uma das faixas mais coléricas de In Utero, e seu refrão contém versos sobre seu vício em drogas que soam sombrios dado o que aconteceu meses depois com Cobain: "I am my own parasite /I don't need a host to live (...) / Look on the bright side is suicide".
"Pennyroyal Tea" trata de um chá que Kurt tomou para diminuir suas dores estomacais; segundo uma lenda urbana, ingeri-lo em grandes quantidades poderia causar um aborto, o que serviu de metáfora para o niilismo do vocalista e letrista do Nirvana: "Sit and drink Pennyroyal Tea / Distill the life that's inside of me". É uma das melodias mais inesquecíveis do álbum, e meses depois ganharia uma bela versão acústica.
Considerando que é a canção mais experimental e anti-comercial do álbum, o título de "Radio Friendly Unit Shifter" é no mínimo irônico. Segundo a New Musical Express, ela expressava o cinismo e a desilusão de Cobain em relação à indústria musical: "I love you for what I am not / I did not want what I have got (...) / I'm nothing to do with what you think / If you ever think at all".
"Tourette's" tenta evocar em seus vocais os tiques nervosos típicos de uma pessoa que sofre da síndrome de Tourette. É a faixa mais curta e acelerada do disco, e mesmo que trate de temática tão perturbadora tem um ritmo relativamente animado.
"All Apologies", dado o suicídio de Cobain, foi freqüentemente interpretada como um réquiem, especialmente por ser a última faixa do derradeiro álbum da banda. Ela também pode ser lida como uma dedicatória, em tom de desculpa, à sua esposa Courtney e à sua filha Francis: "What else should I be? / All apologies (...) / What else could I write? / I don't have the right". Sua melodia é extremamente cativante, e o coda ("All in all is all we are") é sublime.

In Utero estreou em 1º lugar em vários países, dentre eles os Estados Unidos e a Inglaterra, mas previsivelmente vendeu bem menos do que Nevermind. Na época, embora tenha sido muito elogiado pela crítica, alguns viram o disco como o deliberado afastamento do Nirvana da liderança do grunge, em termos de popularidade, para o Pearl Jam, que na mesma época lançou Vs., cujas vendas na estréia foram 5 vezes maiores que as de In Utero nos EUA. A morte de Cobain, contudo, fez com que o álbum começasse a ser reavaliado, e 25 anos depois não são poucos os fãs e os críticos - dentre os quais me incluo - que o consideram a obra-prima do Nirvana.

17 julho 2018

França bicampeã, revival de 98 e uma digressão sobre esquemas táticos


§ 1
Não foi dessa vez que uma finalista menos cotada venceu a Copa do Mundo; desde 1974 (quando a Alemanha – que ainda assim era a anfitriã e atual campeã européia – venceu a Holanda, sensação do torneio) essa situação não acontece. Após a decepção na final da Eurocopa de dois anos atrás, a França se redimiu e fez sua melhor partida na Copa de 2018 para derrotar a Croácia por um sonoro 4x2 e garantir seu bicampeonato.
Os franceses, como notaram analistas como Douglas Ceconello, jogaram como se só estivessem usando 50% do seu potencial, o que mostra como a geração de jogadores é de altíssimo nível. Craques como Pogba, Mbappé e Griezmann não precisaram usar todos os recursos que mostram na temporada européia para produzir contra-ataques mortais (e bolas aéreas perigosas) e fazer gols. O banco de reservas francês contava com jogadores muito bons, como Dembélé e Tolisso, e ainda ficaram de fora da Copa atletas de destaque como Benzema e Martial. Ou seja, a França certamente tem sua melhor safra desde a equipe que foi campeã mundial em 98, campeã européia em 2000 e vice mundial em 2006, e dada a baixa média etária (a menor da Copa ao lado da Nigéria), é possível que a maior parte desta equipe ainda poderá disputar títulos pelos próximos anos. Deschamps venceu a desconfiança de muitos (inclusive a minha) por seu estilo excessivamente pragmático. Moldou a seleção francesa para vencer, mesmo que sem brilhar. Aplicação tática, defesa forte e eficácia no ataque foram a receita do sucesso. Na final, por exemplo, a França teve apenas 8 finalizações, mas 6 foram no gol e a equipe saiu da partida com 4 gols (ainda que um deles tenha sido o gol contra de Mandžukić); além disso, teve apenas 39% da posse de bola, o que ressalta a eficiência da equipe. Deschamps por muito tempo foi chamado de “Dunga francês”, mas sai da Copa como uma espécie de “Parreira gaulês”, considerando que em 1994 o técnico brasileiro também montou uma equipe pouco “artística”, mas coesa, disciplinada e com perfil vencedor. Cheguei a torcer pela Argentina contra eles nas oitavas-de-final (ainda chateado pelo “jogo de compadres” – e único 0x0 da Copa – entre França e Dinamarca), mas diante da atuação exuberante de jogadores como Mbappé, tive que dar o braço a torcer: a seleção francesa atual, quando quer jogar, é realmente a melhor do mundo. A Croácia terminou sua campanha histórica com um vice-campeonato, o melhor desempenho esportivo de uma seleção da Europa oriental desde o vice da Tchecoslováquia em 1962. No 2º tempo da partida era visível a exaustão física dos jogadores croatas – mas também a sua garra e disposição. Mesmo o inusitado gol de Mandžukić após o erro de Lloris mostra isso: os croatas estavam perdendo por 4x1 e continuaram lutando. Luka Modrić foi com justiça eleito o craque da Copa; não foi tão bem na final, mas nas partidas decisivas contra a Argentina, a Rússia e a Inglaterra ele foi peça fundamental. A seleção croata, ao contrário da francesa, está envelhecida, então o ótimo desempenho em 2018 soa como despedida para a geração de Modrić (32 anos) e – talvez – Rakitić (30) e Perišić (29). § 2 Se a Euro 2016 já tinha me evocado certa nostalgia pela Copa do Mundo de 1998 (que, em minha opinião, foi a melhor desde a mudança de taça, isto é, de 1974 em diante) por também ter acontecido na França, a Copa de 2018 foi ainda mais semelhante à de vinte anos atrás: 1) o nível técnico foi bem alto, e tal como em 98 seis seleções (França, Uruguai, Brasil, Bélgica, Croácia e, em menor medida, Inglaterra) chegaram às quartas-de-final com desempenho razoavelmente digno de serem campeãs; 2) a média de gols foi elevada, com 2,64 por jogo, a 2ª melhor em Copas com 32 seleções, atrás apenas de 98 e 2014 – 2,67 em cada; 3) houve apenas um 0x0 em todos os 64 jogos (em 98 foram quatro, sendo apenas um no mata-mata); 4) tal como em 1998, vários confrontos espetaculares ocorreram já na 1ª fase (Portugal 3x3 Espanha, Alemanha 0x1 México, Argentina 0x3 Croácia, Japão 2x2 Senegal...); 5) oito jogos que ocorreram naquele mundial se repetiram (além dos supracitados Alemanha x México e Argentina x Croácia, houve revanches de Inglaterra x Tunísia, Colômbia x Inglaterra, Alemanha x México, Coréia do Sul x México, França x Dinamarca e França x Croácia); 6) por último, é claro, os franceses ganharam novamente. § 3 Nas últimas Copas o torneio não estava mais ditando as tendências táticas dos clubes, e sim o contrário. Em 2010, a campeã Espanha jogava de forma bem parecida à do Barcelona de Guardiola – com a diferença de que, na falta de um “falso 9” tão bom quanto Messi, vencia a maioria dos jogos por 1x0. A Copa seguinte teve o título alemão com um time cuja base era o Bayern de Munique treinado por Jupp Heynckes (2011-13), com seus contra-ataques mortais, e o próprio Guardiola (desde 2013), que adaptou o “tiki-taka” (isto é, o estilo focado na posse de bola e nos toques laterais) às características do futebol alemão. Além disso, a Alemanha treinada por Joachim Löw popularizou o esquema 4-2-3-1 que já vinha sendo praticado por clubes de renome, como o Real Madrid que bateu o Bayern nas semifinais da Champions League de 2014. A Copa de 2018 não mudou tanto esse cenário, embora tenha mostrado uma notável diversidade de esquemas táticos entre as oito equipes que chegaram às quartas-de-final. Eis as formações adotadas por elas:
1) 4-2-3-1: França (começou o torneio adotando o 4-3-3, mas a partida difícil contra a Austrália fez Deschamps tirar o atacante Dembélé para colocar o centroavante Giroud e transformar Mbappé e Giroud em meias-atacantes); Croácia (manteve essa formação ao longo de toda a Copa, e quando esteve no ataque jogou praticamente no 4-2-4) e Rússia (exceto no jogo contra a Espanha, quando adotou com sucesso o cauteloso 5-3-2); 2) 3-4-3: Bélgica (formação ultra-ofensiva, foi adotada em todos os jogos exceto contra Brasil – onde Martínez preferiu o 4-3-3 seguido de 4-4-2 – e França – jogo no qual os belgas adotaram um conservador 3-5-2 para não se expor aos contra-ataques franceses); 3) 3-5-2: Inglaterra (Southgate resgatou um esquema muito popular nos anos 80 e início dos 90 – inclusive era o usado pela Inglaterra na Euro 96, na qual ele perdeu o pênalti que eliminou o seu país na semifinal), Uruguai (apenas no jogo contra a Rússia) e Bélgica (contra a França); 4) 4-1-4-1: Brasil (teoricamente era esse esquema, com Casemiro de volante e 4 meias ofensivos, mas dada a suposta “função tática” recuando Gabriel Jesus, na prática a seleção jogou no 4-3-3, com Neymar e Willian completando no ataque); 5) 4-4-2: Suécia (ao longo de toda a Copa adotou uma formação típica da década de 90), Uruguai (em todos os jogos, exceto contra a Rússia); Brasil (no 2º tempo contra o México) e Bélgica (depois do 2º gol contra o Brasil); 6) 4-3-3: França (na estréia contra a Austrália), Brasil (na maioria dos jogos) e Bélgica (no início da partida contra o Brasil); 7) 5-3-2: Rússia (contra a Espanha). Pelo visto o 4-2-3-1 continua como esquema preferido das melhores seleções, embora não necessariamente da mesma forma como vinha sendo praticado antes. A Alemanha e a Espanha (embora com Lopetegui isso pudesse ter sido diferentes), eliminadas precocemente, também adotam essa formação tática, mas jogaram baseadas no “tiki-taka”- que mostrou seus limites nessa Copa, pois de nada adianta posse de bola e precisão nos passes se não há efetividade nas finalizações (vide a derrota da Espanha para o “ferrolho” russo) e se há fragilidade diante de contra-ataques velozes de nada adianta, como mostraram de forma cabal as derrotas da Alemanha para o México (0x1) e Coréia do Sul (0x2). O que essa Copa reforçou é algo que o Bayern de Heynckes de 2013 e o Real Madrid dos últimos anos (especialmente nessa última Champions, quando soube “sofrer” e ser eficaz contra PSG, Juventus, Bayern e Liverpool) já haviam mostrado: a estratégia de segurar a pressão adversária e ser veloz e certeiro no contra-ataque, mesmo que com posse de bola abaixo dos 40%. Não é qualquer equipe que pode se dar ao luxo de seguir tal abordagem; tal como a França mostrou, é preciso uma combinação de defesa sólida, meio-campo rápido na transição e atacantes precisos nas finalizações (e olha que, apesar dos ótimos Griezmann e Mbappé, a França ainda podia ter feito mais gols se não tivesse o atrapalhado Giroud como centroavante). Cabe notar que, antes da Copa, alguns comentaristas especulavam que o Brasil de Tite poderia mostrar uma ofensividade inédita para nossa seleção desde 82; André Rocha, por exemplo, chegou a sugerir que, no ataque, o Brasil poderia jogar no 2-3-5 (a “pirâmide”, esquema tático mais antigo de todos, e que foi o paradigma até meados da década de 1930, quando foi superado pelo WM, uma espécie de 3-4-3 primitivo), com Daniel Alves e Marcelo migrando das laterais para o meio-campo e dois meias (Coutinho e, possivelmente, Fred) se tornando atacantes. Esse plano começou a naufragar com as lesões de Daniel Alves e Fred, mas durante a própria Copa ficou claro que a seleção brasileira não conseguiria jogar de forma tão ofensiva, tanto pela má fase de Paulinho, Gabriel Jesus e Marcelo quanto pelas contusões de Renato Augusto e Douglas Costa. Não por acaso, os dois melhores jogos do Brasil foram com jogadores de perfil mais defensivo (Filipe Luís, contra sérvios e mexicanos) e com esquemas aparentemente mais cautelosos (o 4-4-2 no 2º tempo contra o México distribuiu melhor as funções no meio-campo e no ataque). A escalação mais voltada para o ataque foi justamente no jogo da eliminação, contra a Bélgica, com Marcelo de volta, no lugar de Filipe Luís, e Fernandinho, substituto de Casemiro, não sendo capaz de exercer bem a função de volante “cão de guarda”. Não deu certo, pois o meio-campo brasileiro ficou completamente exposto aos contra-ataques belgas. O 2-3-5 pode não ter sido testado e o 4-3-3 foi abandonado pela seleção campeã após apenas um jogo. Mesmo assim, o estilo de jogo ofensivo teve seu receptáculo nessa Copa pelos pés da 3ª colocada. A Bélgica de Roberto Martínez adotou um esquema com 3 zagueiros, 4 meias e 3 atacantes e saiu da Copa com o melhor ataque (16 gols), seis vitórias e apenas uma derrota (e logo em um jogo no qual recuou um dos atacantes – De Bruyne). Esta formação ofensiva só mostrou dificuldades contra o Japão (que se protegeu bem, porém se expôs demais após levar o empate, resultando no já lendário lance do contra-golpe no último minuto que levou à virada belga), mas a lição foi aprendida e a Bélgica soube variá-lo com o 4-3-3 e o 4-4-2 diante do Brasil. Infelizmente a mesma genialidade tática de Martínez não foi repetida contra os franceses, mas ainda assim os talentosos jogadores belgas e seu técnico saem como o destaque tático da Copa. § 4 Chegou ao fim a 21ª Copa do Mundo, a 7ª que assisti ao vivo – ainda que, do mundial de 1994, eu só tenha memórias nítidas de dois jogos: Brasil 1x0 EUA e a final contra a Itália. De fato o mundial da Rússia foi um dos melhores Copas das últimas décadas – não supera a equilibrada Copa de 98, mas ficou ligeiramente abaixo de 2014 e acima de todas as outras quatro que eu vi (e, somando todos os mundiais, certamente ficaria entre os 7 ou 8 melhores). Vai ser triste ter que voltar à dura realidade do Brasileirão (ainda mais quando o seu time não está no G4), então que venha logo a Copa América de 2019, a qual será realizada justamente no Brasil! Torço para que Tite e os jogadores que ficaram devendo nessa Copa aprendam com os erros e consigam nosso primeiro título continental desde 2007.

14 julho 2018

Os finalistas da Copa - e os que quase chegaram lá


A Copa do Mundo chega à final com um duelo que poderia ter acontecido já nas oitavas-de-final: França x Croácia. Antes da Copa, em 23 de Maio, fiz uma simulação dos possíveis confrontos de oitavas, quartas, semi e final. Como os franceses provavelmente liderariam o grupo C e os croatas ficariam atrás dos argentinos no grupo D, acreditei que as duas seleções tinham chances de se encontrar no primeiro mata-mata.

Já na segunda rodada da Copa o duelo foi postergado para uma hipotética (mas ainda pouco provável) final, devido à contundente vitória da Croácia sobre a Argentina. A seleção balcânica ainda não sabia, mas aquele triunfo – que praticamente assegurou o 1º lugar no grupo - também estava colocando ela no lado mais fácil do chaveamento da Copa, pois as seleções mais cotadas para entrar nele ou foram eliminadas já na 1ª fase (Alemanha), ou caíram nas oitavas (Espanha). Os croatas não repetiram o ótimo desempenho na 1ª fase contra Dinamarca e Rússia, mas mostraram notável resistência física e emocional ao sobreviver a duas prorrogações seguidas de pênaltis. O bom futebol, contudo, voltou quando mais precisava: na semifinal contra a Inglaterra, com uma vitória de virada – novamente precisando do tempo extra, mas desta vez o jogo foi resolvido na prorrogação.
Talvez nem a própria torcida croata esperasse que sua seleção fosse chegar tão longe, ainda mais dado o turbulento contexto pré-Copa; para não entrar em questões políticas e jurídicas e me ater às futebolísticas, cabe lembrar que a Croácia passou raspando nas eliminatórias; precisou trocar de técnico às vésperas da última rodada e, mesmo vencendo a Ucrânia fora de casa, ficou atrás da Islândia (sim, a mesma seleção que a Croácia iria eliminar em seu grupo nesta Copa!) no grupo I e precisou encarar a repescagem contra a Grécia. Oito meses depois, Modrić, Rakitić, Mandžukić (que caiu em cima de um fotógrafo na comemoração do 2º gol contra a Inglaterra, rendendo fotos hilárias como a postada abaixo), Perišić e cia. conseguiram chegar mais longe no mundial do que a fantástica equipe de 1998 (formada por craques Šuker, Jarni, Boban e Bilić); podem até não ganhar a Copa, mas o vice-campeonato já deixaria a equipe no mesmo patamar de outras duas lendárias seleções do Leste Europeu: a Tchecoslováquia (1934 e 1962) e a Hungria (1938 e 1954). Aliás, comentaristas como Jonathan Wilson (autor de “A Pirâmide Invertida”, livro sobre a história dos esquemas táticos que estou lendo com prazer nos últimos dias) notaram que a Croácia é o finalista mais surpreendente em uma Copa desde justamente os tchecoslovacos em 62.



A França, com um ótimo elenco e mais madura depois do frustrante vice na Euro 2016, sempre foi cotada como um time que tinha boas chances de chegar à final, mas para isso teve que encarar um chaveamento difícil: enfrentou argentinos (ressuscitados após uma vitória dramática sobre os nigerianos), uruguaios (que tinham eliminado os portugueses) e belgas (os quais vinham de uma vitória sobre os brasileiros). A seleção francesa sobreviveu incólume a esses três duelos; teve pouco trabalho contra um Uruguai sem Cavani e uma Bélgica resignada após o 1x0. Curiosamente o jogo em que teve que se esforçar mais foi contra a caótica Argentina: após tomar a virada no início do 2º tempo, a França fez 3 gols em 11 minutos, e podia até ter feito mais; porém, tomou outro gol nos acréscimos e quase levou o empate no último lance do jogo.
Os franceses vêm sendo bem econômicos na Copa; craques como Pogba, Mbappé e Griezmann não precisaram jogar tudo o que sabem na maioria das partidas, e a equipe se dá ao luxo de ter um centroavante medíocre como Giroud (que, segundo me contou uma amiga que mora na França, é considerado por seus próprios conterrâneos “um bom zagueiro para um atacante”) – afinal até o zagueiro Umtiti fez gol. É um bom presságio, pois a França campeã de 98 também não tinha um bom centroavante, e seus 15 gols foram feitos por 10 jogadores diferentes. Resta saber se na final a França vai manter a serenidade e a segurança que vem mostrando ao longo de toda essa Copa ou se, tal como fez contra Portugal dois anos atrás, irá “amarelar” logo no jogo decisivo.

Sobre as equipes eliminadas nas quartas e semifinais, eis alguns comentários:

1) Como já disse anteriormente, a seleção uruguaia não resistiu à ausência de Cavani, que teve uma lesão no jogo contra Portugal. Faltou uma referência ofensiva, inclusive para fazer dupla com Suárez. Restou ao Uruguai entrar no “modo Libertadores”, e distribuir botinadas nos franceses, na esperança de ganhar o jogo na raça e na força física. Não deu muito certo, pois a equipe levou um gol ainda no 1º tempo, e precisou correr atrás do resultado. O golpe de misericórdia foi a falha bisonha do goleiro Muslera, que mantém a sua sina de oscilar entre o gênio (como nos pênaltis entre Uruguai x Gana, em 2010, ou mesmo no jogo contra Portugal) e o grotesco; é uma espécie de Taffarel uruguaio. De toda forma, o Uruguai terminou a Copa em 5º lugar (uma posição acima do Brasil), e se esta foi a despedida de Óscar Tabárez do comando técnico da Celeste, a sensação de dever cumprido é evidente.

2) Antes do jogo do Brasil eu já estava resignado à possibilidade de uma derrota, como demonstra o tom quase de despedida do meu post anterior sobre a Copa. Ainda que esta fosse a primeira Copa em muito tempo na qual gostei do técnico da nossa seleção e dos jogadores escolhidos, do outro lado haveria uma seleção jogando no meu esquema tático favorito (3-4-3) e com alguns dos maiores craques dos últimos 5 anos (Hazard, De Bruyne, Lukaku, Courtois...). Mesmo assim, a derrota para a Bélgica foi um pouco melancólica. Em primeiro lugar, jogadores remanescentes do 7x1 falharam novamente: Marcelo não teve pique para a marcação, Fernandinho fez um gol contra e não fez uma falta que impediria o 2º gol belga, Paulinho novamente foi mal e conseguiu a proeza de ser substituído em todos os jogos da Copa... Em segundo lugar, foi uma má idéia tirar Filipe Luís para recolocar Marcelo; o Brasil venceu bem a Sérvia e o México com ele no time, pois dava segurança defensiva, e em uma partida em que o time já estaria desfalcado de Casemiro, essa troca deixou brechas para os contra-ataques mortais dos belgas. Em terceiro lugar, do ponto de vista tático, a seleção brasileira levou um nó da disciplinada Bélgica – como bem apontaram analistas como Cuca e Jonathan Wilson, os belgas oscilaram entre o 3-4-3, o 4-3-3 e o 4-4-2, sendo que as duas últimas formações permitiram à equipe se recompor defensivamente e anular a movimentação do Brasil (que insistiu no 4-2-3-1 em vez de tentar o 4-4-2 que deu certo contra o México). Em quarto lugar, como bem apontou Mauro Cezar Pereira, Tite se ateve à sua “panelinha” (por mais que Paulinho, Gabriel Jesus e Willian tivessem ido bem nas eliminatórias, eles renderam pouco ao longo da Copa - embora o último até tenha jogado bem contra a México) e abriu mão de jogadores que poderiam ter ido melhor, como Firmino, Douglas Costa e Renato Augusto (no caso dos dois últimos estavam machucados em jogos anteriores, mas poderiam ter entrado antes contra a Bélgica, pois nos poucos minutos que estiveram em campo o time melhorou significativamente e quase chegou ao empate). Cabe ressaltar que foi 4ª derrota seguida do Brasil para uma seleção européia em mata-matas de Copas; desta vez, contudo, mostrou mais raça do que nas três anteriores. Espero que haja aprendizado tático e maior maturidade emocional no próximo mundial.

3) A Suécia fez sua pior atuação na Copa contra a Inglaterra. Desde o início jogou de forma retranqueira, muito longe da proposta ofensiva que mostrou contra México, Suíça e no 1º tempo contra a Alemanha. Não foi difícil para os ingleses despachá-los com 2 gols em bolas aéreas, e poderiam até ter feito mais se Sterling não fosse tão fominha. Mesmo assim, os suecos saem da Copa com um desempenho bem acima do esperado; Ibrahimovic não fez falta, e os suecos tiveram sua melhor performance em competições internacionais desde 1994.

4) A Rússia também termina o mundial com saldo positivo. Conseguiu uma surpreendente classificação para as quartas-de-final, e por muito pouco não chegou à semifinal. O gol de empate de Mário Fernandes na prorrogação até deu ânimo para os russos vencerem nos pênaltis, mas o erro do próprio brasileiro em sua cobrança e a defesa de Subašić na cobrança de Smolov deram a vaga à Croácia. Os russos foram valentes ao longo de toda a Copa, e superaram toda a desconfiança após os maus desempenhos competitivos nos últimos 10 anos. Jogadores como Dzyuba e Cheryshev saem em alta.

5) A Bélgica, após a notável reação contra o Japão nas oitavas e a aula de tática contra o Brasil nas quartas, não mostrou nenhuma dessas virtudes na partida contra a França. A mudança para o 3-5-2 até parecida prudente, mas a equipe não conseguiu traduzir a superioridade em meados do 1º tempo em gols, e isso é fatal contra uma equipe tão eficiente contra a França. Depois que esta fez o gol, os belgas se abateram, e ofereceram pouco perigo a Lloris; os franceses estiveram mais perto do 2º gol do que os belgas do empate. Fellaini, um dos heróis contra o Japão, voltou a ser digno da posição de mascote do “Corneta Europa” após o erro de marcação no gol francês e na temeridade com que subia para o ataque, deixando a defesa desprotegida. A Bélgica conseguiu um grande feito contra o Brasil, mas diante da França mostrou os seus limites. Esta tem um time tão bom quanto o belga, mas soube se defender melhor, foi mais eficaz no ataque e cozinhou bem o jogo depois de fazer seu gol. Resta aos belgas ganhar dos ingleses nos próximos minutos para encerrar bem a sua melhor campanha em Copas até hoje.

6) A Inglaterra vinha do seu melhor jogo em Copas em 16 anos: a vitória contra a Suécia foi a melhor atuação inglesa desde o 3x0 contra a Dinamarca nas oitavas de 2002. Pareciam ter se redimido depois do sufoco contra a Colômbia e, exorcizado o fantasma dos pênaltis, enfim jogando bem (em especial o goleiro Pickford, que fez boas defesas). No jogo seguinte, contudo, os Three Lions fizeram um gol logo no início (aliás, uma bela cobrança de falta do Trippier) e infelizmente retomaram uma das suas piores tradições: se contentar com um 1x0 e fazer cera pelo resto do jogo. Os ingleses ainda por cima esbanjaram gols perdidos, em especial um de Harry Kane ainda no 1º tempo. Essa postura displicente pôs a vaga na final em risco, pois a Croácia voltou melhor no 2º tempo – em vez de ficar sorumbática como a Bélgica, ela partiu para cima. Quanto aos ingleses, em vez de controlar tão bem a partida como fizeram contra a Suécia, eles se retrancaram e atraíram o empate como já ocorrera contra a Colômbia. O castigo veio com o gol de empate de Perišić, e por pouco a Croácia não virou ainda no tempo regulamentar, dado o nervosismo que se instalou os ingleses depois que perderam a vantagem. Mesmo com o joelho machucado após uma dividida com Pickford, Mandžukić fez o gol da virada no 2º tempo da prorrogação, despachando os ingleses para casa – quer dizer, depois de hoje, pois ainda estão jogando a decisão de 3º lugar. A Inglaterra tem motivos para se orgulhar da seleção treinada por Southgate (melhor técnico da equipe em décadas), mas não foi além da semifinal por insistir em erros de Copas anteriores (outro caso de 1x0 que foi revertido foi justamente contra o Brasil, em 2002).

P.S.: Sobre a final, a França é a favorita, mas a Croácia não pode ser subestimada – ainda mais considerando que Portugal também passou por várias prorrogações na Euro 2016 e derrotaram os franceses na final. A equipe treinada por Deschamps, contudo, está mais equilibrada e parece propensa a não repetir o vice de dois anos atrás.

06 julho 2018

Algumas reflexões sobre as quartas-de-final da Copa 2018

Faltam apenas alguns minutos para começar o 1º jogo das quartas. Ainda dá tempo de expor minhas expectativas em relação a cada um dos confrontos, assim como comentar o que cada seleção classificada teve que passar nas oitavas.

Uruguai x França: Os uruguaios vêm evoluindo ao longo da Copa, e passaram bem no teste complicado que tiveram contra Portugal. É incrível que, mesmo com Tabárez há 12 anos no cargo e já tendo passado por um ápice (4º lugar na Copa do Mundo de 2010 e título da Copa América de 2011), a seleção uruguaia continue forte: não só fez sua melhor campanha nas eliminatórias em décadas (finalmente não teve que disputar repescagem), mas também vem apresentando uma campanha bem consistente no mundial, com defesa segura e uma ótima dupla de ataque. Pena que justamente Cavani, autor dos 3 últimos gols uruguaios, tenha sofrido uma lesão muscular nas oitavas, e portanto não estará no jogo decisivo contra a França. Resta saber como a seleção uruguaia irá reagir a esse desfalque; talvez a responsabilidade caia nos pés de Suárez, que precisará de uma atuação à la Uruguai 2x1 Inglaterra (2014) – quando fez os 2 gols – para reverter o favoritismo francês. A propósito, Les Bleus finalmente acordaram para a Copa no eletrizante jogo contra a Argentina, mostrando tudo o que ficaram devendo na 1ª fase. O placar de 4x3 não representa tão fielmente o que foi a partida, pois a superioridade francesa poderia ter sido transformada em goleada se não fossem alguns vacilos defensivos (como a falta de marcação a Di María no gol de empate argentino). Mbappé teve uma performance espetacular, tendo feito 2 gols e sofrido o pênalti de outro. Após o promissor 7º lugar na Copa passada e o decepcionante vice na Euro 2016, a “ótima geração francesa” tem uma nova chance de provar que o elenco talentoso também pode ser vitorioso.



Brasil x Bélgica: Uma final antecipada. Um duelo entre o melhor ataque (belgas) e a melhor defesa (brasileiros). O fim do caminho para uma seleção que mereceria chegar mais longe, não fosse o cruel chaveamento. Do ponto de vista tático será um interessante embate entre o 4-3-3 de Tite e o 3-4-3 de Martínez (embora, dependendo das situações de jogo, possa também ser um duelo entre um 4-2-3-1 ou 4-4-2 e um 3-4-2-1); será que prevalecerá a resiliência do escrete canarinho (o famoso “saber sofrer” implantado pelo técnico gaúcho) ou o ímpeto ofensivo (embora por vezes defensivamente suicida) dos Diabos Vermelhos? E qual astro do Manchester City finalmente brilhará na Copa: De Bruyne ou Gabriel Jesus? O Brasil fez sua melhor partida na Copa até agora contra o México, mostrando um notável controle emocional do jogo e fazendo os gols em momentos cruciais (poderiam até ter sido mais se não fosse outra atuação fantástica de Ochoa); os destaques foram Willian, que enfim desencantou no mundial, e Neymar, que participou dos dois gols. Por sua vez, a Bélgica tomou um susto nas oitavas, pois chegou a estar perdendo de 2x0 para o Japão até os 20 minutos do 2º tempo, e esteve a segundos de ter de encarar uma prorrogação; não fosse a inocência japonesa de partir para cima no último escanteio (e, com isso, ficar exposto a um contra-ataque mortal), talvez os belgas teriam sofrido mais para avançar às quartas; a entrada de Fellaini foi decisiva para a virada, ainda mais porque saiu da cabeça dele o gol de empate. É preciso ressaltar que a seleção belga mostrou poder de reação, e que o Brasil de Tite ainda não foi testado por uma equipe com suas características táticas (e seu alto nível técnico); portanto, não se pode prever se os “20 minutos de pressão” que sofreu contra México e Sérvia novamente passarão em branco. Depois das últimas Copas aprendi a ser mais cético com relação à seleção brasileira, portanto não vou ficar surpreso caso sejamos eliminados; entretanto, é a primeira vez desde 2005 (ano da histórica vitória por 4x1 sobre a Argentina na Copa das Confederações, e de uma boa reta final de eliminatórias) que estou de fato torcendo para o Brasil. Eu me incomodei com o oba-oba de Parreira em 2006, o excessivo pragmatismo e a postura arrogante de Dunga em 2010 e uma mistura das duas coisas com Felipão em 2014; com Tite voltou o bom futebol e veio uma postura mais “pé-no-chão”. Mesmo se a seleção perder hoje, espero que o senhor Adenor continue como técnico.

Rússia x Croácia: os russos protagonizaram a única zebra das oitavas-de-final, mas o resultado foi justo, pois eles anularam taticamente a Espanha, que trocou mais de 1000 passes, mas foi incapaz de oferecer perigo – tanto que o único gol espanhol foi contra, em um lance esquisito. Apesar da estréia promissora contra Portugal, a cada jogo nesta Copa os espanhóis se mostraram mais abalados pela ausência do técnico Julen Lopetegui; é preciso culpar não só a ele pelo desastre hispânico, mas também à atitude impulsiva da federação  espanhola e ao Real Madrid, pela proposta tentadora que fez a Lopetegui às vésperas da Copa. Todos esses fatores racharam o grupo e fizeram a Espanha, diante do empate russo, ter que recorrer a uma espécie de tiki-taka degradado, uma “retranca com bola” (André Rocha). Mesmo assim, é preciso reconhecer o mérito da Rússia, que já foi mais longe do que talvez eles próprios esperassem. A essa altura, o que vier é lucro, e não seria impossível vencer os croatas – que, mais uma vez, perderam ritmo no mata-mata, mas, ao contrário de anos anteriores, conseguiram sobreviver via decisão de pênaltis. Nem as defesas incríveis de Schmeichel Jr. foram o bastante para salvar a Dinamarca, pois seus batedores foram bloqueados três vezes pelo goleiro croata, Subašić. A Croácia tem uma equipe melhor, cheia de craques como Rakitić, Mandžukić, Perišić e Modrić (este, aliás, perdeu um pênalti na prorrogação, mas conseguiu se redimir acertando outro na decisão de penalidades); porém, precisa voltar a jogar como jogou contra a Argentina para conseguir superar a equipe anfitriã, que, embora tecnicamente limitada, vem empolgada após o triunfo histórico nas oitavas.

Suécia x Inglaterra: os suecos perderam muitos gols contra os suíços, mas acabaram vencendo pelo placar mínimo uma seleção cuja segurança defensiva, pela 4ª Copa consecutiva, não foi o bastante para compensar o ataque pouco eficaz. A Suécia vem sendo uma das sensações da Copa, e provavelmente fará uma partida bem equilibrada contra os ingleses, que saíram ao mesmo tempo combalidos e aliviados do embate contra a Colômbia. Combalidos, porque jogaram mal, fizeram muitas simulações (os colombianos também, diga-se de passagem) e foram castigados pelo milagroso gol de Mina nos acréscimos (o terceiro dele na Copa, tornando-se assim o improvável artilheiro colombiano), que impediu que vencessem no tempo normal graças a um mísero gol após mais um pênalti infantil cometido por Sánchez. A Inglaterra teve que encarar uma temida decisão de pênaltis, e considerando o histórico desfavorável (havia perdido todas as três vezes que decidiu por penalidades nas Copas, e 3 de suas eliminações nas últimas 6 Eurocopas também vieram desta maneira), o temor de um novo fracasso era grande – e foi potencializado depois que a Colômbia abriu 3x2 com o erro de Henderson. Aliviados, porque o técnico Southgate (que, aliás, errou o pênalti que desclassificou os ingleses na semifinal da Euro em que foram anfitriões, em 96) treinou bem a equipe nas penalidades, tanto do ponto de vista técnico quanto do psicológico, e logo veio a virada – iniciada com a bola no travessão de Uribe e consolidada com a defesa de Pickford na cobrança de Bacca. A Inglaterra exorcizou o primeiro fantasma, agora falta o segundo: passar das quartas-de-final em uma Copa após 28 anos. Para vencer a Suécia terá que oferecer muito mais do que mostrou no tenso duelo com a Colômbia; elenco para isso ela tem, mas falta superar o “jogo feio” que tão freqüentemente os Three Lions mostram quando mais se espera deles.

29 junho 2018

Fazendo 28 anos em grande estilo

Nada como comemorar o aniversário terminando o doutorado! =)
A banca foi maravilhosa: todos os professores (Alba Zaluar, Christian, Lynch João Cezar de Castro Rocha, Pedro Villas Bôas e Roberto Romano) fizeram comentários extremamente valiosos; anotei tudo, deu 8 páginas, rs.


28 junho 2018

Considerações sobre a 1ª fase e expectativas para as oitavas-de-final


A última rodada da 1ª fase manteve o alto nível desta Copa, que já garantiu o bronze na categoria "Melhores mundiais das últimas 3 décadas". A média de gols caiu um pouco (de 2.66 para 2.54), em parte por causa de confrontos modorrentos em grupos em que a classificação já estava praticamente definida (C e G) ou envolvia uma combinação de resultados que incentivava uma postura cautelosa (H). Por outro lado, vários grupos (B, D e F) tiveram desfechos emocionantes, e outros (A e E) terminaram com boas partidas.
Grupo A: Como bem definiu uma matéria do Trivela, o Uruguai deu um "choque de realidade" na Rússia, mostrando que as 2 empolgantes vitórias contra Arábia Saudita e Egito não são o bastante para vencer seleções mais tradicionais e tecnicamente superiores. O primeiro gol teve até um quê de cômico, com um erro de marcação russo deixando o caminho aberto para Suárez marcar de falta. Os uruguaios fizeram sua melhor partida em Copas desde 2010, e podem se dar ao luxo de sonhar alto - se não com título, pelo menos com uma semifinal. Tudo bem que daqui em diante só enfrentarão adversários difíceis (a começar pelo próximo, Portugal), mas a boa defesa e a ótima dupla de ataque podem ser dois triunfos da Celeste. Quanto aos russos, resta saber se vão absorver a pancada e se redimir nas oitavas. Quanto ao Egito, mais uma vez decepcionou, e perdeu de virada para a Arábia Saudita, que encerrou de forma digna sua participação na Copa após uma estréia tão desastrosa.

Grupo B: Espanha e Portugal tiveram muito trabalho para saírem com o empate contra Marrocos e Irã, respectivamente. Os espanhóis chegaram a ficar duas vezes atrás no placar, e os portugueses quase levaram a virada (o que daria a vaga aos iranianos) nos acréscimos. Ou seja, as duas seleções que, com seu eletrizante 3x3, protagonizaram a abertura "de facto" da Copa terminam a 1ª fase em situação um pouco preocupante. Talvez o mata-mata reacenda o espírito copeiro da seleção lusitana e sirva de teste para a Espanha montada por Lopetegui e comandada emergencialmente por Hierro - a qual, caso consiga corresponder no campo à qualidade que seus jogadores mostram nos campeonatos europeus (principalmente em La Liga), pode ter um caminho relativamente acessível até a final.

Grupo C: França 0x0 Dinamarca foi o pior jogo da Copa até agora, com duas seleções covardes e acomodadas com um resultado que classificava os escandinavos e mantinha a liderança dos franceses. Espera-se que o descanso tenha servido para voltarem com força total para seus compromissos nas oitavas, do contrário essa postura preguiçosa será punida pelas empolgadas Croácia e Argentina. No outro jogo da última rodada, o Peru despediu-se bem da Copa, com vitória por 2x0 sobre a Austrália. É uma pena que o pênalti não convertido de Cueva tenha sido decisivo para a eliminação peruana, pois esta era uma seleção que tinha mais a oferecer na Copa do que a Dinamarca.

Grupo D: Eu estava em um seminário acadêmico enquanto acompanhava a rodada decisiva deste grupo pelo rádio, e foi difícil conter em público a minha tensão com as reviravoltas de Nigéria 1x2 Argentina. Messi abriu o placar; Mascherano cometeu o pênalti infantil que empatou o jogo; no finalzinho, o improvável Rojo (sim, o mesmo cuja expulsão na final da Copa América de 2016 em parte tirou o ímpeto albiceleste) marcou o gol da classificação. Os argentinos, de favoritos a quase eliminados, conseguem avançar de forma heróica ao top 16 da Copa; numa hilária definição de Douglas Ceconello, foi "o triunfo da autogestão anarquista com treinador decorativo". Seu desempenho daqui em diante é uma incógnita - seleções em situação semelhante (como a Itália de 94 ou a própria Argentina de 90) chegaram à final, mas também existe a possibilidade de tomarem uma surra histórica dos franceses. Quanto aos croatas, repito o que disse no post anterior: eles já fizeram ótimas campanhas de 1ª fase anteriormente para caírem no primeiro mata-mata (vide as Eurocopas de 2008 e 2016), então é melhor não criar hype exagerado para que eles não nos frustrem novamente.

Grupo E: O Brasil joga cada vez mais como o Corinthians de Tite na Libertadores de 2012 ou, principalmente, nos campeonatos brasileiros de 2011 e 2015: eficiente, defensivamente seguro, pouco agressivo e pragmático. Curiosamente são as mesmas características da famigerada (mas bem-sucedida) seleção brasileira de 1994, embora Tite diga ser fã da seleção de 1982. Deu certo com as experiências inspiradores e pode dar certo agora, mas também recomendo pé no chão com a seleção brasileira. O time vem melhorando a cada partida, mas pode sofrer contra o imprevisível México de Osorio, ainda mais se eles fizerem 1x0. Se formos nós a abrir o placar, o cenário é mais tranqüilo, pois, como as derrotas para o Chile (7x0, 2016), Alemanha (4x1, 2017) e Suécia (3x0, 2018) nos ensinaram, os mexicanos sob comando do treinado colombiano se desesperam quando estão atrás no placar. Quanto à Suíça, ela vem sendo acometida por uma "empatite" (2 de 3 jogos, e, se não fosse o gol salvador de Shaqiri contra a Sérvia, teria sido em todos), e não duvido que o mesmo ocorra no jogo equilibrado que terá contra a Suécia.

Grupo F: Ainda recolhendo meu queixo depois dos jogos deste grupo. A Suécia massacrou o México e a Alemanha, mantendo a tradição de seleções campeãs que são eliminadas na 1ª fase da Copa seguinte (o próprio Brasil fez isso em 66), foi humilhantemente derrotada pela Coréia do Sul. Considerando o mantra "força mental, organização tática e frieza", foram justamente essas três coisas que faltaram na seleção alemã nessa Copa. O time não soube se renovar taticamente (seu 4-2-3-1 ficou "manjado", depois de 2014 todo mundo ou o imitou ou aprendeu a enfrentá-lo), faltou frieza pra resolver jogos difíceis (no da Suécia, p.ex., venceram na base do "abafa", e o mesmo golpe não funcionou contra a Coréia) e a força mental passou longe (pois o técnico foi conservador, deixando quem estava melhor em forma de lado (p.ex., Ter Stegen e Sané) e se atendo a jogadores do elenco de 2014 que não estavam em boa fase neste ano - ou seja, cometeu o mesmo erro de Felipão na Copa passada, ao repetir o elenco da Copa das Confederações de 2013, e isso ainda por cima rachou o elenco alemão entre a "panelinha do Bayern" e os demais. 
A Alemanha cometeu o mesmo erro de todas as campeãs mundiais que falharam em fazer boa campanha na Copa seguinte, algo que vem se repetindo desde 1966 (mesmo a Argentina vice de 90 e o Brasil vice de 98 não estavam à altura de suas seleções campeãs em 86 e 94, respectivamente): acharam que bastava repetir a fórmula do título para se dar bem novamente. O futebol, contudo, é dinâmico, e 4 anos são tempo mais do que suficiente para um estilo de jogo ser aprendido e anulado por seus adversários. 
Quanto ao suecos, são outra seleção que terminou a 1ª fase em curva ascendente, e podem ir longe caso mantenham seu bom futebol coletivo - por incrível que pareça, a ausência de Ibrahimovic deu uma coesão que faltava a essa seleção há tempos, talvez desde o 3º lugar no mundial de 1994. Sobre o México, é uma seleção instável: pode fazer jogos excelentes como a estréia contra a Alemanha ou desastrosos como a derrota para a Suécia. Resta saber qual versão enfrentará o Brasil.


Grupo G: O grupo mais chato da Copa, devido ao desnível técnico entre, de um lado, Inglaterra e Bélgica e, do outro, Tunísia e Panamá. Até rendeu boas goleadas, mas o tão aguardado confronto entre as duas seleções européias foi quase tão preguiçoso quanto Dinamarca x França; o que o salvou da modorra foi o belo gol à la Robben de Januzaj. É compreensível o temor de ambas em ficar em 1º na chave e, com isso, ficar no mesmo lado do chaveamento de Brasil, Uruguai, Argentina, Portugal e França; porém, o 2º lugar traz logo de cara um nada simples embate contra a Colômbia e, dado o histórico recente de decepções protagonizadas por belgas e ingleses, não me surpreenderia uma queda precoce. Coube à Inglaterra a vice-liderança do grupo G; caso superem os colombianos, de fato podem ir longe na Copa (a não ser que, p.ex., os suecos mantenham sua sanha contra seções tradicionais). No que concerne à Bélgica, foi premiada com um confronto fácil contra o Japão, mas dali em diante terá desafios duríssimos para fazer jus à sua reputação entre os jogadores de FIFA/PES.

Grupo H: Após 2 rodadas espetaculares, este grupo se despede da Copa num tom um pouco melancólico. No caso da Colômbia, não tanto pelo futebol (a equipe buscou o resultado e mereceu a vitória, que saiu de mais uma cabeçada certeira do gigante dançarino Mina), mas pela preocupante contusão de James Rodríguez. Quanto às outras três, pelo futebol excessivamente pragmático: a Polônia fez 1x0 e achou que isso bastava para compensar o fiasco que protagonizou na Copa; o Japão, após tomar 1x0, se limitou a tocar a bola, pois ainda estava matematicamente classificado (em um critério de desempate atípico, mas relativamente justo: o "fair play", i.e., o número de cartões amarelos); Senegal jogou para gastar o tempo, e só acordou depois de tomar o gol colombiano, mas já era tarde demais para reagir - por mais que eu tenha gostado do futebol senegalês nos jogos anteriores, este foi um castigo justo pela procrastinação em jogar bola. Os colombianos se redimiram após a derrota para os japoneses, e terminam a 1ª fase em alta, embora sem um de seus principais jogadores. Já o Japão avança às oitavas em baixa, e terá que jogar muito mais do que jogou até agora para oferecer alguma resistência à Bélgica.

Sobre os confrontos das oitavas, eis alguns comentários:

França x Argentina: o jogo mais aguardado, pois qualquer resultado pode acontecer, desde uma goleada francesa até uma vitória heróica de Messi e cia. Embora no papel a França seja claramente melhor, eu não descartaria completamente a possibilidade da anarquista (ou anárquica) Albiceleste continuar a crescer na dificuldade.

Uruguai x Portugal: promete ser um jogo bem disputado, e não duvido que tenha muitas faltas (quem sabe pode ser um novo Portugal x Holanda, rs). Os uruguaios estão jogando melhor, mas um dia inspirado de Cristiano Ronaldo pode ser um fator de desequilíbrio.

Espanha x Rússia: os espanhóis mostraram alguns problemas contra Marrocos, mas ainda estão num patamar superior aos russos. A seleção anfitriã terá que operar um milagre para conseguir chegar ás quartas pela 1ª vez desde que a Rússia (na época URSS) alcançou esta façanha pela última vez, em 82.

Croácia x Dinamarca: a seleção croata tem tudo para repetir a ótima campanha de 98, e para isso terá de enfrentar justamente outra seleção cujo melhor desempenho em mundiais também foi na Copa da França (para aumentar a coincidência, as duas estavam no mesmo grupo das eliminatórias, com os dinamarqueses passando em 1º e os croatas tendo que encarar uma repescagem). A retranca dinamarquesa pode funcionar, mas pelo bem da Copa será melhor se os croatas avançarem.
Brasil x México: eis uma revanche de Osorio contra Tite após o empate de 1x1 entre São Paulo e Corinthians no Brasileirão de 2015 (no qual os corinthianos foram campeões e os são-paulinos ficaram em 4º lugar, com o técnico colombiano saindo um pouco antes do final da disputa para poder assumir a seleção mexicana). A seleção brasileira vem jogando melhor nesta Copa, mas o México tem um histórico recente de crescer em embates com o escrete canarinho (vide 0x0 na Copa do Mundo de 2014 e vitórias nas Olimpíadas de 2012, nas Copas América de 2001 e 2007 e nas Copas das Confederações de 1999 e 2007).
Bélgica x Japão: tudo indica que será uma barbada para os belgas, mas tudo pode mudar se, por exemplo, um pênalti for cometido aos 3 minutos e o jogador que o cometeu for expulso.
Suécia x Suíça: talvez o jogo das oitavas com mais cara de que terá prorrogação e pênaltis. Duas seleções boas defensivamente, mas os suecos propõem mais o jogo. Tomara que façam 1x0 para os suíços tentarem repetir a boa atuação contra os sérvios.
Colômbia x Inglaterra: tende a ser um dos melhores jogos das oitavas. Os ingleses têm um elenco de alto nível e boa disciplina tática, mas cabe lembrar que do outro lado temos um técnico experiente que pode estar em sua última Copa (Pekerman), um zagueiro-artilheiro (Mina) e dois destaques ofensivos (Cuadrado e Falcao García).

P.S.: Se fosse para dizer quem eu acho que ganha nas 8 partidas, minhas apostas seriam: Argentina, Uruguai, Espanha, Croácia, Brasil, Bélgica, Suécia e Inglaterra.

24 junho 2018

Um balanço das duas primeiras rodadas da Copa 2018


32 dos 64 jogos da Copa do Mundo da Rússia já foram disputados, e até agora não tivemos nenhum 0x0. Se por um lado é verdade que vários desses jogos terminaram em 1x0 (inclusive todos os três jogados no dia 20/6), por outro a média de gols parcial é 2.66, idêntica à das Copas recentes com melhores médias (França 98 e Brasil 14).
O nível técnico dessa Copa vem sendo muito bom; o equilíbrio entre as seleções é o maior desde 1998, e mesmo algumas das seleções “menores” jogaram bem. Vamos a uma análise da situação de cada grupo às vésperas da 3ª e última rodada da primeira fase.

Grupo A: A anfitriã Rússia começou o torneio de forma arrasadora, com uma goleada sobre a Arábia Saudita – treinada por Pizzi, o mesmo que levou o Chile do céu (venceu a Copa América Centenário, com direito a 7x0 no México e nova vitória nos pênaltis sobre a Argentina) ao inferno (ficou de fora da Copa do Mundo, despedindo-se com uma derrota contundente para o Brasil) em apenas um ano. Ele deu um jeito de ir ao torneio para o qual não conseguira classificar os chilenos, mas não foi poupado de novo vexame. Menos mal que na segunda rodada os sauditas perderam “apenas” por 1x0 para os pragmáticos uruguaios, que conseguiram a classificação antecipada com duas vitórias magras (a primeira delas, contra o Egito, ainda foi no sufoco). No mais, os egípcios mostraram não ter muito a oferecer além de Salah, e para piorar este não está na melhor forma desde o ippon que tomou de Sergio Ramos na final da Champions. Rússia e Uruguai vão decidir amanhã quem será o líder da chave, mas de qualquer maneira não vão evitar uma pedreira, dado os dois prováveis classificados do...

Grupo B: Portugal e Espanha pegaram um grupo relativamente tranqüilo, embora tenham tido um pouco de trabalho para despachar Marrocos e Irã na segunda rodada. Cristiano Ronaldo continua sendo uma seleção à parte, tendo feito todos os 4 gols portugueses. A decisão de se poupar na reta final do campeonato espanhol se mostrou acertada, pois ele chegou na Copa em ótima forma, ao contrário do que havia ocorrido em 2014. Resta saber até onde pode levar a sua seleção, mas depois do título da Euro 2016 (no qual, mesmo machucado na final, viu seus compatriotas saírem campeões) não podemos mais duvidar do potencial lusitano. Também ajuda o fato de que o técnico Fernando Santos é copeiro. Quanto à Espanha, por enquanto o time não parece ter se abalado pela trapalhada seguida de demissão de Lopetegui (o qual havia acertado a renovação de seu contrato com a seleção espanhola, mas três semanas depois não honrou sua palavra e assinou com o Real Madrid). Conseguiu vencer a forte retranca iraniana (organizada, vejam só, por um técnico português) e deve ter um jogo fácil com Marrocos para confirmar o 1º lugar do grupo. A propósito, Portugal 3x3 Espanha foi um duelo de titãs (leia-se: o time espanhol x CR7), e é forte candidato a melhor jogo da Copa – não por acaso, é dele a foto que estampa esse post, mais especificamente da cobrança de falta de Cristiano Ronaldo que levou ao gol de empate português.

Grupo C: Na primeira rodada, os franceses, candidatos ao título, tiveram mais trabalho do que o esperado para bater os australianos; os peruanos jogaram melhor, mas tiveram muito azar (e certa incompetência na hora de finalizar) e acabaram derrotados pelos dinamarqueses. Na segunda, a França eliminou precocemente o Peru, que tentará vencer a Austrália na última rodada para conseguir uma vitória em uma Copa pela primeira vez desde a 1ª fase de 78 (já que passaram em branco na 2ª fase daquele mundial e na 1ª da Copa de 82). Um gol de Guerrero teria caráter apoteótico, considerando o drama que foi para ele poder chegar a jogar no mundial. Quanto à Dinamarca, está praticamente classificada, mas precisa pelo menos empatar com a França para não ficar à mercê do desempenho australiano. 

Grupo D: Uma das chaves mais interessantes da Copa, pois a cada jogo as possibilidades de classificação mudavam completamente. A Argentina terminou a 1ª rodada um pouco pressionada após o empate com a Islândia, mas ainda com boas chances de ficar em 1º lugar; após a humilhante derrota para a Croácia (seja pela lambança de Caballero no primeiro gol ou, principalmente, pela postura apática da defesa no terceiro), ficou à beira da eliminação; porém, os argentinos, enquanto assistiam pela TV à vitória da Nigéria sobre os islandeses, tiveram que desarrumar suas malas às pressas, pois suas chances foram ressuscitadas. No papel, basta à Albiceleste ganhar bem dos nigerianos (por pelo menos 2 gols de diferença, para não ficar dependente do placar do outro jogo, em que a Islândia vai pegar a já classificada Croácia); na prática a situação é bem delicada, não só pelo bom futebol mostrado pela seleção africana na 2ª rodada, mas também pelos enormes problemas internos pelos quais passa a seleção argentina, desde a AFA até a relação do técnico com os jogadores – inclusive foi noticiado hoje que fizeram um motim contra Sampaoli e vão decidir eles próprios a escalação do time. No mais, os croatas vêm jogando melhor do que o esperado, e nesse ritmo podem chegar pelo menos às quartas dessa Copa (embora tenham passado a mesma boa impressão na 1ª fase da Euro 16 e caíram já nas oitavas).

Grupo E: Muita gente não deu bola para o bom nível dos adversários do Brasil na 1ª fase, e agora estão assustados com as dificuldades que nossa equipe vem enfrentando. Eu já esperava um confronto complicado com a Suíça, e outro um pouquinho menos com a Costa Rica. O que me preocupa, contudo, é que o espectro de 2014 continua assombrando a equipe: a equivocada escolha de Thiago Silva como capitão (mesmo depois do papelão que ele proporcionou no jogo contra o Chile na Copa passada; acho que Marcelo, até pela sua carreira vitoriosa no Real Madrid, tem mais cacife para ser o capitão); a postura “fominha”, o teatro e o descontrole emocional de Neymar; e os erros táticos, como o mau posicionamento no escanteio que levou ao gol da Suíça (independentemente de ter sido falta ou não). Tite precisa blindar a seleção contra essa instabilidade anímica, pois do contrário um novo desastre nos aguarda no mata-mata, mesmo que seja por “apenas” 1x0 (já que nossa defesa é bem melhor que a de 4 anos atrás) em vez de 7x1. O 2º tempo contra a Costa Rica foi um pouco animador, com as entradas de Douglas Costa e Firmino e a mudança tática de um previsível 4-2-3-1 (ainda mais considerando que as jogadas do Brasil vinham sendo quase sempre pela esquerda, em torno de Marcelo e Neymar, o que facilitava o trabalho da defesa adversária) para um 4-3-3 ou mesmo um 4-2-4. A contusão de Douglas, contudo, deixa nas mãos de Tite duas opções para o lugar de Willian (que não parece ter chegado ainda à Copa): Renato Augusto (caso opte por melhorar a criação no meio-campo) ou Firmino (se quiser mais ofensividade). Quanto à Suíça, o 1º tempo com derrota parcial para a Sérvia foi preocupante; será que, após arrancar um empate contra o adversário mais difícil do grupo, ela iria ser praticamente eliminada já na 2ª rodada? Não foi o caso, pois os suíços fizeram um 2º tempo espetacular, em que sintomaticamente os dois gols foram feitos por jogadores cujas trágicas histórias de vida (tanto Shaqiri quanto Xhaka nasceram em Kosovo) davam um gosto especial em derrotar os sérvios. Estes agora têm que vencer os brasileiros para avançar na Copa; não é impossível, caso repitam o que fizeram no 1º tempo contra a Suíça. Caso avance, o Brasil pode ter uma aguardada revanche já nas oitavas...

Grupo F: ... pois a Alemanha também pegou um grupo complicado e pode passar tanto em 1º quanto em 2º, a depender do que acontecer no “mata-mata antecipado” entre Suécia e México. Os mexicanos começaram a Copa com uma surpreendente (e merecida) vitória sobre os atuais campeões mundiais, e também jogaram bem contra os sul-coreanos. O problema é que o gol de Son que tomaram nos acréscimos do jogo de ontem arrancou uma vantagem importante para a última rodada: poderiam perder por um gol de diferença dos suecos e se classificariam independentemente do que acontecesse no jogo entre Alemanha e Coréia do Sul. Agora uma vitória sueca por qualquer placar os coloca à frente dos mexicanos – e, caso os alemães mantenham o favoritismo contra a seleção asiática, o México cairá na 1ª fase mesmo tendo feito 6 de 9 pontos possíveis. Algo parecido aconteceu em dois grupos na Copa de 94: no grupo D, a Argentina goleou a Bulgária e virou contra a Nigéria, mas um gol nos acréscimos da Bulgária a derrubou de 1º para 3º lugar; no F, a Bélgica venceu Marrocos e até a arquirrival Holanda, mas bastou uma derrota pelo placar mínimo para a Arábia Saudita para também despencarem da liderança para #3. A diferença é que no mundial de 1994 havia repescagem; em 2018 não há, portanto o México não pode vacilar contra a Suécia. De vacilo os suecos entendem, afinal quase eliminaram os alemães, mas por não saberem fazer catimba (faltou um tutorial de Libertadores para eles), acabaram tomando um gol no último minuto de jogo. A Alemanha sofreu muito, rendeu menos do que o esperado, também falhou um pouco no emocional (o time ficou paralisado durante o atendimento de Rudy, o que permitiu à Suécia crescer no jogo e fazer seu gol), mas sai da 2ª rodada numa situação relativamente tranqüila. A questão é se o final épico e raçudo do jogo contra a Suécia será o bastante; Löw vai precisar melhorar o desempenho da equipe a tempo das oitavas, onde pode ter de encarar uma “final antecipada” com o Brasil.

Grupo G: Bélgica e Inglaterra foram sorteadas para o grupo mais fácil da Copa, e não desperdiçaram a oportunidade – se bem que os ingleses quase fizeram isso na vitória apertada contra a Tunísia. O Panamá foi goleado por ambas as seleções, e os tunisianos sentiram falta do contundido goleiro Hassen em sua derrota para os belgas – embora não tenham jogado tão mal quanto o 5x2 poderia dar a entender. Harry Kane chegou à artilharia parcial da Copa com 5 gols, ainda que 2 sejam de pênalti e 1 sem querer (a bola desviou nele). Belgas e ingleses chegam empatados em pontos e saldo de gols na última rodada; caso o duelo saia sem vencedor no placar, o “Fair Play” (isto é, o número de cartões amarelos e vermelhos) vai decidir a liderança da chave. Este jogo será um bom teste para duas equipes que têm muito a provar – os belgas, pela geração de jogadores espalhados nos melhores clubes europeus; os ingleses, porque não chegam a uma semifinal de Copa ou Euro há 22 anos.

Grupo H: O grupo mais balanceado e emocionante da Copa (seguido de perto por D, E e F) provavelmente proporcionará ainda mais momentos de tensão (e bom futebol) na última rodada. Senegal e Japão surpreenderam em suas estréias, derrotando as seleções mais cotadas – Polônia (que vem de uma boa campanha na Euro 2016) e Colômbia (que foi 5ª colocada no mundial de 2014 e 3ª na Copa América Cententário). No confronto entre africanos e asiáticos, um jogo cheio de possibilidades, em que o 2x2 acabou sendo justo. Já o “duelo dos desesperados” entre sul-americanos e europeus terminou com uma contundente vitória colombiana. A atuação monstruosa de Cuadrado, Mina, James Rodríguez e Falcao García mostra que a derrota para os japoneses foi mesmo um acidente de percurso; não fosse a infantil expulsão de Sánchez aos 4 minutos de jogo (e o subseqüente gol japonês no pênalti que cometeu), talvez a Colômbia também tivesse vencido aquele jogo. Agora precisa derrotar a competitiva seleção senegalesa para avançar às oitavas, naquele que promete ser um dos jogos mais eletrizantes da rodada. Já o Japão precisa apenas empatar com a decepcionante Polônia, que após toda a manobra para ser cabeça-de-chave da Copa (jogou menos amistosos para manter uma pontuação alta no ranking da FIFA), mostrou em campo que não faz jus a esse status. Tal como a Argentina, mudou radicalmente de esquema tático de um jogo para o outro, e em ambos os casos a formação adotada na 2ª rodada foi o 3-4-3 (que é meu esquema favorito, embora seja uma escolha suicida caso a equipe em questão não esteja entrosada, dependa demais de um só jogador para resolver o jogo e não tenha bons defensores – justamente o caso de argentinos e poloneses); porém, não soube adaptar a tática ao adversário: a Colômbia, jogando no 4-2-3-1, conseguiu preencher melhor o meio-campo e era mortal nos contra-ataques. Resta tentar se despedir de forma minimamente digna da Copa contra os japoneses – algo que seus carrascos de Senegal e Colômbia gostariam muito, pois o saldo de gols pode acabar decidindo o 2º colocado do grupo.

P.S.: Estou gostando muito dessa Copa. Ainda não está no mesmo patamar de excelência das duas melhores que ocorreram desde que nasci (1998 e 2014), mas é uma concorrente forte pelo 3º lugar no pódio – e, dependendo do que ocorrer daqui em diante, talvez até algo mais. 
P.S. 2: Itália e Holanda fazem falta nesse mundial. Espero que as duas seleções consigam se renovar para voltar na próxima à altura de suas tradições futebolísticas.
P.S. 3: O início da Copa foi um ótimo catalisador para eu terminar logo minha tese. Escapei um pouquinho da escrita para ver jogos como a abertura e Espanha x Portugal, mas perdi todos do 3º dia (16/6) para concluí-la; sem problemas, depois fiz uma maratona de VTs, rs.

30 maio 2018

50 anos de "Revolution" e uma analogia com Merquior

Em 30 de Maio de 1968, os Beatles gravaram a primeira versão de “Revolution” (a mais lenta, que seria a faixa 8 do disco 2 de The Beatles, vulgo “Álbum Branco”, lançado em Novembro daquele ano). Escrita por John Lennon, esta canção não era a primeira de cunho político composta pela banda (a pioneira foi “Taxman”, de 1966), mas certamente é a mais explícita e contundente. Foi uma resposta de Lennon aos “événements” de Maio de 68 na França (mas não só a eles, afinal os protestos estudantis já vinham desde Março na Inglaterra e EUA). Para surpresa dos militantes de esquerda que estavam esperando – ou, em alguns casos, quase exigindo – um endosso do Fab-Four ao movimento, “Revolution” deve ter soado decepcionante. Lançada no fim de Agosto (em sua segunda versão, a mais rápida, que foi B-side do single “Hey Jude”), todas as suas estrofes começam com uma tentativa de diálogo com as pautas dos movimentos sociais (querer uma revolução, mudar a constituição, dizer que o problema são “as instituições”...), mas terminam com uma tripla recusa de adotar métodos violentos e sectários: 
“But when you talk about destruction / Don't you know that you can count me out”
“But if you want money for people with minds that hate / All I can tell is brother you have to wait”
“But if you go carrying pictures of Chairman Mao / You ain't going to make it with anyone anyhow”
Em outras palavras, John estava dizendo às facções leninistas, trotskistas, maoístas etc. que, “apesar de compartilhar do desejo por mudança social, ele acreditava que a única revolução que valeria a pena surgiria da mudança interna, em vez da violência revolucionária.” (Steve Turner)
O suposto tom “reformista” (no sentido pejorativo que essa palavra ganhou entre os marxistas), conformista ou mesmo conservador da posição política de Lennon (e, por tabela, dos Beatles) foi reforçado pelo contraste com uma canção lançada no mesmo mês: a assumidamente rebelde “Street Fighting Man” (Rolling Stones), que chegou a ser proibida em várias rádios americanas. Enquanto a canção dos Stones, que critica a apatia política londrina (“where I live the game to play is compromise solution”), foi louvada, “Revolution” chegou a ser desprezada por uma resenha na New Left Review como “um grito de medo lamentável de um burguês mesquinho”. Lennon tentaria fazer as pazes com a esquerda três anos depois, em “Power To The People” (“Say we want a revolution / We better get on right away”), mas manteve até o fim da vida seu posicionamento pacifista: “Não contem comigo se for para a violência. Não esperem me ver nas barricadas, a não ser que seja com flores”.
A importância de “Revolution”, contudo, vai além de sua letra. Com seu distorcido riff de guitarra (já proeminente na primeira versão, de estilo blues, e ainda mais barulhento na segunda, mais roqueira), ela abre os trabalhos do “Álbum Branco”. Pelos próximos cinco meses os Beatles gravariam outras três dezenas de canções; o excelente single “Hey Jude” / “Revolution” (forte candidato a melhor compacto da banda, ao lado de “Strawberry Fields Forever” / “Penny Lane”) foi um aperitivo, e três meses depois veio o ambicioso LP duplo que, transitando pelos mais diversos estilos, conteria várias das melhores faixas compostas pelo quarteto de Liverpool. Selecionei 7 delas para uma lista no Spotify com minhas 60 músicas favoritas dos Beatles.


Aproveitando que estou terminando minha tese sobre José Guilherme Merquior, não consigo deixar de ver um paralelo entre “Revolution” e seu livro Arte e Sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin (publicado em 1969, mas escrito no ano anterior). Merquior estava em plena Paris no ano de 68, como diplomata e estudante (estava assistindo a um curso de Lévi-Strauss, e pouco depois começaria seu doutorado em Letras pela Sorbonne). Considerando a efervescência política daquele ano (e o fato de que a maioria dos seus amigos intelectuais eram marxistas), é surpreendente que o livro que ele escreveu naquele ano contenha uma crítica tão dura (e, meio século depois, ainda tão certeira) a um dos gurus da “geração 68”, Herbert Marcuse: 
“Visivelmente enojado pela ‘cumplicidade’ entre democracia e reação, Marcuse passa a vincular o progresso social à violência revolucionária, ilustrando essa tese com quatro exemplos: as guerras civis inglesas, a Revolução Francesa, e as revoluções chinesa e cubana. (...) A exclusão da Revolução [Russa] de Outubro [de 1917] de um contexto onde as revoluções chinesa e cubana são louvadas é um absurdo romântico, uma avaliação histórica inteiramente inobjetiva – embora certamente apta a seduzir os arroubos sinófilos e castrômanos do revolucionarismo de evasão da nossa época, para o qual a China de Mao-Tsé Tung é tanto mais formidável quanto mais ignorada. (...) A obrigação de Marcuse não é mostrar que a violência surtiu bons efeitos no passado pré-democrático, e sim provar que ela é superior, atualmente, à ação democrática. (...) O ‘revolucionarismo’ desses extremismos denota apenas – apesar do caráter ruidoso dos seus clichês – uma reação passiva ante os problemas da cultura contemporânea; nunca, a disposição de enfrentá-los criticamente. Entronizando a violência revolucionária, Marcuse não consegue identificar o seu agente social (...). Teorizando sem glória e sem êxito sobre a violência, e contra a tolerância democrática, Marcuse se situa como prisioneiro dos mitos messiânicos como a ditadura ‘esclarecida’ ‘de transição’ – sem ver que a sua dialética interna a transforma necessariamente em despotismo permanente. O denunciador da repressão cultural derrapa ingenuamente para o panegírico da repressão política.” (MERQUIOR, 2017 [1969], pp. 324-328)