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24 junho 2016

Rumo à final da Copa América e às oitavas da Eurocopa

A Copa América já tem os finalistas definidos e a Eurocopa avança às oitavas-de-final. Eis algumas observações sobre as equipes classificadas:
1) A Argentina vai à sua terceira final em três anos. A Albiceleste venceu com facilidade a seleção dos EUA por 4x0, com mais uma boa atuação de Messi (que fez um golaço de falta) e Higuaín (que fez 2 gols pela segunda partida consecutiva). A performance argentina foi tão dominante que os americanos sequer conseguiram dar um chute a gol! O lado negativo é a ausência de Lavezzi na final, após um tombo bizarro no qual machucou o cotovelo. Creio, contudo, que ele pode ser substituído por Agüero ou Lamela. A decisão da Copa América 2016 contra o Chile será uma revanche da final de 2015, na qual os argentinos perderam nos pênaltis justamente para os chilenos.
2) A seleção do Chile cresceu ao longo da competição, e nessa semifinal precisou de apenas 10 minutos para resolver o jogo contra a Colômbia. Embora tenha feito “apenas” dois gols (se bem que o 7x0 contra o México seria dificilmente repetido, até porque Pekerman não fez táticas suicidas como Osorio), o Chile manteve as virtudes do jogo anterior, como a velocidade e a intensidade. A seleção chilena também terá um desfalque para a final: Pedro Pablo Hernández, que foi prensado por dois jogadores colombianos e contundiu o joelho. Em compensação, Vidal, suspenso do jogo de ontem, estará de volta.
3) A última rodada da primeira fase da Euro teve altos e baixos. Por um lado o grupo F proporcionou 9 gols em 2 jogos: o eletrizante Hungria 3x3 Portugal, um duelo entre Cristiano Ronaldo e as falhas da defesa lusitana; e Islândia 2x1 Áustria, que teve gol nos acréscimos e uma comemoração estilo viking da torcida islandesa. Por outro, nos grupos A, C e E os jogos terminaram todos em 1x0 ou 0x0. Pode-se culpar o sistema de classificação, pois como avançam 16 de 24 equipes (ou seja, 2/3 delas) é possível que um time avance simplesmente empatando todos os jogos (Portugal) ou vencendo apenas um deles (Irlanda do Norte). Também se pode creditar essa escassez de gols ao desgaste típico de fim de temporada. Outro fator são as táticas defensivas das seleções menores. Enfim, bola para frente, afinal amanhã começa o mata-mata e certamente a média de gols subirá dos pífios 1,92 gols por jogo. Mal posso esperar pelas viradas, goleadas, prorrogações, decisões de pênalti etc. que as oitavas, quartas, semis e final nos reservam.
4) As duas chaves ficaram bem desequilibradas. O primeiro finalista sairá dos confrontos entre Suíça x Polônia, Croácia x Portugal, País de Gales x Irlanda do Norte e Hungria x Bélgica. Nenhuma dessas seleções já foi campeã da Eurocopa, embora entre elas haja três possíveis surpresas do torneio (Croácia, Gales e – após ela avançar no grupo empatada em pontos com a Alemanha, tive que dar o braço a torcer – Polônia) e uma seleção que precisa provar que é mais do que uma queridinha da crítica (Bélgica). Suíça, Portugal e Hungria correm por fora, e a Irlanda do Norte deve cair no duelo entre países cujas populações votaram diferente no referendo pela saída do Reino Unido da União Européia (em País de Gales o “leave” venceu, na Irlanda do Norte o “remain”). Cristiano Ronaldo que se cuide, pois a Croácia vem empolgada após vencer os espanhóis de virada.


5) O segundo finalista sairá de um chaveamento que concentra cinco equipes que já foram campeãs européias e/ou mundiais: Itália, Espanha, França, Alemanha e Inglaterra. Itália x Espanha é o confronto mais aguardado das oitavas-de-final, afinal pode ser a revanche da Azzurra pelas derrotas para os espanhóis nas Eurocopas de 2008 e 2012. Aposto na Itália, mas a partida deve ser emocionante, talvez com prorrogação e pênaltis. A França, ainda sem ter feito um grande jogo, enfrentará uma Irlanda com vontade de se vingar do toque de mão de Henry que os tirou da Copa de 2010. A Alemanha fez uma primeira fase pragmática e precisa vencer bem a limitada Eslováquia para chegar empolgada nas quartas, quando fará um jogo duríssimo contra italianos ou espanhóis. Por fim, os islandeses entram como azarões contra a Inglaterra, outra nação britânica cuja atuação é cercada de expectativas depois do resultado do referendo – aliás, foi muito simbólico isso ter acontecido justamente durante uma Eurocopa, torneio-símbolo da integração do Velho Continente.

20 junho 2016

Muitos gols na Copa América e muito equilíbrio na Euro


Com o fim das quartas-de-final da Copa América e o início da 3ª rodada da 1ª fase da Euro, hora de fazer mais um balanço:
1) A seleção dos Estados Unidos aprendeu com a derrota para a Colômbia e cresceu na competição. A vitória sobre o Equador foi justa, mesmo com o sufoco nos minutos finais. Klinsmann mostrou mais uma vez que é um técnico carismático e que preza pela ofensividade. Os EUA provavelmente perderão para a Argentina na semi, mas já podem sair orgulhosos dessa Copa América Centenário.
2) Falando na albiceleste, Messi e Higuaín lideraram a contundente vitória por 4 a 1 sobre a Venezuela. Apesar de mais uma ótima partida dos venezuelanos (que foram sensação do torneio; lembrem-se da vitória sobre Uruguai e o empate vendido caro com o México), os argentinos mostraram sua superioridade, que pode ser resumida no fato de que, no lance imediatamente seguinte ao gol venezuelano, a Argentina fez o seu 4º. É a favorita ao título, mas deve ficar de olho no...


3) ... Chile, que também reagiu após um revés na estréia (aliás, para uma Argentina sem Messi). Após passar apuros contra a Bolívia, goleou o Panamá e, principalmente, o México. O 7x0 reproduziu a imensa superioridade da equipe treinada por Pizzi, calando aqueles (como eu) que desconfiavam do Chile pós-Sampaoli. O técnico conseguiu achar uma boa tática de marcação por pressão (o que anulou a velocidade mexicana) e o elenco resolveu jogar tudo que sabe, alguns até melhor do que nos clubes: Vargas fez 4 gols e se tornou o artilheiro provisório da competição, com 6. Foi um destino muito cruel para a equipe mexicana, que tinha até começado bem a competição contra Uruguai e Jamaica, mas já havia dado um pequeno indício de seus limites no empate com a Venezuela; mesmo assim, nada que pudesse antecipar essa goleada.
4) Quem enfrentará os chilenos na semifinal é a Colômbia, que, diante de um Peru retrancado, precisou dos pênaltis para avançar no torneio. Ainda bem, pois a equipe de James e cia. certamente fará um grande confronto com o Chile; ambas equipes são bem ofensivas e estão jogando, ao lado da Argentina, o melhor futebol sul-americano dos últimos 3 anos.
5) Vamos à Eurocopa. Apenas o grupo A já fechou seus jogos, com França e Suíça se classificando com 7 e 5 pontos, respectivamente. O empate em 0x0 não foi ruim de assistir, especialmente no 1º tempo, com ótimas chances de gol dos dois lados. A Romênia, após uma estréia promissora, decepcionou nos dois jogos seguintes, e está eliminada. A Albânia venceu, mas acho difícil ela avançar como um dos quatro melhores terceiros com apenas 3 pontos.
6) A Itália fez um jogo pouco empolgante com a Suécia, mas precisou de apenas um lance de genialidade do brasileiro naturalizado italiano Éder para vencer a partida. Continua como uma das quatro favoritas ao título, ao lado da Espanha (que desencantou contra a Turquia e parece ter recuperado os bons momentos do "tiki-taka", embora ainda precisemos vê-lo ser testado por seleções mais fortes), da Alemanha (que empatou sem gols contra a Polônia, mas deve vencer a Irlanda do Norte na última rodada) e da anfitriã França.
7) Inglaterra 2x1 País do Gales foi um jogo sensacional, e mostrou uma bem-vinda reação dos ingleses. Aliás, o grupo B é um dos mais equilibrados, e as duas seleções britânicas devem avançar junto com a Eslováquia, que fez um 1º tempo excelente contra a Rússia, dando-se ao luxo de sofrer no 2º, após o gol de honra russo.
8) Outra equipe que se redimiu foi a Bélgica, que depois que a Irlanda "percebeu" que não podia simplesmente empatar e resolveu ir ao ataque, precisou de uns poucos contra-ataques em velocidade para fechar a partida em 3x0. Agora os belgas farão uma partida decisiva contra os suecos, os quais precisam desesperadamente da vitória.
9) A Croácia foi atrapalhada pela própria torcida, e uma vitória quase garantida foi transformada em empate; o nervosismo da equipe após a situação dos sinalizadores foi evidenciado no pênalti bobo que a equipe cometeu. De toda forma, Espanha x Croácia deve ser um dos melhores jogos da 3ª rodada.
10) Por fim, cabe lamentar mais um fiasco da seleção de Portugal, com direito a pênalti perdido de Cristiano Ronaldo. Após dois empates, os portugueses precisarão dar a voltar por cima contra uma empolgada Hungria, que está praticamente assegurada nas oitavas após um empate nos últimos minutos contra a Islândia, que decidirá sua vaga contra a Aústria na última rodada. O grupo F é outro no qual todas as 4 seleções têm chances de avançar.
P.S.) A média de gols da Euro está baixíssima, só 1,85 por partida. Embora eu adore competições nesse modelo de 24 seleções e 4 melhores terceiros (afinal "bagunça" o chaveamento nas oitavas e gerou uma das melhores Copas, a de 94), é preciso reconhecer que ele favorece a procrastinação, pois uma equipe pode sair com empate(s) nos primeiros jogos e só precisar vencer no último. Espero que a "fome de gols" apareça nessa 3ª rodada (até porque tem muito grupo indefinido, como o B e o F) e, mais ainda, na fase mata-mata.

13 junho 2016

Um balanço dos primeiros dias de Copa América e Euro

Agora que já se acumularam vários jogos importantes em ambas competições, creio que posso fazer alguns comentários sobre a Copa América e a Eurocopa:
1) A eliminação precoce do Brasil foi mais do que merecida. O gol de mão do Ruidíaz foi ilegal, claro, mas o time brasileiro não jogou bem tanto antes quanto depois do gol; foi apático, pouco criativo e sem proposta tática. Parecia satisfeito em carregar o empate em 0x0 até o fim, e felizmente foi punido por tal covardia. Se depois desse fiasco o Dunga não for demitido, o Brasil corre sério risco de fracassar também na Olimpíada e de não se classificar para a Copa de 2018.


2) A Itália confirmou sua sadomasoquista tradição: fazer 1x0, recuar e passar muito sufoco do time adversário só para, no finalzinho, aproveitar um deslize para operar um contra-ataque mortal e fazer 2x0. Já foi assim, p.ex., contra a República Tcheca e a Alemanha na Copa de 2006 - a qual, diga-se de passagem, a Azzurra ganhou. Desta vez a vítima foi a superestimada seleção belga, que subiu muitas posições no ranking FIFA vencendo adversários fáceis ou medianos em eliminatórias, mas que ainda não ganhou de uma seleção de ponta em jogos oficiais - vide a derrota para a Argentina na Copa de 2014. Os belgas, contudo, podem quebrar essa escrita nessa Euro, caso aprendam lições com essa derrota para os italianos. Estes, por sua vez, podem chegar longe na competição, não só pela tradição, mas também porque o técnico Antonio Conte deixará a equipe assim que acabar o torneio para assumir o Chelsea. Como ele não tem nada a perder, pode fazer o mesmo que Van Gaal na Holanda de 2014 e formar um grupo coeso e forte a despeito das críticas da imprensa local.
3) A Argentina já havia estreado bem contra o Chile (o qual, aliás, anda em decadência desde que Sampaoli saiu), mas a entrada de Messi no 2º tempo contra o Panamá - saldo: 3 gols dele e passe para o de Agüero - mostrou como a albiceleste evolui com ele em campo. Com Brasil e Uruguai (outra decepção; perdeu de forma vergonhosa para a Venezuela) fora da Copa América, os hermanos estão cada vez mais cotados para ganhar o torneio e encerrar o jejum de títulos desde 93. Agora só vejo duas seleções que poderiam pará-los: o México (pelo bom time que Osorio montou e pelo apoio maciço da torcida) e a Colômbia (que continua jogando bem, mesmo que Pekerman de vez em quando tome medidas equivocadas - a última foi colocar os reservas contra Costa Rica e perder o jogo e a liderança do grupo A).
4) A França passou sufoco na estréia, e precisou contar com um chute sensacional de Payet para derrotar a Romênia. Mesmo assim, continua entre as quatro favoritas da Eurocopa, ao lado de Alemanha (que estreou bem - destaque para o belo contra-ataque que terminou em gol de Schweinsteiger), Itália e Espanha (que, mesmo ainda longe de sua melhor forma, ainda é uma seleção forte).
5) A Inglaterra, não surpreendentemente, decepcionou na estréia, tomando gol no finalzinho em uma jogada, aliás, típica dos ingleses: o "chuveirinho" na pequena área. Já fazem 20 anos desde a última vez que eles foram para uma semifinal, e se não evoluírem ao longo da Euro 2016, esse tabu deve continuar. Outro tabu da Inglaterra que precisará ser batido caso avancem para o mata-mata: decisões de pênalti. Eles perderam 6 das 7 que já disputaram em Copas do Mundo e Eurocopas.
6) Candidatas a surpresas da Euro (considerando que o grupo F ainda não jogou): Croácia, Romênia e País de Gales.

17 maio 2016

Mais uma apresentação sobre Merquior em Curitiba

Há dois anos apresentei no 5º SNS&P, em Curitiba, "Da nostalgia crítica à apologia do progresso", meu primeiro artigo sobre José Guilherme Merquior​. Desde então escrevi outros sete (três sobre liberalismo, três sobre sociologia da cultura e um misto - a interpretação de Merquior sobre Rodó), dentre eles o que apresentei na última sexta (13/5) no VII Seminário Nacional Sociologia & Política​.
(A propósito, "Da nostalgia crítica à apologia do progresso", com alguns acréscimos, foi publicado na 4ª edição da revista Nabuco, em junho do ano passado)
Minha 3ª viagem para a capital paranaense foi ótima. O GT de Pensamento Social teve trabalhos e discussões interessantes; o debatedor do meu artigo sobre Formalismo e Tradição Moderna levantou questões pertinentes; a mesa-redonda sobre instituições e democracia na América Latina (que era a "faixa-título" do seminário) foi muito boa. Madruguei para acompanhar o final da votação do impeachment no Senado (felizmente minha expectativa foi correspondida, e a oposição conseguiu 55 votos já nesse pedido de afastamento). E, claro, comprei muitos livros (dois do Kolakowski: Horror Metafísico e A Presença do Mito; Fundamento da investigação literária, de Eduardo Portella; e A Arte de Ler, de Émile Faguet), CDs (Sam's Town, do Killers; a edição especial de Sleeping with Ghosts do Placebo, com um CD 2 com covers de bandas como Smiths e T. Rex; e Violator, do Depeche Mode) e DVDs (a saga das Doze Casas de Os Cavaleiros do Zodíaco e os mais de 40 clipes de Best of Bowie) nos melhores sebos da cidade, rs. Agradeço novamente a Anselmo​, Alisson e Anselmo Junior​ pela hospitalidade e apoio. =)

11 maio 2016

Congresso em Curitiba e impeachment

Daqui a pouco viajo para Curitiba, onde participarei do VII Seminário Nacional de Sociologia & Política. Na 6ªfeira apresentarei, no GT de Pensamento Social, um trabalho intitulado "Contra a rejeição esteticista do mundo: uma interpretação de Formalismo e Tradição Moderna, de José Guilherme Merquior". Eis o link do texto completo.

Hoje à noite tem votação do impeachment no Senado, e a presidente Dilma Rousseff pode ser afastada. Nem preciso dizer que estou ansioso pelo fim de mais um capítulo dessa "saga". Espero que haja pelo menos 54 votos a favor da admissibilidade do processo no Senado, pois este é justamente o número necessário de votos para cassar a presidente no julgamento final, daqui a alguns meses.
Acompanho vorazmente a crise política desde 2014, e por mais que seja um empolgante "seriado na vida real", cheio de reviravoltas, torço para que, depois do impeachment, as coisas se acalmem. O ajuste fiscal é mais do que urgente, e o governo Temer não deve vacilar em tomar as medidas necessárias para superar a depressão econômica. O desgaste da esquerda também me deixa otimista, pois desta forma não terão tanta força para barrar a recuperação política e econômica do país.

04 março 2016

San Andreas

Viajando para Santo André, para assistir ao exame de kendo da Carolina!

18 fevereiro 2016

Station to Station

(Escrevi isso às 1 PM, antes de dormir, o que talvez explique o tom meio dramático, rs)

Terminam as férias, mas não estou com uma sensação exatamente boa. Esses dois meses foram mais tumultuados do que eu esperava: a morte do David Bowie; meu irmão teve colite e ficou uma semana no hospital; a viagem de Caldas Novas foi marcada por "perrengues"; minha namorada pegou zika. Além disso, não cumpri quase nada do cronograma de estudos, e agora tenho 3 trabalhos para escrever em 1 mês.
Volto para o Rio com incertezas em relação à Bolsa FAPERJ Nota 10; devo aceitá-la, mas estou preocupado com os atrasos.
A situação política, econômica e até cultural do país continua a se deteriorar; nessas até dá vontade de flertar com uma visão de mundo à la Grande Hotel Abismo, mas sou otimista demais para chegar a esse ponto. O jeito é me concentrar nos livros e trabalhos finais para me esquecer do mundo exterior. É hora de reeditar 2013 (meu ano academicamente mais produtivo) para evitar uma apatia tal como a de 2006 (em que cheguei a ter uma "ressaca literária"). 
Creio que me aproximei mais da minha família, até pelas situações que passamos. É engraçado ver o Aderson entrando na puberdade; dá orgulho de ver o Fernando amadurecendo; é um alívio ver minha mãe mais feliz após tantos problemas na vida amorosa e financeira. A reforma da casa foi rápida e bem-sucedida; aliás, adorei meu novo quarto.
Estou com saudades da Carolina, e mal posso esperar para os importantes passos que daremos em nossa relação esse ano, a começar pelo fato de que será o primeiro ano inteiro em que moraremos juntos.
2016 começou estranho, mas confio que será um ano bem melhor do que os dois últimos.

12 fevereiro 2016

Uns dias em Brasília III

Agora que terminei de descansar (aliás, estava tão empolgado lendo a biografia do The Cure escrita por Jeff Apter - terminei em três dias! - que nem vi o Carnaval passar), é hora de contar como foi a viagem para Brasília.

1. Tudo começou no domingo (31/1). Eu tinha almoçado kibe na casa da minha vó Filó, e passei o início da tarde ouvindo meu LP duplo The Beatles 1967-1970. Quando cheguei em casa, minha mãe me disse que o Gino e o David haviam chamado eu e o Aderson para ir ao ITA Park. Como a entrada para o parque está muito cara (35 reais), não pretendia ir, mas aí lembrei que o Flamboyant é do lado do ITA. Sendo assim, aproveitei a carona e passei o resto da tarde de domingo no shopping. 
Primeiro fui à Fnac, onde comprei o álbum The Next Day (David Bowie) e a Placar especial do título do Palmeiras na Copa do Brasil. Depois fui à Saraiva, e levei dois livros da Saraiva de Bolso que estavam com 50% de desconto: Poesia (T. S. Eliot) e Seus Trinta Melhores Contos (Machado de Assis). Voltei à Fnac e por sorte estavam passando na TV da parte de música da loja o DVD 1 (The Beatles), com os clipes dos 27 singles deles que chegaram ao topo das paradas britânicas e americanas. Fiquei mais de uma hora lá vendo os clipes, e acabei levando mais 2 CDs, ambos do Fab-Four: A Hard Day's Night (eu só tinha o vinil, com o genial título Os Reis do Iê-iê-iê) e o White Album (eu já tinha um, adquirido logo no lançamento em 2009, mas a capinha dele veio amassada - shame on you, Saraiva!; além disso, eu amo tanto esse álbum duplo que não seria um problema deixar um em Goiânia e levar outro pro Rio).
Quando os meninos terminaram de ir em todos os brinquedos do ITA, fomos pra casa, mas não sem antes passar no Lifebox para comer uns hambúrgueres muito bons. Eu pedi um Chili Burguer e um milk shake de Ovomaltine + Leite Ninho, e ainda comi 2/3 do Life triplo que o Gino pediu e não conseguiu terminar, rs.
Antes de ir embora, o Gino me disse que iria para Brasília, e sugeriu que eu fosse junto, até por uma amiga nossa (Nathalia) também estaria na cidade. Fiquei em dúvida se deveria ir, afinal estava sem dinheiro vivo; mas, tinha saldo no cartão de crédito, e minha bolsa provavelmente cairia no dia 4 ou 5. Sendo assim, avisei o Gino que iria em torno da meia-noite. Apenas nove horas depois ele me buscou. Devo admitir que, por mais metódico que eu seja, costumo me divertir em situações improvisadas, imprevistas.

2. A viagem de Goiânia a Brasília foi ótima. Eu e o Gino ouvimos a coletânea dupla Best of Bowie no iTunes conectado ao som do carro dele, e fizemos uma espécie de "podcast", comentando cada uma das faixas que tocava.
Ao chegarmos na capital federal, buscamos a Nathalia e passamos a tarde e início da noite jogando Playstation 3; destaque para os jogos de luta, como Mortal Kombat e Marvel vs. Capcom. Também assistimos a alguns episódios de O Incrível Mundo de Gumball.

3. Acordei bem cedo na terça-feira, para ver o resultado das primárias republicanas em Iowa. Fiquei feliz com o ótimo desempenho de Rubio (23%) e com a derrota de Trump para Ted Cruz (27 x 24%). Passei algumas horas lendo análises do pleito, até que o Gino acordou e me deu carona para a UnB. Ao longo daquela manhã visitei vários lugares: a cantina em que eu tomava meu café da manhã barato (três biscoitos de queijo mais chá mate 500 ml), a Livraria da UnB (onde comprei, com ótimos descontos, três livros: Da Distensão à Abertura: as Eleições de 1982, organizado por David Fleischer; Vico e Herder, de Isaiah Berlin; e Miguel Reale na UnB) a Biblioteca Central, a Livraria do Chico, os prédios novos da FACE e do IPOL (enquanto o procurava, tive uma agradável nostalgia das férias de 2010 ao ouvir "Marquee Moon" do Television no meu celular), a FA e o Postinho, onde almocei no Subway. Encontrei o Gino e os amigos dele depois do almoço, e após usar um pouco o computador no laboratório deles (com direito a assistir a alguns clipes do The Cure), eles me deixaram na rodoviária, onde peguei metrô para o Park Shopping. Subi até o CasaPark, local em que combinei de me encontrar com a Janaína para assistir ao filme do Snoopy & Charlie Brown. Achei-o muito bom! Souberam preservar os elementos clássicos (por exemplo, o "loserismo" de Charlie Brown, a obsessão de Schroeder por Beethoven, a chatice da Lucy, os delírios de Snoopy, o jeito machão de Patty Pimentinha etc.) mas dando um tom mais infantil e descontraído.
Depois do filme eu e a Jana passamos umas três horas na Livraria Cultura, trocando várias dicas de livros, filmes e CDs. Acabei levando um DVD triplo do Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste, O Fantástico Sr. Raposo e Viagem a Darjeeling), o livro O Peso da Responsabilidade (Tony Judt) e o CD Oracular Spectacular (MGMT). 
À noite fomos para o Park Shopping; comprei um lanche no Dunkin' Donuts (aliás, muito bom o shake deles!) e a Jana, no Outback. Depois fomos a uma festa no clube da 904 Sul no qual geralmente ocorre a Play; passaram alguns curta-metragens (inclusive um bem macabro envolvendo o Eduardo Campos; foi feito antes da morte dele, e fazia críticas à desigualdade social e à transformação de Recife em canteiro de obras para a Copa) e tocaram umas músicas meio eletrônicas, meio lounge. Conversamos com uns amigos dela, e depois fomos com eles para o Piauí. Após um dia tão longo e proveitoso, só cheguei no apartamento do Gino em torno das 2 da manhã.

4. Também acordei cedo na quarta, mas desta vez para o Fernando e o Renato me buscarem para tomarmos café da manhã na Savassi da 307 Norte. Depois fomos a um sebo lá perto que não conhecíamos (nele descolei o 1º volume das famosas traduções de Carlos Alberto Nunes para os Diálogos de Platão) para o apartamento do Fernando (aliás, muito legal a biblioteca dele) e almoçamos frango à parmegiana no Gratinado. Foi muito passar boa parte do dia conversando com os dois. À tarde fomos para o Sebinho;Fernando estava vendo uns livros para o sebo, mas houve dois que achei interessantes e ele me deu: Vidas Paralelas - Alexandre e César (Plutarco) e The Dark Side of the Moon: os bastidores da obra-prima do Pink Floyd (John Harris). Pouco depois o Mateus apareceu, e nós quatro batemos um longo papo no café do Sebinho. Aliás, acabei não comprando nenhum livro lá; fiquei meio decepcionado com o acervo, já foi bem melhor. Acho que eles estão se voltando tanto para o café (que, obviamente, é mais lucrativo) que deixaram os livros de lado...
À noite tive a ótima notícia de que fui selecionado para receber a Bolsa Nota 10 da FAPERJ, pois fui o aluno do doutorado de Sociologia do IESP que tirou as melhores notas no ano passado. Mesmo que a FAPERJ esteja em crise e os atrasos para a bolsa cair sejam constantes, acho que vale a pena, pois ela é maior que a minha bolsa do CNPq, além de contar para o currículo.

5. Quinta de manhã fiquei no apartamento, mas à tarde fui novamente à Universidade de Brasília. Passei na banca de revistas do Gilson, e comprei o Tratado sobre a Tolerância (Voltaire) da coleção Grandes Nomes do Pensamento (Folha). Fui novamente à Livraria do Chico, e tive uma longa e interessante conversa com ele; aproveitei para comprar O Liberalismo Moderno (Ubiratan Borges de Macedo). Em seguida subi para a 409 Norte, cuja comercial é repleta de sebos. Ao contrário do decepcionante Sebinho, o COPE me surpreendeu; achei muitos bons livros por lá, e acabei levando a 1ª edição da Dicta & Contradicta (era a última que me faltava para completar a coleção) e Filosofia Política Contemporânea (coletânea de artigos sobre Hayek, Leo Strauss, Voegelin etc. organizada por Crespigny e Minogue). Fui aos outros, mas não achei nada de interessante (ou barato). Começou uma chuva de verão, então corri para debaixo de um bloco para esperá-la passar; quando ela parou, peguei um ônibus L2 - W3 Norte para voltar para o apartamento do Gino, pois tinha combinado de sair com a Janaína e depois com o Luiz Fernando. A Jana me buscou em torno das 19h e fomos ao Bar do Quinto; foi mais um bom papo, regado a comes e bebes de qualidade. Ela me deixou no prédio às 22h, e eu fiquei esperando o Luti para irmos ao Velvet Pub, mas ele teve uma crise de enxaqueca e não pôde sair de casa; que pena, mas tomara que eu consiga encontrá-lo na próxima vez que for a Brasília.

6. Sexta-feira chegou, e era hora de voltar para casa. A viagem de volta foi bem legal; peguei carona com uma doutoranda em Matemática, e no banco de trás veio um cara que trabalha na UNESCO. Na metade do caminho paramos no Sabor Goiano, onde cumpri mais uma tradição: comi o delicioso enroladinho de queijo com cobertura de coco e leite condensado que eles fazem lá.
Quando cheguei em casa, deparei-me com os 5 CDs que eu havia comprado pela Livraria Cultura e pelo MercadoLivre e chegaram enquanto eu estava em Brasília: Blackstar e Station to Station (David Bowie), Isn't Anything (My Bloody Valentine), Gorillaz e Demon Days (Gorillaz).
Enfim, foi uma ótima estadia em Brasília! Prometo não ficar outros 18 meses sem visitar minha saudosa cidade universitária, rs. 

05 fevereiro 2016

Uns dias em Brasília II

Daqui a pouco volto para Goiânia. Os quatro dias que fiquei em Brasília foram ótimos! Reencontrei vários amigos e comprei muitos livros. Conto mais quando chegar em casa.

01 fevereiro 2016

Uns dias em Brasília

Viajo hoje para Brasília, e ficarei lá até quinta-feira; é a primeira vez que vou para minha antiga cidade universitária desde Agosto de 2014, quando fui para o encontro da ABCP. É muito tempo longe do lugar onde passei 4 dos melhores anos da minha vida (2008-2011)!
Espero que consiga encontrar a maioria dos meus amigos da época de UnB, assim como visitar lugares da cidade que eu adoro, como o Sebinho, a Livraria Cultura e, é claro, a minha alma mater. Além disso, preciso de inspiração para escrever os capítulos da tese sobre Merquior, e nada melhor do que ir à cidade na qual ele foi professor e diplomata.

P.S.: Já faz um mês que prometi completar os posts de 31/12 e ainda não terminei... agora que terminei de ler Formalismo e Tradição Moderna vou tentar acabá-los.

31 dezembro 2015

2015, parte III: de Outubro a Dezembro

(Post incompleto; termino de escrever ano que vem, rs) 

New Order - disco novo é surpreendentemente bom
Colégio do Brasil - aulas com Portella
10 anos de Last.FM
Morrissey - show começou bem, foi estragado por "Ganglord" e "Meat is Murder", mas melhorou no final
Palmeiras - título emocionante da Copa do Brasil
Primavera dos Livros - comprei vários da É Realizações
Morar com Carolina - 30/11 (decisão) e 4/12 (mudança)
Protesto - parecia ter mais gente, mas "flopou"
Lançamentos de livros: Martim, Das Booty, Alex, Gabriel (setembro)

2015, parte II: Augustus e Settembrini

(Post concluído em 17/2/16)

Com alguns meses de atraso, enfim farei meu relato sobre os dois meses mais agitados do meu ano de 2015: Agosto e Setembro.

IV Fórum de Ciência Política
Apenas um dia depois que voltei das férias de Goiânia, "viajei" para Niterói para participar do FBCP, no qual eu apresentei um trabalho sobre os conceitos de guerra e técnica no pensamento político dos "modernistas reacionários" Ernst Jünger e Carl Schmitt. Apesar de a debatedora claramente não ter lido meu trabalho (e nem dos demais apresentadores daquela sessão), as perguntas que ela e a platéia fizeram geraram um bom debate.
As sessões do GT de Teoria Política foram muito boas; gostei da apresentação do meu amigo Paulo, da palestra do Eduardo Jardim, da sessão em que o Christian foi debatedor e, por último mas não mesmo importante, da competente organização do GT pelos alunos da UFF, Rodrigo e Victor. O Fórum ainda contou com uma boa conferência de Renato Lessa. O semestre acadêmico não poderia ter começado melhor!

O Protesto em Copacabana
Em um ano marcado pela instabilidade política (não preciso entrar em detalhes, creio que vocês já devem estar até saturados do assunto), houve em 16 de Agosto o terceiro dos quatro grandes protestos nacionais contra o governo Dilma Rousseff. Não quis participar dos dois primeiros (embora tenha acompanhado o de 15 de Março pelo Globo News), mas diante da catastrófica atuação do Planalto na economia (desde a sabotagem ao ministro Levy até a relutância em admitir o rombo nas contas públicas em nome da "nova matriz econômica"), resolvi me manifestar. Mesmo assim, eu o fiz de uma forma leve, bem-humorada: confeccionei um cartaz com a frase "Pessimildo tinha razão" e duas fotos desse memorável personagem criado por João Santana para ridicularizar a oposição, mas que por ironia do destino se tornou um mascote dos críticos do governo.
A manifestação até que foi divertida, talvez devido ao clima descontraído da praia de Copacabana; mesmo com os discursos raivosos contra Dilma e o PT, o ambiente não era pesado. Acho que agora também existe uma "direita festiva" no Brasil; a estetização da política não é mais monopólio da esquerda, rs. Encontrei alguns amigos por lá, e depois do protesto almocei com eles no McDonald's.




Qualificação
Um dia depois do protesto houve a defesa do meu projeto de tese. Os comentários da banca foram importantes para o desenvolvimento da minha pesquisa; a partir deles percebi que precisava eliminar os últimos resquícios do meu tema anterior sobre Thomas Mann (mais especificamente o viés ético-biográfico, tentando ver Bildung em tudo).
Além disso, foi valiosa a observação do professor Benzaquen de que preciso ser menos sintético e mais analítico; isto é, minha pesquisa ganhará mais se eu me concentrar em poucas obras e temas ao invés de fazer grandes panoramas (algo que o próprio recorte biográfico me levaria a operar).

I Seminário Interno de Pós-Graduação do IESP/UERJ
O evento foi inaugurado em 2 de Setembro com uma ótima (embora pessimista, rs) mesa-redonda com os professores César Guimarães e Maria Regina sobre a política externa brasileira e a crise da Grécia e da UE.
No dia seguinte apresentei um trabalho sobre as continuidades e rupturas do conceito de cultura ao longo das diversas fases do pensamento social de José Guilherme Merquior. O debate foi bom; felizmente o debatedor conhece a obra de Merquior, e fez observações pertinentes. 

Aniversário de namoro
No dia 4 de Setembro eu e a Carolina comemoramos três anos de namoro. Passamos a tarde na Livraria Travessa e depois fomos ao Cafeína do Praia Shopping. Nós nos presenteamos com livros: eu dei a ela o oitavo volume das Crônicas Saxônicas de Bernard Cornwell e ela comprou para mim Formalismo e Tradição Moderna (Merquior), o qual tinha sido lançado justamente naquela semana.

I Seminário Internacional de Ciência Política
A partir de uma sugestão do Alex Catharino, em Julho escrevi um artigo para a revista Mises comparando as perspectivas liberais de José Guilherme Merquior e Friedrich von Hayek. Terminei-o justamente nos primeiros dias de minhas férias em Goiânia. Gostei muito de escrevê-lo, então aproveitei para enviar o resumo para um congresso de Ciência Política que haveria em Porto Alegre, e felizmente ele foi aprovado. 
9/9: viajei para a capital do Rio Grande do Sul. Mal deixei minhas malas no quarto e fui almoçar um xis; depois, ao som de Rage Against the Machine (uma banda que me remete à politização da juventude gaúcha), peguei um ônibus para o campus da UFRGS. Após fazer o credenciamento, fiquei passeando pela universidade, já que minha apresentação seria apenas no dia seguinte e a palestra de abertura, à noite. Após ler o capítulo sobre o kitsch de Formalismo e Tradição Moderna, fiquei um bom tempo na livraria, onde comprei dois mangás dos Cavaleiros do Zodíaco (na época eu estava revendo a Batalha das Doze Casas quase todo dia, enquanto tomava café da manhã) e uma coletânea do Pink Floyd, A Foot in the Door (gostei muito da seleção: "See Emily Play", 5 faixas do Dark Side of the Moon, 4 do The Wall, 3 do Wish You Were Here e uma faixa de cada um dos três últimos discos, dentre elas "High Hopes"). 
Em torno das 19h houve a cerimônia de abertura do Seminário. Após uma surpreendente apresentação de coral (cantaram "Can't Buy Me Love", dos Beatles; Mendelssohn; Haydn; Vinicius de Moraes e Baden Powell; e Luis Coronel), assisti à conferência do professor Stéphane Monclaire, um irreverente brasilianista. Após brincar que crise é uma "coisa linda" para ciência política, ele apresentou um olhar estrangeiro (mas bem informado) sobre a crise política atual no Brasil. Gostei da análise conceitual e o olhar sobre a influência da mídia na política. Depois da palestra voltei para o quarto em que fiquei hospedado; antes de dormir assisti ao jogo Corinthians 1x1 Grêmio (infelizmente os corintianos empataram, e com isso deram um importante passo rumo ao título nacional) e soube que o Palmeiras tinha perdido por 1 a 0 do Internacional.
10/9: Acordei cedo e, com fones do celular plugados no álbum Grace (Jeff Buckley), peguei o ônibus para a UFRGS. Pela manhã fui assistir ao GT de Teoria Política e Pensamento Social Brasileiro. Foi uma sessão inteira sobre democracia; gostei muito das apresentações e debates, que foram desde as abordagens mais normativas até estudos de caso sobre as democracias latino-americanas. 
Na hora do almoço e antes da sessão vespertina do GT fiz novos colegas: alguns eram da UFPE (uma garota que fez uma boa apresentação sobre os problemas do "neo-constitucionalismo" da Venezuela chavista) e da UNIPAMPA (um rapaz que, aliás, faz parte da ala "left-lib" dos Estudantes pela Liberdade, mas a maioria deles(as) era da UnB.
À tarde apresentei, também no GT de Teoria, o ensaio sobre Merquior e Hayek. O debatedor e a platéia fizeram várias perguntas e comentários ao meu trabalho, e o debate foi bem produtivo. Deu para perceber que estavam interessados em compreender melhor o liberalismo social, afinal, como busquei demonstrar no artigo, ele apresenta diferenças (e vantagens) interessantes em relação aos liberalismos conservador e libertário. 
Side Pub, show do Sapo Boi
11/9: Comecei o terceiro dia do I SICP ouvindo no celular o primeiro e homônimo disco do The Clash. Às 9 da manhã assisti à mesa-redonda sobre democracia, política externa e economia com Octávio Amorim Neto (sobre democracia), Carlos Milani (política externa) e Márcio Pochmann (economia). Este, aliás, surpreendentemente mostrou certo desencantamento, lamentando erros políticos e econômicos do governo Lula. Fiz uma pergunta ao Pochmann (aos 2:08:18 de vídeo abaixo), questionando-o se a política econômica do governo Dilma não havia sido irresponsável. A resposta dele (2:14:21) oscilou entre o cinismo (ao defender que o BNDES tem que dar, sim, dinheiro pra grandes empresas) e o vitimismo (a crise internacional teria obrigado o governo a ser protecionista):

Depois do almoço, assisti com meus novos colegas de UnB ao GT de Instituições Políticas. É engraçado notar a diferença epistemológica entre o pessoal dos estudos quantitativos e empíricos em relação à área da Teoria; porém, não guardo nenhum ressentimento "humanista" em relação a eles, só não é o tipo de abordagem que eu prefiro. De toda forma, o trabalho do colega de UnB que apresentou no GT de Instituições tinha um viés mais qualitativo (aliás, ele é orientando da Rebecca, que adota o institucionalismo histórico para estudar movimentos sociais), então a apresentação dele foi de longe a melhor, inclusive no número de perguntas da platéia.
À noite eu e uma das mestrandas da UnB vimos a palestra do Brasilio Sallum Jr. (autor do ótimo livro O Impeachment de Fernando Collor, que inclusive comprei durante o evento e li quase inteiro até dezembro). 
Mais tarde nos encontramos com o resto do pessoal na Cidade Baixa, onde jantamos xis (é sério, eu amo esse prato típico gaúcho!) e depois fomos a festa no pub Divina Comédia, na qual tocaram duas bandas cover: Fake Brothers (que investiu em indie rock, com um repertório que incluiu Hives, Killers, Muse, MGMT, Two Door Cinema Club etc.) e Celofanes (especializado em pop rock dos anos 90, com covers de Spice Girls, Green Day, Raimundos...). 
Outro destaque da ótima festa foi que, após passar anos tentando descobrir o nome e artista de "um jazz contemporâneo, anos 90; a introdução tem um teclado e a estrofe tem um sax" (descrição que fiz dela no Facebook depois de ouvi-la no BBB), ela tocou lá; corri pra perguntar para o DJ o nome e artista dela, e descobri: é "Cantaloop (Flip Fantasia"), um sample que o US3 fez de "Cantaloupe Island", de Herbie Hancock! 



Fomos embora em torno das 5 da manhã,  em cima da hora para eu pegar minhas coisas no quarto e ir direto para o aeroporto. Por sorte o taxista que me levou da festa me passou o telefone, então meia hora depois ele me buscou para eu pegar meu vôo.
Enfim, foi mais uma excelente estadia em Porto Alegre; o Seminário Internacional de Ciência Política foi um ótimo evento, muito bem organizado.

Homenagem a José Guilherme Merquior na ABL
17/9 - Instituto Liberal - Ortega, JGM; Livraria Cultura; IFCS - certificado; sebos - CDs e livro no Berinjela; 
ABL - socialização, João Cezar, Portella, documentário.

Eleições para o DCE (UnB)
24-25/9 - "corujão". 60% dos votos válidos.

2015, parte I: Os sete primeiros meses

(Post concluído em 16/2/16)

A Mudança para o Catete/Flamengo
Após 3 anos morando em apartamentos de família (se bem que, no caso do segundo deles, em 2014 virou uma espécie de república, já que os donos se mudaram para o interior de SP), foi em 2015 que finalmente comecei a dividir um apartamento com um amigo. A partir de Fevereiro me mudei com um amigo, o Victor, para o bairro do Flamengo (mas em um prédio que fica do lado do Museu da República e da estação de metrô do Catete). Isso significou uma melhora notável no meu padrão de vida, pois passei a ter muito mais liberdade para organizar meu espaço e tempo. Meu quarto ganhou personalidade (finalmente pude organizar meus livros, CDs e games à vontade); posso usar a cozinha à vontade; Victor e eu freqüentemente chamamos nossos amigos para conversarmos e bebermos (e eles podem dormir na sala se ficar tarde para voltar para casa) etc. 

Lollapalooza 2015
Embora só tenha visto este Lolla pela televisão (não havia atrações que me empolgassem o bastante, como um Pixies ou um New Order, para eu aceitar pagar o caro ingresso do festival), ele me causou impressões o bastante para gerar este post. Destaque para o show dos Smashing Pumpkins, bem melhor do que aquele em que fui no Planeta Terra de 2010.

Palmeiras na final do Campeonato Paulista
Acompanhei religiosamente a saga do Verdão neste ano, desde a pré-temporada até o desfecho na Copa do Brasil. O destaque do 1º semestre foi a boa campanha no Paulistão, com vitórias sobre São Paulo (por 3x0, com direito a golaço do meio-campo de Robinho) e Corinthians (nos pênaltis, em pleno Itaquerão, graças ao incrível goleiro Fernando Prass). Infelizmente o Palmeiras perdeu a final para o Santos, também nos pênaltis; sofri bastante assistindo a esse jogo, pois o título esteve bastante próximo. Eu teria que esperar mais sete meses para ver meu time fazer valer as inúmeras contratações e sair do jejum de títulos ...

Blur lança álbum após 12 anos
A melhor banda britânica dos anos 90, após muita expectativa dos fãs (ainda mais depois das turnês mundiais de 2009 e 2012-13 e do single "Under the Westway"), anunciou em Fevereiro que, dentro de dois meses, seria lançado The Magic Whip, o primeiro disco desde Think Tank (2003), sendo que o último com a formação completa havia sido 13, de 1999.
Os clipes que iam sendo divulgados a conta-gotas foram me agradando, principalmente os de "Go Out" (com seu baixo potente e estilo dançante e hipnótico, algo como uma "Girls & Boys" versão Hong Kong) e de "Lonesome Street" (uma das mais cativantes melodias da história da banda). 
Comprei o disco na semana de lançamento e gostei muito de todas as demais faixas, principalmente de “New World Towers” (notável como Albarn e cia. conseguem combinar bem crítica social com introspecção), “I Broadcast” (que remete à urgência e ao bom humor de certas canções dos discos de 1993-95) e “Ong Ong” (extremamente viciante, passei dias com o refrão dela grudado na minha cabeça - ainda mais depois que lançaram um clipe divertidíssimo).
Enfim, The Magic Whip é um álbum que melhora a cada audição; não é uma obra-prima como Modern Life is Rubbish (a brilhante reação da banda ao grunge e à americanização da cultura britânica), Parklife (o disco que definiu uma geração) ou Blur (o meu favorito, pois tem letras mais intimistas e sonoridade bem eclética), mas está no mesmo patamar dos ótimos The Great Escape, 13 e Think Tank. Não ouvi muitos discos novos em 2015, mas dos que escutei posso dizer que The Magic Whip foi meu preferido.

Greve nas federais, confusão na UERJ
Tive que interromper durante duas semanas meu curso de Sociologia Geral para os calouros da turma noturna de Filosofia devido à ameaça de greve na UERJ. Fiz o possível para manter as aulas, mas depois que houve quebradeira num confronto entre estudantes e policiais no dia 11 de Maio, não tive outra opção senão adiá-las. Apesar de tudo, gostei muito de lecionar para essa turma; foi a melhor para quem já dei aula, junto com a de Psicologia no 2º semestre de 2013. Destaque para as aulas sobre Marx, Merquior e Gusmão, que renderam bons debates.
Na mesma época começou uma greve nas federais (dentre elas a UFRJ e a UFF) que duraria quatro meses. Diante de um contexto de crise e ajuste fiscal, aquela paralisação não fazia o menor sentido para mim, pois não traria aumento de salários, não teria impacto político (afinal, a universidade, cada vez mais encastelada em relação às demais esferas sociais, não é um "serviço essencial", portanto há pouca pressão externa em prol da greve) e o pior, prejudicaria os estudantes de graduação, ainda mais os que moram em outras cidades. Expressei minha angústia com esse quadro neste post.


Mudança de tema
Falando em José Guilherme Merquior, no dia 5 de Maio tomei uma importante decisão: iria fazer minha tese de doutorado sobre ele ao invés de Thomas Mann. O estopim foi uma conversa que tive com os meus "companheiros" de Beemote: o professor Christian e o doutorando Paulo.

XTC, a minha banda de 2015
Eu já gostava desta bandas desde 2008, mas passei a ouvi-la bem mais depois que comprei vários CDs deles na Livraria Cultura e no Mercado Livre - a coletânea dupla Fossil Fuel (1996), a obra-prima Skylarking (1986), o ambicioso English Settlement (1982), o réquiem Apple Venus, vol. 1 (1999), o eletrizante Drums and Wires (1979) e a antologia do Dukes of Stratosphear (1987).
Sobre Skylarking, fiz até um post no Facebook:
"Numa linhagem de álbuns conceituais com melodias pop e letras inteligentes que vai dos Beatles (Sgt. Pepper's) e Kinks (Village Green Preservation Society, Arthur, Lola) até o Blur (Modern Life, Parklife, Great Escape), existe uma banda não tão famosa quanto estas três, mas que gravou alguns dos melhores álbuns dos anos 80: o XTC. Um deles é Skylarking, que apresenta um ciclo de vida e morte, dia e noite, amor e solidão, contendo canções geniais como "The Meeting Place", "That's Really Super, Super, Supergirl", "1000 Umbrellas", "Big Day" e "Dear God"."
A propósito, Dear God foi um pretexto para um pequeno texto que publiquei no blog em meados de Maio.

Franz Ferdinand + Sparks
O que acontece quando a melhor banda de art rock da década passada se une a uma das melhores bandas de art rock da grande safra dos anos 70? Um dos melhores discos do ano, é claro! O supergrupo FFS (um acrônimo de Franz Ferdinand e Sparks) lançou um álbum homônimo que se destaca não só pelas canções criativas, mas também pelos clipes debochados, como o de "Piss Off", algo do tipo "Mortal Kombat meets Ninja Rangers on drugs".
Comprei o disco assim que foi lançado no Brasil, em Julho. Ele é mesmo sensacional; juntou os trunfos dos escoceses (as melodias grudentas, o vocal de Kapranos, o tom debochado e o ritmo dançante) com os pontos fortes do duo americano (os títulos criativos, as letras inteligentes e a sonoridade bem anos 70). 
Entre as melhores faixas estão "Johnny Delusional", "Call Girl", "Piss Off", "Sõ Desu Ne" e "Collaborations Don't Work", cuja letra é de uma metalinguagem hilária:
"Mozart didn't need a little Haydn to chart
Warhol didn't need to ask De Kooning 'bout art
Frank Lloyd Wright always ate à la carte
Wish I'd been that smart"

Copa América, Mundial Sub-20 e Copa do Mundo Feminina
Entre Junho e Julho respirei futebol; além da ascensão do Palmeiras no Brasileirão (depois que Marcelo Oliveira se tornou técnico da equipe, foram 6 vitórias em 7 jogos; chegamos a ficar em 3º lugar, a 2 pontos do Corinthians e 4 do Atlético!), assisti assiduamente aos jogos das seleções brasileiras na Copa América, no Mundial Sub-20 e na Copa do Mundo feminina. 
Na primeiras delas a seleção treinada por Dunga jogou tão mal (principalmente na derrota contra a Colômbia, marcada pelo papelão de Neymar) que torci para ela perder para o Paraguai nas quartas - o que de fato aconteceu, mais uma vez nos pênaltis, tal como na Copa América de 2011. Pelo visto sou pé-quente em "contra-torcida"; vide as Copas do Mundo de 2006, 2010 e 2014, quando também "azarei" o Brasil, rs.
No Sub-20 o escrete canarinho fez uma boa campanha, com direito a duas vitórias nos pênaltis contra as fortes seleções do Uruguai e de Portugal. Na final, contudo, a equipe não foi páreo para a forte defesa e os contra-ataques mortais da Sérvia, e perdeu por 2x1 no finalzinho da prorrogação. De toda forma, o saldo foi positivo, e jogadores como Gabriel Jesus saíram bem cotados.
Já a seleção feminina decepcionou, caindo nas oitavas-de-final para a Austrália. Marta fez sua pior Copa do Mundo. Felizmente o fiasco na competição serviu de lição para a equipe treinada por Vadão, pois um mês depois as meninas levaram o ouro no Pan com uma goleada de 4x0 sobre a Colômbia.

Aniversário surpresa
Eu queria fazer uma festa de aniversário com meus amigos no apartamento, porém achava melhor fazer no dia 30 de Junho, uma terça-feira, ao invés do dia oficial, 29, uma segunda. Sem que eu soubesse, a Carolina adicionou todos os amigos que estavam no evento do Facebook que criei e combinou com eles de fazer uma festa surpresa; nas palavras dela, "roubou meus convidados"!
Quando cheguei no apartamento e notei que a porta estava destrancada, já ia dar uma bronca na Carol, quando vi um balão e... "Surpresa!" Vários amigos meus vieram, e a noite foi ótima. Comemos e conversamos bastante enquanto assistíamos ao jogo Chile 2x1 Peru.

Artigo na Nabuco
Ainda sobre Merquior, coincidiu de eu decidir estudá-lo a fundo justamente quando o ensaio sobre ele que submeti à revista Nabuco foi aprovado para publicação na 4ª edição, lançada no início de Julho.
A versão inicial do mesmo foi um artigo que escrevi para o 5º Seminário Nacional de Sociologia e Política, realizado na UFPR em Maio de 2014. De certa maneira ele é o "esqueleto" para a minha tese de doutorado.
Fiquei feliz com a boa recepção que "José Guilherme Merquior: da nostalgia crítica à apologia do progresso" teve; meses depois, até o Martim Vasques da Cunha me disse que gostou do ensaio.

Cabaret
Convidado pela Camila, assisti a um show do Cabaret semana passada com ela, Victor, Leo, Caio e Cristiano. Foi uma performance incrível! Márvio (que também é editor de esportes d'O Globo) é um vocalista muito carismático e irreverente, e o resto da banda demonstrou muita técnica e feeling - nem sei dizer se curti mais o baixo, a bateria ou as guitarras!
Assim que acabou o show comprei A Paixão Segundo Cabaret, o álbum mais recente deles, que é um disco conceitual sobre as fases de uma paixão. 

22 dezembro 2015

De Santos Dumont a Santa Genoveva

Daqui a pouco viajo para Goiânia, onde vou passar minhas férias com a família. 
2015, mesmo que tenha sido um ano ruim para o Brasil e o mundo, ainda guardou bons momentos para mim: comecei a dividir um apartamento com um amigo (e, a partir de Dezembro, a dividir o meu quarto com minha namorada); fiz ótimas matérias no IESP, UERJ, Colégio do Brasil e PUC; viajei para Porto Alegre para participar de um congresso (aliás, não acabarei o ano sem contar como foi lá!); comprei muitos, muitos livros e CDs (meu guarda-roupas já está lotado, rs); comemorei o título do Palmeiras na Copa do Brasil; mudei de tema (Mann -> Merquior), e estou bastante animado com a pesquisa; fui pela 2ª vez a um show do Morrissey (relato no próximo post!); fui a dois protestos pró-impeachment com meu cartaz do Pessimildo; publiquei um artigo na revista Nabuco etc.
Espero aproveitar as férias para adiantar ao máximo meus trabalhos finais de disciplina (até como forma de compensar a procrastinação que marcou meu 2015 acadêmico, rs), ler bastante e, é claro, jogar muito videogame com meus irmãos!

20 novembro 2015

"Domingo", o disco subestimado dos Titãs


Já contei a história de como comecei a ouvir Titãs em um post do ano passado. Hoje vou analisar o primeiro CD deles que comprei, mais precisamente em 1º de Maio de 1996: Domingo, que foi lançado em Novembro de 1995. 
Obs.: Não consegui encontrar a data exata do lançamento, mas imagino que tenha sido em 20/11, pois foi uma segunda-feira e no dia seguinte a Folha de S. Paulo fez uma resenha do álbum.


Após a turnê de Titanomaquia (1993), o disco mais pesado dos Titãs - suas canções oscilam entre o grunge e o metal -, a banda entrou em recesso. Os integrantes desenvolveram projetos solo, criaram um selo independente (Banguela, que lançou bandas como Raimundos e Mundo Livre S/A) e um deles até lançou um romance (Bellini e a Esfinge, de Toni Bellott0). Em meio a boatos de que o conjunto estaria acabando - reforçados pelo lançamento da coletânea dupla Titãs 84 94 -, os Titãs se reuniram em Abril de 1995 para começar a trabalhar em seu 8º álbum de estúdio. 
Após quatro meses de pré-produção, a banda foi para o estúdio ser novamente produzida por Jack Endino, responsável por Bleach (Nirvana) e pelo próprio Titanomaquia. Endino sugeriu que a banda voltasse a tocar canções pop com arranjos roqueiros, ao invés da sonoridade suja dos dois álbuns anteriores (Tudo Ao Mesmo Tempo Agora, de 1991, e Titanomaquia): "Quando começamos a discutir sobre a gravação de 'Domingo', eu disse a eles: 'há sempre boas músicas de pop e rock em seus álbuns. Vocês não são uma banda de heavy metal, e sim uma banda de rock com boas músicas. Vamos fazer um disco de rock sólido que todos possam curtir. Vamos tentar algo diferente, mas tendo a certeza de que será bom'. Eles já estavam pensando a mesma coisa." 
Outro motivo para essa guinada sonora foi que o interesse dos Titãs por um rock mais pesado já havia se exaurido - não só pela turnê anterior, em que chegaram a excursionar com o Sepultura, mas também porque Sérgio Britto e Branco Mello lançaram um projeto paralelo chamado Kleiderman, marcado por canções rápidas e agressivas.
Domingo de fato é um retorno às origens; seus refrões e riffs grudentos estão mais próximos de Titãs (1984) e Televisão (1985) do que dos álbuns mais pesados da banda, como Cabeça Dinossauro (1986). Outro ponto de referência foi Õ Blésq Blom (1989), até então o disco mais eclético da banda (e, na minha opinião, o melhor); em Domingo foi incluída uma letra de Mauro e Quitéria, adaptada por Sérgio Britto em "Rock Americano". Britto, aliás, foi o principal compositor deste álbum: ele assina 12 das 14 faixas (sendo que duas são adaptações: "Um Copo de Pinga" e "Rock Americano"); as únicas exceções são o cover "Eu Não Aguento" (da banda Tiroteio) e "O Caroço da Cabeça", composta por Nando Reis, Marcelo Fromer e o paralama Herbert Vianna.

Vamos a uma análise faixa-a-faixa:
1. Eu Não Aguento: o início da canção, assim como seu clipe, fazem uma homenagem aos Secos e Molhados. Em seguida o arranjo fica mais pesado, mas com um refrão pegajoso. Colocar essa faixa para abrir Domingo foi uma boa idéia, pois é uma transição do peso de Titanomaquia para o pop rock que predomina neste CD de 95. A participação de Sérgio Boneka no final é um momento divertido.
2. Domingo: a faixa-título é a mais viciante deste álbum. A letra é uma irreverente crítica do tédio que predomina neste dia da semana, com direito a alusões ao Programa Silvio Santos e ao comércio fechado. O riff é inesquecível, um dos melhores da história da banda. Destaque também para os vocais de Paulo Miklos. 
"É dia de descanso / Nem precisava tanto (...) Domingo eu quero ver o domingo acabar"
3. Tudo O Que Você Quiser: canção pop com letra romântica, mas acelerada o bastante para não destoar do resto do álbum. Recebeu alguns remixes no relançamento de Domingo em 1996, mas nenhum tão bom quanto a original, que aliás nem é uma das melhores do disco.
4. Rock Americano: parece uma continuação de "Miséria", canção de Õ Blésq Blom que tinha trechos de canções de Mauro e Quitéria. A letra é nonsense, mas gosto do ritmo: repare na linha de baixo, nas viradas da bateria e nos solos de guitarra.
5. Tudo Em Dia: única parceria com o ex-titã Arnaldo Antunes, contém uma sutil crítica social ao padrão de vida da classe média brasileira de meados da década de 90, cheia de contas para pagar, burocracias para resolver e anseios por prazeres mundanos. 
"Vou jantar na melhor churrascaria / Vou pedalar domingo na ciclovia (...) Vou ter CIC, eleitor, reservista, RG / Automóvel, TV / Crediário, poupança, carnê / Tudo em dia"
6. Vámonos: uma das canções mais divertidas e irreverentes já escritas pelos Titãs. A letra em espanhol é repleta de palavrões e deboches. Se há algum alvo, possivelmente é o olhar dos gringos em relação às bandas latino-americanas. O riff é ensolarado, e a "bridge" é deliciosa. 
"No les gusta mi color / No les gusta como hablo (...) Si nos tratan como putas / Si nos tratan como perros / Vamos, vamos, vámonos"
7. Eu Não Vou Dizer Nada (Além Do Que Estou Dizendo): eis uma das grandes letras de Domingo. Há vasta metalinguagem, com referência a canções antigas da banda; nesse sentido, "Eu Não Vou Dizer Nada" é uma herdeira de "Nem Sempre Se Pode Ser Deus" e uma precursora de "A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana". Destaque para a participação do paralama João Barone como segunda bateria. 
"Eu não vou falar de flores / E nem da televisão / Eu não vou falar de nada / E isso é só o que basta / Pra fazer esta canção"
8. O Caroço da Cabeça: a única faixa cantada por Nando Reis tem um tom meio reflexivo, meio otimista que é típico de suas composições. Mais uma participação especial: o solo é de Herbert Vianna! 
"E os ossos serão nossas sementes sob o chão / E dos ossos as novas sementes que virão"
9. Ridi Pagliaccio: assim como "Vámonos", temos aqui outra música em língua estrangeira e com letras e arranjos descontraídos; a propósito, gostei do sax de Paulo Miklos. Branco canta em italiano versos hilários como: 
"Ridi - non c'é diferenza /  Ridi - a me non me importa / Ridi - co munque é lo stesso (...) É meglio che sia cosi / Ridi di piu, ridi di piu / Figurati!"
10. Qualquer Negócio: outra letra inteligentíssima. Um retrato ácido do tom apelativo das propagandas comerciais que circulavam na TV brasileira em meio à euforia econômica pós-Plano Real; ridiculariza-se até a febre dos importados ("Os Cavaleiros do Zodíaco estão aqui"). Um trecho macabro de "Qualquer Negócio" é quando se "noticia" a morte, prisão, desaparecimento ou seqüestro de cada um dos titãs (inclusive Arnaldo Antunes!); pode ser uma alusão direta ao episódio da prisão de Toni e Arnaldo em 85, mas também um comentário geral sobre a cobertura sensacionalista da imprensa sobre as celebridades.
"Dinheiro é bom, dinheiro é bom até assim / Ainda é muito bom mesmo quando é ruim / Se você não provou, um dia ainda vai provar / É fácil dizer, difícil é acreditar / E quem é que quer ver as coisas como realmente são?"
11. Brasileiro: outra ponte sonora com Titanomaquia (inclusive conta com as participações de Andreas Kisser e Igor Cavalera, integrantes do Sepultura) mas com versos lacônicos que descrevem a "brasilidade". 
"Fale português / Troque de canal (...) Pule o carnaval (...) Jogue futebol / Queime sua pele / Debaixo do sol"
12. Um Copo de Pinga: vinheta que deve ter sido colocada pelas sessões descontraídas em que surgiu. De toda forma, temos aqui a saga de um cachaceiro.
"No sábado eu amanheço bebendo / No domingo minha mãe disse meu filho pára de beber / Essa sina eu vou cumprir até morrer"
13. Turnê: canção autobiográfica, alude às cansativas excursões a que a banda era submetida - principalmente entre 1987 e 90, sob a batuta do empresário Manoel Poladian; aliás, ele voltou a agenciar os Titãs na turnê de Domingo, e faria a banda chegar a fazer mais de 100 shows por ano na época do Acústico (1997). 
"Um dia cospem na minha cara / Um dia beijam a minha mão / Meia hora pra dormir / Isso é tudo o que me dão"
14. Uns Iguais Aos Outros: eis uma letra politizada, relembrando os tempos de Cabeça Dinossauro e Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas (1987). A parceria de Miklos e Britto nos vocais remete a "Miséria" e "Deus e o Diabo", duas ótimas canções de Õ Blésq Blom. Um dos pontos fortes desta faixa é a bateria de Charles Gavin. O apelo humanitário de seus versos, em um mundo eternamente marcado pela guerra e pela intolerância, nunca perde a atualidade. 
"Todos os homens são iguais / Brancos, pretos e orientais / São todos iguais no fundo, no fundo / As mulheres são os pretos do mundo (...) Gays, lésbicas, homossexuais / Todos os homens são iguais"

Devido ao sucesso de Domingo, que em poucos meses superou as vendas de Titanomaquia, o álbum foi relançado em 1996, com 4 faixas-bônus: os já mencionados remixes de "Tudo O Que Você Quiser", além de "Pela Paz" (canção escrita em 1985, mas só lançada uma década depois; a propósito, recentemente ela foi relançada como 1º single de Nheengatu Ao Vivo) e do remix eletro-acústico (!) de "Eu Não Vou Dizer Nada" (produzido por Liminha, retomando a parceria vitoriosa dos anos 80 e preparando o terreno para o Acústico, que também seria produzido pelo ex-baixista dos Mutantes).

Com tudo que descrevi acima, fica difícil acreditar, mas Domingo é um dos álbuns menos badalados dos Titãs. Embora não seja uma obra-prima como a trilogia Cabeça - Jesus - Õ Blésq Blom, a meu ver ele está bem acima de discos como A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana (2001), Como Estão Vocês (2003) e Sacos Plásticos (2009), e no mesmo patamar do recente Nheengatu (2014) - eis a minha resenha dele - e de Televisão, Tudo Ao Mesmo Tempo Agora e Titanomaquia. Ao contrário destes três últimos, que após uma má recepção inicial (Televisão, devido à produção irregular de Lulu Santos e sua falta de direcionamento estético; os outros dois, pelas letras escatológicas e sonoridade pesada) cresceram na opinião dos fãs ao longo dos anos - veja, por exemplo, essa boa análise de Cleber Facchi no Miojo Indie -, Domingo continua sendo visto como um patinho feio da discografia titânica, um "álbum de ocasião". 
Tal opinião negativa é compartilhada até por um titã: na época do lançamento deste disco, Sérgio Britto chegou a desmerecê-lo em uma entrevista, dizendo que a falta de comprometimento de alguns integrantes (em particular Nando Reis, que estava divulgando seu disco solo 12 de Janeiro) prejudicou o resultado final; como afirmei acima, Britto foi o principal compositor de Domingo, o que, segundo o livro A Vida Até Parece Uma Festa (Hérica Marmo e Luiz André Alzer), o levou a lutar pelo fim da assinatura coletiva das canções (isto é, simplesmente como "Titãs") que havia prevalecido nos dois álbuns anteriores. 
Jack Endino é um dos poucos que saiu em defesa do disco: "É o álbum dos Titãs que mais gosto e ainda guardo ótimas memórias de todo o processo de trabalho."
Minha opinião, contudo, é que, em seu ecletismo e sensibilidade pop rock, Domingo é sim um ótimo álbum. Há boas letras (principalmente "Qualquer Negócio", "Eu Não Vou Dizer Nada" e "Tudo em Dia"), melodias cativantes (em particular as de "Eu Não Aguento", "Domingo" e "Vámonos") e ligações interessantes com trabalhos anteriores da banda (p.ex., "Rock Americano"). 20 anos depois, é um disco que merece ser redescoberto.

05 novembro 2015

Remember the Fifth of November

Hoje não resisti e fiz mais compras: 
1) o livro A Alma e as Formas (Lukács), um dos clássicos da Kulturkritik no século passado. Possui ensaios belíssimos, como o sobre Kierkegaard;
2) Mutantes (1969) e Mutantes e seus Cometas no País do Baurets (1972), os dois CDs dos Mutantes em sua formação original que me faltavam (na verdade acabei comprando três; renovei meu Jardim Elétrico [1971], já que eu tinha a edição de 92); eu já tinha, além desses três, Os Mutantes (1968) e o meu favorito, A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970).
[Em off: acabei de levar um susto porque a faixa "Dom Quixote" travou num trecho; mas, limpei o CD e está tudo ok. Ufa!]
Para quem duvida que a remasterização de 2006 dos CDs dos Mutantes ficou melhor que a de 1992, eu digo: a diferença é nítida. Vale a pena. O baixo de "Top Top", por exemplo, fica bem mais poderoso. Foi a mesma sensação que tive ao ouvir o remaster 2009 dos Beatles.


Agora terminou a temporada de gastos com livros e CDs. Vou fazer que nem no mês passado: passar vários dias escrevendo em casa para não sair muito, rs.

P.S.: Ah, hoje é aniversário do meu melhor amigo, o Gino. Parabéns! =)