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Kaio

 

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21 agosto 2017

Say something, shout it from the rooftops of your head



21 de Agosto de 1997. Cercado de gigantescas expectativas, o Oasis lança seu terceiro álbum, Be Here Now. Após o imenso sucesso de (What's the Story) Morning Glory?, o disco que fez da banda a mais popular não só da Inglaterra, mas do mundo entre 1995 e 96, todos esperavam que os irmãos Gallagher apresentariam ao mundo um álbum que seria o apogeu do britpop, o marco de uma geração.
A própria banda alimentou essa ansiedade hedonista colocando a data de lançamento na própria capa do novo disco. O clipe do primeiro single, "D'You Know What I Mean", com mais de 7 minutos de duração, é uma super-produção marcada por um tom messiânico.


As vendas nos primeiros dias foram espetaculares, em especial na Inglaterra, onde bateu recordes de vendas. As primeiras resenhas foram das mais empolgadas. Porém, algo estranho aconteceu: em questão de semanas todo o colossal hype em torno de Be Here Now se torna um enorme "backlash", uma repulsa violenta. Milhares de cópias do CD são devolvidas às lojas ou deixadas em sebos. A crítica começa a tratar o disco como decepcionante, auto-indulgente e irresponsável. A imprensa muito comenta o enorme uso de cocaína durante as gravações como culpado das canções excessivamente longas e da produção "over", e decreta o fim do britpop. A própria banda, em particular Noel Gallagher, passa a renegar o álbum, a ponto de não colocar nenhuma faixa dele na coletânea Stop the Clocks (2006).

É certo que tamanha expectativa em torno do disco jamais seria atendida, mas daí para a enorme inversão da opinião pública em relação ao Oasis é algo mais complicado de entender. Afinal, Be Here Now está longe de ser um disco ruim. Muito pelo contrário: 20 anos depois, é possível cravá-lo como a obra-prima da banda.


Angus Batey, que escreveu o melhor texto que já li sobre Be Here Now, propõe uma divisão das canções em três categorias: as românticas ("Stand By Me", "The Girl in the Dirty Shirt" e "Don't Go Away"), as que reagem diante dos detratores e recalcados ("My Big Mouth", "I Hope, I Think, I Know" e a faixa-título) e as que contam a história da banda e analisam seu atual lugar no mundo ("D'You Know What I Mean", "Fade In-Out", "All Around The World" e "It's Gettin' Better (Man!!)"). A oblíqua "Magic Pie" seria a única que escaparia de classificações.

Vou tratar das seis melhores dessas canções.
1. "D'You Know What I Mean" é uma abertura triunfal, com mais de dez overdubs de guitarras e uma letra bastante autobiográfica, na qual Noel fala da sua história de redenção: do garoto cujo pai era violento (e desprezava suas ambições musicais) para o letrista e guitarrista da maior banda do mundo. Há também referências aos Beatles e a Bob Dylan: "The blood on the tracks must be mine / Fool on the hill and I feel fine". Batey tem razão quando afirma que esta canção tem uma atmosfera psicodélica que lembra os Stone Roses, em especial "Breaking into Heaven".
2. "Stand By Me", segundo single do disco, é uma faixa encantadora, com um riff envolvente, um refrão grudento e uma letra intimista porém universal: "Stand by me, nobody knows the way it's gonna be" É como uma continuação turbinada de "Live Forever".
3. "The Girl in the Dirty Shirt" é a jóia escondida de Be Here Now. Tem uma melodia deliciosa e uma "bridge" (estrofe que antecede o refrão) com ótimos vocais de Liam e Noel: "You got a feeling lost inside / It just won't let you go".
4. "Don't Go Away" é a típica balada do Oasis, mas tem um elemento biográfico tocante: é inspirada na mãe dos Gallagher, que estava no hospital. Ninguém menos que o crítico de arte Roger Scruton reparou no protesto contra a impossibilidade do protesto dos versos "Damn my education, I can't find the words to say / About the things caught in my mind".
5. "All Around the World", terceiro e último single, é a apoteose do álbum; diria que é a "Hey Jude" do Oasis. Ela foi escrita nos primórdios da banda, mas segundo o documentário Supersonic (2016) só foi gravada no 3º álbum porque Noel achava que ela precisava ser lançada quando a banda já estivesse em seu auge, portanto pudesse gravar um canção tão ambiciosa. Em seus nove minutos de duração é evocado várias vezes um refrão com pretensões ecumênicas: "All around the world, you've got to spread the world / Tell them what you heard / We're gonna make a better day".
6. "It's Gettin' Better (Man!!!)" é outra faixa menos famosa, mas nem por isso menos genial. Dada a reputação de arrogância da banda, versos como estes são desconcertantes: "Maybe the songs that we sing are wrong / Maybe the dreams that we dream are gone". Há várias alusões aos Beatles, desde o título até um verso que ecoa "The Word". Além disso, ela captura o zeitgeist da Cool Brittania, cujo otimismo foi coroado com a vitória de Tony Blair (um carismático trabalhista com discurso moderado, propondo uma "terceira via" entre o velho trabalhismo estatista e o liberalismo à la Thatcher) nas eleições britânicas de Maio de 97 - e para cuja comemoração Noel foi convidado.

A propósito, esse mesmo otimismo nacional foi abalado nove dias depois do lançamento de Be Here Now, com a morte da Princesa Diana. De repente tudo aquilo que remetia ao britpop parecia deslocado, e o Oasis logo já era visto como algo superado. Começava uma era menos gloriosa para o rock britânico (e mundial), em que discos tão megalomaníacos já não seriam tão tolerados; esse fenômeno foi bem capturado por Carlos Eduardo Lima.

Be Here Now continua com uma reputação de disco renegado; o próprio documentário Supersonic pára em 1996, e portanto só conta a história da banda até antes das gravações deste 3º álbum. Ano passado foi lançada uma edição especial remasterizada de BHN, e a maior parte da crítica continuou a esculachá-lo; ainda se repetem os clichês da produção exagerada, da duração das faixas e do excesso de drogas durante as gravações, e poucos se arriscam a uma análise cuidadosa das letras e melodias; essa má vontade se verifica, p.ex., em Laura Snapes. Mesmo assim, continuo achando que Be Here Now é muito injustiçado, e que uma audição sem preconceitos o revela no mesmo patamar - diria até superior ao - de Definitely Maybe e (What's the Story) Morning Glory?. É justamente sua pretensão épica e sua "hybris" - querer ser um longo disco de rock clássico dos anos 70 em plena década de 90 - que o fazem tão brilhante.

17 agosto 2017

Up, down, turn around, please don't let me hit the ground



Há exatos 30 anos foi lançada uma das coletâneas mais icônicas de todos os tempos: Substance, do New Order.

Após a trágica morte de Ian Curtis em 1980, os três outros integrantes do Joy Division - Bernard Sumner (guitarra), Peter Hook (baixo) e Stephen Morris (bateria) - decidiram continuar a banda, mas sob um novo nome, sugerido pelo empresário Rob Gretton: New Order. Gillian Gilbert, namorada e futura esposa de Stephen, assumiu a segunda guitarra (mas, com o tempo, ambos também usarão teclados) e, após um período de testes (inclusive durante o 1º álbum, Movement), Bernard tornou-se o novo vocalista.

A banda foi construindo sua identidade sonora a cada single - e, tal como os Beatles, os Smiths ou o próprio Joy Division, muitos desses singles não foram lançados nos LPs. Como vários deles estão entre as obras-primas do New Order, vários DJs pediam à banda que compilasse essas canções num álbum só, para facilitar as discotecagens. Foram atendidos em 17 de Agosto de 1987.

O primeiro single, "Ceremony" (1981), é uma das últimas (e melhores) letras deixadas por Ian Curtis. Essa belíssima canção ainda tem certas características do Joy Division (como o baixo melódico e a bateria em estilo militar), mas a sonoridade mais limpa já indica os rumos que o New Order tomaria.
"Everything's Gone Green" (81) é literalmente uma faixa de transição, pois foi a última a ser produzida por Martin Hannett (produtor dos tempos de Joy Division), e a primeira a usar intensivamente os sintetizadores; destaque para o ritmo dançante da bateria.
"Temptation" (1982) é talvez a canção mais característica do New Order, com melodia ensolarada e uma letra levemente melancólica, ainda que certamente mais otimista do que as feitas por Ian. Bernard finalmente perde a timidez para cantar. A versão compilada em Substance é uma regravação de 87, bem superior à original.
"Blue Monday" (1983) é uma das músicas mais dançantes de todos os tempos, e foi um sucesso imediato nas paradas. Ao misturar influências de Donna Summer, Giorgio Moroder e Kraftwerk com uma letra repleta de ressentimento e um uso criativo dos sintetizadores, ela inspirou toda a música eletrônica posterior, desde o synthpop até o techno. "Blue Monday" ainda soa atual, tal como um clássico futurista.
"Confusion" (83) é a primeira parceria com o DJ nova-iorquino Arthur Baker. Mais uma que foi regravada especificamente para Substance, e também ficou melhor do que a primeira versão.
"Thieves Like Us" (1984) tem uma longa introdução instrumental, e é uma das canções mais românticas do New Order.
"The Perfect Kiss" (1985) atinge vários momentos sublimes ao longo de seus mais de oito minutos de duração. A irreverente letra beira o nonsense, e a parte com barulhos de sapo é sensacional.
"Sub-culture" (85) é uma versão remixada de uma canção do álbum Low-life. São tantos efeitos que por vezes parece que o CD está pulando. A letra versa sobre solidão e frustração sexual.
"Shellshock" (1986) entrou na trilha sonora de A Garota de Rosa-Shocking (Pretty in Pink), e novamente temos dois minutos de introdução, além de um refrão empolgante.
"State of the Nation" (86) tem uma vibe oriental, e seus versos têm mais conteúdo social do que a média das canções do New Order.
"Bizarre Love Triangle" (86) é a canção que introduziu muita gente (inclusive eu) ao NO, seja pela sua presença constante em festas Anos 80 ou pelo cover acústico do Frente. Tanto sua letra quanto sua melodia são inesquecíveis.
"True Faith" (1987) foi o carro-chefe de Substance (conseguindo as melhores colocações até então do New Order nas paradas inglesas e americanas) e antecipa a sonoridade que o conjunto adotará nos próximos anos. Seu divertido clipe contribuiu para a crescente popularidade da banda.

Se com essas 12 faixas já são preenchidos 2 LPs, a versão em CD tem um segundo disco só com B-sides e remixes. As melhores músicas desse CD 2 são In a Lonely Place (outra letra - bem soturna, diga-se de passagem - deixada por Ian), Procession (com seus teclados onipresentes), The Beach (uma versão alternativa de "Blue Monday") e 1963 (melodia irresistível, letra perturbadora).

Substance, portanto, é um dos raros casos de coletânea que contém tanto material inédito que se torna tão (ou mais) importante que os demais discos. Mais do que isso: é um dos álbuns fundamentais da década de 80, oferecendo ao ouvinte um inovador e instigante cruzamento entre post-punk e pop eletrônico.

29 julho 2017

De volta à Planície

Após quase três meses em Goiânia, enfim voltarei ao Rio de Janeiro para meu provável último semestre de doutorado. Vim para cá em Maio devido à infecção pulmonar que se revelou uma tuberculose, e os dois meses necessários para repouso acabaram se emendando com as férias letivas que eu já teria em Julho.
Passei tanto tempo com minha família que vai estranho ficar quatro meses sem vê-los. Espero que eu consiga me readaptar bem à rotina no Rio.
O mês de Maio foi quase inteiro em casa; no fim de Junho a Carolina veio para cá; na penúltima semana de Julho passei uns dias em Brasília.
Nesse tempo que estive em Goiânia consegui terminar alguns trabalhos acadêmicos; alguns deles foram de parto bem difícil - principalmente o que concluí há algumas horas.
Espero ter amadurecido um pouco com essa experiência da enfermidade. Preciso mudar alguns hábitos para me manter saudável. Além disso, estou entrando na reta final do doutorado, preciso ser produtivo - sem exageros, é claro, afinal ainda estou me recuperando.

20 junho 2017

Old tweets

Em um momento de procrastinação enquanto escrevia um trabalho acadêmico, resolvi aprender a mexer na busca avançada do Twitter e reli meus primeiros tweets. Fiquei positivamente surpreso; tirando um ou outro cacoete (p.ex., a mania de escrever palavras ou frases em inglês), não fiquei com vergonha do Kaio de 2009. E ele era estudioso, o que me deixou com vergonha do Kaio de 2017. 

(Em off: Felizmente hoje foi meu dia mais produtivo em semanas. Espero manter esse ritmo, estou com muitos trabalhos e capítulos para entregar. A recuperação da tuberculose e a recém-descoberta ansiedade - após 20 anos aceitei voltar a ir a uma psicóloga, e já na primeira sessão a terapeuta constatou que tenho ansiedade - não são desculpa para minha procrastinação e displicência)

Foi divertido relembrar as peripécias amorosas e acadêmicas do Kaio de 2009. Aliás, aquela foi uma época repleta de acontecimentos; só entre os dias 16 e 23 de maio eu: 1) fui e voltei de Goiânia; 2) dei meu primeiro beijo; 3) fiz um fichamento e uma prova de Francês poucas horas depois; 4) entreguei um trabalho de quase 20 páginas de Partidos Políticos; 5) apresentei um seminário de Partidos Políticos; 6) lidei com uma crise de choro da minha então namorada; 7) enrolei uma apresentação de Literatura Polonesa que eu não tinha terminado (afinal, passei a noite em claro preocupado com a então namorada), passando um filme do livro que eu ia apresentar (a propósito, Solaris); 8) participei do Politéia, sendo que nos dois primeiros dias de forma desleixada, chegando atrasado, abandonando a comissão e perdendo várias sessões; 9) perdi a virgindade; 10) fui a uma festa com minha então namorada, mesmo depois que, horas antes, uma amiga nossa tentara me dissuadir de namorá-la; 11) por fim, horas depois corri atrás do prejuízo no último dia do Politéia, e consegui arrumar no Plenário o projeto de lei sobre sistema distrital misto que minha comissão - a de Reforma Política - havia votado.

Por mais que essas lembranças me evoquem nostalgia (aliás, as lembranças meus 4 anos de UnB sempre voltam à tona, foi uma época muito boa), não posso reclamar do Kaio de 2017. Posso estar angustiado por não estar conseguindo escrever meus trabalhos, mas em todos os outros aspectos minha vida está melhor. Quem sabe daqui a 8 anos eu releio as coisas que escrevo atualmente no blog e no Twitter e abro um sorriso...

16 junho 2017

We are standing on the edge

Em 16 de Junho de 1997 foi lançado na Inglaterra o álbum OK Computer, o terceiro do Radiohead. O disco era cercado de expectativas, afinal seu antecessor, The Bends tinha sido um sucesso nas paradas com seu rock de letras intimistas. Boa parte do álbum foi gravado em St. Catherine's Court, uma casa senhorial do século XVI, o que permitiu uma reverberação natural em músicas como "Exit Music (For a Film)". 
OK Computer é tanto um álbum de transição (entre o rock alternativo dos primeiros álbuns e os experimentos com eletrônica e jazz em Kid A e Amnesiac) quanto uma obra auto-suficiente, encerrada em si mesma. As comparações com Dark Side of the Moon (Pink Floyd) não são por acaso, afinal o álbum do Radiohead também tem forte apelo conceitual, seja na fluidez com que as faixas se intercalam ou nas letras que tratam de alienação, consumismo, desespero, ansiedade... enfim, o mal-estar da vida moderna. OK Computer, contudo, também possui uma crítica aos impactos por vezes perversos do avanço tecnológico.
"Airbag" abre o disco e já captura o ouvinte com sua bateria pulsante e seus efeitos eletrônicos. A suíte "Paranoid Android" começa acústica, ganha teclados no refrão, tem um momento mais pesado, subitamente se acalma e fica melancólica, mas termina novamente furiosa; é a canção mais conhecida de OK Computer, e sintomaticamente virou trilha sonora do anime Ergo Proxy (o qual também tem uma reflexão sobre os efeitos psicológicos e sociais da tecnologia). "Subterranean Homesick Alien" é marcada por uma melodia etérea, atmosférica. "Exit Music (For a Film)" é uma das canções mais impactantes, tanto pela letra claustrofóbica quanto pelos arranjos soturnos. A bela "Let Down" tem um arranjo pop mais próximo a "The Bends" que as demais faixas. "Karma Police" parece uma distopia sobre a inadequação social, e seu refrão "This is what you get... when you mess with us" é tão envolvente quanto assustador.
"Fitter Happier" pode parecer estranha, mas é fundamental dentro do "roteiro" de crítica social do álbum. "Electioneering" é uma das mais roqueiras e empolgantes. "Climbing Up The Walls", ao contrário, tem um arranjo bastante experimental, e parece antecipar o que a banda aprofundará nos álbuns seguintes. "No Surprises" é triste e delicada, e tem um dos melhores clipes do Radiohead. "Lucky" foi a primeira canção a ser gravada, ainda em 95; é uma faixa que melhora a cada audição, devido às suas várias nuances; além disso, atinge um notável clímax sonoro em seu minuto final. Enfim, é uma das melhores do Radiohead (e minha preferida da banda). "The Tourist" fecha o disco com um alerta ao indivíduo desse mundo cada vez mais frenético (e, por isso mesmo, psiquicamente ameaçador): "Hey man... slow down".


01 junho 2017

A splendid time is guaranteed for all

O dia 1º de Junho marca o 50º aniversário de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, o oitavo álbum dos Beatles. 
O disco foi o primeiro da banda a ser gravado após a crucial decisão de não mais fazer turnês, sendo a última em Agosto de 1966. Três meses depois, o Fab-Four entrou no estúdio com uma verve experimental e começou a gravar canções de tom nostálgico, que tratavam de sua infância em Liverpool: "Strawberry Fields Forever" (uma obra-prima, com uma profundidade psicológica notável), "Penny Lane" e "When I'm Sixty-Four". As duas primeiras formaram um belo compacto de duplo lado A, lançado em Fevereiro de 1967 para aplacar a EMI enquanto a banda começava a dar forma ao novo LP.
A idéia era criar um álbum conceitual, sem intervalos entre as faixas, no qual os Beatles assumiam a persona da banda dos Corações Solitários, cujo vocalista é Billy Shears, e que toca alguns de seus sucessos, transitando por diversos estilos musicais, em uma verdadeira aventura sonora.
O projeto estético de Sgt. Pepper's tem muito de Paul McCartney, que compôs 9 das 13 faixas (sendo 3 em parceria ou com contribuições de John Lennon, que escreveu sozinho outras 3). Além do contundente rock da faixa-título, Paul se sobressai na otimista "Getting Better", na melodia delicada e letra irônica de "She's Leaving Home" e na adoravelmente despretensiosa "Lovely Rita". O perfeccionismo melódico de McCartney tem a ver com sua admiração (e desejo de superar) a Pet Sounds (1966), o grande LP dos Beach Boys.
Duas canções de Lennon se destacam: a deliciosa "Lucy in the Sky With Diamonds", que parece uma versão musical do universo de "Alice no País das Maravilhas"; e a melhor canção do disco (e uma das 5 melhores dos Beatles), "A Day In The Life", feita em parceria com Paul. Os seus versos amargos e irônicos contrastam com a prosaica estrofe de McCartney, levando a um final espetacular, com uma orquestra que alcança o clímax e então acaba de forma apocalíptica.
George Harrison chegou a gravar a sardônica "Only A Northern Song", mas o produtor George Martin achou que ela destoava do resto do disco - o que é verdade, afinal esta canção tem sonoridade caótica e é repleta de metalingüagem; caberia perfeitamente no álbum branco de 1968, mas foi parar na trilha sonora de Yellow Submarine (69). Sendo assim, o Quiet Beatle escreveu a hipnótica "Within You Without You", inspirada na música indiana mas compatível com o espírito psicodélico do resto do disco.
Ringo Starr é o vocalista de "With A Little Help From My Friends", uma divertida canção de Paul e John cuja letra tem muito a ver com o jeito bonachão do baterista dos Beatles.
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band foi um sucesso comercial imediato, e durante anos foi o disco mais vendido no Reino Unido, nos Estados Unidos e em grande parte do planeta. Hoje em dia continua a ser muito procurado e já ultrapassou as 30 milhões de cópias. 
O êxito de crítica também foi instantâneo e duradouro, e meio século depois podemos sem exagero considerá-lo um dos maiores marcos culturais do século XX. Foi o momento em que a música pop/rock simultaneamente ganhou um ar erudito e de experiência cultural comum; agora o Fab-Four ia além da Beatlemania e conquistava até adultos sofisticados que antes os desprezavam como uma mera febre de juventude.
Sgt. Pepper's não é meu disco favorito dos Beatles (prefiro o White Album), mas chega perto. Foi ele que iniciou minha paixão pelo art rock. Por "art rock" quero dizer discos conceituais, com sensibilidade artística, que incorporam referências literárias, filosóficas etc. Na época em que o conheci, quase aos 14 anos, eu já tinha ouvido Dark Side of the Moon (Pink Floyd), portanto já gostava do conceito de um álbum sem intervalos entre as canções. Foi, porém, com Sgt. Pepper's que eu fui conquistado de vez pela idéia de que o rock tinha possibilidades eruditas.



P.S.: O recém-lançado stereo remix do disco, feito por Giles Martin, ficou muito bom. A bateria de Ringo foi realçada e canções como "Lucy In The Sky With Diamonds" e "She's Leaving Home" foram ligeiramente aceleradas, o que trouxe algumas nuances melódicas.

23 maio 2017

Uma despedida em grande estilo... ou o início do declínio criativo?


Em 23 de Maio de 1997 os Titãs lançaram o CD Acústico MTV. O projeto de um disco ao vivo com versões desplugadas e orquestradas de seus maiores sucessos marcava uma nova fase na carreira da banda, caracterizada pelo flerte com a MPB e pela busca de um público mais amplo. Até pouquíssimo tempo antes, os Titãs estavam associados ao rock pesado de Tudo Ao Mesmo Tempo Agora (91), Titanomaquia (93) e, em parte, Domingo (95) - aliás, neste álbum a banda já começava a buscar, pela primeira vez em 10 anos, uma sonoridade mais pop; vide a melódica faixa-título.
Com Acústico MTV o septeto e Liminha (produtor dos melhores discos titânicos nos anos 80) refizeram completamente os arranjos de alguns de seus clássicos, de tal forma que as letras ganharam maior destaque (afinal agora não estavam soterradas por guitarras e/ou samples) e que até o estilo musical de certas canções mudasse (as eletrônicas "Comida" e "Diversão" ganharam um tom festivo, o reggae "Pra Dizer Adeus" virou um pop romântico, o punk "Palavras" teve uma releitura mais lenta etc.).
A banda, a gravadora WEA e a MTV já previam o sucesso do Acústico (apostava-se em 500, 600 mil unidades), mas as vendas foram muito maiores: 1,5 milhão de cópias só em 1997 e mais 250 mil em 98. Foi o disco mais vendido da carreira dos Titãs, fazendo com que desde crianças até adultos que não gostavam do som mais roqueiro da banda começassem a ouvi-los.
Para além da repercussão comercial do Acústico dos Titãs, é preciso reconhecer que este é um álbum essencial na discografia da banda. A seleção de faixas foi cuidadosa, e privilegiou Õ Blésq Blom (álbum de 89 que, por trás dos experimentos com eletrônica, possui algumas das melhores letras dos Titãs), que contribuiu com 4: "O Pulso" (com a participação do ex-titã Arnaldo Antunes), "Flores" (belo dueto de Branco Mello e Marisa Monte), "Palavras" e "32 Dentes". Além disso, 3 sobras de estúdio deste trabalho foram resgatadas para o Acústico MTV: "Nem Cinco Minutos Guardados", "A Melhor Forma" e "Não Vou Lutar". 
O lendário Cabeça Dinossauro (86) tem 6 faixas no CD, mas 4 delas são vinhetas. Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (87) tem apenas duas, mas são justamente a abertura ("Comida") e o encerramento ("Diversão") do álbum, ambas com vocais espetaculares de Paulo Miklos. Da atmosfera grunge de Titanomaquia uma música foi trazida para o novo formato: "Hereditário", de Nando Reis, justamente o titã mais afinado com a MPB. Os dois primeiros discos também foram lembrados no repertório, e foi de Televisão (85) que saiu o maior sucesso do Acústico, "Pra Dizer Adeus", também cantada por Paulo. Outro grande hit foi "Os Cegos dos Castelo", canção inédita de Nando.
O legado deste disco é vasto, indo desde o início da febre dos Acústicos MTV "ressuscitando" bandas oitentistas (Os Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Kid Abelha, Ira! etc.; o show da Legião Urbana neste formato, gravado em 92, foi enfim lançado, sete anos depois) até uma nova direção estética para a banda: depois do sucesso estrondoso do CD e da turnê, os Titãs resolveram manter por mais dois anos a fase acústica, com mais regravações de sucessos do passado (Volume Dois, 98) e até de canções de outros artistas (As Dez Mais, 99). A fórmula se desgastou, mas os Titãs continuaram adotando uma linguagem mais pop do que rock até 2012, quando a turnê dos 30 anos de Cabeça Dinossauro fez a banda resgatar um som mais cru e direto, o que levou ao disco Nheengatu (2014); mas, essa já é outra história... Por enquanto, celebremos o vigésimo aniversário de um dos discos ao vivo mais importantes e influentes da música brasileira.

P.S.: O Acústico não entra no meu top 5 dos Titãs (só para constar: 1. Õ Blésq Blom, 2. Cabeça, 3. Jesus, 4. Tudo Ao Mesmo Tempo Agora, 5. Titanomaquia; menção honrosa para Domingo), mas ainda assim gosto muito dele. Ele pode ter sido o início do declínio criativo dos Titãs, mas prefiro encará-lo como uma despedida em grande estilo da melhor fase da banda.

17 maio 2017

17/5/17

Quando eu tinha sete anos de idade, desenvolvi minha obsessão pelo número 17. Sonhava em ter 17 anos de idade (o que foi uma profecia auto-realizada, pois foi uma das melhores épocas da minha vida - li muitos livros, passei no vestibular da UnB, comecei a morar sozinho em Brasília etc.); exultava com o fato de que minha data de nascimento dava 17 (29/6 -> 2 + 9 + 6 = 17); e 17 de Maio se tornou meu dia favorito do ano (pois eu também gostava do número 5).
Sendo assim, o dia de hoje, 17/5/17, na ótica do jovem Kaio, é profundamente cabalístico. 

De fato busquei fazer com que hoje fosse melhor do que os últimos dias. Estou em Goiânia há duas semanas, tratando de uma infecção pulmonar, e minha rotina na maior parte dos últimos dias se resumiu a TV, computador, refeições e dormir. A situação mudou um pouco quando minha namorada veio me visitar, entre os dias 11 e 15; joguei muito Age of Empires III com ela. 
A partir de hoje resolvi voltar a ler (embora tenha começado com o pé esquerdo: um texto sobre um tema interessante - "Merquior, Lévi-Strauss e a modernidade" - mas extremamente mal escrito; a autora Maria Heloísa Fénelon-Costa parecia querer imitar o estilo prolixo dos filósofos franceses e artistas de vanguarda que defende das críticas de Merquior) e a jogar Pokémon SoulSilver (resolvi logo o problema da Power Plant para poder acordar o Snorlax e liberar o caminho para Pewter, e assim ganhar as insígnias na ordem que eu quiser).

Essa doença no pulmão (cujos sintomas incluíam tosse, fadiga e febre) parece ser uma forma extrema do meu corpo de me avisar do meu sedentarismo e da minha mania de romântico do século XIX de ficar em ambientes fechados, pouco arejados. Vou precisar mudar bastante meus hábitos, inclusive alimentares. Talvez seja o passo que faltava para eu amadurecer; pena que tenha precisado chegar a esse ponto, mas espero que eu tenha aprendido a lição.

O artefato de cultura pop que mais aparece ao longo do meu dia é Os Cavaleiros do Zodíaco - desde o mangá que leio enquanto tomo os quatro comprimidos de manhã até o anime que assisto de segunda a sexta, às 20h, na Rede Brasil (aqui em Goiânia posso assisti-lo na TV, pois tem no pacote da GVT; lá no Rio eu via os episódios pelo streaming do site da emissora); às vezes também vejo a reprise, às 10h. A propósito, ontem acabaram as reprises e hoje será exibido o penúltimo episódio da Batalha das Doze Casas, uma das melhores novelas, digo, sagas de anime de todos os tempos.

P.S.: Escrevi esse post ao som de faixas que constavam na coletânea Rock Brasil, lançada pela Som Livre em 1996 e que ganhei do meu primo em 97. A compilação me apresentou clássicos como "Marvin" e "Homem Primata" (Titãs), "Inútil" e "Nós vamos invadir sua praia" (Ultraje a Rigor), "Fixação" (Kid Abelha) e "Envelheço na Cidade" (Ira!). Eu e minhas ondas nostálgicas... Semana que vem tem mais, afinal é o 20º aniversário do Acústico MTV dos Titãs.

05 maio 2017

Obrigado por tudo, Portella


Conheci o professor Eduardo Portella no dia 17 de Setembro de 2015, em um evento da Academia Brasileira de Letras no qual foi exibido um documentário sobre José Guilherme Merquior. Fui apresentado a ele pelo professor João Cezar de Castro Rocha, que assim que me ouviu tratando Portella por “você” pôs-se a corrigir minha “falta de etiqueta” e me disse para tratá-lo por “senhor”.
Na semana seguinte, quando comecei a assistir às aulas do professor Portella no Colégio do Brasil, em Laranjeiras, não havia mais motivo para formalidades; Eduardo era muito modesto e gentil para exigir um tratamento senhorial. Desde a primeira aula ficou claro que dividíamos vários interesses intelectuais; o maior deles, claro, era a obra de Merquior. Nos dois cursos dele que fiz (um no 2º semestre de 2015 e outro no 1º semestre de 2016), o professor e nós alunos debatemos vários temas de filosofia, literatura, estética, política, religião e até cultura pop. 
Portella me fazia relatos sobre sua amizade com Merquior; soube de várias histórias curiosas e divertidas, mas também de seus últimos meses de vida, batalhando contra um câncer de estômago.
Ao perceber meu interesse por várias obras publicadas por sua editora, Tempo Brasileiro, o professor doou-me vários livros e revistas. Os primeiros deles foram, claro, de José Guilherme: “O Homem e o Discurso” (uma entrevista com Foucault conduzida por ele e Sérgio Paulo Rouanet), “O Estruturalismo dos Pobres” e uma edição especial da Revista Tempo Brasileiro com ensaios em homenagem a Merquior. Ao longo do tempo, as doações foram se diversificando, e achei artigos da revista sobre Thomas Mann, Escola de Frankfurt, estruturalismo, ensaísmo (aliás, Portella escreveu o ótimo “O ensaio como ensaio”), crítica/crise da modernidade, liberalismo (foi da edição 64/65 que saiu o famoso “O argumento liberal”, de José Guilherme) etc. Enfim, talvez seja uma das melhores revistas de cultura geral que o Brasil já teve; é uma pena que já não seja tão famosa quanto o foi nos anos 60 e 70.
Eu iria ter um 3º curso com Portella no segundo semestre do ano passado. Além disso, eu e outros alunos estávamos com planos para ajudá-lo a levantar a editora e o próprio Colégio do Brasil; pensamos até em um ciclo de palestras. Infelizmente tudo foi interrompido quando, na manhã do primeiro dia de aula, o funcionário Paulo Cesar me ligou, dizendo que o curso foi cancelado de última hora por causa de uma regra da pós-graduação em Letras da UFRJ de que um mesmo professor não pode dar dois cursos de pós no mesmo ano. Creio, porém, que os verdadeiros motivos dos professores do departamento eram mesquinhos. Eu e meus colegas ficamos sem curso, e o professor Portella ficou muito triste com a situação.
Neste semestre o curso planejado para o anterior seria lecionado, mas foi sendo adiado porque o professor estava doente. Estava assistindo por acaso o Jornal Nacional na terça, dia 2 de Maio, quando fui surpreendido pela notícia de que Eduardo Portella havia nos deixado, aos 84 anos. Não pude conter as lágrimas; não só pelo choque, mas porque ele foi muito importante na minha formação intelectual. Eu pretendia chamá-lo para a minha banca, e esperava que ele ficasse orgulhoso de finalmente ver a defesa de uma tese sobre seu amigo José Guilherme. Infelizmente isso não será mais possível. Por outro lado, ainda há uma tarefa a ser feita: preservar seu legado. Sinto-me um pouco seu herdeiro pelo ano de convivência semanal e pretendo me pautar no professor para, quem sabe, ser um intelectual minimamente digno daquilo que ele e Merquior nos deixaram.
Obrigado por tudo, Portella.

18 março 2017

We're a ice machine, we walk like a ghost




The Idiot, o primeiro disco solo de Iggy Pop, chegou às lojas no dia 18 de Março de 1977. Quatro anos desde o último álbum do Stooges, Iggy voltou à cena musical novamente sob produção de um de seus discípulos: David Bowie (que já havia produzido Raw Power, dos Stooges). O disco foi gravado na França e principalmente na Alemanha, onde ambos estavam "exilados" da atmosfera hedonista de Los Angeles, inclusive para se desintoxicarem de seus respectivos vícios: Pop, da heroína; e Bowie, da cocaína.
David ajudou Iggy a recuperar a auto-confiança e escreveu em parceria com ele todas as músicas do álbum; aliás, duas delas entrariam no seu repertório: "Sister Midnight" (mas com uma nova letra e um novo título, "Red Money") e "China Girl"
O título do disco foi inspirado no romance O Idiota (Dostoiévski), do qual ambos - além de Tony Visconti, produtor de Bowie - gostavam.
Embora tenha sido gravado antes de Low, The Idiot foi lançado dois meses depois. Talvez Bowie não quisesse que o público pensasse que Iggy Pop o tivesse influenciado em sua guinada para um estilo mais impressionista, um art rock marcado por experimentos com música eletrônica... mas, de fato é como se Iggy fosse uma cobaia do que David pretendia para a sua futura "trilogia de Berlim". De toda maneira, ainda naquele ano Lust for Life (Iggy) foi gravado e lançado antes de "Heroes" (Bowie). Com isso temos quatro dos melhores discos de 1977 - e de toda a história do Rock.
Das cinco faixas do Lado A de The Idiot, quatro são clássicas. "Sister Midnight" tem uma letra edipiana e um ritmo lento e pesado, conduzido pelo baixo de George Murray e pelo riff de guitarra peculiar de Carlos Alomar. 
Introduzida por uma bateria eletrônica (que 17 anos depois será sampleada para o início de "Closer", do Nine Inch Nails), a soturna "Nightclubbing" trata do estilo de vida decadentista do qual seus autores há pouco participavam: "Nightclubbing we're nightclubbing / We're what's happening (...) We're an ice machine / We see people brand new people / They're something to see (...) We're walking through town (...) We walk like a ghost / We learn dances brand new dances / Like the nuclear bomb". A propósito, ela está na trilha sonora do filme Trainspotting (junto com outra grande canção de Iggy, "Lust for Life"). 
"Funtime" segue a mesma temática, mas também é uma continuação de "No Fun" (Stooges) - vide versos debochados como "I don't need no heavy trips (...) I just do what I want to do / All aboard for funtime" - e tem um final eletrizante e perturbador, em parte inspirado pelo krautrock alemão.
O quarto clássico é "China Girl", cuja letra pode ser tanto sobre uma garota vietnamita de que Iggy gostava na época quanto uma alusão à heroína ("china white" era uma gíria para esta droga). A versão de Bowie lançada 6 anos depois tem um arranjo mais pop e é mais famosa, mas prefiro a original, que tem mais dramaticidade.
O não-clássico do Lado A é "Baby", mas mesmo assim é uma boa canção. Quanto ao Lado B, temos uma faixa sobre groupies adolescentes ("Tiny Girls") e outras duas obras-primas: "Dum Dum Boys", um longo e contundente rock no qual Iggy fala de forma nostálgica de seus colegas de Stooges; e "Mass Production", uma das canções pioneiras do rock industrial, e que ao longo de oito angustiantes minutos fala de relacionamentos descartáveis: "Before you go / Do me a favour / Give me a number / Of a girl almost like you / With legs almost like you / I'm buried deep in mass production / You're not nothing new (...) Yes, she's almost like you / And I'm almost like him".
Uma curiosidade macabra sobre The Idiot é que ele foi o último álbum ouvido por Ian Curtis antes de cometer suicídio; o LP estava tocando em sua vitrola quando seu corpo foi encontrado. A propósito, não só o Joy Division, mas também outras bandas post-punk como Siouxsie and the Banshees e Bauhaus foram profundamente influenciadas por este disco, em particular pelo uso de sintetizadores, a proeminência do baixo e da bateria e as letras sombrias e reflexivas. 
The Idiot é o melhor disco de Iggy Pop (seguido de perto por Lust for Life e pelo recente Post Pop Depression), embora destoe da verve mais punk do resto de sua discografia.

12 março 2017

When the smack begins to flow


Em 12 de Março de 1967, foi lançado o álbum The Velvet Underground & Nico. A banda tinha como empresário e produtor ninguém menos que Andy Warhol, e fazia performances musicais para seus eventos multimídia Exploding Plastic Inevitable, no estúdio Factory. A peculiar "capa da banana" (que nas primeiras cópias podia ser descascada) foi concebida por Warhol.
O disco começa com a beleza etérea de "Sunday Morning", mas logo em seguida entram as guitarras distorcidas e uma letra de Lou Reed sobre um traficante de heroína em "I'm Waiting for the Man". 
"Femme Fatale", é a primeira a contar com os vocais exóticos de Nico, e sua letra amarga contrasta com a graciosa melodia. "Venus in Furs" mistura o violino elétrico de John Cale e versos baseados em um romance homônimo sobre sadomasoquismo, "bondage" e submissão.
O garage rock "Run Run Run" fala de drogas por meio de metáforas religiosas. Os hipnóticos teclados de Cale e os soturnos vocais de Nico em "All Tomorrow's Parties" conduzem uma letra que, segundo o próprio Reed, foi escrita sobre as festas e pessoas da Factory.
"Heroin" é o ápice do álbum, e ao longo de 7 minutos trata do uso e dos efeitos da heroína de uma forma ao mesmo tempo perturbadora e artisticamente sublime. Destaque para os versos: "Because when the smack begins to flow / I really don't care anymore / About all the Jim-Jim's in this town / And all the politicians makin' crazy sounds".
"There She Goes Again" tem um riff de guitarra peculiar que influenciará o jangle pop/rock de bandas como R.E.M. e Smiths. Terceira e última canção cantada por Nico, "I'll Be Your Mirror" é ainda mais acústica que "Femme Fatale", e a letra de Reed foi escrita sobre a própria cantora alemã.
As últimas duas canções são as mais experimentais. "The Black Angel's Death Song" tem uma letra nonsense, um violino cheio de dissonância e vários efeitos sonoros peculiares. "European Son", a mais longa do disco, é repleta de improvisações e distorções, antecipando os rumos que a banda tomará no álbum seguinte.
Em um ano marcado por grandes discos (Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, Are You Experienced, The Piper at the Gates of Dawn, The Doors, "Forever Changes...), o debut do Velvet passou despercebido por público e crítica - seja porque a gravadora o distribuiu mal, porque ficou cinco meses retido devido a um processo de um ator que aparece na contra-capa ou simplesmente porque estava à frente do seu tempo. Dois anos depois, o disco de estréia dos Stooges - cujo produtor foi o próprio Cale - foi o primeiro de uma leva de artistas influenciados pelo primeiro álbum do Velvet Underground. Como disse certa vez Brian Eno, é como se todos os que haviam comprado as poucas milhares de cópias do disco tivessem começado uma banda!
É possível afirmar que The Velvet Underground & Nico inventou o rock alternativo, quebrando as amarras estilísticas do gênero e possibilitando que uma mesma banda tocasse faixas acústicas e delicadas, canções repletas de distorção, letras e arranjos de vanguarda, músicas que combinam o pop com o erudito etc. Vários estilos de rock têm influência do Velvet (art rock, punk, post-punk, shoegaze, indie, folk...), e a lista de bandas inspiradas por eles é interminável; basta dizer que David Bowie, Sex Pistols, Joy Division, Sonic Youth, Jesus and Mary Chain e My Bloody Valentine estão entre elas.

20 fevereiro 2017

BSB Days

Quarta (15/2)
Às 7h15 minha mãe me deixou no McDonald's do Flamboyant, onde peguei a carona de ida para Brasília. Fiz a viagem com um goiano que fez História na UFG e um bancário brasiliense. A conversa foi boa, principalmente quando sobre assuntos mais acadêmicos.
Chegando em Brasília, fui para a kitnet do Tiago, amigo do Gino que me hospedou. Batemos um papo sobre Rita Lee, aproveitando que ele está lendo a autobiografia dela.
Fomos a pé até a UnB; ele foi almoçar no R.U. e eu, na Subway do Postinho. O novo sanduíche Frango Bacon Ranch ficou bom. Depois fui fazer minha tradicional visita à Livraria do Chico, no Ceubinho. Aproveitei para comprar três livros: Estudos de História Contemporânea (Arnold Toynbee), The Lesson of the Master (Henry James) e a 29ª edição da revista Política Democrática, que contém o primeiro artigo acadêmico que escrevi.
Descobri que o Mateus estava no IPOL e fui para lá. Passei a tarde conversando com ele na sala da pós e no Udefinho. Também reencontrei o professor Nascimento (meu orientador na graduação), e conversamos sobre Merquior, Gellner e Gerschenkron. Lá pelas 18h o Mateus me deu carona até a quadra em que eu estava hospedado.
Eu iria sair naquela noite com a Karin para um show de jazz, mas como ela teria de viajar no dia seguinte, mudamos os planos e combinei de tomar o café da manhã com ela. Mais ou menos na mesma hora a Jana me mandou mensagem perguntando se eu topava sair para algum lugar. Fomos ao Bar do Quinto, onde papeamos sobre diversos assuntos, desde Trump até a "loudness war" na indústria musical.

Quinta (16/2)
Acordei cedo para tomar café com a Karin. Como a confeitaria da 309 Norte estava fechada, fomos no Pão de Açúcar mesmo; mas, valeu a pena, o cappuccino lá estava ótimo. Falamos sobre a dissertação dela, política (por exemplo, sobre como o Doria está sendo um ótimo prefeito, hehe) e sobre o IPOL.
Depois fui à UnB novamente com o Tiago. Lá tive novas e proveitosas conversas com o Nascimento e o Mateus; fui com este à BCE para procurar os livros de Ernest Gellner e Alexander Gerschenkron indicados pelo meu ex-orientador. Tive uma grata surpresa quando descobri que Nacionalismo e Democracia (Gellner) tinha um prefácio de 40 páginas do Merquior! Nem tirei xerox, resolvi comprá-lo mesmo em algum sebo de Brasília.
Almocei no restaurante chinês Careca com Mateus, Tayrine e um amigo dela. Gostei bastante das conversas, que cobriram desde música até política.
Aproveitei que estávamos na 406 Norte para ficar por lá mesmo e fazer uma excursão pelos sebos. No Contraponto achei o CD All That You Can't Leave Behind (U2) e um livro para a Carol, Homeland: Como Tudo Começou - A História de Carrie (Andrew Kaplan) - ela gosta muito dessa série, e até me botou para assisti-la, rs. No Sebinho adquiri Filosofia da História (Hegel) e, para minha sorte, Nacionalismo e Democracia. Tomei um cappuccino no McDonald's e fui aos sebos da 408 Norte, mas não achei nada de interessante neles.
À noite fui tomar café com a Luísa no Baristas. Não nos víamos desde o fim de 2011, quando eu ainda estava na graduação. Conversamos sobre nossas pesquisas e sobre literatura em geral. Um pouco mais tarde o namorado dela chegou e fomos no bar ao lado, La Rubia. Falamos sobre música, filmes, séries etc., e a discotecagem anos 80/90 lá estava ótima.

Sexta (17/2)
Como combinei na noite anterior com a Jana e a Luísa de irmos ao show em tributo ao Little Quail and the Mad Birds que haveria naquela noite no Poizé da 305 Norte, aproveitei para passar a manhã ao som de Little Quail (ouvi o primeiro álbum deles pela primeira vez, e gostei bastante!) e Autoramas (a outra banda criada por Gabriel Thomaz, e que eu já conhecia - fui até em shows deles na época em que morava em Brasília).
Lá pelas 11 horas resolvi ir da CLN 109 até a 412 a pé, para visitar a quadra comercial em que eu morei entre 2008 e 2011. Depois andei até a UnB, onde almocei no Spoleto. Pelo 3º dia seguinte bati um papo com o Mateus na sala da pós. Em torno das 14h30 voltei para a 109, pois tinha combinado de encontrar o Thiago (amigo dos tempos de Estudos Humanistas) no fim da tarde. Conversamos sobre conversão (ele, que também é católico, ficou muito feliz com a notícia), as disputas políticas e teológicas na Igreja, os projetos para o Brasil da esquerda e da direita etc. Depois que a namorada dele chegou, começamos o colóquio sobre Submissão (Houellebecq) que tínhamos combinado. Um amigo dele chegou durante a apresentação, e o debate sobre o livro - e seus prognósticos sociais, políticos e religiosos - foi proveitoso.
Imediatamente após o colóquio fui para o Poizé, para aproveitar a promoção: até as 20h homens pagavam apenas 15 reais e mulheres entravam de graça. A Janaína se atrasou um pouco devido a um problema com um motorista de Uber preguiçoso que não queria buscá-la no lugar combinado; felizmente conseguimos convencer a hostess dessa situação, e ela pôde entrar ainda na promoção. Já a Luísa teve um compromisso de última hora e não pôde vir.
Tivemos uma longa conversa sobre política (principalmente sobre os erros da esquerda americana) e música (a ótima discotecagem, também amparada nos anos 80 e 90, ajudou - aliás, fiz uma lista no Spotify com as músicas que tocaram naquela noite e na anterior).  Deu para dançar em várias canções, dentre elas a imbatível Blue Monday (New Order) e hits de Information Society, Prince, Madonna etc. Só em torno de 1 da manhã começou o primeiro show da noite, de uma banda cover de Runaways - tal como a original, todas as cinco integrantes eram mulheres, e achei legal que imitaram até o vestuário da banda de Cherie Currie, Joan Jett e cia. A Jana estava sentindo algumas dores no estômago, então fomos embora mais cedo, antes do show-tributo ao Little Quail e o do Gabriel Thomaz.

Sábado (18/2)
Almocei com a Janaína no Burger King do Park Shopping. O papo foi sobre Jung (arquétipos, mecanismo da compensação, classificação tipológica...) e, como sempre, política. Minha carona para Goiânia chegou um pouco antes das 14h. Dormi durante boa parte do trajeto, mas pude ouvir várias músicas de rock que tocaram no rádio, dentre elas Whole Lotta Love (Led Zeppelin) e Head Over Heels (Tears For Fears). Mais uma ótima estadia na minha saudosa cidade universitária estava se encerrando.

15 fevereiro 2017

Comunhão e viagem

1. Domingo fiz minha primeira comunhão, um passo muito importante em minha conversão ao catolicismo. 
Durante a missa fiquei emocionado por dentro, pois sabia que estava em um momento decisivo de minha vida. Aliás, passei a semana meio ansioso, às vezes até angustiado, na expectativa pela missa. Li as partes sobre eucaristia do Catecismo da Igreja Católica e os seis primeiros capítulos do Evangelho segundo João, em especial a passagem sobre o pão do céu. 
Depois da homilia e antes das oferendas, o padre me chamou para acender a vela e fazer o juramento ("renuncio" e "creio"), e durante a comunhão recebi minha primeira hóstia.
Dos meus parentes, estavam presentes minha tia-madrinha, meu avô e minhas duas avós. Aliás, a missa foi na capela que meus avós freqüentam. 
O próximo passo é fazer o curso para a crisma. Devo fazê-lo no Rio, mas deixar a cerimônia novamente para Goiânia.

2. Viajo hoje para Brasília. Ontem à noite consegui arranjar hospedagem e carona. Ainda não sei até que dia vou ficar por lá, mas possivelmente será até sábado. Espero eu consiga aproveitar esse tempo para rever vários amigos dos tempos de UnB.

10 fevereiro 2017

When I feel heavy metal and I'm pins and I'm needles


No dia 10 de Fevereiro de 1997, o Blur lançou seu quinto álbum. O título homônimo e a capa borrada ("blurred") não são por acaso: a banda estava à procura de uma nova identidade. 
Surpreendendo público e crítica, Blur abandonou o projeto estético da trilogia Modern Life is Rubbish (93), Parklife (94) e The Great Escape (95). Em vez das canções melódicas, das letras em 3ª pessoa com crônicas debochadas de personagens típicos e das influências predominantemente britânicas (Beatles, Kinks, XTC etc.), a banda passou a apostar em guitarras distorcidas (para regozijo de Graham Coxon), letras mais densas e intimistas, experimentos com trip hop, psicodelia e lo-fi e uma abertura estilística para o indie rock americano, outrora duramente rejeitado por Damon Albarn (vide o anglófilo "Modern Life").
Abrindo o álbum temos "Beetlebum", forte candidata a melhor música do Blur. Tudo contribui para sua perfeição: o riff peculiar, a letra lisérgica, os vocais etéreos. o belíssimo coda...
"Song 2" são 2 minutos de deboche aos clichês do rock americano - a dinâmica de versos calmos e refrão barulhento de Pixies e Nirvana, os versos nonsense típicos do grunge e até o "woo-hoo" inspirado em "Friends of P" (The Rentals). Extremamente viciante, "Song 2" é a faixa mais popular da banda, sendo a responsável direta pelo sucesso mundial de Blur - inclusive nos EUA, onde o disco vendeu mais do que na Inglaterra - e trilha sonora de FIFA 98 e diversos filmes de ação.
"Country Sad Ballad Man" é minha preferida. Sua letra profundamente autobiográfica alude à solidão de um rockstar melancólico, que já está cheio da fama - e dos excessos que a acompanham: "Let me sleep all day / Spent the money / I haven't felt my legs / Since the summer / And I don't call my friends / Forgot their numbers". Letárgica e psicodélica, no último minuto a faixa muda de ritmo, ficando mais pesada e desesperada, e se encerra de forma súbita.
"M.O.R." é uma homenagem sonora à "Fase Berlim" de Bowie, e sua progressão lembra a de "Boys Keep Swinging". A letra não poderia ser mais atual em sua critica à mediocridade dos artistas pop: "It's automatic / I need to unload / Under the pressure / Gone middle of the road". 
"On Your Own" é uma das mais animadas; destaque para o riff contagiante, os loops de bateria e o excêntrico refrão. "Theme from Retro", como o título sugere, parece trilha sonora de filme de terror. A acústica "You're so Great" é a primeira canção escrita por Coxon a entrar em um álbum da banda, e sua temática de remorso pelo alcoolismo será retomada dois anos depois em "Coffee and TV".
"Death of a Party" é Gorillaz em versão embrionária, principalmente pelo uso proeminente dos teclados e da letra sombria: "Another night / And I thought well well / Go to another party / And hang myself / Gently on the shelf". Escrita em 92, foi regravada para este disco porque, diante do desgaste público do Blur após a derrota para o Oasis na "britpop war" e das brigas internas, "Death of a Party" soava como um hino da ressaca.
"Chinese Bombs" é ainda mais acelerada que "Song 2"; mas, ao contrário desta, seu peso não está concentrado no baixo, mas na guitarra. "I'm Just a Killer for Your Love" tem cara de B-side, mas em um disco tão eclético, não soa tão fora do ninho. "Look Inside America" é a única que mantém a estética do britpop, mas só na melodia; sua letra é uma admissão de que os EUA podem ser "alright".
"Strange News From Another Star" combina um space-rock à la Bowie e Pink Floyd com uma letra deprimida: "I don't believe in me / All I've ever done is tame / Will you love me all the same". 
"Movin' On" é uma das mais animadas, e gosto especialmente de seus vocais distorcidos. "Essex Dogs" é uma crônica decadentista com estilo trip hop; é a canção que melhor revela o método experimental de composição de "Blur", feito a partir de jams no estúdio.
Embora Parklife e 13 (99) sejam considerados discos mais icônicos, Blur também pode ser visto como o ápice da banda, seja pela sua diversidade estilística, seja pelas letras mais profundas ou mesmo pela ousadia do Blur ao romper com a zona de conforto do britpop e arriscar algo mais "anti-comercial" (o que nem se concretizou, pois o sucesso internacional de "Song 2" levou o disco a vender mais de 2 milhões de cópias).

08 fevereiro 2017

A kiss of death, the embrace of life


Há exatos 40 anos foi lançado Marquee Moon, o primeiro álbum do Television e um dos meus favoritos de todos os tempos.
Esta banda foi uma das pioneiras da cena punk em Nova York, mas era muito mais sofisticada que seus pares: não partilhava das limitações estéticas dos três acordes e das canções de dois minutos; além disso, as letras reflexivas de Tom Verlaine e as canções longas e cheias de solos de guitarra dele e de Richard Lloyd se aproximam mais do rock progressivo e até do jazz.
Marquee Moon foi co-produzido por Verlaine e Andy Johns (que já trabalhara com os Stones e o Led Zeppelin); como as faixas estavam bem ensaiadas e foram gravadas praticamente ao vivo e com poucos efeitos, o disco tem uma sonoridade crua e direta que ainda soa bem atual.
A primeira faixa, "See no Evil", tem um riff contagiante e ótimos backing vocals. "Venus" possui uma verve bem romântica e envolvente. "Friction" é um petardo com letra sugestiva.
A primeira faixa, "See no Evil", tem um riff contagiante e ótimos backing vocals. "Venus" possui uma verve bem romântica e envolvente. "Friction" é um petardo com letra sugestiva:  "Well, I don't wanna grow up / There's too much contradiction / And too much friction (friction) / But I dig friction (friction) / We're both crazy 'bout friction".
A obra-prima de Marquee Moon é a sua faixa-título, uma viagem de quase 11 minutos com uma progressão sonora genial (a partir dos 4 minutos, quando a letra acaba, um instrumento vai entrando por vez até o clímax, com um duelo de guitarras) e com versos belíssimos; destaque para esta estrofe: "I spoke to a man / Down at the tracks / And I ask him / How he don't go mad / He said 'Look here junior, don't you be so happy / And for Heaven's sake, don't you be so sad'". Esta canção serviu de trilha sonora para vários momentos de minha vida, em especial andar a pé para a UnB nas férias de verão em Brasília, no ano de 2010.
"Elevation" é uma das mais dramáticas (por vezes as guitarras parecem chorar) e poderosas do álbum. "Guiding Light" é uma composição lenta e delicada. "Prove It" tem um refrão com paradas que aumentam seu clima de suspense: "Prove it / Just the facts / The confidential / This case, this case, this case that I... I've been workin' on so long..." "Torn Curtain" fecha o disco em clima grave e melancólico.
"Marquee Moon" foi um clássico instantâneo, e já em 1977 ficou famoso graças a uma longa e empolgada resenha de Nick Kent para a New Musical Express. A banda se separaria apenas um ano depois (devido a divergências artísticas entre Verlaine e Lloyd), mas não sem antes lançar o ótimo "Adventure". Marquee Moon foi relançado em 2003 com faixas bônus (dentre elas a pérola "Little Johnny Jewel") e continua influenciando bandas importantes, sendo uma delas os Strokes, cuja sonoridade - em particular as guitarras - em Is This It tem ecos de Television.

A Submissão dos Intelectuais - parte 2

Para terminar a resenha de Submissão, selecionei as passagens do livro que considerei cruciais:

1. O vazio de François após terminar sua tese sobre Huysmans
"Já na manhã seguinte (ou talvez já na própria noite, não posso garantir, pois a noite de minha defesa foi solitária e muito alcoolizada), entendi que uma parte de minha vida acabava de terminar, e era provavelmente a melhor. (...) eu acabava de perder algo inapreciável, algo que nunca mais reencontraria: minha liberdade. por vários anos, os últimos resíduos de uma social-democracia agonizante tinham me permitido (graças a uma bolsa de estudos, a um sistema extenso de descontos e vantagens sociais, a refeições medíocres mas baratas num restaurante universitário) dedicar a integralidade de meus dias a uma atividade que eu escolhera: o livre convívio intelectual com um amigo. (...) Mas tudo isso estava terminado; minha juventude, mais genericamente, estava terminada Em breve |(e sem dúvida muito depressa), eu deveria me envolver num processo de inserção profissional. O que não me alegrava nem um pouco." (pp. 9; 12-13)

2. A ode à arte poética
"A especificidade da literatura, arte maior de um Ocidente que se conclui diante dos nosso olhos, não é, porém, muito difícil de definir. Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas idéias fixas, suas crenças (...). Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, da maneira mais direta, mais completa e até mais profunda do que a conversa com um amigo - (...) numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido." (pp. 10-11)

3. A dificuldade dos homens para "desabafar"
"Ao contrário delas, eu não podia me abrir com ninguém, pois as conversas sobre a vida íntima não fazem parte dos temas considerados admissíveis na sociedade dos homens: eles falarão de política, de literatura, de mercados financeiros ou de esportes, dependendo do temperamento. Sobre sua vida amorosa manterão silêncio, e isso até seu último suspiro." (p. 20)

4. Ao ser chamado de machista, François dá uma resposta sarcástica
"'Você é a favor da volta do patriarcado, é isso?'
'Eu não sou a favor de nada, como você bem sabe, mas o patriarcado tinha o mínimo mérito de existir. Bem, quero dizer que como sistema social ele perseverava no próprio ser, havia famílias com filhos, que grosso modo reproduziam o mesmo esquema, enfim, e funcionava; agora não há mais crianças suficientes, então sabe como é." (p. 33)

5. François faz um paralelo que o angustia
"Foi nesse momento de minhas reflexões (...) que me veio uma idéia extremamente desagradável: assim como À rebours era o apogeu da vida literária de Huysmans, Myriam era sem dúvida o apogeu de minha vida amorosa. Como eu conseguiria superar a perda de minha amante? A resposta era, tudo indicava, que eu não conseguiria." (p. 41)

6. O mito de Cassandra e a ameaça de uma guerra civil

"Anos a fio, e talvez até por várias dezenas de anos, o Le Monde, assim como em geral todos os jornais de centro-esquerda, isto é, na verdade todos os jornais, tinham regularmente denunciado as 'Cassandras' que previam uma guerra civil entre os imigrantes muçulmanos e as populações autóctones da Europa ocidental. (...) Em suma, Cassandra oferecia o exemplo de previsões pessimistas constantemente realizadas, e na verdade parecia, à luz dos fatos, que os jornalistas de centro-esquerda apenas repetiam a cegueira dos troianos. Tal cegueira nada tinha de historicamente inédita: podia-se encontrar a mesma entre os intelectuais, políticos e jornalistas dos anos 1930, unanimemente convencidos de que Hitler 'acabaria por recobrar a razão'. Talvez seja impossível, para pessoas que viveram e prosperaram em determinado sistema social, imaginar o ponto de vista dos que, nunca tendo tido nada a esperar desse sistema, encaram sua destruição sem nenhum terror especial." (pp. 45-46)

7. Lempereur explica a tese dos movimentos identitários
"Para resumir a tese deles, a transcendência é uma vantagem seletiva: os casais que se reconhecem numa das três religiões do Livro Sagrado, entre os quais os valores patriarcais se mantiveram, têm mais filhos que os casais ateus ou agnósticos; as mulheres são menos educadas, o hedonismo e o individualismo são menos enraizados. Por outro lado, a transcendência é, em grande parte, uma característica geneticamente transmissível: as conversões, ou a rejeição dos valores familiares, têm apenas importância marginal; na imensa maioria dos casos, as pessoas permanecem fiéis ao sistema metafísico em que foram criadas. O humanismo ateu, sob o qual repousa o 'viver juntos' laico, está, portanto, condenado a curto prazo, e a percentagem da população monoteísta está fadada a aumentar rapidamente. É este, em especial, o caso da população muçulmana - sem nem sequer levar em conta a imigração, que acentuará ainda mais o fenômeno. Para os identitários europeus, está fora de questão que entre os muçulmanos e o resto da população deverá necessariamente, mais cedo ou mais tarde, estourar uma guerra civil. Daí concluem que, se querem ter uma chance de ganhar essa guerra, é melhor que ela estoure o quanto antes - em qualquer hipótese, antes de 2050, de preferência bem antes disso."

8. As negociações para a aliança entre o Partido Socialista Francês e a Fraternidade Muçulmana na eleição de 2022
"A verdadeira dificuldade, o pomo de discórdia das negociações, é a educação nacional. O interesse pela educação é uma velha tradição socialista, e o meio docente é o único que nunca abandonou o Partido Socialista, que continuou a apoiá-lo até a beira do abismo; só que, agora, estão lidando com um interlocutor ainda mais motivado que eles, e que não cederá sob nenhum pretexto. (...) Para eles o essencial é a demografia e a educação; a subpopulação que dispõe da melhor taxa de reprodução, e consegue transmitir seus valores, triunfa; (...) quem controla as crianças controla o futuro, ponto final. (...) Bem, para a Fraternidade Muçulmana cada criança francesa deve ter a possibilidade de se beneficiar, do início ao fim da escolaridade, de um ensino islâmico. E o ensino islâmico é, de todos os pontos de vista, muito diferente do ensino laico. Primeiro, não pode em nenhuma hipótese ser misto; e só certas carreiras serão abertas às mulheres. O que eles desejam, no fundo, é que a maioria das mulheres, depois do curso primário, seja orientada para escolas de educação doméstica e se case o quanto antes - uma pequena minoria prosseguindo, antes de se casar, nos estudos literários ou artísticos; seria para eles o modelo ideal de sociedade. Por outro lado, todos os professores, sem exceção, deverão ser muçulmanos." (pp. 68-69)

9. A guinada secularista da Frente Nacional
"De cara, fiquei impressionado com o caráter republicano, e até francamente anticlerical, de sua intervenção. Superando a referência banal a Jules Ferry, ela [Marine Le Pen] chegava a Condocert, de quem citava o memorável discurso de 1792 perante a Assembléia Legislativa, em que ele evoca esse egípcios, esses indianos 'cujo espírito humano fez tantos progressos, e que recaíram no embrutecimento da mais vergonhosa ignorância no momento em que a potência religiosa se apoderou do direito de instruir os homens'. (...) Concluíra seu discurso citando um artigo da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a de 1793: 'Quando o governo viola os direitos do povo, a insurreição é, para o povo e para cada porção do povo, o mais sagrado dos direitos e o mais indispensável dos deveres'." (pp. 91; 95)

10. A União por um Movimento Popular, partido da centro-direita, se aliará com Fraternidade em nome do projeto europeu
"A verdadeira agenda da UMP, como a do PS, é o desaparecimento da França, sua integração num conjunto federal europeu. Seus eleitores, é claro, não aprovam esse objetivo; mas os dirigentes conseguem, há anos, silenciar esse assunto. Se fechassem uma aliança com um partido abertamente antieuropeu, não conseguiriam perseverar nessa atitude; e a aliança [com a FN] não demoraria a ir para o espaço. É por isso que acredito mais numa segunda hipótese: a criação de uma frente republicana, em que a UMP se aliaria, como o PS, à candidatura Ben Abbes - desde que, é claro, houvesse uma participação suficiente no governo, e acordos para as próximas eleições legislativas". (pp. 121-122)

11. O verdadeiro inimigo do islã não é o cristianismo, mas o secularismo
"Espalhou-se a idéia nos círculos da ultra-direita de que, quando os muçulmanos chegassem ao poder, os cristãos seriam necessariamente reduzidos a um estatuto de dhimmis, cidadãos de segunda classe. De fato, a dhimitude faz parte dos princípios gerais do islã; mas na prática o estatuto de dhimmi é extremamente flexível. O islã tem uma extensão geográfica enorme; a maneira como é praticado na Arábia Saudita não tem nada a ver com o que se encontra na Indonésia, ou no Marrocos. Quanto à França, estou absolutamente convencido - e disposto a bancar a aposta - de que não só nenhum entrave será imposto ao culto cristão, como os subsídios alocados às associações católicas e à manutenção dos edifícios religiosos serão aumentados; eles podem se permitir isso, pois as verbas alocadas às mesquitas pelas petromonarquias serão consideráveis. E, mais ainda, o verdadeiro inimigo dos muçulmanos, aquele que temem e odeiam acima de tudo não é o catolicismo: é o secularismo, a laicidade, o materialismo ateu. Para eles os católicos são crentes, o catolicismo é uma religião do Livro; trata-se apenas de convencê-los a dar mais um passo, a se converterem ao islã: esta é a verdadeira visão muçulmana da cristandade, a visão original." (pp. 129-130) 

12. A surpresa de François com a felicidade tardia do pai
"Tudo isso era profundamente surpreendente; durante toda a sua vida - bem, durante toda a parte de sua vida que me era conhecida - meu pai se mantivera quase às raias da ostentação, nos limites do bom gosto burguês perfeitamente convencional (...) Faz dez anos que não nos víamos, e sua evolução me era desconhecida, mas com certeza eu não esperava que tivesse se transformado numa espécie de aventureiro de subúrbio. (...) O mais surpreendente para mim era a existência de uma coleção de fuzis de valor (....). 
'Ele colecionava armas?', perguntei a Sylvia.
'Não eram armas de coleção; ele ia muito à caça, que tinha se tornado sua grande paixão.'
Um ex-diretor financeiro da Unilever que tardiamente compra um 4x4 off-road e reencontra seus instintos de caçador-coletor: era surpreendente mas, afinal, plausível. (...) Assim, meu pai tivera um final de vida legal (...). Em suma, eis um homem que teria vivido duas vidas, nitidamente separadas, e sem o menor ponto de contato entre elas." (pp. 157-160)

13. Primeiras mudanças no cenário político-ideológico
"A implosão brutal do sistema de oposição binário centro-esquerda/centro-direita, que estruturava a vida política francesa desde tempos imemoriais, primeiro mergulhara toda a imprensa num estado de estupor, depois de afasia. (...) No entanto, pouco a pouco, ao longo das semanas, núcleos de oposição começaram a se formar. Primeiro, entre os laicos de esquerda. (...) Inversamente, certas organizações como a União dos Estudantes Salafistas fizeram ouvir sua voz, denunciando a persistência de comportamentos imorais e exigindo uma autêntica aplicação da charia. Assim, aos poucos instalavam-se os elementos de um debate político. Seria um debate de tipo novo, muito diferente dos que a França conhecera nos últimos decênios, mais parecido com o que existia na maioria dos países árabes; mas seria, mesmo assim, uma espécie de debate. E a existência de um debate político, embora artificial, é necessária para o funcionamento harmonioso da imprensa, talvez até para a existência, no seio da população, de um sentimento pelo menos formal de democracia." (pp. 167-168)

14. A volta do casamento por interesse?
"Todas essas evoluções arrastava a França para um novo modelo de sociedade, mas a transformação deveria permanecer implícita até a publicação clamorosa de um ensaio escrito por um jovem sociólogo, Daniel da Silva, ironicamente chamado Um dia tudo isso será seu, meu filho, com o explícito subtítulo 'Rumo a uma família de interesse'. (...) Da Silva afirma que o laço familiar, em especial o laço entre pai e filho, não podia de jeito nenhum se basear no amor, mas na transmissão de uma competência e de um patrimônio. A passagem generalizada ao regime de salários deveria necessariamente, a seu ver, provocar a explosão da família e a atomização completa da sociedade, que só conseguiria se refundar quando o modelo de produção normal fosse de novo baseado na empresa individual." (p. 170)

15. A breve experiência no mosteiro
"Meu humor ia azedando, e a prosa de dom Jean-Pierre Longeat, decerto um monge excelente, de boas intenções e amor, me exasperava mais e mais. 'A vida deveria ser um constante intercâmbio amoroso, quer estejamos na provação, quer estejamos na alegria', escrevia o frade, 'portanto aproveita estes poucos dias para trabalhar essa capacidade de amar e deixar-te amar em palavras e atos.' Você está por fora, Idiota, estou sozinho no quarto, eu debochava furioso. 'Estás aqui para pousar tuas bagagens e fazer uma viagem em ti mesmo, neste lugar-fonte em que se expressa a força do desejo', ele também escrevia. Meu desejo está na cara, eu fulminava, é só fumar um cigarro, você está vendo que eu estou aqui, Idiota, meu lugar-fonte é esse aí. (...) Na manhã do terceiro dia entendi que precisava ir embora, aquela temporada estava fadada ao fracasso." (p. 184)

16. A infantilização das mulheres sob o islã
"No regime islâmico, as mulheres - quer dizer, as bonitas o suficiente para despertar o desejo de um marido rico - tinham, no fundo, a possibilidade de permanecerem crianças praticamente a vida toda. Pouco depois de saírem da infância, tornavam-se mães e caíam de novo no universo infantil. Seus filhos cresciam, depois elas se tornavam avós, e assim se passavam suas vidas. Por um período curto de tempo elas compravam lingerie sexy, trocando os jogos infantis por jogos sexuais - o que no fundo era mais ou menos a mesma coisa. É claro que perdiam autonomia, mas fuck autonomy, e eu devia admitir, de meu lado, que renunciara facilmente, e até com verdadeiro alívio, a toda responsabilidade de ordem profissional ou intelectual, e que não invejava em nada aquele homem de negócios sentado do outro lado do corredor de nosso compartimento no TGV Pro Première". (p. 192)

17. François conversa com Rediger sobre sua conversão ao islã e o ateísmo 
"'Você não é católico, o que poderia constituir um obstáculo... (...) E também não penso que seja propriamente ateu. No fundo, verdadeiros ateus são raros.'
'Você acha? Ao contrário eu tinha a impressão de que o ateísmo era universalmente difundido no mundo ocidental.'
'Ao meu ver, ele é superficial. Os únicos verdadeiros ateus que encontrei eram revoltados; não só se contentavam em verificar friamente a inexistência de Deus como recusavam essa existência, à maneira de Bakunin: 'E, mesmo se Deus existisse, seria preciso livrar-se dele...'), em suma, eram ateus a Kirilov, rejeitavam Deus porque queriam pôr o homem em seu lugar, eram humanistas, tinham uma alta idéia da liberdade humana, da diginidade humana. Suponho que você também não se reconhece nesse perfil?'
Não, nesse também não, de fato; só a palavra humanismo já me dava uma leve vontade de vomitar, mas talvez fossem os pasteizinhos quentes, eu tinha abusado deles; bebi mais uma taça de Mersault para ver se passava.
'O que há', ele continuou, 'é que a maior parte das pessoas vive sua vida sem se preocupar demais com essas questões, que parecem a elas exageradamente filosóficas; só pensam nisso quando são confrontadas a um drama - uma doença grave, a morte de um próximo. Bem, isso é verdade no Ocidente, porque em qualquer outro lugar do mundo é em nome dessas questões que os seres humanos morrem e matam, travam guerras sangrentas, e isso desde a origem da humanidade". (pp. 211-212)

18. A decadência da Europa começa na I Guerra Mundial
"'Essa Europa que estava no auge da civilização humana realmente se suicidou, no espaço de alguns decênios', continuou Rediger com tristeza (...). 'Houve em toda a Europa os movimentos anarquistas e niilistas, o apelo à violência, a negação de qualquer lei moral. E depois, alguns anos mais tarde, tudo terminou por essa loucura injustificável da Primeira Guerra Mundial. Freud não se enganou, Thomas Mann também não: se a França e a Alemanha, as duas nações mais avançadas, mais civilizadas do mundo, eram capazes de se entregar a essa carnificina insensata, então era porque a Europa estava morta (...)'. Eu não tinha certeza de partilhar seu ponto de vista sobre o papel decisivo da Primeira Guerra Mundial; sem dúvida, fora uma carnificina indesculpável, mas a guerra de 1870 já era razoavelmente absurda, pelo menos na descrição de Huysmans, e já depreciara seriamente toda forma de patriotismo; as nações em seu conjunto não passavam de uma absurdidade assassina, e isso todos os seres humanos um pouco conscientes tinham provavelmente percebido desde 1871; daí decorriam, parece-me, o niilismo, o anarquismo e todas essas porcarias." (p. 217)

19. A submissão e sua relação com o otimismo cosmológico do islã
"'É a submissão', disse suavemente Rediger. 'A idéia assombrosa e simples, jamais expressada antes com toda essa força, de que o auge da felicidade humana reside na submissão mais absoluta. É uma idéia que eu hesitaria em expor perante meus correligionários, que eles talvez julgassem blasfematória, mas para mim há uma relação entre a absoluta submissão da mulher ao homem (...) e a submissão do homem a Deus, tal como o encara o islã. Veja bem', continuou, 'o islã aceita o mundo, e aceita-o em sua integralidade, aceita o mundo como ele é, para falar como Nietzsche. O ponto de vista do budismo é que o mundo é dukkha - inadequação, sofrimento. O próprio cristianismo manifesta sérias reservas - Satanás não é qualificado como 'príncipe deste mundo'? Para o islã, ao contrário, a criação divina é perfeita, é uma obra-prima completa. No fundo, o que é o Alcorão senão um imenso poema místico de louvação? De louvação ao Criador e de submissão às suas leis." (pp. 219-220)

20. François relaciona sua conversão ao islã com a segunda fase da vida de seu pai
"Um pouco da mesma forma como isso se produzira, alguns anos antes, com meu pai, uma nova oportunidade se oferecia a mim; e seria a oportunidade de uma segunda vida, sem grande relação com a anterior. 
Eu nada teria do que me lamentar." (p. 251)

Fonte das citações: HOUELLEBECQ, Michel. Submissão. Trad. Rosa Freire d'Aguiar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.