[Meu Facebook] [Meu Last.FM] [Meu Twitter]


 

 

Kaio

 

Veja meu perfil completo

 

 

 

 

29 março 2018

Slow down, so we drown, stop taking me over


O Suede lançou seu primeiro álbum há exatos 25 anos. O debut homônimo tem importância histórica enorme para a música popular britânica, pois representou o cruzamento - e a revitalização - de duas tradições locais: o glam rock (a fase Ziggy Stardust de David Bowie, Roxy Music) e o indie (em particular The Smiths).
No início da década de 90 o cenário musical inglês estava "colonizado" pelos americanos, devido à enorme popularidade do grunge, iniciada com o sucesso de Nevermind (Nirvana) no fim de 1991 e ampliada por bandas como Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden - e dezenas de epígonos. O sucesso dos Stone Roses, na virada dos anos 80 para os 90, poderia ter servido de freio para essa "invasão ianque", mas sua influência inicial se limitou a uma série de bandas dançantes, hedonistas e blasés, em geral designadas sob os rótulos "Madchester" ou "The Scene That Celebrates Itself"; o legado dos Stone Roses para uma renovação mais profunda do pop rock britânico só viria em 1994.
Brett Anderson (vocais e letras) montou uma banda com sua namorada Justine Frischmann (guitarra) e seu amigo de infância Mat Osman (baixo) em 1989. Em seguida o jovem Bernard Butler (guitarra) também entrou no conjunto. O primeiro baterista do Suede foi ninguém menos que Mike Joyce, ex-Smiths; porém, ele preferiu sair para que a banda não ficasse muito atrelada à estética do quarteto de Manchester. Pouco depois Simon Gilbert se tornou o baterista definitivo. Em 91 um plot twist romântico mudaria não só a história da banda, mas do britpop: Justine e Brett terminam o namoro, e ela começa a sair com Damon Albarn, vocalista do Blur. Iniciava-se ali uma rivalidade que, embora menos conhecida do que Blur x Oasis, foi artisticamente mais importante para os destinos do rock alternativo inglês dos anos 90. Em primeiro lugar, porque várias das letras do disco de estréia do Suede (como "She's Not Dead" e "Pantomime Horse") tratam da "dor de cotovelo" de Anderson em relação à sua ex-namorada; em segundo, porque o sucesso da banda, que ofuscará temporariamente o Blur (algo sobre o que falarei em minha futura de resenha de Modern Life is Rubbish), gerou ressentimento em Albarn, o que o estimulará a fazer de tudo para Parklife (1994) ser um álbum capaz de colocar sua banda no topo das paradas (e da preferência da crítica); já o terceiro motivo eu direi ano que vem, na resenha dos vinte anos de 13 (Blur)...
O primeiro single do Suede foi lançado em Maio de 1992: a deliciosa ode à androginia e à luxúria de "The Drowners" (uma das minhas favoritas do Suede, diga-se de passagem), tendo como B-sides as excelentes "My Insatiable One" (que semanas depois ganharia cover ao vivo de um ídolo da banda: Morrissey) e "To The Birds". Embora só tenha alcançado o 49º lugar nas paradas britânicas, a essa altura Brett Anderson já estava estampando capas de revistas. "Metal Mickey", uma das mais canções mais eletrizantes da banda (o "metal" no título não é por acaso), foi lançada quatro meses depois, e entrou no Top 20. O grande hit dessa primeira fase do Suede, contudo, foi o terceiro single: "Animal Nitrate", lançado um mês antes do álbum de estréia. Brett conseguiu a façanha de emplacar em 7º lugar uma canção cuja letra tratava do consumo de uma droga (nitrito de amila) e ainda tinha conotações sexuais das mais estranhas.
A expectativa em torno do debut, como se pode imaginar, era estratosférica, e o Suede conseguiu superá-la. Se os três singles apresentavam a faceta mais roqueira da banda, o álbum era repleto de canções mais lentas e melancólicas. Mesmo a faixa de abertura (e quarto single) "So Young", com suas alusões à heroína, tinha uma melodia que evocava dor e tristeza - no melhor estilo glam, é claro.
"She's Not Dead", como bem definiu Eduardo Palandi, funciona na economia do álbum como um contraponto a "Animal Nitrate" - não só por ser uma balada em vez de um rock, mas também liricamente em questões de gênero - o "outro" amoroso/sexual é "she" em vez de "he". Brett Anderson, tal como Bowie duas décadas antes, adorava cultivar a imagem de uma sexualidade ambígua, com direito à famosa frase: "Eu sou um bissexual que nunca teve uma experiência homossexual". A própria capa do 1º CD evoca essa androginia.
"Moving" é a faixa mais acelerada do álbum, e é também a mais carregada de efeitos de estúdio; pessoalmente prefiro a versão ao vivo dela do bootleg Europe 1992/93
"Pantomime Horse" é a canção épica do disco, e nela fica evidente como a guitarra de Bernard Butler é central para a sonoridade do Suede. Brett carrega os versos finais de emoção: "Well did you ever, did you ever go round with them? / Well did you ever, did you ever go round the bend? / ...ever tired it that way, have you ever tried it that way?"
"Sleeping Pills" é a primeira de duas canções da banda sobre uma dona de casa solitária; a segunda é "Still Life", faixa de encerramento de Dog Man Star (1994). Chegou a ser cogitada por Anderson como single - o que seria justo, já que ela é um dos destaques do debut.
"Breakdown" e "Animal Lover" são boas canções, mas os próprios integrantes consideram que certos B-sides como "The Big Time" (do single de "Animal Nitrate") ou as já citadas "My Insatiable One" e "To The Birds" poderiam ter substituído elas no álbum e deixá-lo ainda mais perfeito.
A última faixa é "The Next Life", que curiosamente era a primeira nos shows da turnê de 1993. Ao contrário das demais, o instrumental principal é o piano, o que de certa maneira antecipa a estética de certas canções do disco seguinte, Dog Man Star. Sua letra é dedicada à falecida mãe de Butler: "See you in your next life when we'll fly away for good / (...) Far away, we'll go far away and flog ice creams til the company's on its knees".
Lançado em 29 de Março de 93, Suede estreou em 1º lugar nas charts britânicas, e durante um bom tempo foi o CD de estréia mais vendido do Reino Unido. Como já apontei no primeiro parágrafo, ele foi o ponto de partida de uma das vertentes do britpop: a de sonoridade glam e letras suburbanas, da qual Manic Street Preachers e, de certa maneira, Pulp também farão parte.

 

Comentários:

 

 

[ << Home]