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Kaio

 

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23 fevereiro 2010

Poderia começar assim?

Uma ideiazinha para meu livro. O espinafre é de graça.

- Eu sou aquilo de que gosto. Gosto. Não é apenas hobbie ou ação, mas também uma maneira de expressar valores, visões de mundo. Dá para descobrir e entender muito de uma pessoa a partir das preferências dela: musicais, literárias, até mesmo as político-ideológicas.

- Discordo, cara. O homem se forma a partir de suas necessidades materiais. Ele é aquilo que produz. Gostos são apenas superestrutura e falsa consciência. 
- Ai, ai. Mesmo quando eu brinco de "Alta Fidelidade", você só responde com jargões marxistas, né? Que coisa... Tudo bem, vou dar um exemplo. Diga-me uma de suas bandas favoritas.
- The Clash.
- Hum, boa escolha. Adoro-os, mas por motivos diferentes dos seus. Vamos às letras. É óbvio que os versos deles têm a ver com as suas convicções, com sua rebeldia anti-sistêmica...
- Sim, o Clash foi a banda mais politizada do punk.
- ... Por outro lado, eles, assim como você, têm uma espécie de crise de consciência. É o "engajar para existir": a partir de uma análise rasa da realidade, detectando a economia como rainha de todos os demais problemas, localiza-se a solução na... política. É preciso um "White Riot", porque estamos todos "Lost In The Supermarket", trabalhando para o "Clampdown". Você se parece com o Clash em sua contundência, mas também em sua redução, quem sabe ressentida, do mundo a uma mera luta de dinheiro e poder. Viu só? Você consome música que diz algo sobre sua personalidade!
- Você está certo e errado. Analisou adequadamente, pois de fato o engajamento é parte fundamental de nossas vidas; mas, por estar contaminado pela sociedade burguesa, deu juízos equivocados. Música é mero reflexo da infraestrutura, e o Clash é revolucionário por enxergar os problemas e dizer algo sobre eles, e não ficar que nem aquelas bandas que você gosta: deprimidas, filosóficas, angustiadas...
- Ah, o post-punk, não é? E, para que você não ache que eu não me aplico à minha teoria, de fato gosto de Joy Division, The Cure, Talking Heads e outros porque eles expressam questionamentos parecidos com os meus. Ser livre de quê, e para quê? Contentar-se ou não com o tédio? Aceitar o isolamento ou desafiar a si mesmo? Enfim, qual o sentido da existência? E o melhor de tudo, são músicas vibrantes, sem prejuízo de profundidade. É uma espécie de "melancolia dançante".
- Lá vem você com sua verbo... verborragia! Ah, deixa pra lá. Hoje eu faço 18 anos, e não vou ficar discutindo arte com você, César.
- Como quiser, Henrique. Um dia você concordará comigo que, antes de pensar no "sistema", você precisa tentar compreender a si mesmo. Do contrário, ficará intransigente e transformará seus meios em fins. Usando a linguagem dos seus amigos sociólogos, você precisa de mais individualismo metodológico. A propósito, posso tomar uma Coca-Cola ou isso é uma heresia?
- Você está muito engraçadinho hoje. Vai, toma sua Coca, mas aproveita e traz cerveja pro pessoal.
25 de Julho de 18 d.M. Não é o início, mas está longe de ser o fim. Mário chegou pouco depois da conversa entre César e Henrique, e foi logo cumprimentar o aniversariante. Enquanto isso, Giovana, tão entediada quanto amável, ouvia Alice contar em detalhes a última festa na qual havia ido. Júlia, que já arrumou as malas para o congresso acadêmico no qual irá no dia seguinte, está distraída. Quem sabe, deliberadamente, pois o ambiente não lhe agrada, e ficar pensando em quais palestras e mesas-redondas pegar lhe parece mais agradável. Soliloquiava.
- Globalização e Democracia às 10h de terça... A propósito, por que o César insiste em discutir política com o Henrique? Ele mesmo diz que há 3 anos que os dois são quase diâmetros opostos nesse assunto. Eu não teria paciência para isso. Sempre evito esse assunto quando converso com o H., justamente para evitar a "dupla unilateralidade". É inútil. A vida é muito curta para perdermos tempo tentando convencer as pessoas de que elas estão erradas e nós, certos. Enfim... Cultura e Economia na UE, 14h de quarta.

 

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