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20 novembro 2015

"Domingo", o disco subestimado dos Titãs


Já contei a história de como comecei a ouvir Titãs em um post do ano passado. Hoje vou analisar o primeiro CD deles que comprei, mais precisamente em 1º de Maio de 1996: Domingo, que foi lançado em Novembro de 1995. 
Obs.: Não consegui encontrar a data exata do lançamento, mas imagino que tenha sido em 20/11, pois foi uma segunda-feira e no dia seguinte a Folha de S. Paulo fez uma resenha do álbum.


Após a turnê de Titanomaquia (1993), o disco mais pesado dos Titãs - suas canções oscilam entre o grunge e o metal -, a banda entrou em recesso. Os integrantes desenvolveram projetos solo, criaram um selo independente (Banguela, que lançou bandas como Raimundos e Mundo Livre S/A) e um deles até lançou um romance (Bellini e a Esfinge, de Toni Bellott0). Em meio a boatos de que o conjunto estaria acabando - reforçados pelo lançamento da coletânea dupla Titãs 84 94 -, os Titãs se reuniram em Abril de 1995 para começar a trabalhar em seu 8º álbum de estúdio. 
Após quatro meses de pré-produção, a banda foi para o estúdio ser novamente produzida por Jack Endino, responsável por Bleach (Nirvana) e pelo próprio Titanomaquia. Endino sugeriu que a banda voltasse a tocar canções pop com arranjos roqueiros, ao invés da sonoridade suja dos dois álbuns anteriores (Tudo Ao Mesmo Tempo Agora, de 1991, e Titanomaquia): "Quando começamos a discutir sobre a gravação de 'Domingo', eu disse a eles: 'há sempre boas músicas de pop e rock em seus álbuns. Vocês não são uma banda de heavy metal, e sim uma banda de rock com boas músicas. Vamos fazer um disco de rock sólido que todos possam curtir. Vamos tentar algo diferente, mas tendo a certeza de que será bom'. Eles já estavam pensando a mesma coisa." 
Outro motivo para essa guinada sonora foi que o interesse dos Titãs por um rock mais pesado já havia se exaurido - não só pela turnê anterior, em que chegaram a excursionar com o Sepultura, mas também porque Sérgio Britto e Branco Mello lançaram um projeto paralelo chamado Kleiderman, marcado por canções rápidas e agressivas.
Domingo de fato é um retorno às origens; seus refrões e riffs grudentos estão mais próximos de Titãs (1984) e Televisão (1985) do que dos álbuns mais pesados da banda, como Cabeça Dinossauro (1986). Outro ponto de referência foi Õ Blésq Blom (1989), até então o disco mais eclético da banda (e, na minha opinião, o melhor); em Domingo foi incluída uma letra de Mauro e Quitéria, adaptada por Sérgio Britto em "Rock Americano". Britto, aliás, foi o principal compositor deste álbum: ele assina 12 das 14 faixas (sendo que duas são adaptações: "Um Copo de Pinga" e "Rock Americano"); as únicas exceções são o cover "Eu Não Aguento" (da banda Tiroteio) e "O Caroço da Cabeça", composta por Nando Reis, Marcelo Fromer e o paralama Herbert Vianna.

Vamos a uma análise faixa-a-faixa:
1. Eu Não Aguento: o início da canção, assim como seu clipe, fazem uma homenagem aos Secos e Molhados. Em seguida o arranjo fica mais pesado, mas com um refrão pegajoso. Colocar essa faixa para abrir Domingo foi uma boa idéia, pois é uma transição do peso de Titanomaquia para o pop rock que predomina neste CD de 95. A participação de Sérgio Boneka no final é um momento divertido.
2. Domingo: a faixa-título é a mais viciante deste álbum. A letra é uma irreverente crítica do tédio que predomina neste dia da semana, com direito a alusões ao Programa Silvio Santos e ao comércio fechado. O riff é inesquecível, um dos melhores da história da banda. Destaque também para os vocais de Paulo Miklos. 
"É dia de descanso / Nem precisava tanto (...) Domingo eu quero ver o domingo acabar"
3. Tudo O Que Você Quiser: canção pop com letra romântica, mas acelerada o bastante para não destoar do resto do álbum. Recebeu alguns remixes no relançamento de Domingo em 1996, mas nenhum tão bom quanto a original, que aliás nem é uma das melhores do disco.
4. Rock Americano: parece uma continuação de "Miséria", canção de Õ Blésq Blom que tinha trechos de canções de Mauro e Quitéria. A letra é nonsense, mas gosto do ritmo: repare na linha de baixo, nas viradas da bateria e nos solos de guitarra.
5. Tudo Em Dia: única parceria com o ex-titã Arnaldo Antunes, contém uma sutil crítica social ao padrão de vida da classe média brasileira de meados da década de 90, cheia de contas para pagar, burocracias para resolver e anseios por prazeres mundanos. 
"Vou jantar na melhor churrascaria / Vou pedalar domingo na ciclovia (...) Vou ter CIC, eleitor, reservista, RG / Automóvel, TV / Crediário, poupança, carnê / Tudo em dia"
6. Vámonos: uma das canções mais divertidas e irreverentes já escritas pelos Titãs. A letra em espanhol é repleta de palavrões e deboches. Se há algum alvo, possivelmente é o olhar dos gringos em relação às bandas latino-americanas. O riff é ensolarado, e a "bridge" é deliciosa. 
"No les gusta mi color / No les gusta como hablo (...) Si nos tratan como putas / Si nos tratan como perros / Vamos, vamos, vámonos"
7. Eu Não Vou Dizer Nada (Além Do Que Estou Dizendo): eis uma das grandes letras de Domingo. Há vasta metalinguagem, com referência a canções antigas da banda; nesse sentido, "Eu Não Vou Dizer Nada" é uma herdeira de "Nem Sempre Se Pode Ser Deus" e uma precursora de "A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana". Destaque para a participação do paralama João Barone como segunda bateria. 
"Eu não vou falar de flores / E nem da televisão / Eu não vou falar de nada / E isso é só o que basta / Pra fazer esta canção"
8. O Caroço da Cabeça: a única faixa cantada por Nando Reis tem um tom meio reflexivo, meio otimista que é típico de suas composições. Mais uma participação especial: o solo é de Herbert Vianna! 
"E os ossos serão nossas sementes sob o chão / E dos ossos as novas sementes que virão"
9. Ridi Pagliaccio: assim como "Vámonos", temos aqui outra música em língua estrangeira e com letras e arranjos descontraídos; a propósito, gostei do sax de Paulo Miklos. Branco canta em italiano versos hilários como: 
"Ridi - non c'é diferenza /  Ridi - a me non me importa / Ridi - co munque é lo stesso (...) É meglio che sia cosi / Ridi di piu, ridi di piu / Figurati!"
10. Qualquer Negócio: outra letra inteligentíssima. Um retrato ácido do tom apelativo das propagandas comerciais que circulavam na TV brasileira em meio à euforia econômica pós-Plano Real; ridiculariza-se até a febre dos importados ("Os Cavaleiros do Zodíaco estão aqui"). Um trecho macabro de "Qualquer Negócio" é quando se "noticia" a morte, prisão, desaparecimento ou seqüestro de cada um dos titãs (inclusive Arnaldo Antunes!); pode ser uma alusão direta ao episódio da prisão de Toni e Arnaldo em 85, mas também um comentário geral sobre a cobertura sensacionalista da imprensa sobre as celebridades.
"Dinheiro é bom, dinheiro é bom até assim / Ainda é muito bom mesmo quando é ruim / Se você não provou, um dia ainda vai provar / É fácil dizer, difícil é acreditar / E quem é que quer ver as coisas como realmente são?"
11. Brasileiro: outra ponte sonora com Titanomaquia (inclusive conta com as participações de Andreas Kisser e Igor Cavalera, integrantes do Sepultura) mas com versos lacônicos que descrevem a "brasilidade". 
"Fale português / Troque de canal (...) Pule o carnaval (...) Jogue futebol / Queime sua pele / Debaixo do sol"
12. Um Copo de Pinga: vinheta que deve ter sido colocada pelas sessões descontraídas em que surgiu. De toda forma, temos aqui a saga de um cachaceiro.
"No sábado eu amanheço bebendo / No domingo minha mãe disse meu filho pára de beber / Essa sina eu vou cumprir até morrer"
13. Turnê: canção autobiográfica, alude às cansativas excursões a que a banda era submetida - principalmente entre 1987 e 90, sob a batuta do empresário Manoel Poladian; aliás, ele voltou a agenciar os Titãs na turnê de Domingo, e faria a banda chegar a fazer mais de 100 shows por ano na época do Acústico (1997). 
"Um dia cospem na minha cara / Um dia beijam a minha mão / Meia hora pra dormir / Isso é tudo o que me dão"
14. Uns Iguais Aos Outros: eis uma letra politizada, relembrando os tempos de Cabeça Dinossauro e Jesus Não Tem Dentes No País Dos Banguelas (1987). A parceria de Miklos e Britto nos vocais remete a "Miséria" e "Deus e o Diabo", duas ótimas canções de Õ Blésq Blom. Um dos pontos fortes desta faixa é a bateria de Charles Gavin. O apelo humanitário de seus versos, em um mundo eternamente marcado pela guerra e pela intolerância, nunca perde a atualidade. 
"Todos os homens são iguais / Brancos, pretos e orientais / São todos iguais no fundo, no fundo / As mulheres são os pretos do mundo (...) Gays, lésbicas, homossexuais / Todos os homens são iguais"

Devido ao sucesso de Domingo, que em poucos meses superou as vendas de Titanomaquia, o álbum foi relançado em 1996, com 4 faixas-bônus: os já mencionados remixes de "Tudo O Que Você Quiser", além de "Pela Paz" (canção escrita em 1985, mas só lançada uma década depois; a propósito, recentemente ela foi relançada como 1º single de Nheengatu Ao Vivo) e do remix eletro-acústico (!) de "Eu Não Vou Dizer Nada" (produzido por Liminha, retomando a parceria vitoriosa dos anos 80 e preparando o terreno para o Acústico, que também seria produzido pelo ex-baixista dos Mutantes).

Com tudo que descrevi acima, fica difícil acreditar, mas Domingo é um dos álbuns menos badalados dos Titãs. Embora não seja uma obra-prima como a trilogia Cabeça - Jesus - Õ Blésq Blom, a meu ver ele está bem acima de discos como A Melhor Banda de Todos os Tempos da Última Semana (2001), Como Estão Vocês (2003) e Sacos Plásticos (2009), e no mesmo patamar do recente Nheengatu (2014) - eis a minha resenha dele - e de Televisão, Tudo Ao Mesmo Tempo Agora e Titanomaquia. Ao contrário destes três últimos, que após uma má recepção inicial (Televisão, devido à produção irregular de Lulu Santos e sua falta de direcionamento estético; os outros dois, pelas letras escatológicas e sonoridade pesada) cresceram na opinião dos fãs ao longo dos anos - veja, por exemplo, essa boa análise de Cleber Facchi no Miojo Indie -, Domingo continua sendo visto como um patinho feio da discografia titânica, um "álbum de ocasião". 
Tal opinião negativa é compartilhada até por um titã: na época do lançamento deste disco, Sérgio Britto chegou a desmerecê-lo em uma entrevista, dizendo que a falta de comprometimento de alguns integrantes (em particular Nando Reis, que estava divulgando seu disco solo 12 de Janeiro) prejudicou o resultado final; como afirmei acima, Britto foi o principal compositor de Domingo, o que, segundo o livro A Vida Até Parece Uma Festa (Hérica Marmo e Luiz André Alzer), o levou a lutar pelo fim da assinatura coletiva das canções (isto é, simplesmente como "Titãs") que havia prevalecido nos dois álbuns anteriores. 
Jack Endino é um dos poucos que saiu em defesa do disco: "É o álbum dos Titãs que mais gosto e ainda guardo ótimas memórias de todo o processo de trabalho."
Minha opinião, contudo, é que, em seu ecletismo e sensibilidade pop rock, Domingo é sim um ótimo álbum. Há boas letras (principalmente "Qualquer Negócio", "Eu Não Vou Dizer Nada" e "Tudo em Dia"), melodias cativantes (em particular as de "Eu Não Aguento", "Domingo" e "Vámonos") e ligações interessantes com trabalhos anteriores da banda (p.ex., "Rock Americano"). 20 anos depois, é um disco que merece ser redescoberto.

 

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